Internato Limoeiro

41 Capítulo XXXX - Presente e futuro


Notas iniciais
Boa leitura

O domingo havia começado estranho, os responsáveis pelos jovens do internato haviam sido chamados, de última hora, para uma reunião.

Eram cerca de dez da manhã quando Carlito se juntou à Marocas e ao corpo docente no auditório, onde estavam os responsáveis em questão. Era perceptível a tensão que se acomodava em seus ombros, mas ainda sim tentava se manter firme.

"Bom dia a todos! Convoquei esta reunião para um assunto sério, que merece a atenção de vocês." ele começou.

O diretor umedeceu os lábios e olhou em volta sentindo o medo o dominar por alguns segundos, mas logo balançou a cabeça.

"O Internato Limoeiro, chamado carinhosamente de IL, preza muito pelo bem estar dos alunos. Porém, alguns problemas, inclusive de cunho financeiro, deixaram a família IL vulnerável. Ou seja, temo que até o fim do ano não tenhamos recursos para manter todos os bolsistas e que até ano que vem o Internato Limoeiro encerre suas atividades." ele falou firme e sons incrédulos soaram por todo o auditório.

"O senhor está nos dizendo que nossos filhos, bolsistas que tanto se esforçaram para entrar nesta escola, de uma hora para outra precisam achar uma nova? Mas que palhaçada é essa?!" uma mãe questionou furiosa.

"Não só os bolsistas! Este internato é caro! Como assim está passando por problemas financeiros?" um pai perguntou.

"Pais, sei que estão decepcionados, mas vamos manter a calma! Dividi essa reunião em tópicos para esclarecermos tudo e espero que compreendam!" Marocas interferiu.

Carlito respirou fundo enquanto olhava para o papel que leria.

"Primeiro tópico: o que a aconteceu com nosso querido IL. Bom, tivemos um probleminha na justiça, que não cabe aqui explicitar qual foi, e isso culminou em uma multa alta à instituição. Além disso, houve um crescimento no índice de evasão, ou seja, muitos alunos deixaram o internato. Então tudo isso colabora para que a situação tenha chegado ao nível que chegou." começou encarando a folha em que lia.

"Segundo tópico: alunos bolsistas. Temos hoje em cada sala de aula cerca de seis bolsistas. Esse número será reduzido para dois por sala. A escolha virá a partir de fatores como a conduta do aluno em sala de aula e no prédio; as notas; a participação e uma avaliação classificatória." continuou.

"Mas temos duas opções para o aluno que não conseguir ou não quiser se submeter a essa avaliação: a primeira seria continuar conosco, mas com uma bolsa parcial; e a segunda seria deixar o internato." disse e algumas pessoas riram sem humor.

"Para essa segunda sugestão em especial, saibam que vários colégios que se aproximam dos ótimos resultados do IL abriram inscrições para vestibulinhos." Marocas acrescentou.

"Terceiro tópico: futuro do Internato Limoeiro. Até o fim do ano, o IL manterá suas atividades, a excelência continuará a mesma! Mas haverá uma mudança de gestão, não serei mais o diretor." ele disse tirando os olhos do papel e encarando um ponto fixo no fundo do auditório.

"Isso é tudo, pais. Qualquer dúvida, iremos esclarecer e espero que continuem conosco neste momento difícil do internato." finalizou.

Vários responsáveis foram reclamar com direito a xingamentos e ameaças de processos. Em meio a isso, a mãe de Nikolas estava prestes a sair junto das mães de Xaveco e Tikara quando Ana Paula a chamou.

"Oi! Você é a mãe do Nikolas, do segundo ano, certo?" ela perguntou.

"Sim, por quê?" a outra confirmou e a docente sorriu.

*

Enquanto isso, em casa, um sorridente Nimbus estava deitado na cama de Do Contra trocando mensagens com Xaveco. O irmão, que até então ajeitava seu topete, o encarou.

"Por que mesmo você 'tá no meu quarto?" perguntou.

"A mãe me mandou aqui pra ter certeza que você colocaria alguma roupa decente. Não é todo dia que se recebe a namoradinha em casa, DC." respondeu sem olhá-lo.

