Internato Madraio bell
4 O Primeiro Treino
Notas iniciais
O bosque do Orfanato Madraio Bell amanhecia com um intenso tempo pluvial. Tempo favorito para Serine, triste para Brigit.
As duas observavam o respingar das gotas afiadas no temporal que se iniciava naquela manhã pelo grande vidro da única janela.
— A chuva é tão...Triste... — Choramingou Brigit fungando várias vezes — É como se o dia estivesse chorando...
Serine quase não ouvia sua irmã. Estava com o nariz na vidraça acompanhando a chuva como uma criança que assiste tv. Seus olhos azuis desejavam estar ao lado de fora.
Avilyn era uma das únicas no quarto, ainda deitada na cama de teto espiando as meninas. Mesmo com a manhã parecendo uma madrugada com a forte tempestade, ainda não era escuro o bastante para a vampirinha.
Ouvindo o lamento de Brigit, ela revira na cama se cobrindo e fechando os olhos que brilhavam vermelho. Estava chovendo naquele dia. Não naquele exato dia, mas sim, no dia da queda do reino.
* * *
— MINHA NOSSA SEIVA CELESTE!! ERA PRA REVISAR OS LIVROS DA BIBLIOTECA TODINHA!??
A voz de Cino ultrapassava as estantes de livros de tão aguda.
Ailsa quase derrubou os materiais da mesa com o susto que teve.
— C-CINO!! Quase que meu coração explode! — Repreendeu Ailsa organizando os papeis — ...Claro que não!! Eu estou apenas me preparando para o primeiro treinamento. Não tínhamos esse tipo de atividade no antigo orfanato...
Cino passou a mão na testa.
— O TREINAMENTO! — Gritou reluzindo ainda mais sua aura dourada — COMO PUDE ESQUECER!
— Vamos começar essa manhã — Respondeu a fada escondendo os olhos incomodada — A madre não disse o quê será, por isso estou revisando tudo que posso.
Cino observava a amiga voltar a mergulhar nos estudos.
Ver Ailsa concentrada nos livros eram momentos familiares, coisas que aconteciam a qualquer hora do dia quando moravam no orfanato de Thamedal.
Reviver aquele momento acalorava o coração da fadinha que mal notava o sorriso formado em seu rosto.
— Do que está rindo? Do que está rindo? — Vital estava esse tempo todo quieta brincando com os livros que flutuavam das prateleiras. Pendurada em uma enciclopédia em movimento, ela voava em círculos ao redor da mesa das fadas — YUPIIIIIIIIIII...
Cino ficava tonta seguindo Vital com os olhos enquanto Ailsa mal notava que as fadas ainda estavam ali de tão focada que estava nos livros.
Algo repentino aconteceu. Ailsa sentiu seus dedos dos pés encharcarem dentro dos sapatos. Seu grito agudo pegou de surpresa as duas amigas que seguiram o olhar assustado de Ailsa para o chão.
— ÁGUA! ÁGUAAA!! — Berrou Vital balançando as perninhas enquanto segurava a enciclopédia com os dois braços.
Cino e Ailsa se entreolharam com a mesma certeza em mente.
— Serine... — Disseram as duas juntas sem surpresa na voz.
Minutos depois Ailsa, Cino e Vital voavam pelos corredores seguindo os rastros d´água pela galeria extensa do castelo. Eram grandes poças que esparramavam para todos os lados apesar de esboçarem uma espécie de trilha que acabou conduzindo as três até ao dormitório.
Vital pousou correndo até a porta mas as duas repreenderam pondo a pequena para trás.
A fresta da porta vazava água continuamente como uma ligeira cachoeira. Cino e Ailsa engoliram em seco ao abrirem a porta.
Uma forte onda percorreu desequilibrando as meninas e carregando Vital corredor afora.
— ESTOU BEEM!! — Avisou a pequena ao se agarrar num pedestal de gesso.
As fadas sacudiram as asas molhadas e perceberam que dentro do dormitório chovia!
Se depararam com Serine rodopiando e saltando de cama em cama, Brigit num cantinho chorando e Avilyn sentada de cabeça para baixo no teto com os braços cruzados e um olhar desdenhoso.
— Santa seiva celeste... — Ailsa olhou surpresa para o teto do qual caía gotas de água que encharcavam as camas.
Humanos chamariam de goteiras, mas o teto estava intacto por obra de:
— MÁGICA! — Gritou Cino saltando sem perceber que espirrava água na cara de Ailsa — Pelos tombos da coruja, até você está praticando para o treinamento e eu não! — Cruzou os braços.
— É mentira! Isso não é treino algum! Ela está me provocando! Agora é o pobrezinho do quarto que está chorando... — Fungou Brigit abraçando a parede cochichando com voz aveludada "Não chore quartinho, não chore..."
