Intimidade

28 Stronger


"Volta teu rosto sempre na direção do sol, e então, as sombras ficarão para trás"
Sabedoria Oriental

Joey chegou a escola um pouco mais animado, ver sua amiga, sempre melhorava seu astral. As coisas estavam um pouco mais calmas em relação ao Kurt e seus amigos bullys, principalmente por causa das provas que estavam sendo aplicadas e dos castigos que eles pegavam quase todos os dias.

Ele chegou correndo e como de costume seguiu para o segundo pátio, onde sempre esperava por ela. Mas naquele dia, Mia demorou mais do que o comum para chegar. Ele ficou distraído com um origami que aprendera com Rony. Era bem fácil de fazer e apesar de Ron insistir, Joey ainda não tinha certeza se aquilo era um pavão mesmo.

Estava distraído quando Kurt e mais dois garotos se aproximaram dele. Não o agrediram e ficaram a uma boa distancia, até mesmo por que haviam duas professoras circulando no pátio, mas não perderam tempo em provocar.

— Olá Neutron? — Joey não respondeu e baixou a cabeça imediatamente.

— O gato comeu a língua dele, Kurt.

O menino sorriu.

— Não é isso não. É que ele não fala, quem fala é Camila. Mas vocês sabiam que ela vai parar de defendê-lo? — Joey levantou a cabeça e o olhou.

— Por quê? – perguntou o outro menino.

— Por que ela vai arranjar um namorado.

— Mentira! – ele reagiu na hora.

— É verdade, seu babão idiota, ela vai namorar o Vinny do primeiro ano, por que você é muito babaca e quando ela tiver namorando ela vai esquecer de você.

— A Mia não quer namorar! — Ele continuou irritado.

— Quer sim, toda garota, quer namorar e casar, minha mãe que disse.

— Mas ela vai casar comigo – Joey rebateu.

— Como? Se você é um bobalhão e não faz nada.

— E tem mais – disse Frank, um dos garotos – Se vocês não namorarem nunca serão amigos para sempre.

Os meninos começaram a rir com se aquilo tivesse a maior graça do mundo e se afastaram rindo quando Camila chegou correndo, com seu cabelo ruivo esvoaçando.

- O que aquele bobão queria? — Ela perguntou sentando ao lado dele. Joey ainda estava tentando processar todas as informações que recebera.

— O mesmo de sempre — Ele respondeu meio perdido.

— Idiota – Mia resmungou – Joey, ganhei lápis novos, quer ver?

Então, meio que sem se controlar, ele a olhou.

— Mia!

Quando ela virou ele a beijou, mesmo sem saber o que estava fazendo, mesmo sem sentir qualquer malícia adulta naquele beijo.
Ela não reagiu. Sorriu sem graça, nenhum dos dois entendia muito bem o que estava acontecendo.

Quando ele se afastou, Camila ficou alguns segundos parada, surpresa, confusa. Os garotos ao redor do pátio começaram a sorrir, muito alto, então ela correu, como se tivesse ficado chateada. Joey levou menos de cinco segundos pAra entender que havia caído em mais um do Kurt, levantou do banco e foi atrás dela.

— Mia! Ei Mia! — Ela parou, mas não olhou para ele. Ficaram próximos, os dois encarando o chão.

- Tá triste? – Ele perguntou — Me desculpa…

— Pelo que?

— Por que eu beijei você.

— E por que você me beijou?

— Por que o Frank disse que se você não namorar comigo não vamos ser amigos para sempre…

— E você acredita no Frank?

— Não…

— Não deve mesmo por que eu já te disse que você vai ser meu melhor amigo para sempre, mesmo que eu tenha outros amigos.

— Eu sei. Mas o Kurt disse que você ia casar com o Vinny.

— Eca – Ela fez uma careta – Eu não vou casar com o Vinny.

— Não?

— Claro que não. Para que as pessoas casam? — Joey pensou um pouco.

— Para morar na mesma casa, eu acho.

— E para que eu ia querer morar na mesma casa que o Vinny? — Joey deu de ombros.

— E você só me beijou por que o Frank mandou?

— Não sei… Mas você não gostou, me desculpe.

— Eu gostei… Eu só não entendi direito para que serve.

— Eu também gostei, mas também não entendi.

— Sabe o que eu acho que a gente deve fazer?

— O que?

— Esperar dez anos e casar.

— É?

— É.

— Tá bom.

Eles sentaram de novo.

— Sabe, Mia... Tem razão.

— No que?

— De não querer morar na mesma casa que o Vinny.

— Por que?

— Por que a gente deve querer morar na mesma casa de alguém que a gente gosta de tá perto, não é?

- Eu acho... – Ela disse enquanto abria a mochila, buscando alguma coisa.

— Pois, então é comigo mesmo que você vai casar, sabe?

— por que?

— Gosto de ficar perto de você.

— Por que eu te defendo dos meninos?

— Não… também, mas não é só por causa disso.

— E por que é?

— Não sei… Acho que é por que a gente é parceiro.

— Eu acho que você devia chamar sua mãe, Joey. O Kurt passou o ano todo te perturbando. Alguém tem que dar um jeito nele.

Joey ficou pensativo.

— É... mas não pode ser minha mãe. Ela não é tão forte assim como você sabe? Tem que ser alguém mais forte que o Kurt... E... – Ele sorriu – Eu já sei quem vai ser.

...

Draco chegou em casa de manhã. O sol acabava de se por no alto do céu. Ele estava horrível, parecia não dormir a semanas, seu aspecto era o pior que Astoria já tinha visto.

Ela também não estava muito bem, olheiras enormes e visíveis denunciavam que não havia dormido. Os olhos inchados anunciavam choro e ver aquelas marcas de tristeza no rosto dela apenas aumentaram a tristeza e o peso que ele carregava dentro de si desde a noite anterior.

Ela estava no sofá da sala, ele fechou a porta e encostou nela. Ficaram apenas se olhando.

— Precisamos conversar... – Ela disse. Ele concordou com a cabeça e aproximou-se para sentar perto dela.

— Aquilo de ontem – Ela continuou – Foi completamente ridículo e desnecessário.

— Eu sei... Você está certa – Ele disse baixo – Em partes.

— Em partes? — Ele concordou ainda se mantendo calmo.

— Sim, em partes. Eu me excedi, eu quebrei seu celular, eu...

— Esqueça o celular, Draco, foque nos motivos, você brigou comigo e estragou nossa noite por absolutamente nada.

— Não. Discordo de você. A noite quem estragou foi o Ben.

— Não ponha nele uma culpa que não existe, ele apenas queria me parabenizar...

— Não quero saber o que ele queria Astoria. Eram duas da manhã. Ele tem que ter noção do ridículo, você não é médica e ele não ia morrer em te esperar até o outro dia para dar parabéns. Nós estávamos curtindo, nós estávamos quase transando. Não importa a razão, ele podia estar morrendo, eu não aceito isso.

- Eu sei, Draco, eu entendo seu ponto de vista a questão não são os motivos e sim o ponto principal.

— E qual é o ponto principal?

— Se não fosse o Ben? Se fosse qualquer outro, qualquer um... Seria a mesma coisa? — Ele abriu a boca para rebater no mesmo instante, mas a resposta não saiu.

— Eu... Eu... Isso é irrelevante...

— Não... Não é. Não é irrelevante. Se fosse o Matt, se fosse o Andy ou sei lá, se fosse o Russel Crowe, você simplesmente não teria brigado comigo. E se eu bem te conheço, e olha que eu posso me gabar disso, você teria feito uma careta, resmungado alguma coisa e provavelmente beijado meu pescoço enquanto eu falava, e olha... Eu teria adorado se sua reação tivesse sido essa. Mas a questão é... Você tem um problema pessoal com Benjamin.

Draco cerrou os dentes. Ela estava certa, ele tinha um problema com o Summers e não era qualquer problema, era algo muito forte, mais forte do que ele e toda sua força de vontade, tão forte que naquele momento seus dentes rangiam um nos outros, apenas por causa da pronuncia do seu nome.

— Ele é um babaca!

— Mas eu sei disso! ! Quando foi que eu disse o contrário??

— Ele dá encima de você! – Ele alterou um pouco a voz.

— Não dá não, senhor! Isso é coisa da sua cabeça!

— Ah é? Ah é mesmo? Então olha isso aqui – Ele pegou o notebook e abriu um video. Um vídeo clipe gravado por Astoria e Ben Summers recentemente — Então Tori… Você quer me convencer de que ele não está dando em cima de você? Me explica o que é a letra dessa música, me explica o que são estes olhares neste video?

— Trabalho Draco. Isto tudo é trabalho! Isto é um video clipe — Ela andou pela sala, alguns metros, e depois voltou para o mesmo lugar.