Do Contra revirou o olhos. A mãe havia insistido tanto para conhecer Ramona que os dois decidiram marcar para o domingo em questão.

"Haja paciência…" balbuciou e Nimbus enfim o olhou.

"Mano, Nikolas e Tikara são tão legais quanto o Xavier?" Nimbus perguntou.

O mais novo deu de ombros.

"Não tenho muita proximidade com nenhum deles, mas parecem ser de boa. Por quê?" respondeu fazendo uma pergunta ao fim.

"Xaveco e eles sempre se reúnem pra jogar e ele me chamou pra ir também! Pelo visto Milena e Penha também vão." respondeu e o outro riu.

"Isso está me cheirando a encontro de casais." observou e o irmão riu olhando para baixo.

"Nada a ver! Ou acha que Xaveco vai me pedir em namoro?" perguntou e Do Contra cruzou os braços enquanto sorria malicioso.

"Tá esperançoso? Fazia tempo que eu não te via assim!" comentou.

"Com o quê? Com esse rolê? Sei que Xaveco e Milena são legais, porque tenho mais ligação com eles, agora Nikolas e Tikara sei pelo que Xaveco me fala e a Penha… ainda tenho lá minhas dúvidas." o mais velho respondeu.

"Eu 'tava falando desse possível pedido." o outro explicou.

Nimbus deu de ombros não escondendo um sorriso.

"Sei lá. Ele não vai precisar me apresentar pra nenhum deles, mas… aff! Eu 'tô me iludindo demais! Não sei o que 'tá acontecendo comigo!" falou enterrando a cabeça no travesseiro.

Do Contra riu.

"Eu sei! Na verdade, 'tá bem na cara." comentou.

Nimbus o olhou ainda deitado.

"O quê?" perguntou.

"Você 'tá apaixonado!" o outro respondeu simples e o irmão riu abobado.

"Como é estranho concordar com você! Eu acho que realmente 'tô apaixonado!" concordou e o irmão aplaudiu.

"Já pensou em falar pra ele?" Do Contra perguntou e Nimbus negou.

"Eu queria, de verdade. Mas acho que é muito cedo! Não acha que é rápido demais? O cara se assumiu pra ele mesmo há pouco tempo!" falou.

O irmão tombou com a cabeça.

"Não acho, e sabe por quê? A situação de vocês é excepcional! Nimbus, você ouviu o que o pai disse do IL! Você nem sabe se você ou o ele vão continuar lá pra vocês se pegarem todos os dias. Fora que você é do terceiro ano e nem sabe o que vai acontecer ano que vem ou até mesmo depois das férias. Então devia tentar fazer valer a pena." respondeu e o outro olhou surpreso.

"Caralho… Ramona 'tá realmente amolecendo esse seu coração de pedra! Nunca imaginei que ouviria isso de você." Nimbus comentou e o irmão riu.

"Ando me surpreendendo com muita coisa ultimamente, e não tem sido ruim. Agora se me dá licença, Ramona chegou." falou e o outro levantou.

"Vou também. Sou um ótimo cunhado." falou e o irmão franziu o cenho.

"O caralho que tu é, Nimbus! Por sua culpa, tivemos que conhecer as famílias com menos de uma semana de namoro!" Do Contra exclamou e o outro riu.

"Vocês namoravam há muito tempo, só não sabiam disso. Agora bora que é feio deixar os outros esperando." falou saindo com o irmão.

X

Assim que Do Contra abriu abriu o portão, sorriu para Ramona, que tinha uma embalagem em mãos. Os dois trocaram um selinho antes de ele encarar o objeto que ela tinha em mãos.

"Ora ora… o que temos aqui?" perguntou e ela riu.

"Minha mãe insistiu tanto que eu trouxesse alguma coisa que acabei nem te perguntando! Sua família gosta de pudim? Tirando você, é claro, que por algum motivo não gosta de doces." a moça perguntou e ele riu.

