Internato Limoeiro
32 Capítulo XXXI- Agito dominical
Notas iniciais
O relógio ainda marcava oito da manhã quando Magali acordou em um pulo após seu celular tocar. Dificilmente recebia ligações, mas como ainda estava com sono, apenas tateou a mesinha ao seu lado e atendeu o celular, sem nem olhar quem era.
"Alô?" atendeu com um bocejo.
"Oi, Magali! É a Isa!" a outra voz soou e a morena, por um instante, não relacionou a voz ao nome.
"Que Isa?" perguntou ouvindo um riso em resposta.
"Isadora! Do grupo de teatro do IL." respondeu e só então Magali lembrou.
"Ah! Oi, Isadora! Acho que você errou o número, eu não sou do grupo de teatro." respondeu ainda sonolenta.
"Mas é do grupo de música! Hoje às dez tem ensaio geral, esteja no IL na hora!" a outra disse e logo desligou.
Magali olhou para o celular apertando os olhos e logo o abandonou na mesinha, antes de deitar de novo. Assim que fechou os olhos, o aparelho começou a vibrar seguidas vezes. Daquela vez, ela despertou.
"Ô saco!" reclamou enquanto pegava o celular e viu que eram três áudios de Mônica.
"Miga, a Isadora acordou disposta a acabar com meu dia de descanso!" ouviu o primeiro.
"Ela me liga às oito da manhã de um domingo pra marcar ensaio geral pra daqui duas horas. Francamente… me arrependo de ter escolhido teatro!" ouviu o segundo com um riso.
"Eu sei que você também 'tá nesse ensaio, então vamos tomar café juntas na padaria perto do IL? É aquela tal de padaria Joaquim." ouviu o terceiro.
Em vez de mandar um áudio, Magali apenas digitou que podiam se encontrar no local combinado dali alguns minutos e se levantou indo até seu guarda-roupas.
*
Enquanto isso, no internato, Ramona estava junto de Gabriela e Milena que tomavam café da manhã, a ruiva já havia acabado. As três observavam Sofia, que ria alto junto de quatro pessoas, três delas estavam na praia no dia anterior.
"Eu não sabia que Sofia tinha mais amigos além da Denise e Jeremias." Gabriela comentou.
"É porque você não viu ontem! Ramona e eu dividimos o quarto com ela, essas meninas ficaram lá até a hora do toque de recolher! Só falando sobre a praia. Parece que ontem foi um marco pra elas pra alguma coisa que não entendi." Milena revelou.
"Acho que era… busca pela autoaceitação." Ramona disse tentando lembrar.
A loira assentiu.
"Legal. Mas e a Denise nessa história?" perguntou.
"O que a Denise tem a ver?" a ruiva perguntou.
"Maria Melo 'tá nesse grupinho." Milena respondeu.
Ramona observou o grupo e pareceu se lembrar de quem era.
"Ah, uma vez eu ouvi Maria e Denise conversando. Elas não eram amigas?" a novata perguntou.
"Acho que não mais. Tanto por ela ter ficado contra Denise no jornal, quanto por Maria ter ficado com Jeremias." a loira falou e Ramona deu de ombros.
"Do jornal até entendo. Agora o que o Jeremias tem a ver com isso?" perguntou.
"Você nunca reparou? Denise parece ter uma quedinha por ele." Milena comentou.
"E eu acho que ele também tem uma por ela!" Gabriela opinou.
Ramona crispou os lábios.
"Não presto muita atenção nela há um tempo, mas sei que nem ela e nem Jeremias são tímidos. O que impediria eles então?" perguntou.
"Tá aí uma boa pergunta!" a morena questionou e, no mesmo instante, Do Contra apareceu.
"Olá, meninas!" cumprimentou.
"Ué, a fotossíntese não foi suficiente hoje?" Ramona perguntou ao ver que ele tinha uma bandeja em mãos.
O rapaz riu divertido enquanto as outras duas olhavam sem entender.
"Fotossíntese? Você acabou de ser chamado de planta ou foi impressão minha?" Milena comentou.
"De acordo com a Ramona, eu sou um pé de jabuticaba muito gostoso. Já volto." Do Contra falou deixando a bandeja na mesa e saindo.
As outras duas olharam para Ramona com um sorriso malicioso.
“Eu ‘tô bem curiosa sobre essa história.” Milena comentou e Ramona riu desviando o olhar.
“Não é o que parece! É que ele gosta de tomar sol e a gente brinca que é fotossíntese. Então ele disse que se eu fosse uma planta, eu seria um pé de morango; e eu disse que ele seria um pé de jabuticaba." explicou e as duas franziram o cenho.
“Nossa, vocês têm uns papos bem aleatórios mesmo. Mas ouvimos uma característica a mais.” a loira falou fazendo Ramona rir sem graça.