— Não suporto você com esse cara, Astoria... Não suporto a maneira como você fala dele, odeio a proximidade de vocês dois, odeio o sorriso que você dá quando fala nele, ou em qualquer coisa relacionada a ele, e eu sei... Não precisa me dizer o quanto isso é ridículo, eu simplesmente sei, mas não posso fazer nada pra mudar...

— Draco... Nós já falamos sobre isso e...

— Falamos! ! Por Deus eu sei que falamos – Ele se alterou – O que você acha que eu estou tentando te dizer? Eu tenho tentado, eu tenho tentado controlar essa porra aqui dentro desde que você entrou com aquele sorriso idiota de garota que dá o primeiro beijo colocando esse cara na calçada da fama... Eu tenho tentado e repetido para mim mesmo como um mantra que isso é uma bobagem, mas eu não consigo! !

— Mas isso não é possível, Homem! ! Quantos anos você tem? Cinco?

— Você não tem ideia do inferno que tenho vivido.

— É claro que não tenho! – A voz dela superou a dele – Você não me conta!

— Contar para que? – Ele arriou no sofá – PAra você me olhar com essa cara de incredulidade como quem pergunta:“Você nasceu idiota ou fez curso?” Ou então pra você ficar me tratando como um bebezinho frágil e mimado?

— Eu vou te tratar como seu comportamento pedir.

— Eu tenho defeitos.

— Todo mundo tem, Draco. Todo mundo... E se você acha mesmo que eu não entendo o ciúme que você sente, está completamente enganado, eu também sinto ciúmes de você. Ciume é natural em qualquer relacionamento.

— Mas você não surta.

— E você surta por que quer? Quantas vezes eu surtei em publico por causa daquela vaca oxigenada da Jessy?

— É Jenny...

- Puta que pariu para o nome dela. Puta que pariu bem enorme para porra do nome dela. Tá vendo? Quando é a cachorrinha amestrada da Jenny, você assume logo posição de defesa. Se fosse eu que estivesse carregando um bichinho na coleira você estaria dando piti.

— Agora eu sou culpado?

— Não culpei você. Só disse que se fosse comigo, eu estaria com ciume.

— Eu não fiz nada Tori.

— Mas fica de brincadeirinha com essa tal de Jenny, Dray, e eu não gosto disso.

- Eu não tiro sua razão, você está certa, temos problemas parecidos, mas a questão é, não somos parecidos, eu não sou como você Astoria, eu estou angustiado, não sei lidar com isso, eu posso falar com você sobre isso agora, e vai ficar tudo bem, mas amanhã tudo pode ficar tenso de novo. E você nisso tudo? Vivendo como em uma montanha russa. Odeio ver você como eu vi ontem, odeio ainda mais saber que eu fui o filho da puta que te deixou assim.

— Draco, pára com isso, não sou de vidro.

Ele suspirou e baixou a cabeça.

— Você nunca vai entender... Eu estou cansado.

— De que? — Ela tentou tocá-lo e ele se afastou.

— De mim, Astoria, da pessoa que eu me torno com ciúmes, de todo esse circo que eu venho armando. A culpa não é sua, eu sei... Mas, eu não estou conseguindo lidar comigo mesmo.

— Então me deixe ajudar... Eu posso cancelar...

— Como você acha que isso pode me ajudar? Hum? Acha que cancelando o contrato você mata meus monstros? Não… Não quero isso, não é esse tipo de homem que eu quero ser, quero aprender a controlar esse monstros, preciso amadurecer, mas preciso fazer isso... Sozinho.

— Como assim Draco?

— Eu pensei muito Astoria, muito... E cheguei a conclusão de que... É melhor se nós... Se eu... Se eu... Se seguirmos caminhos diferentes...

— Não faz isso, Draco.

Uma lágrima rolou pelo rosto dele, e foi só a primeira de uma grande sequencia. Até então, ele estava tentando se controlar, ser o dono da situação, mas expressão no rosto dela, a tristeza em seus olhos o fez perder por completo a compostura.

— Eu... – Ele soluçou. Astoria tentou se aproximar e segurou em seu rosto.

— Dray... Me ouve... Você precisa me ouvir... Você... Você está se ouvindo seu idiota? Está? — Ela também estava chorando, mas Draco não se moveu, os soluços só aumentaram.

— Eu estou confuso, Tori, estou perdido, eu não consigo, eu estou tão frustrado... — Ela deslizou uma das mãos pelo seu rosto.

— Mas, meu amor, todo mundo passa por isso.

— Eu sei... Eu... – Ele soluçou mais forte – Mas isso tá... Doendo, Astoria... Tá... Acabando comigo, eu não tô aguentando mais... Me sentir desse jeito... — Astoria sentiu o peito arder como a muito não sentia. Aquele tipo de dor era incompreensível.

— A solução que você encontrou foi me deixar? — Ele balançou a cabeça, agoniado.

— A solução que eu encontrei foi te dar paz — Ele afastou as mãos dela do seu rosto devagar — Vai ser melhor... — Astoria afastou-se dele de repente.

— Melhor pra quem? Melhor para você? Mais fácil para você, certamente? Por que você está ai, Draco, com seus argumentos furados, seu discurso montado repetindo que é por mim, mas nada disso é sobre mim, é tudo sobre você e sua fraqueza. Você é fraco, Malfoy, muito fraco e inseguro. Está sendo estupido, e sabe o que mais? Na sua “ânsia” de fazer o melhor por mim tudo o que está conseguindo é me fazer sofrer — Ela gritou tudo, sem parar nem ao menos pra tomar ar, e quando terminou precisou sentar, suas mãos suavam, suas pernas tremiam e seu rosto estava vermelho.

Draco baixou a cabeça.

— Eu sei... – Ele disse baixo, um mágoa clara em sua voz.

— Se você quer saber, eu também estou cansada. Estou cansada dos seus surtos, cansada de ser repelida. Eu estou tentando, eu estou tentando muito, e tudo o que você faz é me afastar. Você quer ir? Quer mesmo ir? Então vai, Draco... Mas quando sair por aquela porta, espero que saiba que não vai ter para onde voltar — Por um momento ele ficou estagnado, absorvendo a força das palavras dela.

— Tori...

— Você não acredita no que eu sinto... Este é o grande problema dessa merda – Ela apontou-lhe o dedo – Você simplesmente não dá qualquer credito ao que eu sinto.

— Eu nunca disse isso.

— Está dizendo com as suas escolhas.

— Você não sabe o que está dizendo! – ele se alterou um pouco mais – Você não sabe como isso me esfola vivo por dentro. Porra Astoria!! Quem porra eu sou perto do famoso Ben Summers se até você o engradece o tempo todo?

Astoria respirou fundo com um ar derrotado.

— Não sei Draco. Não adianta que eu lhe diga. Se você se sente tão inferior, nunca será melhor que ele, nem que ele, nem que ninguém, sua mente nunca vai dêixar — Ele não respondeu, ele simplesmente foi até o quarto e quando voltou quinze minutos depois, estava com uma mochila nas mãos.

— Vou ficar fora por um tempo, fazer uma especialização em Viena... – Ela não respondeu – Eu sei que você disse que... Eu não... Mas, quando eu voltar... Eu vou fazer você saber e se... Se você ainda... Se nós ainda... Bem... Você... Nós... – Ele respirou fundo diante da sua impossibilidade de arranjar uma frase coerente – A gente se vê.

— Draco... – ele a olhou e ela ia pedir mais uma vez para que ele ficasse, mas estava com raiva, ele a estava abandonando por nada. – Isso tudo... Esqueça... — Ele baixou a cabeça e aproximou-se da porta.

- Não vou dificultar nada – As lagrimas voltaram a cair – Não é culpa sua... Que eu não consiga lidar com meus próprios sentimentos... Eu sou fraco, eu sei... Sou um idiota, eu também sei disso... Mas eu te amo, Tori. É o melhor para nós, não quero viver te pressionando e não consigo lidar com tudo isso que eu sinto. Morro de ciumes de você e isso não passa, dói, dói muito aqui e sei que faz doer em você… Suporto qualquer coisa por você, mas ser a razão da sua angustia eu não consigo e sei que vive angustiada comigo. Eu amo você demais pra permitir que isso continue.

Então ele simplesmente saiu. Ela chegou a levantar, correu em direção à porta, não sabia exatamente para que, nem o que queria com isso, mas foi até lá, mas ele já tinha se aproximado do carro. Pareceu ter corrido até lá. Entrou no veiculo e partiu.
Ela fechou a porta, a dor no peito lacerando tudo.

Não havia mais o que fazer… Ele tinha ido… Estava acabado.

...

