Intimidade

1 Capítulo único


— Oe, Kurapika.

— O que é, Leorio?

— Está dormindo?

— ...

— Kurapika?

— Sim, Leorio. Mas eu aprendi a usar meu nen para me concentrar em conversas enquanto durmo.

— Jura?

— É claro que não, seu estúpido. Você me acordou.

— Ah, foi mal.

— Então?

— Então o quê?

— O que queria me dizer?

— Bom, na verdade, nada. Só perguntei por perguntar mesmo.

— Está brincando...

— Desculpa, é que eu estou sem sono.

— Está sem sono e decidiu me acordar? Ótimo. Que belo colega de quarto você é, Leorio.

— Eu prefiro dizer “colega de travesseiro”.

— Não comece! Sabe muito bem que só estamos dividindo esta cama porque este era o único quarto restante no hotel.

— Mentira. Havia outro. Só que ele tinha uma única cama de solteiro, e nós não conseguimos decidir quem dormiria na poltrona.

— Decidimos, sim! Você que foi um mau perdedor!

— Não fui mau perdedor coisa nenhuma! Você trapaceou com aquela moeda, Kurapika. Eu vi.

— Você que não tem sorte no cara ou coroa.

— ...

— ...

— Você trapaceou, sim.

— Boa noite, Leorio!

— ...

— ...

— Oe, Kurapika?

— O que é agora?

— Pode me emprestar o cobertor?

— De jeito nenhum! Não vou dividir um cobertor com você.

— Mas só tem um cobertor no quarto! E você tá todo enrolado nele. O que quer que eu faça?

— Tem uma capa de crochê cobrindo a poltrona.

— Não vou usar a capa da poltrona como cobertor.

— Então, sinta frio.

— Deixa disso, Kurapika. Dividir o cobertor comigo por uma noite não vai ofender a sua masculinidade.

— Não seja ridículo, Leorio. Estou perfeitamente seguro de minha masculinidade. Eu só não gosto de você mesmo.

— Que grosseria! É assim que trata seu melhor amigo?

— Meu melhor amigo morreu, Leorio. Boa noite.

— Seu insolente...

— ...

— ...

— Ah! Ei, por que acendeu o abajur?

— Porque eu vou ao banheiro.

— E precisa acender o abajur para ir ao banheiro que fica logo ali?

— Claro. Não quero tropeçar em nada.

— Leorio, não tem nada neste quarto em que você possa tropeçar. Todos os móveis e as malas estão encostados nas paredes. Hum, pensando bem, do jeito que você é estabanado, conseguiria tropeçar até mesmo em um piso perfeitamente plano.

— Obrigado pela parte que me toca.

— Não tem de quê.

— ...

— Leorio!

— O que é?

— Ao menos feche a porta!

— Ora, por quê? Só tem nós dois aqui.

— Mas eu não sou obrigado a ver... você urinando.

— Então, vira de costas. Não tenho culpa se a cama fica de frente para o banheiro.

— Eu não vou virar de costas! Feche você a porta!

— Você está de olhos fechados, Kurapika?

— Estou, sim. Você... Você está rindo?

— Isso é muito engraçado! Olha só a sua cara! Você tá tão corado, Kurapika. Opa, foi no chão.

— Leorio!

— Já estou limpando! Droga, foi na tampa também.

— Não precisa narrar tudo em voz alta.

— Desculpe. Eu dei descarga. Não te escutei.

— Eu disse que... Esqueça.

— Pode abrir os olhos agora, meu caro cheio de pudores.

— Eu não sou cheio de pudores. Eu sou normal. Você que é um...

— Um o quê?

— Pervertido.

— Noooooossa! Estou tão ofendido!

— Você já se vestiu?

— Não, imagina. Eu gosto de andar pelado por aí com outros homens me olhando.

— Você pareceu gostar quando eu estava olhando você...

— ...

— ...

— Kurapika?

— Nada! Esqueça! Vou dormir!

— Ah, agora você vira de costas para mim, não é?

— Boa noite, Leorio.

— Certo, certo.

— ...

— ...

— ...

— Você vai dormir virado para mim, é?

— Acho que sim. Não quero acordar durante a noite com você dando descarga e ver...

— Ver o quê?

— Você sabe...