“Eu não quis dizer que ele era gostoso, eu ‘tava pensando na jabuticaba!” ressaltou.
“Mas não acha nem um pouquinho? Olha pra ele! O carinha é bonito.” Milena comentou olhando para o rapaz, que falava com a cozinheira.
Ramona sentiu as bochechas esquentarem enquanto Gabriela negava com a cabeça e ria.
“Ah... sei lá. Nunca reparei!” a ruiva respondeu sem ser muito sincera, achava Do Contra bonito.
“Milena, Milena! Tikara vai ficar arrasado em saber que você anda elogiando outros topetudos.” Gabriela comentou e a de cabelos compridos riu.
“Eu descobri que ele é ciumento, então talvez.” respondeu risonha.
“Vocês ‘tão namorando?” Ramona perguntou.
“Não, mas ele é desses que têm ciúmes de ficante. Se bem que ele nem me considera mais ficante.” a outra respondeu.
“Caramba... as coisas evoluíram rápido entre vocês dois.” a loira observou.
“E você e Toni? Eu vi vocês ontem e o papo parecia bom." a morena lembrou e a amiga deu de ombros.
“Era sobre a peça.” respondeu.
Antes que falassem mais alguma coisa, Do Contra retornou com um bolinho em mãos.
“Como vi que as meninas estavam comendo e você não, peguei pra você. É de morango.” falou entregando o doce à amiga, que sorriu para ele.
“Obrigada, Do Contra!” agradeceu e olhou para as amigas, que faziam corações com as mãos, e apenas negou com a cabeça enquanto ria.
*
Não muito longe dali, Sofia ria de uma história que um de seus amigos havia contado. Era divertido estar com eles, mesmo que ainda fosse a que menos falava.
“E você, Sofia? Como era na pré-adolescência?” o rapaz ali presente perguntou.
“Digamos que tiveram bons e maus momentos.” ela respondeu.
“Eu só tive maus momentos! Tanto que vim parar aqui!” Maria comentou.
“Não exagera, Maria. A gente sabe que você gosta do IL.” uma outra falou.
“Depende. Algumas coisas aqui são legais, mas outras não. Falando em outras...” respondeu apontando com a cabeça para trás.
Sofia olhou, eram Denise e Jeremias com alguns papéis em mãos.
“Você não gosta do Jeremias? Você ficava com ele!” uma delas lembrou.
“Ele é legal, mas anda com ela. Não me leve a mal, Sofia, mas a Denise fez muita merda por muito tempo.” Maria respondeu.
A outra respirou fundo.
“Mas ela se arrependeu. Tanto que tem pedido desculpas!” defendeu.
“E quem garante que é verdade? Eu trabalhei com ela no jornal, ela já manipulou muitas notícias!” Maria ressaltou.
“Posso te garantir que ela se arrependeu. Inclusive, vou apresentar eles pra vocês. Denise! Jeremias!” chamou e eles olharam antes de se aproximarem.
Maria revirou os olhos, levando um cutucão de uma outra garota da mesa.
“Oi, Sofia! Oi, gente!” Jeremias cumprimentou com um sorriso.
“Oi! Eu adorei o luau!” uma delas falou.
“Eu também, você leva muito jeito!” outra disse.
“Eu não fui, mas lembro da festa de boas vindas.” o rapaz disse.
“Valeu, gente!” Jeremias agradeceu.
Denise havia ficado quieta, mas decidiu cumprimentar também.
“Oi!” falou e os demais assentiram.
“Oi.” responderam.
Tanto Jeremias quanto Sofia se sentiram constrangidos pelo clima estranho que ficou no ar. Então a moça decidiu falar.
“Ér... deixa eu apresentar vocês! Essa é Agnes, do terceiro ano.” apontou para uma garota loira de óculos de grau.
“Aquela é Sarah, também do terceiro.” apontou para outra de cabelos azuis ondulados.
“A Maria vocês já conhecem e aquele é Luca, do primeiro.” apontou para um rapaz ruivo e cadeirante.
“É um prazer!” Denise e Jeremias disseram em uníssono e os demais apenas sorriram em resposta.
O silêncio novamente pairou na mesa.
“E ai... como vocês se conheceram?” Jeremias quebrou o silêncio.
“A gente ‘tava na biblioteca estudando e vimos a Sofia quebrando a cabeça com um exercício, a gente se ofereceu pra ajudar e ela topou. Nisso a gente acabou se falando e vimos que temos muito em comum.” Luca respondeu sorridente.
“Mesmo? Tipo o quê?” Denise perguntou.
Os amigos de Sofia encararam a ruiva sem muito ânimo e Denise quis bufar.
“Por algum motivo e em algum momento nos sentimos mal com nós mesmos, então decidimos nos apoiar nessa tentativa de melhora.” Maria respondeu com a voz séria.