"Gosta. Entra! Hora de conhecer meus pais e olhar feio pro Nimbus sempre que possível." falou com um riso e eles entraram.

Assim que passaram pela porta, todas as três pessoas já os aguardavam.

"Ramona, esses são meus pais Mauro e Keiko. Pais, esta é minha namorada Ramona. O Nimbus você já conhece. Ela trouxe pudim, vou levar pra cozinha." apresentou e saiu deixando uma Ramona com vontade de rir da maneira que ele a apresentou aos pais.

"É um prazer! E é bom te ver, Nimbus." falou e logo os sogros se aproximaram.

"O prazer é nosso! Mais ainda por ser uma garota normal!" o homem disse e ela franziu o cenho sem entender.

"Vem cumprimentar ela, Nimbus! Sai desse celular!" Keiko chamou.

Nimbus levantou do sofá.

"Oi, Ramoninha! Bom te ver de novo!" ele disse dando um beijo em sua bochecha.

"Senta! Vamos nos conhecer melhor enquanto saboreamos aquele pudim e o café da manhã que preparamos pra você!" Keiko falou e Do Contra retornou com um copo de água e entregou à moça.

Todos se sentaram à mesa da sala de jantar.

"E ai? Como vocês se conheceram?" Keiko perguntou servindo um pedaço de pudim a ela.

"Durante um trote de boas vindas, eu entrei este ano no IL." Ramona respondeu após terminar sua água.

"E o que exatamente fez você se interessar por ele? Que conhecemos o filho que temos! Maurício é um rapaz muito difícil de lidar." o pai disse.

A ruiva franziu o cenho.

"Eu não achei! Muito pelo contrário, foi uma das pessoas que mais me dei bem no IL." ela respondeu.

"Não precisa tentar nos agradar, Ramona. Sabemos que nosso filho tem um jeito meio esquisito de agir. Mas quem sabe com você ele não se torne um pouco mais normal? Com hábitos normais?" a mais velha disse com um sorriso.

"Com menos esmaltes, menos estranhezas..." o pai falou com um riso.

Ramona engoliu em seco e lançou o olhar para Do Contra, que comia um iogurte sem preocupação alguma. A moça, desconfortável, desbloqueou discretamente seu celular e fingiu ser uma mensagem.

"Ai, gente, mil perdões! Minha mãe precisa de mim em casa, aconteceu um imprevisto!" mentiu se levantando.

"Não se preocupe, sabemos como é a vida. Foi um prazer!" Keiko disse sorridente.

"Mais ainda por descobrir que Maurício se interessou por uma garota normal." o pai completou.

"Acompanha ela, DC. Ela não vai te morder." Nimbus disse sorridente.

"Nimbus, cala a boca! Vamos lá, Mona." o mais novo disse também se levantando.

X

A caminho da casa da moça, Ramona parou de andar e se virou para o namorado.

"DC, eu menti. Minha mãe não me mandou mensagem nenhuma, é que eu… me senti meio desconfortável. Desculpe!" confessou e ele riu.

"Não precisa se desculpar, eu percebi. Já ia até sugerir alguma coisa. Meus pais conseguem deixar os outros assim quando o assunto sou eu." ele falou e ela sorriu fraco.

"Me responde uma coisa… o que eles querem dizer com eu ser normal?" perguntou curiosa.

"Eles me consideram meio anormal por causa do meu jeito de ser." o rapaz respondeu simples.

"E não te incomoda?" ela perguntou incrédula e ele deu de ombros.

"Já incomodou mais, mas como eu não fico tanto tempo junto com minha família, eu meio que passei a ignorar." respondeu.

"Não acha que seria bom falar com eles? Não vai ter mais internato que te mantenha fora a semana toda fugindo de conversas." ela sugeriu.

"E você não acha que seria bom ter uma conversa séria com sua avó, sua prima e até com seus pais?" o moreno devolveu.

Ramona riu.

"Tá fugindo do foco, a gente 'tava falando de você." ela disse e ele suspirou.