Harry observou bem o diamante. Era de fato uma pedra perfeita. Não precisava ter tantos cuidados, aquela era uma joalheria acima de qualquer suspeita, mas mesmo assim, ele gostava de examinar as pedras que comprava, principalmente por sentir prazer em saber observá-las do jeito que mereciam.

Era um belíssimo exemplar de um solitário, podia dar uma lista de beldades que morreriam por um daquele, mas... Gina... Ela era tão incomum, tão singular que poderia jogar a peça em sua cara. Era muito difícil saber o que ela estava pensando, ou prever suas reações. Até aí, era muito simples agradar as mulheres, no geral, qualquer coisa que brilhasse muito e custasse mais de vinte mil calava qualquer argumento, mas não com ela...

Aquela mulher era seu inferno.

Ficou tentando imaginar como ela reagiria ao presente, e ao pedido. Achava que era a ultima espécie do mundo mergulhada em orgulho, mas o destino havia resolvido pregar-lhe uma peça enviando sua cópia do sexo feminino. E agora lá estava ele com um solitário da Tiffany nas mãos, imaginando como seria reação da mulher que o receberia.

Não deveria ser bem assim.

Na verdade era quase uma obrigação abrir um sorriso lindo e encher os olhos de lágrimas quando se recebia um presente destes, ou pelo menos esta era regra do seu mundo.

- Já fez sua escolha, senhor Potter? Ou prefere que lhe mostremos mais algumas opções? — Perguntou a moça sorridente que o havia recebido quando chegara.

— Não... Eu... Acho que é... Este.

A moça abriu-lhe outro sorriso. O maior problema com aquelas lojas era que as jovens vendedoras em sua maioria estavam sempre dispostas a ceder mais que só atenção ao clientes, quanto maior fosse a aquisição, menos era o pudor com o qual elas agiam. Ele estava ali, comprando um anel de noivado e a garota parecia faltar escrever em sua própria testa: “Não me importo em ser sua amante”. Em qualquer outra ocasião, ele certamente estaria interessado.

— Lindo anel, senhor Potter. Bela escolha — A voz macia e aveludada, um convite perfeito para um drink após o horário e com certeza algo mais, desta vez não lhe desviara do assunto principal. Gina e seu anel.

— Eu… Eu ainda não tenho certeza. Eu… — Ele esfregou o rosto com uma das mãos como um sinal claro de impaciência e dúvida.

— Não se apresse senhor, ficaremos felizes em separar a peça, e esperar até que o senhor pense bem — Ela disse pousando a mão por cima da dele.

— É… Faça isso. Eu… Eu não… Faça isso. Obrigado — Harry puxou a mão, ensaiou um breve sorriso para a moça, claramente decepcionada e saiu da loja à passos rápidos.

O que eu estou fazendo?

Ele entrou no carro, tirou um lenço do bolso do casaco e enxugou o rosto.

— Está com algum problema, Harry? — Perguntou Hagrid. Aquele era um raro momento em que o homem se permitia mostrar intimo do “patrão”.

— Não — Ele respondeu rápido, mas depois coçou a garganta – Gina.

— Hum... Esta garota... Se me permite... É um osso bastante duro de roer, não é mesmo?

— Não, ela não é um osso Hagrid, ela é uma verdadeira placa de metal e eu... Cara Hagrid, eu tô fudido, não tô? — O mordomo raspou a garganta tentando não rir.

— Depende do contexto, Harry.

— Mas como assim depende do contexto? Olha onde eu me meti cara... Eu tô apai... Digo, eu tô enrolado com uma maluca que fode com todos os meus planos de futuro, e que merda Hagrid, eu vou ser pai. Pai. Puta que pariu, o que é ser pai? — Hagrid virou o espelho para que Harry não pudesse vê-lo.

— Eu realmente não faço ideia.

— Então, caralho, eu tô fudido. O que eu vou fazer com três quilos de carne que chora, cara?

— Eu acho... Que você só precisa amá-lo, o resto fluirá naturalmente — Harry bagunçou os cabelos e um minuto depois praguejou, tentando arrumá-los de novo.

— Eu não faço ideia de como fazer isso, Hag... Eu estou fudido.

— Estamos à cinco minutos do apartamento do Sr. Weasley, deseja que eu dê uma volta no quarteirão, até que você se recomponha?

— Caralho – Ele quase sussurrou – Ainda tem o Rony... – Ele inspirou forte – Não... Não precisa, eu vou... É só o Rony, não é o Mandela, vamos lá, vamos acabar logo com isso.

...


Hermione estava na mesa com Joey, estavam jantando... Não pisava na empresa há duas semanas, duas exatas semanas que não via Rony. Não atendia seus chamados, não respondia suas mensagens, a única coisa que não conseguia era não ler as que ele mandava. E ele mandava toda noite. Havia pedido um afastamento. Sabia que logo precisaria retornar à empresa e a sua vida normal, precisaria estar preparada para isso, mas não queria pensar no assunto.


A comida estava quase intacta, como ficava quase toda noite, ela apenas remexia o conteúdo do prato com o garfo. Olhou de novo o celular. Estava imóvel, do mesmo jeito que um minuto antes quando ela havia olhado também. Rony passara a lhe mandar SMS toda noite, no mesmo horário e de alguma forma aquilo a confortava, embora soubesse que não deveria.

— Mãe? Mãe? — Joey a tirou do transe em que estava.

— Oi... – Ela disse ainda sem olhá-lo.

— Você odeia meu pai? — Hermione soltou o garfo, num claro sinal de impaciência e arqueou as sobrancelhas, encarando o garoto.

— Joe, por que você insiste tanto em falar neste assunto?

— Só quero saber mãe… — Ela colocou a mão na boca e mordeu o primeiro dedo, como se quisesse um pouco de controle. Sua cabeça estava tão cheia, ela não conseguia ter a paciência necessária para lidar com Joey naquele momento... Se pelo menos Rony estivesse lá...

— Não! Não sei… É complicado Joe.

— Geralmente pais separados se odeiam — Ela fechou os olhos pensando que ele era só uma criança, não podia ficar pensando aquelas coisas.

— Não é bem assim meu filho…

— As pessoas não deviam se odiar quando tem filhos, mãe… Vocês nos ensinam a amar e a professora disse que perdão é amor, sabia?

Ela juntou toda a paciência que ainda restava. Ela levantou e começou a recolher os pratos e lavá-los.

— Meu amor... Eu... Eu sei que a maioria dos pais, se odeiam, mas... Não é o caso entre eu e seu pai. Eu não vou lhe explicar agora, por que estou cansada, por que está tarde e principalmente por que eu acho que este ainda não é um assunto que eu deva discutir com você, então, eu estou pedindo, que apenas aceite minha palavra e dê o caso como encerrado, pode ser?

— Tenho outra opção? — Ela riu de leve, mesmo sem vontade. Aquele garoto era único.

— Não, a menos que você seja a minha mãe — Ele fez uma careta.

— Posso jogar no computador?

— Meia hora apenas, depois vai dormir, você sabe que eu não gosto que use o computador há esta hora...

— Ah mãe, poxa, meia hora não dá pra nada...

— Joseph...

— Mãe, a senhora não entende... Em meia hora, eu não consigo nem dinheiro suficiente para comprar um nitro novo.

— Um o que? — Ela enxugou a ultima louça e virou-se encarando o garoto. Desta vez, Joey rolou os olhos.

— Nitro, mamãe, pra turbinar o carro, tipo, eu preciso do nitro para ele ficar mais rápido e ai eu ganho mais corridas e ganho patrocínio, e ganho mais dinheiro e compro peças novas e...

— Chega... Chega filho, ok... Vá... ganhar seu... Nitro novo... Eu vou ver televisão, e digo quando você precisar desligar, ok?

— Mais de uma hora?

— Vou mudar de ideia em três segundos, Joey... três... – Ele desceu da cadeira em que estava rapidamente e saiu correndo em direção ao quarto – Dois...

Ela sorriu ao parar de contar.

Hermione organizou as ultimas peças fora do lugar na cozinha e foi para o quarto. Não estava frequentando a empresa, não estava nem saindo de casa, mas se sentia cansada. Talvez fosse exatamente por não fazer quase nada.

Escolheu um canal e deitou-se na cama. Deixou-se perder no filme, até que o zumbido do seu celular a puxou de volta à realidade. O coração dela palpitou mais forte, e antes mesmo que ela se movesse para pegar o aparelho, já estava trêmula. Ela começou a ler a curta mensagem.

“Sinto sua falta, hoje muito mais que ontem... Seu cheiro ainda está na minha cama, na minha pele... Ainda sinto o calor do seu corpo, ainda te quero tanto que dói”.

Ela fechou os olhos com força.

— Deus...