“Muito legal esse apoio mútuo!” Jeremias falou recebendo sorrisos em resposta.
“É uma sensação ótima mesmo!” Sarah respondeu animada.
Denise encarou o chão e levantou em seguida.
“Não vou atrapalhar a conversa de vocês, vou indo nessa.” falou saindo rapidamente.
Sofia suspirou antes de ir atrás de Denise. Jeremias ia com elas quando Agnes o chamou.
“Jeremias! Não é que a gente não goste da Denise, é que ela machucou muita gente!" comentou.
“Sim, ela fez muita coisa errada. Mas ela se arrependeu e ‘tá tentando se redimir!” ele disse
Maria bufou.
“Ela mandou mensagem de texto, Jeremias! Onde que isso é tentar se redimir?” questionou.
“Onde que isso não é tentar se redimir? Nem todo mundo consegue dar a cara a tapa pra uma escola inteira. Mais ainda quando praticamente ninguém te dá uma segunda chance. Maria, você era amiga dela!” o moreno rebateu.
“Nem vem tentar me chantagear.” ela disse apontando o dedo.
“Não ‘tô tentando te chantagear! Acha que eu não sei que muita gente tem motivos pra ter raiva dela? É claro que eu sei! Eu também tinha! Mas não acha que alguém que ‘tá tentando melhorar merece uma nova oportunidade? O próprio jornal não fez isso quando pediu desculpas?” falou e a outra abriu e fechou a boca.
Jeremias não a esperou dizer mais nada, apenas saiu de lá deixando o grupo pensativo.
*
Enquanto isso, na padaria Joaquim, Magali e Mônica tomavam café da manhã. A primeira falava sobre o dia anterior com Cascão.
“Ele pegou na sua mão e você ficou toda boba com isso? Em que século vocês vivem?” a de cabelos curtos perguntou.
Magali deu de ombros.
“Ué, o Cebola te pediu em namoro com pouquíssimas ficadas. Não existe uma regra de relacionamentos, Mônica. Ele ter segurado na minha mão, pra andar de mãos dadas comigo, mostra que nossa relação ‘tá mudando.” explicou.
Mônica assentiu.
“Tem razão, é fofinho. Não esperava isso do Cascão, confesso.” falou e a amiga riu.
“O que você esperava?” a outra perguntou.
“Sei lá, que ele tivesse uma pegada monstra.” Mônica respondeu movendo os dois braços para frente e para trás.
Magali riu alto.
“Cê é doida, Mônica! Mas e você? Vai fazer o que hoje com seu namoradinho?” perguntou e a amiga deu de ombros com um sorriso.
“Não sei, tem esse ensaio, né? Falando nele, vamos lá pro IL agora! Isadora é chata com pontualidade.” comentou e as duas foram até o caixa.
“Vai ser só isso?” um rapaz ruivo e gordinho perguntou.
“Sim! Hoje sim.” Mônica respondeu e ele assentiu.
Assim que pagaram, o atendente, que também era padeiro nas horas vagas, sorriu para Magali, que não viu e logo saiu do local com uma risonha Mônica.
“Miga, ele te deu mole.” comentou e a amiga deu de ombros.
“É o Joaquim. A gente ficou quando era mais novo, mas só isso mesmo.” respondeu e a amiga sorriu.
“Quem beija melhor? Ele ou o Cascão?” perguntou e a de cabelos longos deu de ombros.
“Eu tinha treze anos quando fiquei com o Joaquim. Eu mesma não sabia beijar, então não tem muito como comparar.” respondeu e as duas continuaram andando.
*
Ainda não eram dez horas quando Toni e Gabriela chegaram no auditório, Isadora havia pedido que os dois fossem lá mais cedo, talvez por eles já estarem no prédio. A mais velha ainda não havia chegado, então os dois se sentaram no palco.
“E ai? Empolgado com a peça?” ela perguntou e ele riu.
“Sim! Esse texto foi difícil de decorar, mas como eu sou foda... vou fazer um excelente trabalho.” brincou e a moça riu.
“Já entrou no personagem? Calma, rapaz.” falou e ele deu de ombros.
“E você? Animada?” perguntou e a loira assentiu.
“Sim, foi tudo estressante, mas até que foi legal.” respondeu.
“O que exatamente?” perguntou e ela o encarou.
“Acho que o meu papel, ele foi muito interessante! Eu te conheci melhor.” Gabriela disse e Toni sorriu.
“Mas eu não, você nunca fala nada sobre sua vida de fora do IL.” falou e ela deitou no palco.
“Não é lá essas coisas. Moro longe daqui e tenho vizinhos muito barulhentos pra ficar lá o fim de semana todo. E nunca fui muito amiga deles, então aqui chega a ser mais divertido.” a moça respondeu e ele riu também se deitando.
