Into The Grey
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Boa leitura
A madrugada estava em sua hora mais escura. Ninguém mais andava pela rua estreita a não ser por dois jovens adolescentes. Eles riam alto e empurravam um ao outro em brincadeira.
Um dos jovens empurrou o outro com mais força, afastando-se dele e se dirigindo para sua casa.
— Tchau, João! – Ele gritou enquanto o amigo se afastava.
João levantou uma mão no ar como forma de despedida, mas não disse nada.
Santiago entrou em casa no mais absoluto silêncio. Seus pais não gostavam de suas escapadas noturnas e seus irmãos mais novos deveriam estar dormindo, ele não queria acordar nenhum deles.
A cadela da família veio recebe-lo, uma Westie cheia de personalidade chamada Flor. Ela não latiu para ele, mas o som de suas patas contra o assoalho de madeira foi o suficiente para chamar seu pai. Santiago desconfiava de que ele o estava esperando.
— Santiago. – Seu nome saiu em forma de reprimenda. – Fora de novo.
O rapaz quase revirou os olhos, mas pensou que aquela atitude apenas pioraria sua situação. Preferiu ficar calado e escutar o sermão. Não foi tão longo como da última vez e acabou com seu pai o puxando pela camisa e inspirando profundamente.
— Andou bebendo de novo?
Santiago puxou a própria camisa para o nariz, tentando detectar o odor de álcool.
— Só um pouco. – Respondeu por fim. – Só para fazer companhia pro João.
Seu pai deu uma risada sem humor.
— João. Esse João novamente. Desde que você começou a andar com ele tem tomado atitudes muito irresponsáveis. Sai quase toda noite, anda bebendo. Você tem se drogado?
João lhe ofereceu uma vez. Mas ele não aceitou.
— Não.
Seu pai suspirou.
— Santiago, você tem que pensar no seu futuro. Vá para as aulas do cursinho, estude. O vestibular está batendo a sua porta. Como você espera ser alguém...
Dessa vez Santiago revirou os olhos. Não suportava ouvir falar sobre vestibular, faculdades, estudos. Estava saturado. Se ouvisse aquilo uma vez mais iria explodir. O último fracasso ainda estava fresco em sua memória.
— Foi só uma festa, pai. – Ele disse irritado.
O pai não disse mais nada, parecendo de repente muito cansado. Colocou uma mão sobre o ombro do rapaz e deu um leve aperto. Sorriu de lado e quase conseguiu com que o mau humor do filho se desfizesse. Quase.
Santiago foi para seu quarto, Flor em seus calcanhares. O corredor estava escuro, a lâmpada havia queimado dois dias atrás e ninguém tinha tomado uma atitude. Jogou-se sobre a cama e dormiu como uma pedra.
Quando acordou no dia seguinte já era quase a hora do almoço. Seus pais estavam fora, trabalhando, e a empregada estava ocupada fazendo a comida.
Caminhou para sala, onde um desenho infantil passava na televisão. Seu irmão Mateus tentava construindo um forte com seus blocos lego, enquanto Ana, a mais nova, quase um bebê, assistia ao desenho, uma tigela de frutas cortadas em seu colo enquanto ela comia distraidamente.
Santiago sentou ao lado dela, passando um braço pela menina, dando um abraço folgado e roubando um pedaço de maçã. Ana deu um sorriso de poucos dentes para ele. Não havia ninguém no mundo que Santiago amasse mais que seus irmãos mais novos.
Ele deveria ter ido para o cursinho naquele dia, mas ainda estava sentindo os efeitos colaterais da festa, por isso decidiu passar o dia com os meninos. A empregada não cuidava deles tão bem quanto ele.
Sua mãe ficou furiosa quando chegou em casa e descobriu que ele passou mais um dia sem fazer absolutamente nada, dando um verdadeiro chilique e por fim o colocando de castigo. Santiago riu. Ele já era maior de idade. Não era uma criança para sua mãe ficar colocando-o de castigo.
De qualquer maneira, ela fez questão de acompanha-lo até seu quarto, fazendo algumas ameaças sérias caso ele saísse de casa naquela noite. Infelizmente, para ela ou para ele, a festa de ontem tinha uma segunda parte e seria hoje.
Assim que ouviu o assobio de João vindo da rua, tratou de levantar da cama, já estava vestido e apenas esperava pelo amigo. Saiu de casa sem fazer barulho e encontrou com João que esperava por ele com um sorriso no rosto e uma mão levantada para o high-five.