Aquilo era uma tortura... Uma tortura muito grande. Ela também sentia falta, a saudade já beirava o absurdo. Ainda podia sentir o cheiro da pele dele, o cheiro do suor, do sexo, a voz, o gosto do beijo... Parecia uma eternidade.

Ela deitou-se de novo e sentiu o corpo queimar, a respiração intensificou. Ele veio forte em sua mente. Claro, intenso, como se fosse real. Como controlar aquilo? Como controlar aquele desejo absurdo, principalmente quando ela só precisava fechar os olhos e ele parecia estar bem ali. Ela podia lembrar com perfeição de cada movimento.

Ele sabia exatamente o que fazer… Quando fazer... E como fazer para deixá-la louca.

O quarto ficou abafado... Muito abafado. Ela fechou os olhos, ele estava em sua mente, sempre estaria. Quando percebeu seus dedos ganhavam vida pelo corpo.

— Está calor… Muito calor — Sibilou para si mesma — É só este calor infernal… Estou na minha casa… Estou sozinha… Não estou fazendo nada de errado — A voz continuava tentando convencer o cérebro — Estou apenas… Apenas…

Ela tentou justificar-se a si mesma por estar tão quente, tão agoniada. Mas as mãos não tomaram conhecimento do que ela tentava dizer para si, e o calor que só existia de fato, entre as pernas, venceu seu pudor.

Rony estava em sua cabeça, não podia evitar.

Sentira aquele calor, cada dia das duas ultimas semanas, mas estava beirando sua capacidade de controle. Seu corpo tremia, como se o tremor fosse sua forma de pedir, espernear, reivindicar o direito de ter o desejo acumulado, saciado. Estava molhada, muito molhada e não podia evitar aquele processo natural. Seu sexo pulsava e ardia pedindo satisfação... Era uma fome muito intensa.

— Rony... – Ela sussurrou enquanto os dedos tocavam o próprio sexo por cima da calcinha – Seu filho da puta... – A voz era um apenas um sibilo baixo – Olhe... Ah... Ai... – Ela pressionou mais forte e o sexo respondeu – Olhe o que você fez comigo...

O dedo pressionava em cima do clitóris e em seguida fazia leves movimentos circulars. A pressão sobre o tecido não era mais suficiente, então ela, já sem qualquer controle sobre a própria força de vontade deixou que a mão deslizasse por dentro da lingerie e quando o dedo fez o primeiro contato com o clitóris molhado ela quase gozou.

— Ahh... Meu... Deus... — Ela esfregou mais rápido — Sou adulta... Sou uma mulher adulta... É natural... Natural... — Ela falou baixo, cada palavra falada rápida, com a respiração ofegante e intensa, mais pareciam gemidos. Ela prendeu a mão no meio das pernas, cruzou as mesmas e remexeu-se contra seus dedos.

— Rony... Me penetra, me penetra... — Os dedos fizeram o que ela desejava. Foram fundo, tão fundo quanto ela queria — Ahh... Ron...

Não era mais suficiente, ela precisava de mais, precisava gozar. Virou-se sobre a própria mão e deixou que os dedos a penetrassem, ondulando sobre eles como se os cavalgasse. Estava cada vez mais forte. Os tremores, a dor na virilha, a pressão na vagina, no ventre, a falta de ar, a vontade de mergulhar no que quer que fosse. Ela ondulou, mais rápido, mais forte e explodiu nos próprios dedos.

— Ahh... Ahh... Ahhh

O sexo pulsou enlouquecidamente, pressionando seu dedo varias e repetidas vezes. A boca dela abriu, buscando o ar que as narinas não conseguiam mais apanhar, o pulmão doía, o ventre doía, o peito doía, mas ela de uma maneira muito masoquista, gostava muito daquilo

Ela arriou na cama, de lado, com os dedos ainda tocando a si mesma, movendo-se levemente, provocando o prazer pós-orgástico, a mente enevoada, quase limpa, o corpo trêmulo. Um sono pesado se abateu sobre ela e sem conseguir controlar, Hermione simplesmente dormiu, esquecendo toda a realidade a sua volta.

...

Harry entrou no apartamento de Rony batendo a porta, como sempre fazia. O outro homem estava tão concentrado no projeto que deu um pulo quando ouviu o barulho.

— Puta que pariu! Harry, Cacete! Que susto! — Harry entrou como se procurasse alguma coisa, não respondeu e passou direto por Rony, nem sequer olhá-lo, como se ele não estivesse ali. Abriu a geladeira e pegou uma cerveja.

— Hum, bom... – Ele sussurrou mais como se falasse consigo mesmo.

— Sabe bater na porta, não? Se você quebrar essa porra, vai pagar. Seu merda — Harry voltou para sala, e então encarou o outro.

— Mas... Filho da puuuta, ainda está assim? Vai se vestir porra, olha a hora.

— Hora de que, Harry? Ah cara, vai. Sério, eu tô ocupado, e tô de mau humor, já não basta ontem que você veio e eu não consegui terminar o esboço da planta, por que você cara... Você é entrão e sem noção e eu não vou deixar você fazer aquela barulheira de novo, sabia que recebi seis reclamações de perturbação? Por falar nisso, por que raios vocês está aqui a esta hora da manhã?

— Cara, para de reclamar. Parece uma mulher. E eu tô aqui por que nós vamos para o Golf — Rony estreitou os olhos, em seguida balançou a cabeça negando.

— Não vamos não.

— Nós vamos Rony, já marcamos há duas semanas, e você já adiou isso demais.

— Harry, eu tenho um projeto enorme para entregar. Mano, eu não nado em dinheiro como você, eu preciso trabalhar, beleza?

- Rony... Há quanto tempo nos conhecemos, cara? — Harry se aproximou, sentou e colocou a lata de cerveja ao lado da folha da planta, perigosamente próxima a ela.

— Harry... Cuidado com isso cacete!

— Cara, você sabe que se não vier comigo, eu vou encher o saco — Rony esfregou o rosto.

— Harry... Sério cara, eu tenho prazos...

— E eu preciso conversar com você... É um assunto, meio sério.

Rony o encarou.

— É só falar.

— Não — Harry encostou no sofá — Não consigo tratar de assuntos sérios sem um conhaque, ar puro e uma boa aposta antes do almoço.

— Harry...

— Voltamos depois do almoço, seu workaholic do caralho. Que chato.

— Desculpe Deus da cédula, por que o pobre mortal precisa trabalhar.

— Anda, tá perdendo tempo. Anda que o carro tá esperando...

Rony se deu por vencido, e levantou bufando muito alto, resmungando palavrões sucessivos, mas no fundo ele estava gostando da ideia. Há duas semanas não saia se não fosse para o trabalho e sua ideia de diversão era ficar bêbado e ir dormir.

Já Harry desmanchou o sorriso assim que Rony saiu do seu campo de visão. Em seu lugar apareceu uma sombra de preocupação. Ele se questionava se estava pronto para contar... E se saberia fazer isso do jeito certo.

...

O dia estava tão perfeito que poderia ser pintado. O céu estava claro, com poucas nuvens, mas suficientes para manter o sol em um nível confortável. Havia brisa, o cheiro de grama cortada do campo Ailsa e os barulhos naturais davam um toque mais especial a paisagem.

Uma hora de jogo e Rony já se sentia relaxado, até mesmo feliz. Rony golpeou uma bola e eles começaram a andar até outro ponto.

- Tá feliz, né Rony?

— Tô cara. Tô feliz… Eu estava precisando disso, valeu mesmo.

— É… Bom, né? Bom te ver feliz, eu tava mesmo precisando te ver num dia assim.

Rony o encarou.

— É? E por que?

— Ah… Por que… Vamos jogar primeiro, assim você relaxa mais e ai conversamos.

- O que foi Harry?

— Vamos jogar…

— Me fala cara — Harry virou a cabeça para o lado como se procurasse alguma coisa, apenas para ignorar o que Rony dizia.

— E sua irmã?

Rony estreitou os olhos.

— O que tem ela?

— Ah... Nada... Só perguntei por que não ouvi nenhuma sirene quando entrei na sua casa.

Rony deu de ombros.

— Foi ao medico — Harry se espantou, mas para sua sorte, ainda não encarava Rony quando sua expressão denunciou sua preocupação. E quando finalmente ele encarou o amigo, já estava recomposto.

— O que ela tem?

— Não sei... Ela não estava se sentindo bem mais cedo e foi ao médico, saberei quando ela chegar. Agora para de enrolar, Harry, e fala logo.

Harry sentiu o coração bater mais rápido. Era o bebê. Será que havia algo errado com o bebê? E em que raio de médico ela foi? Ele poderia ter lhe enviado a um especialista. Mulher teimosa. Ele precisava contar a Rony o mais rápido possível... E contaria em alguns minutos, quando conseguisse achar as palavras. Por hora ele apenas se esquivou apontando um outro jogador.