“Quão chata é a vida de alguém pra achar aqui divertido?” perguntou e foi a vez de ela rir.
“Muito. Mas agora você também fica aqui direto, então sua vida de fora também deve ser entediante.” comentou.
Toni encarou o teto.
“Moro com meu pai e meu avô. Meu avô é um machista incurável e meu pai nunca superou o divórcio, então sempre xinga minha mãe. Eles me deram um saco de areia pra servir como meu psicólogo e pra eu aprender a bater em alguém.” respondeu e ela o encarou de olhos arregalados.
“Isso é sério?” perguntou e ele assentiu sem olhá-la.
“Sim, mas relaxa. Eu fiz terapia por anos e às vezes, nas férias, minha mãe sempre me incentivou a tentar ser alguém... melhor. Então essas coisas que eles falam não me afetam completamente.” respondeu e ela suspirou aliviada.
“Ainda bem. Mas e ai? O que virou aquela sua ideia de... ‘cê sabe, repensar sua vida?" a moça perguntou a fim de mudar de assunto e o loiro se espreguiçou.
“Eu falei com o Jeremias e com minha mãe hoje cedo.” respondeu e ela olhou surpresa.
“Mesmo? Sua mãe eu entendi, porque é sua mãe! Mas o Jerê...” falou e ele riu.
“O Jeremias foi um bullie, lembra? E hoje ele é uma pessoa que pensa diferente, talvez ele pudesse me ajudar. E de fato ajudou. Já minha mãe, é que eu... eu quero voltar pra terapia, mas sabia que meu pai e meu avô não iriam me ajudar nisso.” respondeu e ela sorriu para ele.
“É muito bom ouvir isso, Toni!” exclamou e ele assentiu enquanto tombava a cabeça para olhá-la, ela ainda o olhava.
“Você me ajudou nisso. Quando ninguém 'tava do meu lado, você apareceu, mesmo que obrigada. Mas você nunca teve a obrigação de ficar, entende?” falou sincero e ela sorriu sem graça enquanto desviava o olhar.
“Não é como se tivesse sido ruim... ficar.” a loira comentou sentindo a estranheza das palavras.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio até Isadora aparecer.
“Oi, meus queridos! Chamei vocês aqui porque queria falar uma coisa pra vocês.” ela disse e os dois se sentaram.
“Que coisa? Que precisamos melhorar a interpretação?” Toni perguntou.
“Também, mas não era isso. Quero dizer que estou orgulhosa de vocês dois. Da Mônica também, mas o desafio de vocês era maior. Vocês nunca foram muito próximos, e agora eu sinto uma certa cumplicidade entre vocês quando vejo os ensaios, a mesma que os personagens da peça precisavam ter! É ótimo ver essa dedicação!" ela exclamou e os dois sorriram para ela.
A mais velha olhou para a sua prancheta.
“Acho que devem estar mais ansiosos que eu para a peça! Quando acabar finalmente vão poder voltar às vidas normais de vocês! Não vão mais precisar fingir amizade ou tentar se comunicar em nome da arte!” disse observando os dois ao fim com um sorrisinho.
Toni e Gabriela pareceram sair de um transe com aquelas palavras. Com o fim da peça, nenhum dos dois precisava mais tentar construir uma interação com o outro. Esse pensamento fez com que os dois se olhassem e não conseguissem dizer nada.
Antes que fizessem alguma coisa, Xavier entrou na sala arrastando uma caixa de som. Não só ele entrou, outros membros do grupo de teatro também.
“Isadora, onde eu coloco isso? Aqui ou na sala que acontece as aulas e música?” ele perguntou e ela foi ajudá-lo.
Toni levantou e deixou o palco com um pulo.
“Vou beber água.” falou saindo em seguida.
A cacheada passou as mãos nos cabelos enquanto suspirava.
*
Quando Mônica e Magali chegaram no internato foram direto para o auditório, onde já estava todo o resto do elenco e alguns membros do grupo de música. Isadora parecia eufórica.
“Gente, marquei esse ensaio geral porque a peça é semana que vem e as coisas mudaram.” começou.
“Ah, não! Vocês mudaram o roteiro de novo? Não dá mais tempo pra mudanças, Isadora!” Toni exclamou.
“Não! O roteiro continua o mesmo. O que mudou é que agora não vai ser só uma apresentação pro IL, e sim uma apresentação do IL.” ela disse e os colegas franziram o cenho.
“Acho que não entendi.” Mônica comentou.
Isadora sorriu largamente.
“Carlito, de repente, abriu o evento pra público externo. Então nossos pais, amigos e qualquer outra pessoa que quiser vai poder vir! Então, além do teatro, vai ter mostra de alguns projetos dos grupos avançados! Vocês e o resto do grupo de música também vão mostrar trabalho e é isso. Pelo que eu soube, os professores vão falar disso amanhã, mas isso só faz com que nossa peça precise ser sem erros!” exclamou.