A festa foi ainda melhor. Eles beberam, dançaram, flertaram com garotas. Foi uma noite quase perfeita. Até o momento em que João beijou uma garota que tinha namorado. A menina fez um escândalo, João levou um soco e antes que eles percebessem estavam envolvidos em uma briga. Os dois rapazes acabaram sendo expulsos com alguns hematomas, cortes e sua dignidade ferida.
— Que idiotas! – João reclamava, mas também parecia uma piada. – Porque não expulsaram eles?
Santiago massageava seu queixo dolorido, enquanto ria dos palavrões pronunciados pelo amigo.
Os dois gargalhavam juntos quando perceberam o homem parado em frente a eles. Não havia mais ninguém na rua e em vez de sentir-se acuado, João de repente ficou muito corajoso. Parou em frente ao homem, abrindo os braços e com um sorriso no rosto, e disse:
— O que foi, companheiro? Procurando problema?
João riu e Santiago acompanhou o amigo. Mais tarde, Santiago chegaria conclusão de que algo que João disse foi muito errado. O homem se transformou em frente aos seus olhos; em um segundo ele era um homem de meia idade, bem vestido e com um olhar triste, e no seguinte ele se transformou em uma estátua.
Pelo menos parecia uma estátua. Todo seu corpo era cinza, a roupa, a pele, os olhos. Cinza como cimento.
Mas não era uma estátua. O homem saiu do ar como em um filme e Santiago sentiu um frio percorrer sua espinha. Durante três longos segundos, nada aconteceu. O coração de Santiago batia forte, suas pernas tremiam.
Sem aviso prévio o homem cinza moveu-se rapidamente até João, uma mão cinza segurou o pescoço do amigo. João debatia-se, seus olhos demonstravam o terror que sentia. O homem cinza tombou a cabeça como uma criança confusa, sem expressão alguma no rosto. Santiago queria correr, seu corpo inteiro gritava para que ele corresse, mas estava preso ao chão. Não conseguia se mover, não conseguia pronunciar nem um som sequer.
O homem abriu a boca e João gritou, mas parecia um som distante. Santiago observou com terror enquanto o homem cinza sugava uma nuvem prateada que saía de João. O rapaz ficava cada mais pálido, os olhos giravam nas órbitas e o grito se tornava cada vez mais fraco.
Antes que João se calasse para sempre, o corpo de Santiago tomou uma atitude. Sem pensar direito, Santiago começou a correr.
Ele era um exímio praticante de parkour e usou toda a sua habilidade física para correr o mais rápido que conseguia, sem parar, sem hesitar. Pulou por cima de muros e telhados, tentando colocar o máximo de distância entre ele e aquele ser estranho. As palavras de sua mãe ecoavam em sua mente. Desejou não ter saído aquela noite. Quis voltar no tempo e impedir João de fazer metade das besteiras que fizera.
Sentia lágrimas nos olhos ao pensar no amigo. Seu melhor amigo.
Escorou-se contra um muro, recuperando o fôlego. Tomou coragem e olhou para o caminho que deixara para trás. Sentiu o frio do medo percorrer suas costas quando viu a figura aterrorizante do homem cinza. Ele flutuava há meio metro do chão e parecia farejá-lo no ar. Os olhos cinza e sem vida do homem foram em sua direção e Santiago escondeu-se rapidamente. Sua respiração estava descompassada e ele tentava se controlar ao máximo para não gritar.
Engoliu o medo, pegou impulso e voltou a correr. Correu com tudo o que tinha de si. Já havia praticado parkour naquelas ruas, conhecia cada canto, cada muro. Quase sentiu que tinha uma vantagem. Mas o homem cinza voava e ele havia atacado João tão rapidamente que nem conseguia imaginar como ainda não havia o pego.
Estava chegando perto de uma praça, rezava para que pudesse despistá-lo ali. Passou em zig-zag pelas árvores frondosas, avistou um estacionamento rotatório fechado e correu para lá. Pulou o muro e escorou-se atrás da guarita. Não havia ninguém ali, nem um carro. Tentou normalizar a respiração. Suava frio, o coração batia forte. Sentia-se a ponto de chorar de pavor.
O homem cinza flutuava, não fazia nenhum som aparente, mas mesmo assim Santiago o ouviu chegar. Não queria olhar para ele. Fechou os olhos, pensando no pai, na mãe, em Mateus e em Ana. Iria morrer agora. Não tinha dúvidas disso.