— Olha lá, o Smith. Hey Smith!

Eles jogaram por mais meia hora, até que o campo começasse a ficar vazio, a hora do almoço se aproximava e a maioria dos outros jogadores já haviam ido para os restaurantes. Rony errou a tacada por centímetros, bufou e enxugou a testa com a mão.

— Acho que é hora de comer. Tô morrendo de fome e se eu continuar a jogar desse jeito, vou perder para você.

Harry riu.

— Você vai perder para mim, cara.

— Sim... Eu sei... Mas também não preciso perder feio. Vamos comer — Rony começou a andar, mas Harry o parou. Ainda não queria ir para o restaurante. Era a hora perfeita de contar.

— Calma ai... Só mais uma rodada e nós vamos.

— Eu tô com fome, Harry — Rony disse com um leve tom de impaciência.

— Fica quieto, cara já, já a gente vai e vai ser por minha conta.

Rony estreitou os olhos.

- Sabe Harry… Não que eu ache isso ruim, afinal um dia de folga com as mordomias do Golf… Nada mal, mas… Eu sinto que vem problema. Então manda logo, quem você matou? — Harry fez uma expressão tão melodramática de ofendido que Rony rolou os olhos.

— Que? Agora você vai dizer que eu nunca te convidei para programas maneiros?

— Não enrola Harry. Você quer preparar meu espírito para depois me falar alguma merda. É sempre assim. Você fode alguma coisa, e aí vem tentar preparar meu espírito para contar a merda que você fez, portanto pule a etapa do espírito e fale logo.

Harry suspirou e tacou a bola.

— Não é nada demais cara… Sua vez — Rony seguiu a trilha da bola até chegar à posição de jogo.

— Manda de uma vez – Então ele se posicionou e fez a jogada.

Harry respirou fundo mais uma vez. Há duas semanas vinha ensaiando no espelho como contaria aquilo, mas não adiantava, ele não era diplomático para tratar de nada que não envolvesse dinheiro, não conseguiria ser agora, ainda mais com Rony. Teria quer da maneira Potter mesmo.

— Certo... — Ele fez uma pausa e em seguida falou como se disse que o dia estava claro — Eu tô dormindo com a tua irmã — Rony deu outra tacada, sorrindo, como se ainda não tivesse processado o que o amigo tinha dito.

— Certo, e você me trás no Golf para dizer que ta dormindo com… Perai! COM A MINHA IRMÃ?

Harry não esboçou qualquer reação nos segundos seguintes, apenas ficou parado, olhando para Rony, como se esperasse alguma coisa.

— Eu não gosto desse tipo de brincadeira com a minha irmã, cara — Ele disse bem sério. Harry esfregou o rosto. Esta era a hora perfeita para sorrir e fazer uma piada, mas ele não estava com senso de humor naquele momento. Estava suando frio e com o estomago revirado, como há muito tempo não ficava.

— Não é uma brincadeira.

Rony fechou mais a cara.

— Eu tô falando sério, mano.

— Rony... Não t brincando.

Rony riu ironicamente.

— Pára de graça, cara. Isso é chato. Tô falando sério...

Harry o interrompeu.

— Lembra que você disse uma vez que achava que ela tinha um cara? Lembra? Há pouco tempo atrás?

— Claro que lembro, mas isso não te dá o direito de ficar fazendo...

— Eu não to brincando porra. Eu tô falando sério — Rony permaneceu calado, depois passou a mão lentamente no rosto.

— Você e a Gina? — Harry acenou afirmativamente — Cara... Você e a... Cara, FILHO DA PUTA, MANO, VOCÊ TÁ DORMINDO COM A GINA????

- Rony...

— RONY O CARALHO, SEU DESGRAÇADO, FILHO DE UMA CADELA. VOCÊ TÁ DORMINDO COM A MINHA IRMÃ?

— Deixa de drama, Rony, nós estamos... — Rony apontou o taco de Golf que ficou à centímetros do rosto de Harry.

— Ela... Você... — Ele estava muito vermelho, mais vermelho que os próprios cabelos e brilhando de suor. Sua expressão era extremamente assassina — Eu não acredito, Harry... SEU TRAIDOR!

— Rony... Baixa esse taco.

— VOU BAIXAR, SEU PUTO! VOU ENFIAR ELE NO SEU RABO!

— Espero que você saiba que em outras circunstâncias quem estaria com o taco no rabo seria você — Ele disse com calma e Rony riu com raiva.

— Até parece, quebro você em dois com a mesma facilidade que quebraria isopor. E aproveitando a deixa, enfie sua calma no cú também.

Rony saiu andando à passos duros, em direção ao restaurante, praguejando, fez uma imensa lista de palavrões, alguns, Harry tinha certeza nunca ter ouvido antes.

— Espera, Ron... Espera Porra.

— Se fode — Ele disse alto e em seguida começou a sussurrar — Filho da puta, filho da puta, minha irmã, mano... Minha irmãzinha.

Harry ouviu.

— De inha sua irmã não tem nada, cara.

— VAI TOMAR NO CÚ, POTTER.

— Isso é uma grande bobagem.

— POR QUE NÃO É A SUA IRMÃ, SEU FILHO DE CHOCADEIRA. ACHEI QUE VOCÊ ERA MEU AMIGO.

— Não vejo por que deixamos de ser amigos, eu comi sua irmã e não seu rabo quando você estava bêbado, Cinderela — Eles chegaram até o restaurante e como Rony não baixava a voz, logo estavam todos olhando para eles.

- ELA É MINHA IRMÃ SEU DESGRAÇADO SEM CONSIDERAÇÃO! VOCÊ TÁ COMENDO A MINHA IRMÃ!

— E você vai lembrar disso para sempre não é?

— LÓGICO! TEM NOÇÃO DO CRIME QUE TÁ COMETENDO? ALÉM DE COMER A IRMÃ DO MELHOR AMIGO, VAI QUE VOCÊS ERRAM ALGUMA COISA E SAI UMA CRIA DE VOCÊS DOIS. SERIA O FIM DO MUNDO! UM VERDADEIRO APOCALIPSE.

— Ah vai se foder seu dramaticozinho de merda. Você não deveria se sentir assim, sabia? Até mesmo por que, quando o bebê nascer, ele vai querer... — Rony virou tão rapido que seu pescoço deu um estalo.

— Bebê? Como assim bebê? Que bebê? — Harry engoliu seco.

— Ah... Rony... A Gina...

— QUE BEBÊ, PORRA? — Harry perdeu a paciência e gritou de volta.

— SUA IRMÃ TÁ GRAVIDA.

Foram só alguns segundos entre Rony envermelhecer além do limite, e socá-lo no rosto. O soco foi tão forte que Harry caiu sobre algumas cadeiras que estavam no canto do restaurante.

-VOCÊ ENGRAVIDOU MINHA IRMÃ, SEU DOENTE.

Uma multidão se reuniu em torno deles. Harry levantou devagar, limpando o sangue que corria no canto da boca. Rony era bastante forte.

— Ron... Eu sei que você está... — Mas ele não terminou, por que Rony lhe acertou outro soco, desta vez do outro lado do rosto.

— VOCÊ NÃO SABE DE NADA.

Desta vez, Harry não levantou devagar.

— JÁ CHEGA.

E sem que Rony esperasse, ele lhe devolveu o soco.

A partir dai, eles se atracaram como em um filme de artes marciais. Socos e pontapés foram distribuídos, várias cadeiras se quebraram no processo. Algumas pessoas chegaram mais perto, mas eles se atacavam tão ferozmente que nenhuma delas teve coragem de intervir. Um batia, o outro revidava. Rony estava possesso, e Harry era orgulhoso.

Eles pareciam dois cães lutando por território.

Em um determinado momento, o cansaço e as dores começaram a sobrepujar a raiva e o orgulho, os movimentos foram cedendo, mesmo que eles teimassem em continuar se atacando, foram ficando mais lentos, mais fracos, até que Rony, aplicando uma rasteira, derrubou Harry no chão, porém enquanto o homem caía, segurou nele e o levou junto consigo.

Cansados demais, eles não conseguiram levantar.

A cena de ambos os homens deitados, suados, ensaguentados e completamente acabados no chão, era tão ridicula, que as mesmas pessoas que haviam juntado assustadas pela briga, se dispersavam rindo deles.

— Já parou de graça, Weasley? Harry disse, entre as pausas da respiração pesada.

— Vai se foder. Eu odeio você cara — Harry riu, com muita dificuldade.

— Vai pedir o divorcio agora?

— Acho que vou gravar, a frase vai se foder... Assim eu não preciso repetir.