— Ha! Eu disse que você era cheio de pudores.

— Não vou discutir com você sobre isso, está bem?

— Oe, Kurapika?

— O que foi agora?

— Me empresta o cobertor. Estou com frio.

— Toma. Fique com metade. Mas não o puxe todo para você durante a noite, ok?

— Até parece. É você quem sempre puxa o cobertor, Kurapika. Fica todo enroladinho nele como se fosse uma criança. Dá vontade de morder!

— O quê?

— O que o quê?

— O que você disse?

— Nada!

— Você falou em morder? Céus, Leorio! Há limites para a sua perversão?

— Dá vontade de te morder agora.

— O quê?!

— Você tá todo vermelho. Está uma gracinha!

— Leorio, você bebeu?

— Um pouco de vodka, mas não vem ao caso.

— Leorio!

— De qualquer forma, obrigado pelo cobertor.

— ...

— ...

— Leorio?

— Sim?

— Pode virar para o outro lado, por favor?

— Por quê?

— Não quero que você durma de frente para mim. É constrangedor.

— Cheio de pudores...

— O que disse?

— Nada. Pronto. Melhor assim? A visão da minha nuca está boa?

— Idiota... Eu só não queria passar a noite recebendo o seu hálito na minha cara.

— E eu não quero passar a noite recebendo o seu hálito na minha nuca.

— Então, feche a maldita porta quando for ao banheiro! Se fizer isso, eu viro de costas, também!

— Já sei. Vamos fazer o seguinte: eu deito virado para o banheiro, e você deita virado para a janela. Assim, ninguém recebe o hálito de ninguém, e você não corre o risco de “me ver urinando”. Pode ser?

— Combinado.

— Certo, passe para cá.

— Ah, ei!

— Que foi?

— Por que simplesmente não contorna a cama?

— É mais rápido por cima.

— Mas por cima de mim?

— Deixa de frescura, anda. Chega para lá, vamos, vamos.

— Leorio, meu pulso!

— Desculpa! Foi sem querer. Ah, pronto. Viu, nem foi tão difícil.

— Meu pulso agradece.

— Você faz muito escândalo por nada, Kurapika.

— E você é um desastrado! Por que não contornou a cama?

— Tive medo de tropeçar e cair.

— Por isso passou por cima de mim? Genial, Leorio. Simplesmente genial.

— Ah, droga. A coberta se enroscou toda com esse troca-troca. Deixe-me arrumá-la.

— Deixe-me arrumá-la? Desde quando fala tão corretamente? Ah, meu tornozelo!

— Opa, o cobertor prendeu no seu pé. Espera um segundo.

— O que você vai fa... Ah hahah! Leorio, pare!

— O que foi?

— Isso... faz... cócegas!

— Mas eu só rocei de leve no seu pé... Espera um pouco aí. Você sente cócegas, Kurapika?

— Claro, seu estúpido! Ahha! Eu disse que sou nor... haha! Pare com isso!

— Cócegas no pé do Kurapika!

— Pa-pare! Hahaha! Pare! Sério. Pare!

— Arre! Meu nariz! Por que você me chutou?

— Eu mandei você parar!

— E precisava chutar por causa disso? Doeu, sabia?

— Eu mandei parar... Perco o controle dos movimentos do meu corpo quando sinto cócegas...

— Jura?

— É...

— Hum...

— Leorio? Ah, Leorio! O que deu em vo... Ahha hahaha!

— Você sente muitas cócegas no pé. E na axila? Sente também?

— Leo... Ah, pare! Pare!

— Como você é sensível, Kurapika? E na barriga? Será que...

— Não! Não se atreva!

— Hum...

— Leo...

— Hum!

— Leorio!

— Ataque de cócegas!

— Pare com isso imediata... Hahahahahahahahaha!

— Isso é tão divertido! Você se contorce a toa!

— Hahaha... Seu... haha... miserável!

— Arreeeee! Você me deu um soco!

— Eu devia era chamar a polícia, seu pervertido!

— Uou, você está mesmo ofegante, hein? Riu tanto assim?

— Já chega! Vou descer agora e pedir para trocar de quarto. Só assim me livro de você.

— Espere, Kurapika!

— O que é?

— Vai sair assim? Com o pijama desabotoado e todo torto?