Novamente desejou ter ficado em casa.
Nada aconteceu e Santiago abriu os olhos. O homem cinza estava a poucos centímetros dele. Santiago não sentia sua respiração, não ouvia nada. Seus olhos eram completamente cinza, como os de uma estátua, mas agora ele quase podia ver um brilho neles. O homem cinza parecia sem vida até aquele momento.
homem cinza aproximou-se dele, falando algo em seu ouvido. Fora tão perto, mas Santiago não conseguiu distinguir o que o sussurro do homem queria dizer. Ele se afastou devagar, como se não quisesse assustá-lo ainda mais. Levantou uma mão cinzenta e tocou sua testa levemente com o dedo indicador.
O dedo do homem cinza era frio e incrivelmente macio, Santiago esperava a rudeza do cimento.
Santiago piscou e o mundo inteiro ficou em tons de cinza, exceto pelo homem, que parecia uma pessoa comum. Santiago fechou os olhos e o mundo foi engolido pela escuridão.
—***-***-***-
Santiago cambaleava pelas ruas como um bêbado perdido.
Não conseguia acreditar que estava vivo.
Não conseguia acreditar que estava vendo o que estava vendo.
Enquanto dava passos incertos sem rumo, olhava para as pessoas andando ao seu redor. Não eram muitas, ainda era cedo demais, mas elas eram incríveis.
Tudo era normal e então não era mais. As pessoas adquiriam tons de cinza, cada pessoa era um cinza diferente.
Santiago olhava para elas como se tentasse desvendar algum tipo de mistério. Um senhor caminhava em sua direção na calçada. Era de um cinza claro, então seus olhos se encontraram com o jovem cambaleante e sujo e seu cinza adquiriu um tom mais escuro. O velho passou por Santiago com a testa franzida. Santiago virou-se para observá-lo partir e, quanto mais se afastava, seu cinza voltava ao tom mais claro.
Uma mulher andava do outro lado da rua, de um cinza mais escuro. Um homem e um adolescente vinham atrás dela, o adolescente um cinza intermediário, o homem que brincava entre tons escuros de cinza.
Santiago esfregou os olhos, esperando que aquela visão desaparecesse. Perguntou-se se alguém o havia drogado ontem na festa.
Lembrou da festa, da briga, do amigo morrendo. Agora ele sabia que João estava morto, a substância prateada que o homem cinza havia sugado era sua força vital. O homem cinza.
Santiago levou uma mão a testa, lembrando do toque estranhamente macio daquele homem que parecia ser feito de cimento. O homem sussurrou algo em seu ouvido, antes ele não conseguiu distinguir o que era, agora podia escutar com clareza. Ribombando em sua mente como uma escavadora, dando dor de cabeça, uma única palavra, um nome.
— Júlio.
Santiago não sabia se esse era o nome do homem cinza ou se ele havia sido confundido com esse Júlio.
Imaginava que ver pessoas em cinza era um efeito de seu encontro da noite passada. Duas coisas impossíveis.
Santiago parou, olhou ao redor e percebeu estar em frente a sua casa. Talvez não estava andando tão sem rumo quanto imaginou estar.
Abriu o portão de ferro com dificuldade, estava mais cansado do que já estivera em toda a sua vida. A porta da casa se abriu assim que ele fechou o portão, Flor veio correndo em sua direção, pulando em suas pernas; ela era branca, e não apenas por causa da cor do seu pelo. Na porta da casa, sua mãe começou a lhe dar um sermão.
Ela estava em um tom de cinza perigosamente escuro, falando coisas que Santiago ouvia, mas não conseguia tirar qualquer sentido, como se ela estivesse falando outra língua.
Passou por ela e entrou em casa, o pai estava sentado no sofá, com uma cara de poucos amigos, em um cinza mais claro que a mãe, mas ainda escuro. Ele levantou e segurou Santiago pelos ombros, quando percebeu que o rapaz pretendia continuar seu caminho em direção ao quarto.
A mãe continuava a falar e logo o pai a acompanhou. Era uma cacofonia que Santiago não conseguia entender, até que conseguiu compreender o que o pai dizia:
—... Esse garoto, João...
Santiago lembrou do amigo mais uma vez e não conseguiu mais reprimir. Um soluço escapou de seus lábios, chacoalhando seus ombros, e ele começou a chorar como uma criança.
— O que aconteceu? – A mãe perguntou, colocando uma mão sobre seus cachos.