— Agora que você está acabado... Pode me ouvir? — Rony levantou com dificuldade o dedo médio.

— Se for para falar obscenidades, não posso.

— Sério, me ouça... — Eles começaram a levantar devagar, tentando disfarçar as dores. Rony se encostou numa parede e Harry sentou numa cadeira.

— Você esgotou sua cota de segredos por hoje, eu não quero... — Mas Harry o interrompeu.

— Eu vou casar com ela.

- Você o que?

Rony esqueceu a lista de ofensas que estava preparando nos últimos minutos quando ouviu aquela frase.

— Acho que soquei seu ouvido, você ficou surdo.

— Não! Eu devo ter ficado louco mesmo. Por que eu estou ouvindo coisas, sabe? Coisas absurdas.

— Por que é absurdo?

— Por que... – Ele ficou perdido na resposta por alguns minutos – Por que é horas, você é Harry Potter... Você vai casar com a Gina, só por que levou ela para cama?

Harry fez uma careta.

— Não levei ela para cama simplesmente, cara. Estou dormindo com ela, nós meio que estamos... Namorando.

Rony soltou uma gargalhada.

— Que foi? – Harry perguntou irritado.

— Não, cara, sério... Namorando? – Ele riu um pouco mais – Olha só, Harry... Se estiver fazendo isso por minha causa, não é para tanto cara, eu não ia te matar, eu só ia aleijar mesmo — Foi Harry quem mostrou o dedo médio desta vez.

— Por que o espanto? Eu sou uma pessoa normal, eu tenho o direito de namorar e...

Rony o interrompeu com uma nova gargalhada.

— Cara, não. Você é Harry Potter, você definitivamente, não namora. O que foi, a Gina te enquadrou?

— Foi... Acontecendo e... Você quer parar de rir?

— É engraçado.

— Não tem nada de engraçado... Eu fiz graça quando você se amancebou com a arquiteta? — Harry achou que isto faria Rony ficar com raiva, mas o efeito foi o contrário, ele riu ainda mais alto.

— Cara, acho que você é a única pessoa do século que fala “amancebou” e... Ela é decoradora.

— Ah foda-se.

- Harry...

— Sério, Rony, vai se foder – Ele tentou levantar e arriou de novo – Ai, caralho. Você... Tá vendo o que você fez?

— Minha cara não deve tá melhor que a sua.

— Mas eu sou um rosto de vinte milhões!

— Pois pague vinte milhões e conserte essa cara feia de vez. Noivo — Então ele explodiu em uma nova gargalhada. Harry levantou com esforço e foi se encaminhando para uma mesa do restaurante.

— Ok, senhor piadista, quando acabarem as piadas ruins, estou ali na mesa.

— Peraí Harry... É brincadeira — Rony sentou-se na mesa com ele — Cadê o senso de humor, cara?

— Rony... Se você não fosse meu amigo, eu já teria lhe metido uma bala bem aqui... Sabe disso, não é?

— Humhum. Mas vamos falar sério agora. Você tá falando sério?

— Não vem com graça…

— Eu não tô com graça, eu tô… Perplexo. Você tá mesmo falando sério Harry?

— Tô cara.

— Caralho, cara, sério mesmo?

— Qual é cara? Vai me tirar? De novo?

— Não! Não! – Ele se apressou em prender o riso — Eu só custo a acreditar que você… Vai…

— É. É, eu sei. Mas vou.

- Ela está, tipo... Está mesmo...

— Gravida?

Rony fez uma careta.

— Sim. Ah qual é... Até uns minutos atrás você era o senhor humor, ai agora sabe que sua irmã vai ter um bebê e fica nessa frescura?

— Um homem tem o direito...

— Ah... Se fode. A mulher com quem você trepa, também é irmã de alguém.

— Não, não é não – Rony disse com tranquilidade – Ela é filha única, sabe?

Harry fez careta.

- Mas é filha de alguém.

— O pai dela mora na Austrália, o que os olhos não vêem o coração não sente e meus olhos estão vendo e verão a barriga da minha irmã crescer.

— Se mata, então.

— Idiota.

Harry encheu o copo.

— Você não está ligando para o ponto principal da questão, Rony.

— E qual é?

— Eu vou ser pai.

Rony riu e Harry fez uma careta estressada.

— Cara, eu acho que você ainda não entendeu. Eu... Vou... Ser... Pai... Anteciparam o apocalipse.

Ele virou o copo.

— Ah Harry...

— Sério, Rony... É como se... Pai... Eu não vou saber... Sabe?

— É instintivo, cara.

— Não é não, é um desastre.

— Cara... Tá bom que o garoto não vai ter um pai que diga: “Oh que pai”... Mas você dá um Tablet para ele que fica de boa.

Harry estreitou os olhos.

— Você é um amigo de merda, sabia? Aliás, esta é a melhor amiga do homem.

— Então o que vai fazer agora, ignorar a humanidade e viver para o alcool.

— É. Humanos são um lixo, alcool é ouro.

Rony balançou a cabeça.

— Vamos voltar para o assunto sério. Temos que ir falar com a Gina, aliás... Ela sabe que vocês vão se casar?

— Não. Ainda não.

— Pois ela precisa saber... Vamos falar com ela...

Harry segurou a mão de Rony antes que ele levantasse.

— Tem mais uma coisa antes... De irmos.

— O que?

— Ela pediu que eu não contasse — Rony passou um tempo em silencio e depois sorriu de lado.

— Bom... Quem farrapou foi você, quem vai morrer é você. Vamos nessa.

Harry passou o caminho inteiro xingando Rony, chamando-o de Judas, Traidor, insensível e todas as palavras ofensivas que ele pôde se lembrar. A verdade é que estava nervoso. Ia pedir Gina em casamento e realmente não sabia como fazer isso.

— Seria bom se pudesse mandar um manuscrito — Ele pensou. Mas certamente ela o rasgaria em milhares de pedacinhos, na sua cara, seriam tantos pedacinhos que ele se sentiria no Brasil, numa época carnavalesca.

Aquela mulher lhe dava nos nervos, às vezes se pegava falando sozinho, questionando-se sobre os motivos de ainda estarem juntos, e então ele lembrava de como ela o fazia sentir-se na cama e fora dela.

Ao lembrar de momentos mais quentes, Harry riu. Sua boca esticou mais do que devia e ele sentiu dor pelos machucados.

— Você viu. seu viado? Estou cheio de dores por sua causa.

— Não fode – Rony respondeu simplesmente, igual como tinha feito há cinco minutos atrás e também durante todas as outras vezes em que Harry lhe ofendeu naquele trajeto.

Rony também estava com o pensamento longe. Não suportava mais aquele silencio de Hermione, assim que ela voltasse à empresa iria atacar com toda sua força. Ela não ia depois de tudo, deixá-lo daquele jeito, vazio como se tivesse perdido tudo. Eles tinham formado uma família e ela voltaria para ele, fosse devagar e sendo reconquistada, ou fosse à força, com ele embebedando-a e casando-se sem que ela tivesse qualquer noção do que estava fazendo.

Mas de algum jeito aquilo tinha que andar.

Eles chegaram e Rony se certificou com o porteiro de que Gina estaria em casa. Apesar de ainda “dividir” o apartamento com Colin, desde o atentado sofrido por Rony, Gina passava mais tempo em seu apartamento do que com o amigo. Eles começaram a subir as escadas e Harry começou a suar frio, estava sentindo seu corpo dissolver dentro da roupa. Colocou a mão no bolso e apertou a caixinha com o anel que ele havia mandado buscar na joelheria.

— Rony...

— Hum.

— Cara, olha só, se você não tivesse escolha de dizer não, você escolheria, comer alho ou cebola? — Rony parou no meio do caminho e olhou para ele de esguelha, com uma expressão que misturava tédio e instintos assassinos.

— Mas tá sem assunto, hein cara?

— Tsc, estas pessoas sem cultura... Isto é muito importante Rony, sabia que no Brasil quando as pessoas são condenadas à morte, elas tem que escolher um alho ou uma cebola antes de morrer, como refeição.

Rony fez um ar maior de tédio.

— Sério?

— Não, na verdade não há pena de morte no Brasil. Mas e se fosse? — Ele gesticulou freneticamente — Você não estaria se importando.

Rony abriu a porta do apartamento.

— Harry... Cala a boca. – Em seguida entrou gritando – GINEVRA, CADÊ VOCÊ? — Como não houve resposta imediata, ele continuou chamando.

— GINA! GINEVRA!

Alguns segundos depois, Gina saiu de dentro da cozinha, um pouco suja de pó e com um avental mal arrumado. Parou no instante em que viu os dois. Eles estavam com os rostos inchados e machucados.