— Ora, seu...

— Você não se cansa de ficar corado, Kurapika?

— Quando foi que você desabotoou a camisa do meu pijama?

— Hum, acho que foi quando você se contorceu todo e encostou a cabeça em meu peito.

— E-eu não fiz isso!

— Fez, sim. Olha, desculpe, ok? Eu me excedi. Você não merece sair por aí descalço e com o cabelo todo desgrenhado a essa hora da noite. Prometo me comportar a partir de agora.

— Promete mesmo?

— Prometo.

— Certo... Mas se você encostar em mim uma vez sequer durante essa noite...

— Não se preocupe, Kurapika. Não tenho esse tipo de intenção com você. Agora traz essa sua bundinha linda para cá e deita do meu lado.

— Leorio!

— Brincadeira! Brincadeira! É que você fica uma gracinha quando está ruborizado.

— Ruborizado. Se não estivesse com tanta raiva de você agora, Leorio, eu o parabenizaria pelo seu excelente vocabulário.

— Eu também posso dizer “nádegas” se você preferir.

— Eu vou chamar o gerente...

— Brincadeira! Brincadeira! É a última da noite, juro!

— Ah, Leorio... Eu devo estar pagando os meus pecados.

— Não, não. Sou eu que mereço ir para o inferno mesmo. Venha. Você está cansado. Deite aqui.

— Certo...

— ...

— ...

— Kurapika?

— O que foi agora, Leorio? Será que pode me deixar dormir, por favor?

— É que eu... Desculpa.

— Pelo quê?

— Por ser idiota.

— ...

— Kurapika?

— Tudo bem. Você não tem culpa de ter nascido idiota.

— Vou tomar isso como um elogio.

— Eu até que gosto... da sua idiotice. É engraçado às vezes.

— Mesmo?

— Sim. Exceto quando você não fecha a porta do banheiro de propósito.

— Já entendi. Já entendi. Prometo proteger sua pureza da próxima vez.

— Não é isso. Eu só não quero ver, está bem? Não podemos cada um manter a própria intimidade?

— Claro. Claro.

— ...

— ...

— ...

— É só que... Eu estava pensando... Eu... Eu gostaria de compartilhar minha intimidade com você.

— ...!

— Kurapika?

— Seu... grande... pervertido!

— O quê? Por que se encolheu de repente? Por que está tremendo? Ah... Não, não! Kurapika! Você entendeu tudo errado! Não é dessa intimidade que estou falando!

— Explique-se. Agora!

— É só que eu... eu... Às vezes, sinto que somos tão distantes. Nós nos conhecemos há quase três anos, mas ainda não sabemos quase nada um sobre o outro. Eu só queria que pudéssemos conversar mais, nos entender melhor. Queria saber seus segredos, seus medos, seus sonhos.

— Você já sabe tudo o que precisa saber sobre mim, Leorio. Sou o último sobrevivente da tribo Kuruta. Não tenho passado ou futuro. Meu único objetivo é exterminar a Aranha. Não há nada mais além disso.

— Isso é o que você diz. Onde está o seu lado humano? Onde estão seus medos, seus sonhos, suas fraquezas, seus desejos?

— Não entendo onde quer chegar, Leorio.

— Eu só queria não me sentir tão estranho perto de você. Queria que pudéssemos ser amigos de verdade, amigos que compartilham tudo.

— Nós somos amigos de verdade.

— Sim, mas não compartilhamos tudo. Mesmo agora, enquanto eu fazia cócegas nos seus pés, e você morria de rir em meus braços, eu ainda sentia como se existisse um imenso abismo entre nós.

— Está sendo dramático, Leorio.

— Não estou, não. Converse comigo, por favor.

— Me deixa dormir, Leorio, por favor.

— Kurapika!

— ...

— Kurapika!

— Pode, por favor, apagar a luz? Eu quero dormir.

— Vire para mim, Kurapika.

— ...

— Kurapika...

— O quê? O que você quer?

— Foi tão difícil assim?

— É você que está dificultando as coisas, Leorio.

— Apenas converse comigo.

— Não há nada o que conversar!

— Está se distanciando de novo.

— Apague a maldita luz, Leorio.

— ...

— ...

— Então, é assim que vai ser, é?

— ...