Todos pareceram surpresos e alguns amedrontados, apresentar para o internato era completamente diferente de apresentar para as pessoas de fora dele.
“Entenderam o motivo da reunião geral? Agora vamos fazer um ensaio com o apoio musical, o figurino, rever as falas e até a dança final. Magali e Jeremias, o professor de música veio pra ver como vocês ‘tão na voz e tudo mais.” Isadora disse e uma verdadeira correria começou dentro do auditório.
*
Mesmo com direito a intervalos, o ensaio durava horas. O restante dos alunos do internato, que ficavam lá aos fins de semana, podiam ouvir tudo que acontecia, mas muitos ignoravam.
Cascão caminhava até a biblioteca quando passou em frente à uma sala de aula e ouviu um som de música e a voz feminina que tanto adorava, que de repente parou. Curioso, o rapaz foi espiar pela fresta da porta entreaberta.
“Magali, precisa melhorar o timbre!” a voz do professor de música soou.
Magali bufou.
“A gente não pode ensaiar outra música? Já é a terceira vez nessa mesma!” ela reclamou.
“E você continua sem emoção nenhuma! É uma música que transmite paixão, deixe a paixão pular pra fora do peito de vocês todos! Vão me dizer que nenhum de vocês já se sentiu apaixonado?” ele perguntou.
Cascão não conseguia ver o rosto de Magali, mas ouviu um risinho, que também o fez rir.
“Talvez.” ela respondeu e os meninos riram.
“Isso serve pra mim também, professor? Eu sou só o cara do som.” a voz de Xaveco soou.
“Claro, Xavier! Todos merecem passar por aquele sentimento inexplicável.” a voz do professor soou.
Cascão sorriu com essa fala enquanto sentia um estranha familiaridade com aquilo. O som dos instrumentos voltou e ele já estava prestes a se sentar para ouvir quando sentiu alguém tocar em seu ombro e se assustou.
“Que susto, Cebola! O que ‘cê ‘tá fazendo aqui?” Cascão questionou baixo.
“Mônica enviou mensagem dizendo que não vai sair daqui tão cedo, então vim pra ficar um pouco com ela.” respondeu também baixo.
O outro sorriu malicioso.
“É mesmo... vocês ‘tão namorando agora! Parabéns pelo namoro, irmão!" falou mais alto e o amigo riu.
“Valeu! O que você 'tá fazendo abaixado aí?” perguntou e Cascão pareceu lembrar o que fazia.
“Eu ‘tava passando quando ouvi a música. Magá ‘tá ensaiando com os meninos pra peça.” respondeu, novamente diminuindo a voz.
Cebola sorriu sapeca.
“Vamos lá no auditório ver a Mônica ensaiando! Quero ter um spoilerzinho.” sugeriu.
“Vai você sozinho! Aqui ‘tá melhor.” o amigo respondeu.
“Não, né! Não dá pra espiar essas coisas sozinho.” Cebola ressaltou alto.
“Espera aí, gente. Acho que tem alguém lá fora.” a voz do professor soou e os dois arregalaram os olhos.
“Deu ruim! Corre, corre, corre!” Cascão falou correndo e Cebola correu também.
Os dois pararam de correr quando chegaram na área verde. Lá, sentaram em um banco para recuperarem o ar.
“Por que ‘tá tão cansado? ‘Tá ficando fora de forma, capitão?” Cebola zombou enquanto ria ofegante.
“Não mais que você. Uma tartaruga seria mais rápida.” Cascão rebateu e o amigo não evitou um riso.
“O auditório é ali. Vamos lá dar uma olhadinha.” Cebola sugeriu e o outro negou com a cabeça.
“Pra que essa curiosidade toda? É medo do lance entre ela e Toni na peça acabar sendo real?” perguntou.
“Claro que não. Só ‘tô curioso. Ninguém lá revela nada.” o outro respondeu e Cascão deu de ombros.
“Eu soube que a peça vai virar evento, então vai ser aberto pra quem quiser vir.” mudou o foco e Cebola riu.
“Tu é fofoqueiro, hein?” comentou e Cascão negou.
“Só ‘tô repassando informações. Mas, mudando de assunto, o que te fez querer namorar agora?” perguntou curioso.
Cebola sorriu.
“Eu não vi motivo pra não pedir, mesmo sendo rápido.” respondeu.
“Pra que esperar, né?” o amigo comentou e Cebola levantou uma sobrancelha.
“Se pensa assim, o que ‘tá esperando?” perguntou e Cascão riu enquanto olhava para o céu.
“Ih, Cebola... minha situação é diferente da sua.” falou.
“Como assim?” o amigo perguntou.