— Mas… O que significa isso? -Ela perguntou com uma voz estridente, a la Molly Weasley, a matriarca da família. Rony e Harry se entreolharam desconcertados e abriram sorrisos bobos, tentando falar ao mesmo tempo.

— Nós…

— Estavamos voltando para casa e…

— Tivemos um probleminha… Gina.

— UM PROBLEMINHA? UM PROBLEMINHA SEUS RETARDADOS? QUE ÔNIBUS ATROPELOU VOCÊS?

- Não foi nada sério – Disse Harry com tédio – Estamos bem.

— Vocês brigaram? – Gina perguntou irritada.

— Gina, estamos bem – Rony disse – Eu quero...

— Você brigaram? Responde Rony.

— Gina, tá tudo bem, me escuta...

— Rony... Calma – Harry disse, vendo que os dois irmãos estavam atingindo o mesmo nível de estresse.

— Eu fiz uma pergunta!

— E eu respondi! — Ele foi ríspido — Para de me enrolar e me fala logo, como é que você pôde me esconder esse tempo todo que tava trepa... Dormindo com o Harry?

Gina ficou pálida.

— Como... Como é que é?

— É isso mesmo Gina. Eu já sei de tudo... O que significa isso?

— Eu... Eu... – Ela não conseguia falar, não sabia o que dizer, então virou-se furiosa, o rosto tão vermelho que parecia ferver – HARRY POTTER, SEU FILHO DE UMA PUTA!

Harry cruzou os braços numa expressão irritada como uma criança.

— Caralho! Vou ter que quebrar as pernas de vocês para começarem a respeitar minha mãe? Ela tá morta, porra.

— POR QUE, HARRY?

— Nós tínhamos que contar Gina.

— Não põe a culpa nele Ginevra.

Gina não deu atenção a Rony.

— Tínhamos uma virgula, eu disse a você. Eu falei para ficar com essa maldita boca fechada, seu... Seu... Ahh!

— Gina, eu acho que essa gritaria vai fazer mal para o garoto.

- Harry, pelo amor de Deus... – Tanto a voz quanto a expressão dela agora estavam chorosa.

— Gina – Harry disfarçou um sorriso – Não precisamos mais esconder nada, Rony já sabe de tudo – Ele começou a enumerar nos dedos — Sabe de nós, do pirralho, que vamos nos casar...

— Bebê, Harry e não pirralho, você fala como se... COMO É?

— Ele sabe...

— Nós vamos o que, Harry Potter? — A voz dela saiu meia fina e estrangulada. Rony se interpôs.

— Vocês vão o óbvio, não é Gina...

— NÃO SE METE! – Ela disse com raiva e virou-se novamente para Harry – Você bebeu? Você fumou maconha? Cheirou seus sapatos ou algo parecido com isso?

— Gina, que palhaçada é essa? Nós vamos nos casar, é obvio que vamos, olha só, tá aqui a aliança de noivado – Ele colocou nas mãos dela completamente desajeitado – Precisamos começar os preparativos.

— Não vamos... NÃO... VAMOS... CASAR.

Ele estreitou os olhos.

— VAMOS... SIM.

— NÃO VAMOS NÃO. QUEM VOCÊ PENSA QUE É PARA DECIDIR MEU DESTINO DESSE JEITO?

— O PAI DO SEU FILHO!

— E VOCÊ ACHA QUE ISSO LHE DÁ ALGUM DIREITO?

— CLARO QUE DÁ, ESSA CRIANÇA TEM QUE TER UMA FAMÍLIA, É O CORRETO.

— VAI SE FODER HARRY POTTER. NÃO VOU ME CASAR POR CAUSA DO SEU PESO NA CONSCIÊNCIA.

Eles falavam freneticamente, um sobre o outro, suas vozes duelava para sobressair-se.

— NÃO SEJA INFANTIL.

Rony viu que estava sobrando, e pela primeira vez, não lhe incomodou ver um homem batendo boca tão calorosamente com sua irmã. Em outra ocasião ele correria em seu socorro e colocaria o cara a nocaute, mas ao ser ver, Harry já tinha sido nocauteado há muito tempo, então ele simplesmente saiu e deu privacidade aos brigões.

Eles não viram Rony sair, estavam mais preocupados com a sua guerrinha particular. Gina sentia os olhos arderem. Havia recebido um pedido de casamento. Um pedido que vinha do pior homem que já havia conhecido, contudo, do único homem que ela, sendo honesta consigo mesmo, tivera uma louca vontade de aceitar. Amava Harry. O que ia fazer? Mas não se casaria por que ele era um ser primitivo, não se tornaria uma prisioneira de um casamento falso por que tinha cometido o erro de engravidar.

— Isso não é justo, eu mereço mais que isso.

— Gina... Deixe de ser teimosa – Os ânimos acalmaram um pouco – Nós vamos casar em um mês, você pode escolher o lugar e...

— NÃO. Harry, não... Não vamos casar, não vou casar sem uma razão que seja digna.

— Gina, meu Deus, pare de ser tão teimosa, será que você não vê, vai ser melhor para todo mundo... Nosso bebê...

— Não Harry, chega. Não há bebê algum — Ela deixou que as lágrimas caíssem então. Harry ficou por um bom tempo, paralisado. As palavras lhe faltaram por algum tempo, sua garganta secou e o coração doeu.

— Não tem graça, Gina.

— Não estou... Brincando — Ela falou entre soluços.

— Pára com isso Gina, depois eu que sou o infantil. Fica falando bobagem só para não ter que casar – Ele sentiu uma ponta de mágoa ao dizer isso e reagiu como sempre reagia quando seu orgulho se feria – Se você acha que eu estou feliz com isso, pode acreditar, não estou. Nunca quis casar, e assim como você também não acho a ideia mais brilhante, mas você sabe, no fundo, que eu tenho razão, não sabe?

Aquilo doeu mais do que quando o médico lhe dissera que ela realmente não estava grávida. Saber que não estava grávida, foi para ela, com toda sinceridade, um misto de alívio e decepção. Não sabia explicar direito o por que de ambos. Mas ouvir Harry dizer aquilo, só reforçara sua posição de que não casaria, simplesmente por obrigação.

— Não... Estou brincando... Você é surdo? — Ela assumiu a única posição que conhecia para permanecer no controle. Atacar.

— Cacete, Gina! Não tenho tempo e nem paciência para isso — Ele cruzou os braços e estreitou os olhos, como sempre fazia quando estava numa discussão séria.

— Cacete, digo eu, Harry James Potter. Não seja teimoso, não estou brincando. Fui ao médico hoje de manhã, estava me sentindo mal e tive medo, achei melhor ir de uma vez e fiz o exame. Não há bebê... – Ela tomou um pouco de ar – Era... O que eu... Tive sintomas de uma gravidez falsa...

— Mas... – Ele começou a falar, mas não havia o que ser dito – Tem certeza? — A voz dele ficou mais baixa e mais suave.

— Tenho... – Ela deixou que mais lágrimas caíssem – O médico garantiu que os sintomas eram psicológicos — Ele se aproximou dela, assumindo automaticamente uma posição protetora, mas Gina recuou.

— Não quer ir em outro médico? Podemos consultar especialistas... Podemos ir consultar médicos americanos se quiser... Ou... franceses... Ou... Cuba... Eu ouvi dizer que eles tem métodos e pesquisas avançadas em...

— Não! Harry... Não tenho uma doença rara e sem cura. Tive uma gravidez falsa e acho que os médicos ingleses são bons o suficiente, obrigado — Ele ainda pensou em dizer mais alguma coisa, mas não sabia o que... Então deu meia volta e sentou para lidar com as próprias sensações.

O que realmente estava sentindo naquele momento? Já havia sentido ódio, dor, decepção, mas aquilo... Era diferente. Era um vazio... Como muitos se sentem quando há algo ruim com o que lidar, mas era um vazio sutil, um sentimento que era adverso à toda a sua doutrina de vida.

Deveria estar feliz. Estava livre.

Não precisaria lidar com uma criança, nem aprender a ser pai, não estava preparado para isso e nem precisaria ficar, era como se um problema tivesse sido resolvido sem que ele precisasse nem se esforçar. Deveria estar feliz. Mas tudo o que conseguia sentir era um vazio estranho no peito como se tivesse perdido algo de muito valor. Harry não era bom com os sentimentos... Nunca fora e agora muito menos.

Havia algo queimando dentro dele, queimando tanto que ele não conseguia nem ao menos tentar ajudar Gina que chorava copiosamente no outro sofá. Sempre se sentira compelido a correr em seu socorro, mesmo sabendo que não fazia o menor estilo “príncipe encantado”, mas Gina lhe inspirava um instinto protetor que nunca tinha tido antes. Mas desta vez ele não podia. Ele simplesmente não podia. Por que agora, ele tinha a própria dor com o que lidar. Sua garanta estava seca, o ar que ele puxava sutilmente pela boca arranhava a sua laringe como se ela estivesse tapada de alguma forma.