— Kurapika?

— Apague... a... maldita... luz.

— Não.

— Então, eu apago.

— Não.

— Solte meu braço, Leorio.

— Vou fazer cócegas em você outra vez.

— Você é mesmo um tremendo pervertido, não é?

— Me escute.

— Me escute você!

— Não. Me escute você! Por que ser tão difícil, Kurapika?

— ...

— Ei... Não precisa ficar assim. Olhe, olhe para mim, está bem? Isso... O que eu sou para você?

— Um... pervertido.

— O que mais?

— Um idiota.

— E?

— Meu... melhor amigo.

— Achei que seu melhor amigo estivesse morto.

— E está. Você é... meu novo melhor amigo. Pode soltar meu braço agora?

— Claro.

— ...

— Sinto muito pelo Pairo.

— Sinto muito por...

— Pietro.

— Esse era o nome dele?

— Era. Antes de ele morrer doente.

— Sinto muito.

— Obrigado.

— ...

— ...

— Leorio.

— Sim?

— Boa noite.

— Boa noite, Kurapika. Vou apagar a luz.

— Obrigado.

— ...

— ...

— Kurapika?

— Você não se cansa disso, Leorio?

— De ouvir sua voz? Não, nunca.

— Você está agindo estranho.

— Eu estou me sentido estranho.

— O hospital fica logo ali na esquina.

— Não é isso.

— E o centro psiquiátrico fica do outro lado da cidade.

— Ei, isso não tem graça.

— Eu sei. Desculpe.

— Kurapika?

— Sim?

— Você já se apaixonou por alguém?

— ...

— Se apaixonou de verdade?

— Sim.

— Por quem?

— Não é da sua conta.

— Hum... Eu amava o Pietro.

— ...

— Ele era como um irmão para mim.

— ...

— Até que um dia conhecemos uma garota e nos apaixonamos por ela. Nossa amizade quase acabou depois disso. Aconteceu apenas dois meses antes de ele ficar doente.

— Sinto muito.

— Eu esqueci a garota completamente e passei a cuidar o Pietro. Acredita que ela nunca apareceu para visitá-lo? Nem mesmo para dar um apoiozinho? Isso porque a gente vivia fazendo as vontades dela. Uma competição boba e moleque. Queríamos ver quem a conquistaria primeiro.

— ...

— Era... divertido...

— Sinto muito, Leorio. Muito mesmo.

— E você? Como foi?

— Não pense que vou compartilhar minhas “intimidades” com você só porque me contou algo importante.

— Não foi essa a intenção. Só queria mostrar que eu não me distancio de você.

— ...

— ...

— ...

— Kurapika?

— Está bem. Você venceu. Havia uma mulher no vilarejo... Ela era bonita a gentil... Foi meu primeiro amor. Obviamente, ela nunca me deu atenção. Eu era apenas uma criança.

— Normal. Ela nem deve ter te levado a sério.

— Talvez ela nunca tenha percebido. O engraçado era que ela tinha uma filha da minha idade que era igualzinha à mãe. Mas eu nunca gostei da filha.

— Normal.

— Às vezes eu me pergunto... o que teria acontecido se o vilarejo nunca tivesse sido destruído... se nós tivéssemos crescido juntos... Será que eu me apaixonaria por ela?

— Talvez...

— Pouco importa agora. Todos estão mortos.

— ...

— ...

— E depois disso?

— Depois disso o quê?

— Houve outro alguém?

— Bom... Na verdade, houve.

— É mesmo? Quem?

— Não posso contar.

— Pode, sim, Kurapika. Eu sei guardar segredo. Posso até te ajudar.

— Ajudar? Não, acho que não. Desculpe, Leorio, mas isso é íntimo demais. Não vou contar a você.

— Ah, por favor.

— Não.

— Kurapika.

— Já disse que não.

— Eu vou ter de te fazer cócegas de novo?

— Eu vou ter de te dar um soco de novo?

— Eu conheço a pessoa?

— O quê? Ah... Conhece.

— É minha amiga?

— De certa forma.

— É mulher?

— ...

— Kurapika?

— Mulher? O-o que está insinuando, Leorio?

— Ah, é que, você sabe, nem todos os homens gostam de mulheres... Alguns gostam de... outros homens.