“Eu não gosto de pensar na Magali como a filha do diretor, mas é uma coisa que não dá pra ignorar. O Carlito já não gosta de ninguém, imagina de mim! O cara que veio pro IL porque tinha uns amigos problemáticos. Eu não quero levar problema pra vida dela.” revelou.
Cebola revirou os olhos.
“Cascão, a própria Magali ligou o foda-se pro pai quando entrou pro grupo de música. Acha mesmo que ela vai se importar com o que ele pensa ou não de você?” questionou.
“Ele ainda é o pai dela! E eu não quero ferrar com a relação deles. Eu gosto muito da Magali, tanto que nem sei como explicar. Mas... eu sei que o pai dela é rígido e que não vai aceitar. Fora que na escola é proibido namorar.” Cascão ressaltou.
Cebola deu um tapa forte no ombro do amigo.
“Desde quando você tem medo dele?! É do Carlito que estamos falando, Cássio! O cara puxa saco de aluno!” exclamou.
“Não é medo, Cebola! Eu não ‘tô nem aí pro que ele quiser fazer comigo, mas tem a Magali! Eu não quero que ela sofra!” o outro explicou e Cebola se calou.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio, por incrível que parecesse, Cebola compreendia o receio do amigo.
“Você gosta mesmo dela, hein? Nunca te vi falar assim.” comentou e Cascão suspirou.
“Com a Magali tudo é diferente. Sempre falei com ela, mesmo sendo uma coisa ou outra. Mas fui me aproximando e fui vendo que ela é... incrível! E quando ela enfrentou o pai pra fazer uma coisa que ela queria? Mano... nunca vi uma coisa tão linda em toda minha vida!” exclamou sincero e Cebola sorriu.
“Tá a-pai-xo-na-di-nhooo.” zombou e o amigo levantou.
“Vai lá espiar a Mônica, vai! Tomara que ela tenha que dar um puta beijão no Toni!” exclamou saindo e Cebola riu alto.
“Ah, qual foi, Cascão?! Eu ‘tava te zoando!” falou seguindo o amigo.
*
Quando o ensaio enfim acabou, muitos adolescentes preferiram ficar pelo internato, mas nem todos. Denise caminhava rumo à saída quando viu Jeremias sozinho na área verde, ele tinha o olhar perdido e um celular em mãos.
“Oi, Jerê!” cumprimentou e ele a olhou.
“E ai? Acabei não achando você e Sofia naquela hora e depois não tivemos tempo livre sem a Isadora junto.” falou e ela sorriu fraco enquanto se sentava com ele.
“Na verdade, nem a Sofia me achou. Eu queria descansar um pouco.” respondeu e ele franziu o cenho.
“Descansar?” o rapaz perguntou.
Denise respirou fundo.
“Sim. Eu ‘tô exausta disso tudo! Eu pedi desculpas pra todo mundo que eu expus e parece que tudo piorou! Viu os amigos da Sofia? Eles falavam com você com ânimo! Já comigo… era como se fosse só por educação e olhe lá. Mas eu não quero que ela se afaste deles, eu quero que a Sofia tenha mais amigos, que seja cada vez mais feliz! E ai eu vou lá e faço ela sair de lá pra ir atrás de mim.” desabafou.
“Ela foi atrás de você porque vocês são amigas.” Jeremias lembrou.
“E eles também são amigos dela! E me odeiam! Acho que a essa altura até eu me odeio. O que eu faço, Jerê?” perguntou com a voz levemente desesperada.
Jeremias mordeu o lábio inferior, não sabia o que dizer. Também não estava tão bem assim com toda aquela agitação dominical, mas decidiu dizer o que achava que precisava ter ouvido há alguns anos.
“Acho que antes de mais nada você não deveria se odiar, você ‘tá tentando, Denise. ‘Tá fazendo a sua parte! Não dá pra controlar a reação dos outros, não se machuque tanto!” falou com a voz calma e ela sorriu docemente e observou o rapaz por alguns segundos.
“Você simplesmente consegue me deixar melhor. Mesmo quando não ‘tá bem. O que aconteceu?” ela perguntou e ele ajeitou a postura.
“Nada. Só ‘tô cansado! Tive muito ensaio hoje!” falou desviando o olhar e ela negou com a cabeça.
“Jeremias! O tempo todo você abre os braços pra mim, deixa eu fazer o mesmo por você. Me fala o que ‘tá acontecendo!” ela disse segurando na mão do rapaz.
Jeremias respirou fundo.
“Parece que os convites já foram enviados pros nossos responsáveis, eu recebi uma mensagem dos meus pais. Eles vão vir com meus avós!” revelou e ela olhou sem entender.
“Isso não é uma boa notícia?” perguntou.
“É, mas... é a peça e minha participação nela que me preocupa.” ele respondeu.