"É que tem vezes que meus pais 'tão de boa com meu estilo e tem vezes que não. Como você viu, na maioria das vezes não. É uma discussão muito cansativa, então preferi ficar na minha, responder o básico e seguir em frente." desabafou.

"Meu argumento é parecido com o seu: conversa muito cansativa." a ruiva falou.

Os dois ficaram alguns segundos em silêncio caminhando até ser a vez de ele rir.

"Interessante o rumo que IL tomou, não acha?" mudou de assunto e ela riu.

"Você não devia rir disso. É muito triste saber que ele 'tá nessa situação." a moça falou.

"Você 'tá rindo também. E outra, não importa a desculpa que deram, sabemos que é culpa da péssima gestão do Carlito." o moreno disse e ela assentiu.

"Cê vai continuar lá até o fim do ano?" ela perguntou e o rapaz deu de ombros.

"Eu ainda não sei o que vai ser da minha vida. E você?" respondeu fazendo uma pergunta ao fim e ela suspirou.

"Eu também não sei, mas é triste dar adeus ao IL. Foi um lugar em que eu mudei tanto, sabe?" Ramona comentou.

"Acho que até eu. Principalmente depois que você apareceu." falou apertando levemente a bochecha dela que riu.

"E você me ajudou a me sentir mais confiante!" ela disse e ele riu.

Os dois pararam por alguns segundos pensando em tudo que havia mudado em suas vidas, inclusive a postura que tinham diante de alguns acontecimentos, principalmente aqueles que envolviam outras pessoas.

"Sabe... Acho que você tem razão. Não vou ter mais o internato pra me afastar da minha família, então talvez não seja uma má ideia falar com eles. Mas não hoje!" Do Contra falou e ela sorriu.

"Sua defensiva me fez pensar um pouco no quanto eu fiquei na defensiva com minha avó e minha prima quando você foi lá em casa. Talvez… eu devesse falar com elas." Ramona disse fazendo ele rir.

"Então sua prima 'tava certa? Você realmente chamou sua avó de horrível?" perguntou e ela riu.

"Não diretamente." respondeu levantando os braços em rendição e ele assentiu.

"Vamos fazer um combinado então. Até um de nós sair do IL, vamos falar com eles." sugeriu e ela assentiu.

"Fechou!" concordou apertando a mão do namorado e ganhando um beijo em seguida.

*

Longe dali, Jeremias estava deitado em uma rede enquanto cantava sorridente para seu notebook, que estava em sua barriga.

"Então deixa eu te beijar até você sentir vontade de tirar a roupa. Deixa eu acompanhar esse instinto de aventura, de menina solta. Deixa minha estrela orbitar e brilhar no céu da sua boca. Deixa eu te mostrar que a vida pode ser melhor, mesmo sendo tão louca." ele cantarolou com um sorriso e a pessoa com quem falava riu alto.

"Pode parar nessa parte!" ela disse afastando o celular do notebook.

"Na boa, Dê, por que você queria tanto me ouvir cantando essa música? Minha voz nem 'tá lá essas coisas hoje." o rapaz perguntou e ela riu.

"Por dois motivos: você é do grupo de música e nunca cantou uma única músiquinha exclusivamente para mim. E segundo: é uma música interessante pra nós dois, mais ainda depois de a gente ter transado." Denise respondeu e ele olhou para a janela aberta que dava acesso à sala.

"Ô sutileza em pessoa, eu 'tô sem fone e meus avós 'tão ali na sala assistindo televisão." ele disse e ela riu.

"Falando comigo sem fone? Erro de principiante! E outra, sua avó sabe faz tempo que você gosta de mim e talvez que eu também goste de você, não tem pra que esconder." a moça falou animada.

"Você acabou de falar sobre outra coisa, algo que ela nem sonha que já fiz." falou abaixando o volume e ruiva riu alto.

"Acha mesmo que ela não sabe que você já se divertiu muito por esses matos aí, meu querido?" ela perguntou alto e risonha.

Jeremias ia responder quando viu seus pais chegando, eles haviam ido à reunião.

"Meus pais acabaram de chegar. Depois a gente se fala, beijo." falou e ela assentiu mandando um beijo.