— Acho que está confundindo as coisas, Leorio.

— Mas é verdade. Existe até um nome para isso. Chamam de homo...

— Não é a isso que me refiro. É a mim. Você está enganado quanto à minha sexualidade.

— Então, é mulher mesmo?

— Sim, Leorio.

— Ah...

— ...

— Quem é?

— ...

— Kurapika...

— Senritsu.

— ...

— É a Senritsu, está bem?

— A... Senritsu?

— Sim, a Senritsu. Eu gosto de uma mulher baixinha, dentuça e careca. Algum problema?

— Não, não. Não sou preconceituoso. Eu só estou surpreso.

— Surpreso por quê?

— Eu realmente achei que... sabe... você fosse...

— O quê?

— Bem...

— Realmente achou que eu fosse o que, Leorio?

— Sobre isso que estávamos falando antes...

— O quê? Homossexual? Não é um palavrão, sabe?

— Bom, não, mas...

— Não, eu não sou. Mas por que o... interesse?

— Não é interesse! Eu já disse que não tenho esse tipo de intenção com você, ora! É só que... você me enganou direitinho...

Eu te enganei direitinho?

— Está rindo?

— Mas é claro. Eu nunca enganei você, Leorio. Você que se enganou. Eu gosto da Senritsu, já disse. Gosto dela desde aquele dia em que capturei o Uvogin.

— O que uma coisa tem a ver com a outra?

— A música que ela tocou naquela noite... Se não fosse por ela, eu teria morrido... Foi nesse momento em que percebi que poderia contar com Senritsu. Foi quando percebi que ela poderia ser uma amiga fiel. Poderia, não. Ela já era uma amiga fiel.

— Por isso a chamou na missão de Yorkshin?

— Eu sabia que ela lidaria bem com o perigo. Não a teria chamado se achasse que ela correria algum risco de vida.

— Kurapika... você a ama?

— ...

— Kurapika?

— O que você entende sobre amor, Leorio?

— Eu amei o Pietro.

— E eu amei o Pairo. Não é desse amor que estou falando. Você sabe de que amor eu estou falando.

— Sim, eu sei.

— Então, não me pergunte sobre amor, está bem? Eu estou... confuso.

— Sei como se sente.

—Sabe mesmo? Já amou alguém desde o seu amigo Pietro? Quero dizer, amou de forma não fraternal ou...

— Eu amo.

— Quem?

— Não é da sua conta.

— Ótimo. Agora você quer guardar segredo.

— Eu achei que você gostasse... de outra pessoa..

— Quem?

— Você vai rir.

— Quem, Leorio?

— ...

— Leorio?

— O tal de Mizuken... Seu mestre.

— Você achou que eu estivesse apaixonado pelo meu mestre? Céus, Leorio! De onde tira essas ideias?

— Você nunca me conta nada. Eu fico especulando.

— Você especula muito mal. Primeiro supõe que eu seja homossexual. Depois especula que eu esteja apaixonado pelo meu mestre. Qual será a próxima? Inventar uma paixonite secreta pelo Killua?

— Não, ele é muito criança. Além disso, ele já gosta do Gon.

— O quê?

— Do Gon.

— A-acha mesmo?

— Por quê? Bateu medinho?

— Não seja ridículo!

— Dá para ver nos olhos dele. Aqueles dois sempre foram tão próximos. Mas o Killua não olha para o Gon apenas como se fosse um amigo. Ele olha de um jeito diferente.

— Estou impressionado, Leorio. Não sabia que prestava atenção nessas coisas.

— Não é preciso muito esforço. Você que anda distante demais para perceber.

— ...

— ...

— Desculpe.

— Não precisa pedir desculpas por isso.

— Não. Você não entendeu. Desculpe, Leorio.

— O quê?

— Você está mesmo enganado sobre mim. Eu posso não ter percebido o que acontecia entre o Gon e o Killua, mas não estou tão alheio assim. Há coisas que eu percebo muito bem.

— Como o quê? Ei, espera. Por que acendeu a luz? Aonde está indo?

— Eu vou para o outro quarto. Sabe que não gosto de dividir a cama com ninguém. Além disso, eu ia acabar roubando o cobertor todo para mim.

— É porque eu não fechei a porta do banheiro?