“Fala de uma vez, Jeremias!” a ruiva pediu e ele bufou.
“E se não estiver bom o suficiente, Denise? E se não estiver aceitável pra todo mundo? As músicas também e...” falava até ela segurar em seus ombros e olhá-lo nos olhos.
Naquele momento, Denise se lembrou do momento em que os dois ficaram presos na biblioteca, lá ele havia mostrado ser inseguro a respeito de algumas opiniões de seus familiares, e aquilo parecia ter voltado com tudo.
“Jeremias, o roteiro ‘tá ótimo. Além de ter minhas mãos, algo que deixa tudo incrível, tem você nele, e você é incrível! Você se esforçou nele e nas músicas, seus pais vão gostar. E mesmo se não gostarem, você gostou de participar disso, e isso que importa!” exclamou e ele respirou fundo, como se acalmasse.
Denise, sem aviso prévio, deu um abraço apertado no moreno. Aquele abraço havia sido uma fonte de conforto mútua, tanto que durou mais do que imaginavam. Quando se afastaram, os rostos ficaram bem próximos. Diante disso, um questionamento surgiu na mente de Denise.
“O que vou falar agora foge completamente do que falamos, mas eu preciso saber de uma coisa. Aquele dia, na festa de boas-vindas...” falava.
“Sim...” ele incentivou que continuasse, tinha uma suposição em mente do que aconteceria.
“O que você faria se eu tivesse conseguido...” continuava até sentir um braço em seus ombros.
“Cadê meus roteiristas favoritos? Aqui!” era Isadora animada.
Os dois bufaram.
“O que você quer agora, Isadora? Ficou o dia todo no nosso pé!” Denise reclamou zangada.
“Desde ontem, na verdade.” Jeremias completou.
“Eu sei que eu ‘tô enchendo vocês, mas dessa vez é só pra ouvir um feedback dos ensaios. Afinal, vocês também escreveram a peça. O da Sofia eu já ouvi." Isadora respondeu.
Denise levantou.
“Exaustivos! Tanto que eu ‘tô vazando! Tchau!" falou e saiu em seguida a passos pesados, havia se irritado.
Jeremias também parecia irritado. E Isadora percebeu.
“Ai... eu interrompi alguma coisa, né?” perguntou e ele a encarou antes de suspirar.
“Não sei, Isadora. Mas eu realmente ‘tô cansado. Meu feedback é que os ensaios foram bons, mas cansativos, espero que a peça dê tão certo quanto os ensaios. Agora eu vou deitar.” falou saindo em seguida.
Isadora riu sem jeito.
“Eu realmente interrompi alguma coisa.” comentou negando com a cabeça.
*
Mônica havia optado em ficar no internato, então estava indo para seu dormitório quando sentiu um par de mãos cobrir-lhe os olhos.
“Adivinha quem é!” uma voz forçosamente fina soou e ela riu.
“Não sei, mas chuto que é um cara muito bonito e que fez uma declaração linda pra mim ontem.” falou e ele tirou as mãos dos olhos dela.
“Acertou!” Cebola exclamou e ela olhou ao redor antes de beijá-lo.
“Tô feliz em te ver, mas preferiria ter visto fora daqui. Desculpe, o ensaio foi muito mais longo do que imaginei!” ela falou.
“De boa, fiquei irritando o Cascão, e isso é ótimo.” o rapaz disse e ela riu.
“Você sabe algum lugar onde a gente possa ficar sozinho? Que estamos em território proibido.” a moça perguntou e ele pareceu ter uma ideia.
“Sim, mas fecha os olhos e segura na minha mão! Não vale espirar!” pediu e ela obedeceu.
“Olhe lá, hein?!” falou e ele começou a guiá-la.
Mônica não sabia para onde ele estava a levando, só sabia que o som dos outros alunos ia diminuindo conforme andavam. Após ouvir uma porta se abrir e quase tropeçar em um degrau, ele falou que ela podia abrir os olhos. A moça olhou em volta sentindo uma certa decepção, estavam em uma sala de aula.
“Uma sala de aula?” observou sem ânimo.
Cebola riu indo até uma cortina.
“Não é uma sala de aula qualquer! Aqui era a sala da direção, então tem essa coisinha aqui!” falou abrindo a cortina.
Naquele momento, Mônica abriu a boca surpresa. Lá havia uma janela grande que dava visão para vários prédios da cidade. Era possível observar o sol se pondo entre os prédios enquanto vários pássaros voavam. A moça olhou para o namorado, que arrastou duas cadeiras até lá.
“Como você sabe daqui?” perguntou.
“Digamos que aqui é um ponto cego que poucos têm direito.” ele respondeu e a moça franziu o cenho surpresa.