Seu corpo doía de formas diferentes, fosse pelas batidas dolorosas do coração em ritmo descompassado, pelo buraco que havia se formado em seu estomago ou pelas pulsações que ele sentia em toda a pele como se seu coração houvesse explodido e se multiplicado, voando em sua corrente sanguínea por todo o corpo. Ele mal conseguia respirar. Precisava de ar, precisava pensar em outra coisa. Então ele levantou e caminhou até perto da porta. Pareceria um covarde fugindo dali, mas do jeito que estava se sentindo, ele não conseguiria fazer nada de bom, ficando.

— Tudo bem, Gina... Acho que... É algo bom para nós dois, afinal de contas — Ele disse, com pouca força na voz, sem qualquer convicção, e se Gina não estivesse tão abalada, não teria se ofendido.

Harry saiu, e ela se encolheu no sofá. Estava sofrendo. Por várias razões. Pelo pedido de casamento que ofendera seu ego, pela pouca importância que ela tinha para Harry... E principalmente por ter perdido o filho do homem que ela amava.

O telefone tocou. Ela se sentiu tentada a não atender, mas podia ser do trabalho, e ela era uma profissional.

Ela mal disse “alô” e já ouviu a voz chorosa e embolada de Astoria, tentando dizer algo incompreensível. Depois de alguns minutos de um diálogo confuso, Gina concordou em ir curar as dores da amiga. Seria bom para ela pensar em algo além da sua catástrofe particular, e quem sabe depois que Astoria pusesse suas próprias dores para fora, ela pudesse dividir aquilo.

Antes de sair de casa porém, lembrou-se de Hermione. Outra mulher sofrendo ao seu próprio modo. Por que não chamá-la? Por que não usar aquele momento de dor para uní-las? Podia ser bom para todas elas. Então ela procurou em sua agenda e enviou primeiro uma SMS, Hermione poderia pensar que Rony estava usando seu celular. Esperou alguns minutos até que ela pudesse receber e ler a mensagem e então ligou. Aquele seria um dia de mulheres.

Os homens estavam proibidos.

...

Astoria estava deitada na cama, rosto inchado, olhos vermelhos, nariz congestionado, todos os sintomas físicos de uma bela dor de cotovelo. Não conseguia evitar de pensar as lembranças do seu relacionamento. Estava com uma caixa de fotografias ao lado. As lagrimas não paravam de descer.

Olhou para uma foto deles, uma de suas favoritas.

- Adoraria olhar nos seus olhos agora só para te dizer como você é burro Draco Malfoy. Burro e cego, como não consegue enxergar o quanto eu te amo? — Ela sussurrou.

“- Amor… Tori… Eu estou tentando te mostrar que sei desenhar…

— E eu estou tentando te atrapalhar, me dá um beijinho Dray…”



Ela enxugou as novas lágrimas que desceram e bateu na cama revoltada.

— Como você é imbecil, Draco Malfoy!

A campainha tocou. Astoria havia convencido a si mesma que iria receber Gina de uma maneira mais calma e controlada, e pelo que pôde perceber, ela também não estava muito bem. Precisava fazer sua parte também.

Foi atender a porta convicta de que já tinha atingido sua cota de drama, mas quando olhou nos olhos da amiga, desabou de novo. Gina a abraçou e a levou para dentro informando de que teria chamado Hermione para a pequena reunião, e depois ouviu toda a historia da briga entre Astoria e Draco pacientemente.

— Então ele simplesmente te deixou? — Ela perguntou.

— Ele... Disse que... Ele simplesmente disse que não podia mais… Que não conseguia. Aquele idiota disse que estava me fazendo mal e que não era o melhor para mim. MAS EU TINHA QUE DECIDIR ISSO NÃO ACHA?

- Obviamente – Gina disse com os olhos estreitos – O Draco é um idiota...

— Não sei o que fazer Gina... Minha turnê com Ben começa na próxima semana, e eu... Eu não sinto vontade de subir ao palco. Eu fico pensando que onde quer que ele esteja, vai ficar imaginando mil coisas... Eu... — Ela recomeçou a chorar.

— Você não vai desistir da sua turnê Astoria Greengrass, não comece. Ela é importante para você, Draco devia saber disso. Quanto ao resto, dê tempo ao tempo, e deixe aquela doninha albina comigo.

A campainha tocou de novo. Foi a vez de Hermione chegar.

...

A alguns quilômetros dali, Harry estava sentado, em um dos muitos bares que possuía, em uma mesa de canto. Sabia que não lhe importunariam, que seus empregados não deixariam.

Estava muito desanimado, aquele era um dos poucos sentimentos com os quais ele não sabia lidar. Era um filho que ele não planejou. Por que tanta tristeza?

Remexeu os bolsos e pegou a caixa com o solitário. Olhou para o anel como se fosse um objeto não identificado.

— O que porra eu tô fazendo com essa merda de anel? — Questionou a si próprio. Baixo, porém irritado. Mas no fundo ainda queria ver Gina usando aquele anel.

— Se escondendo? — Ele olhou para cima e viu Rony. Seu amigo não parecia muito melhor. Estava machucado da briga anterior, e abatido. Muito abatido. Harry fez sinal para que ele sentasse.

— Tentando.

— O que houve com você e a Gina que ela saiu correndo para casa da Astoria? Você deixou minha irmã?

— Não... Não comece... – Harry fez uma careta amuada – Sua irmã não está gravida.

— Como assim? – Ele não conseguiu evitar o tom exagerado de surpresa.

— Ela... Eram sintomas de gravidez falsa... Ela... Não está... E não quer casar comigo — Havia um tom declarado de mágoa na voz dele.

— Ah... Eu devia sentir por isso?

Harry deu de ombros.

— Vocês terminaram?

— Não... Pelo menos ninguém falou em terminar, ela só... Não deseja casamento. Não cante vitória. Ainda vou comer sua irmã — Rony lhe mostrou o dedo médio.

— Não sei por que eu ainda me dou o trabalho de conversar com você... – Ele olhou de lado – Ah... Olha lá o Draco...

— Filho do Malfoy...

— Draco não é como o pai.

— Já ouvi isso antes.

Rony fez um sinal.

— Ei! Draco! Vem cá.

O homem aproximou-se e cumprimentou-os. Harry respondeu com um muxoxo.

- Não ligue para o mal educado, sente-se conosco.

Draco parecia tão abatido quanto os outros dois homens. Eles beberam por um momento, em silencio.

— Problemas também? — Harry falou.

— É... Quem não tem né?

— Mulheres?

— Sempre elas.

Harry arqueou a sobrancelha.

— É isso aí – Ele levantou pegando do garçom que passava três canecas de chopp – Levantem seus molengas.

Rony riu e Draco levantou.

— Vamos brindar.

— Brindar a que? – Rony perguntou.

— As mulheres... Vamos brindar as mulheres... Que são um problema.

— Sim, são – Ambos concordaram.

— Mas não conseguimos viver sem elas.

— É, não conseguimos – Eles concordaram em uníssono novamente como se fosse um coro.

— As nossas mulheres, então?

— Amém.

...

Na casa de Astoria, as mulheres também não pareciam muito felizes. Cada uma delas já havia relatado seu próprio dilema regado a vinho, lágrimas e filmes.

— Estes homens se acham no direito de nos manipular…- Disse Gina ainda irritada pela forma como Harry quase lhe impôs o casamento.

— É isso mesmo, fazer o que querem, a hora que querem e temos que sorrir para isso – rebateu Astoria com os olhos vada vez mais inchados.

— Depois adoram se fazer de vitima. Nossa que irritante! – Hermione disse com a voz engrolada, já alta pelo vinho -Eu… Odeio Rony… E nem tenho motivos. Não devia ter me apaixonado, sabe? Minha vida... Minha vida virou de cabeça para baixo depois disso. E meu filho? O pior de tudo é que até meu filho... Sente falta dele — Hermione disse com a voz fanhosa da bebida e arriou a cabeça no sofá soluçando um choro embriagado.

-Odeio Harry… — Gina disse soluçante – Ridiculo... Prepotente... Acha que manda em mim só por que é gostoso, pode isso? Desgraçado...

-Odeio Draco… — Astoria falou abafado – Odeio ele... – Ela gemeu um choro meio infantil – Eu o amo... Idiota, idiota!

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- Um brinde então aos nossos namorados, prepotentes que nos fazem apaixonar como idiotas e querer matá-los mesmo assim.

— Saúde!