Seu cinza clareou vários tons, assim como o do pai. Santiago não conseguiu responder, apenas chorou mais. A mãe, ainda com a mão em sua cabeça, puxou-o até que ele se encostasse em seu ombro, abraçando-o apertado. O pai colocou uma mão em suas costas, dizendo palavras de conforto.
—***-***-***-
Santiago contou aos pais sobre João. Não que sua vida havia sido sugada por um homem estátua voador. Mas que ele estava morto. Havia morrido na noite anterior, quando os dois saíam de uma boate. Não quis entrar em detalhes, seria difícil explicar, preferiu deixar os pais acreditarem no que eles queriam acreditar.
Eles conversaram sobre a rebeldia de Santiago e o fato de eles ficar até tarde da noite na rua, bebendo e fazendo sabe Deus o que. O pai o alertou sobre os perigos daquela vida, a mãe o fez prometer que iria se comprometer mais aos estudos.
Santiago ainda tinha os olhos molhados e concordou com a cabeça para tudo o que os pais diziam e pediam.
Ele queria mudar, queria voltar a estudar e esquecer aquela noite, mas cada vez que olhava para os pais e via o cinza, sentia o terror agarrando-o por dentro ao imaginar que seria assim pelo resto de sua vida.
—***-***-***-
Ele dormiu e quando acordou as pessoas ainda estavam em tons de cinza. E no dia seguinte e no outro dia.
Santiago começou a perceber coisas.
Os tons de cinza entre as pessoas nunca era o mesmo e, mesmo em uma pessoa só, estava sempre mudando. Mas, ainda assim, havia certa estabilidade. O pai sempre era um cinza mais claro, a mãe, sempre um cinza mais escuro. As crianças sempre eram mais claras. Mateus, com seus cinco anos de idade, mudava de tons de cinza abruptamente, mas nunca ficava escuro demais. Ana, com dois, era quase sempre um cinza claro, quase beirando o branco.
Santiago percebeu que nenhum adulto era tão claro quanto as crianças e, nenhum ser humano era tão branco quanto um cachorro.
E havia algo dentro dele, Santiago achava que era seu próprio cinza, que se sentia mais confortável com tons mais claros, repudiava os mais escuros e sentia-se atraído pelo cinza perfeito, nem muito claro, nem muito escuro. O cinza perfeito era o mais raro e nunca durava muito.
Nunca durava o suficiente, algo dentro dele lhe dizia, mas Santiago não sabia para o que não era suficiente.
E mesmo percebendo certas coisas, Santiago ainda não conseguia entender sua nova condição.
Até o dia que ele viu seu primeiro preto.
Ele estava no parquinho que ficava próximo de sua casa. Seu irmão brincava com outras crianças na casinha, enquanto sua irmã mais nova era empurrada no balanço pela babá.
Seus olhos foram atraídos para ele, o homem sentado no banco do outro lado do parque. Ele olhava para as crianças, acompanhando cada movimento com uma expressão nojenta. Seu cinza era escuro e enquanto olhava para as crianças, escureceu ainda mais, até tornar-se preto.
Algo embaixo da pele de Santiago ganhou vida, seu corpo vibrava e o mundo inteiro – não apenas as pessoas – piscava entre cinzas e cores. Fechou os olhos e as mãos em punhos, tentando controlar a respiração. Seu cinza o instigava a levantar, a ir até o homem e...
Ele não sabia o que faria.
Mas era quase incontrolável.
Tentou olhar para as crianças ao redor, brincando em tons claros de cinza, mas agora todas elas estavam no mesmo tom, apenas o homem se destacava e seus olhos voltavam para ele.
Os olhos do homem encontraram-se com os seus e Santiago deveria estar com um expressão muito séria, pois o homem engoliu em seco e levantou-se como se tivesse levado um tapa, caminhando, quase correndo para longe.
Santiago imaginou que aquela sensação ruim passaria e o mundo voltaria ao normal, mas ele estava de pé em um segundo, seguindo o homem.
Ele queria ter parado, queria ter voltado para seu lugar e observado os irmãos brincarem, mas seu corpo não o obedecia. Seu corpo pertencia ao seu cinza e seu cinza seguia aquele homem como um predador persegue uma presa. O homem do parque percebeu que estava sendo seguido e começou a correr, Santiago correu atrás dele, esbarrando em pessoas que ele não enxergava realmente.