Avilyn encarava Brigit se perguntando quando a fada notaria que aquilo não eram lágrimas. Seus pensamentos foram interrompidos por um gritos abaixo do teto.
As meninas corriam atrás de um sapo rechonchudo que surgiu no meio da água acumulada causando uma grande confusão entre as fadas que agora queriam capturar o pobre animal que saltitava assustado.
Ailsa adorava sapos para fazer poções e testar feitiços. Diferente de Cino que gostava de beijá-los na esperança deles virarem porcos (Porque Cino adorava bacon)
''CRUEL!!'' Comentavam Serine e Brigit sempre ao ouvirem sobre isso pois ambas preferiam conversar com os sapos, e bater papo com aquele que surgiu no quarto seria uma boa. Avilyn observava do teto as fadas correndo. Ela não dava a mínima pois sapos para ela não eram tão gostosos.
Um clima de tensão se iniciou ao verem que o sapo havia parado numa das camas do dormitório. Imediatamente todas cessaram a correria e ficaram encarando o animalzinho. Era um momento decisivo entre as quatro que o rodeavam calculando o melhor momento para apanhá-lo...
O sapo as surpreendeu dando um salto janela afora.
Um grande silêncio reinou entre as fadas. Em poucos minutos a quebra da calmaria deu início a um salto coletivo entre as quatro fadas janela afora também! ''O SAPO É MEU!!'' ''NÃO! ELE É MEU!!'' ''VOCÊ ESTÁ INTERDITANDO A JANELA!!'' ''ESQUECI QUE NÃO TENHO ASAS!!''
Tombava Brigit ao aterrissar de bruços no chão e logo voltava a correr tentando alcançar o voo das outras que poucos instantes topavam de cara no chão por conta dos empurrões.
Ali a poucos metros estava a pequena Vital que segurava o anfíbio e provocava as meninas com caretas. Aquilo foi início de uma grande perseguição pelo jardim chuvoso. Até Avilyn haveria saído do quarto para não ficar de fora.
Todas sabiam que estavam lidando com Vital, a pequena colecionadora de bichinhos desde o orfanato nos tempos de Thamedal.
Enquanto a criança corria, seus pequenos pés provocavam um forte tremor no solo do jardim desequilibrando suas amigas. Era uma força absurda para uma fada tão pequena.
Logo ali numa das varandas da catedral, estava Madre Artemísia sentada observando sua xícara de café tremer em cima da mesa. Seus olhos púrpura se iluminaram ao avistar as crianças correrem e as convidou para sentar com um simples aceno de mão.
A freira segurou um risinho ao perceber que todas estavam encharcadas e sujas de lama.
As crianças ficaram quietas ao sentarem em volta da mesa. O silêncio de Artemísia era contagioso de modo que cessava até a própria chuva que atenuava suas gotas.
Os olhos da freira voltaram-se para o seu vaporoso café contido numa xícara de vidro.
As meninas observavam a Madre que pousava a palma da mão tapando a xícara, onde acumulava-se um pequeno vapor lá dentro que se formava uma pequena nuvem...
Essa nuvem foi crescendo no interior do vidro começando a fagulhar minúsculos raios e trovoadas, fazendo assim chover dentro do copo!
As crianças se inclinaram para ver mais de perto.
— SADÔ! — Gritou Serine espantada.
— A... A senhora f-fez chover dentro do copo..?
Gaguejou Ailsa impressionada com aquele feitiço que nunca vira antes.
Madre Artemísia apenas sorriu em resposta tirando a mão da xícara e assim fazendo a chuva cessar lá dentro.
— QUERO FAZER IGUAL!
Cino reluzia sua aura com muita intensidade ao lado de Avilyn que se protegia com sua sombrinha que havia ganho de presente da freira no dia anterior.
Artemísia sussurrou um ''Tentem'' para as crianças que vislumbravam xícaras de vidro surgirem diante delas.
Vital pôs a mãozinha com tanta força na xícara que espatifou o vidro inteirinho derramando café pela mesa. Logo em seguida se materializava outra xícara para o teste que a mesma acabou destruindo por acidente novamente... E de novo... E de novo...
Brigit achava a xícara quente demais e assoprava a mão toda vez que a encostava enquanto Serine ajudava a irmã assoprando o café.
A vampirinha foi a primeira a demonstrar empenho.
O vapor subindo a sua mão pálida foi formando uma nuvem como a da freira. Em poucos segundos, puderam ouvir trovoadas isoladas vibrando na xícara.
O café foi sugado inteiramente pela nuvem que crescia cada vez mais.
Artemísia acompanhava as finas rachaduras que desenhavam-se na xícara de Avilyn. A vibração da pequena tempestade fazia o recipiente dar pequenos tremores na mesa.
Brigit se assustou com a cor negra que a nuvem formava e impressionada como uma Ailsa boquiaberta, puderam ver que gotas de sangue respingavam da nuvem!
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