— O quê? Não, não é isso. Eu só... não quero.

— Kurapika.

— Deixe-me ir, Leorio.

— Mas, se eu deixar você ir, não estará aqui amanhã quando eu acordar.

— Bem, isso é verdade. Eu já pretendia partir bem cedo, de uma forma ou de outra.

— Então, não vai fazer diferença onde você vai dormir. Fique aqui esta noite. Eu prometo fechar a porta do banheiro.

— Leorio...

— Viu? Eu já fiz você rir! Não sou tão idiota assim, no fim das contas.

— É. É, sim.

— Então, você vai ficar?

— Acho que meu cabelo está desgrenhado demais para eu ir à receptação.

— Bom... Acho que é boa noite, então.

— Sim, finalmente. Boa noite.

— Durma bem, Kurapika.

— Você também, Leorio. Vou apagar a luz.

— ...

— ...

— ...

— Leorio?

— Sim?

— Ainda está acordado?

— Achei que fosse você quem quisesse dormir tanto.

— Eu acabei perdendo o sono.

— Culpa minha. Desculpe por isso.

— Eu estava pensando...

— Sim?

— Nada. Não é nada, esqueça.

— Você me acordou para isso?

— Você estava dormindo? Ah, desculpe. Achei que ainda estivesse acordado.

— Na verdade, nos primeiros minutos eu estava usando o nen para conversar enquanto dormia.

— ...

— ...

— Babaca.

— Diga logo o que é.

— Por que você achou que eu fosse... você sabe...

— Essa é mesmo a pergunta que você quer me fazer?

— ...

— É?

— Se aquela garota, a do meu clã, ainda estivesse viva, será que eu teria me apaixonado por ela?

— ...

— Leorio?

— Vou dizer mais uma vez, porque da primeira você não entendeu. É isso mesmo que você queria perguntar?

— Eu só estava me perguntando... desde quando...

— E você acha que eu sei?

— Não... Também fiquei confuso com relação à Senritsu. Eu fui percebendo as coisas com o tempo.

— Bom, para ser sincero, eu sei, sim.

— Desde quando, então?

— Desde aquele dia... no dirigível...

— É mesmo?

— Sim.

— E por que nunca disse?

— Por que você nunca disse nada à Senritsu?

— Está brincando, não está? Ela sabe que eu estou envolvido em uma missão suicida. Sabe que estou disposto a fazer qualquer coisa para exterminar as Aranhas. Ela conhece muito bem os riscos. Sabe que, se eu não perder a vida, perderei a sanidade. Mais do que tudo, ela sabe que não pode me impedir. Como, Leorio, diga-me como eu poderia me envolver com alguém assim? Como algo como o amor poderia existir em meio ao tamanho ódio que eu sinto? Como ele poderia ser possível sem ninguém se ferir ou... até mesmo morrer?

— ...

— Leorio?

— Pronto. Está aí sua resposta. Você acabou de dizer.

— ...

— Tem razão. Não deveríamos dormir no mesmo quarto hoje.

— Leorio.

— Não, não. Fique aí. Eu vou vestir uma camiseta e um jeans, pegar minhas coisas e descer. Não precisa me reembolsar pela minha metade do quarto, está bem?

— Leorio...

— Agora, quem está enganado aqui é você, está bem? Quem está sendo estúpido é você. Fala tanto de mim, mas tem uma verdadeira perversão pela morte. E isso ainda vai te matar, seu idiota.

— Você não tem moral para ficar me passando um sermão!

— Tem razão. Eu já deixei um amigo meu morrer e não fiz nada para salvá-lo. Não tenho moral para te dar bronca agora.

— Não foi isso o que eu quis di...

— E não foi isso o que eu quis dizer. Não é comigo que tem de se preocupar, Kurapika. É com você. Porque eu só fico ferido mesmo... quando você se machuca.

— Leorio...

— Boa noite, Kurapika.

— Espere! Quando... quando eu acordar amanhã de manhã... hoje de manhã... você ainda estará aqui?

— Ora... Eu é que me pergunto. Todos os dias. Quando eu acordar pela manhã, você ainda estará aqui?

Notas finais
Peço desculpas aos meus fãs de LeoPika por esse plot twist. Espero não ter destruído o coração de alguém.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!