O homem do parque deu uma curva abrupta em uma rua vazia e quando Santiago o alcançou, ele estava parado, esperando por ele. O homem era mais velho e Santiago apenas um rapaz, talvez ele esperasse intimidá-lo.
— O que você tá fazendo, rapaz?
Santiago não respondeu nada, não poderia. Seu corpo vibrava ainda mais, tremendo, seu cinza gritava, impelindo-o contra o homem. O mundo explodiu em cinza, não o tipo que mudava constantemente, um cinza opaco e constante e, no centro de tudo, o homem em preto.
Santiago sentiu seus pés saírem do chão e, nesse instante, ele soube que havia se tornado o homem cinza que havia matado seu melhor amigo. E sabia que faria o mesmo agora com aquele homem.
O homem do parque não teve tempo de gritar, seu rosto contorceu-se em horror e no segundo seguinte Santiago tinha a mão ao redor de seu pescoço, levantando-o no ar. Seu cinza zunia em seus ouvidos e ele conseguia senti-lo, dentro de si, puxando, sugando, o que havia dentro do homem em preto. Ele viu a mesma nuvem que saiu de João, sair do homem em preto.
Enquanto sugava a vida daquele homem, Santiago sentia medo, mas a coisa dentro dele vibrava de contentamento. Santiago conseguia sentir o pavor do homem, o arrependimento, o desejo que era completamente errado, mas tão incontrolável.
Seu cinza sugou-o até não sobrar mais nada e Santiago deixou-o cair no chão como uma casca vazia.
—***-***-***-
As pessoas iam de um tom de cinza para outro há todo momento, com qualquer pensamento. Santiago sabia disso. Muito raramente alguém ia para o branco ou para o preto, como já havia visto. Mas nunca, até aquele momento, ele havia visto um tom de cinza tão estável.
Ela era uma garota de seu cursinho. Eles não eram amigos, nunca haviam trocado uma palavra, mas Santiago já havia reparado nela. Com suas saias compridas coloridas e o cabelo castanho caindo em ondas por sua costa, ela havia conquistado seu coração nas primeiras semanas desse inferno. Seu crush, assim poderia dizer. Até ter perdido o interesse por ela. Não sabia exatamente porque.
Agora o interesse voltara, mais forte que nunca.
Durante uma manhã inteira ele a observou e seu cinza permaneceu o mesmo. Nem escuro demais, nem claro demais, um cinza perfeito.
Santiago sentia seu cinza querendo escapar de dentro de si, sendo atraído por ela. Ele sabia que não havia se transformado apenas porque estava ao redor de muitas pessoas, mas se estivessem sozinhos, não poderia se controlar. Como não pode se controlar antes.
A criatura cinza dentro dele controlou seus passos e o guiou atrás dela. Ouviu um colega se despedindo dela.
— Tchau, Camille.
Repetiu o nome baixinho, testando as sílabas em sua língua.
Ele a seguiu durante um bom percurso. As ruas estavam vazias por conta do horário e Camille logo percebeu que estava sendo seguida. Ela deve ter o reconhecido do cursinho, pois não pareceu assustada. Sorriu em sua direção e perguntou:
— Você mora por aqui?
Santiago ficou em silêncio, parado na calçada vazia. Não sabia o que responder, não sabia o que estava fazendo ali. Camille sorriu novamente, colocando uma mexa do cabelo atrás da orelha. Santiago viu o mundo virar cinza e as palavras da garota morreram em sua boca, seu olhar cheio de terror.
Camille correu no segundo seguinte, seu cinza ainda estável, mas ela não era rápida o suficiente. Santiago voou até ficar de frente à ela. Camille soltou um grito e jogou-se de costas contra o muro, escondendo o rosto entre as mãos.
Nas outras vezes em que se transformou, Santiago havia sentido o que a criatura cinza sentia. Um nojo tremendo. Ela queria que aquelas pessoas sofressem, que sentissem medo. Mas com Camille era diferente. Santiago sentia o cuidado, não queria que ela tivesse medo.
Se aproximou devagar, como o homem cinza havia feito com ele semanas antes. Camille por fim tirou as mãos do rosto e olhou em seus olhos. Ela chorava. Santiago levantou uma mão no ar, não estando certo sobre o que exatamente iria acontecer. Sentiu uma vontade incontrolável de dizer algo, então inclinou-se em direção à garota e falou em seu ouvido:
— Santiago.
E apertou o dedo indicador contra a testa de Camille.
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