“Ué, mas você não é mais popular. Muito pelo contrário! Muita gente te acha um lixo.” a morena disse e ele sorriu amarelo.
“Não precisa ser tão sincera, Mônica. Você tem razão, eu não sou mais popular, mas meu melhor amigo é e tem amizade com uns inspetores daqui.” explicou e ela riu negando com a cabeça.
“Você não presta, Cebola.” comentou risonha enquanto ele a abraçava pelos ombros para observarem a rua.
“E ai? Por que parece tão cansada?” ele perguntou.
“Isadora pegou mais pesado que o habitual. Eu tive que repetir uma cena dez vezes! Dez! E ensaiamos a peça inteira várias vezes! A menina ‘tá surtada!" desabafou.
“Acredito em você. Eu lembro de como ela ‘tava brava naquele dia da biblioteca.” lembrou e Mônica riu.
“Aquele foi um dia importante pra nós dois. Naquela época, você já gostava de mim? Ou só me achava uma curiosa incurável?” perguntou e ele riu.
“Um pouco de cada. Mas acho que foi naquela época que eu vi que gostava de ter você por perto.” confessou e a moça sorriu enquanto o abraçava.
“Viu como você é muito melhor sendo você mesmo? Merece até um beijo!” exclamou enquanto se virava para beijá-lo e ele logo retribuiu.
*
Um pouco mais tarde, Xaveco foi à casa de Nikolas, onde também estava Tikara. Os três haviam combinado de jogarem mais cedo, mas adiaram para quando Xavier retornasse do internato.
“O que ‘cê ‘tava fazendo no IL mesmo?” Tikara perguntou enquanto digitava algo em seu celular.
“Ensaio geral da peça.” o loiro respondeu com um bocejo.
“Você vai participar da peça?” o de cabelos lisos perguntou.
“Mais ou menos, eu ‘tô na parte técnica.” Xaveco respondeu.
“Você gosta de caçar pra cabeça, hein, Xaveco?” Nikolas comentou enquanto conectava seu videogame à televisão.
“Até que é divertido. Mas acho que quem mais tem se divertido é você, Nik. Por que não chamou ela pra vir também?" perguntou subindo e descendo as sobrancelhas.
Tikara franziu o cenho.
“Ela quem?” perguntou curioso e Xaveco riu.
“Nik não te disse? Ele e Penha ‘tão ficando.” respondeu fazendo um bico enquanto juntava as pontas dos dedos de cada mão simbolizando um beijo.
"Fala baixo! Prefiro que meus pais ainda não saibam disso. E ela não pôde vir." Nik respondeu.
Tikara olhou para o amigo com um sorriso enquanto Xavier pegava seu celular que vibrou.
“Sabia que vocês iam se pegar! Mas acho engraçado que eu falo das minhas aventuras amorosas e vocês não. Na verdade, você só fala pro Xaveco as coisas, Nik.” observou.
“Eu não falo, ele que descobre. Por acaso, ele me viu e atrapalhou!" Nikolas esclareceu e Xaveco riu, mas não para eles, e sim para seu celular. Eram mensagens de Nimbus.
“Ainda embaçou? Isso sim é amigo! Olha pra ele! Deve ter feito contatinho na praia. Agora sai da seca, hein, Xaveco!" Tikara exclamou e o loiro olhou.
"Hã?" perguntou ainda rindo.
Nikolas se aproximou e olhou para o celular do amigo. Era uma foto do loiro com a língua roxa.
“Tá rindo da sua própria foto?” perguntou.
“Hã? Não é que o Nimbus me mandou! E... minha língua 'tava roxa!” falou e o amigo assentiu.
“Não sei o que tem de tão engraçado.” Tikara comentou e Xaveco bloqueou o celular.
“Piada interna. Do que vocês estavam falando?" perguntou olhando para eles.
“Sobre eu ser o único que fala dos meus lances. Nik, como você vai fazer pra ficar com Penha? Pegação é proibida.” Tikara perguntou a Nikolas.
“Sei lá. A gente vê o que faz.” comentou dando um tapa no ombro dele, que fez uma expressão de dor.
“Não bate, arrombado! Eu não passei muito protetor solar ontem e fiquei no sol.” revelou.
“Mas gel passou, tanto que acabou com o meu.” Xaveco comentou desbloqueando novamente o celular.
“Acabando com o gel dos amigos pra impressionar mulher? Gado demais.” Nik zombou e o amigo lhe mostrou o dedo médio antes de iniciar o jogo.
Xaveco viu outra mensagem de Nimbus, que elogiava seus cachos molhados, e sorriu abobado enquanto lembrava deles dois no dia anterior.
O exaustivo domingo não demorou para passar, assim como o resto da semana que pareceu voar para muitos jovens que se mobilizaram para que o evento do fim de semana acontecesse da melhor maneira, seria um momento especial.
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