Jeremias fechou o notebook e o colocou no banco de madeira ali perto.

"Tava falando com quem, meu filho?" o pai perguntou apenas por uma breve curiosidade.

"Tava cantando, então era a namoradinha." a avó disse risonha.

"A senhora 'tava ouvindo a conversa, vó?" Jeremias perguntou.

"Não muito, depois da música você começou a falar mais baixo." ela respondeu.

"Conversa que não queria que a gente ouvisse." o avô acrescentou.

"Que conversas são essas, Jeremias?" a mãe perguntou.

O adolescente umedeceu os lábios.

"Nada demais! Sobre o que era a reunião?" mudou o foco.

Os adultos riram.

"Algo me diz que temos que ter aquela conversa, querida." o pai comentou com a esposa.

"Não se preocupem! O garoto sabe como não engravidar alguém, ensinei umas coisas enquanto vocês rodavam o país como se não tivessem filho." o avô alfinetou e Jeremias suspirou, a velha briga de sempre estava prestes a voltar.

"Não vamos discutir sobre isso! Tem algo mais sério! Por que nunca disseram nada sobre a realidade do péssimo lugar que Jeremias estuda? A propósito, meu filho, você vai sair daquele internato e nos acompanhar já que seu avô se incomoda tanto com a nossa ausência em sua vida escolar." o pai de Jeremias falou.

"Se com vocês o menino vai ficar pulando de escola em escola, é melhor ficar com a gente!" a avó exclamou.

"Sair do internato? O que 'tá acontecendo aqui?" Jeremias questionou.

"O diretor fez todo um rodeio pra dizer que o internato 'tá falido e vai fechar as portas ano que vem. Além disso, falamos com uns pais e pelo visto o diretor fazia vista grossa pra bullying! Isso não vai ficar assim!" a mãe exclamou.

"Eu sei sobre essa parte do bullying, mas…" o rapaz falava até ser interrompido.

"E nunca nos disse, Jeremias?" os pais perguntaram juntos.

"Ele não disse porque não passa por isso, não é, Jeremias?" a avó falou.

"É." respondeu fraco.

"E alguém próximo sofreu?" a mãe perguntou.

"Sofreu." respondeu.

"E o que você fez?" ela perguntou.

"Eu ajudei!" ele respondeu e os avós bufaram.

"Não, Jeremias! Já te dissemos mil vezes! Não entre em lutas que não são suas!" o avô falou.

"Não! Ele tem que entrar, sim! Ele quer ajudar a criar um mundo melhor!" o pai exclamou.

"Criar um mundo melhor e acabar com ele mesmo? Aposto que você teve problemas por ter ajudado essa pessoa, não teve, Jeremias?" o avô perguntou.

Jeremias suspirou.

"Tive." respondeu.

"Tão vendo? Vocês querem que o filho de vocês apanhe na rua por estar se metendo em problemas que não são dele?" a avó perguntou.

"Nós já quase apanhamos em nome de direitos." o pai falou.

"Problema de vocês! A escolha foi de vocês! Mas não obriguem o menino a passar pelo mesmo!" o avô exclamou.

A discussão continuava até Jeremias se cansar. Estava cansado de todas essas discussões e todas os problemas que traziam.

"JÁ CHEGA! EU NÃO AGUENTO MAIS!" gritou e todos o olharam.

"O que foi, meu filho?" a mãe perguntou.

"Essa treta de vocês! Eu fico confuso! Eu não sei qual lado seguir! Eu não quero desapontar nenhum de vocês! Mas a cada dia que se passa, eu me desaponto mais comigo mesmo por aguentar tudo isso calado!" exclamou.

"Mãe, pai! Vô, vó! Eu entro em algumas lutas alheias porque eu gosto de ajudar as pessoas no que eu posso! Eu quero fazer diferente! Mas eu sei que meus avós não estão errados em se preocuparem com o resultado dessa escolha! Eu sei que o mundo lá fora é duro com quem defende o outro, mas sei que é mais duro ainda pra quem 'tá precisando ser defendido!" continuou.

"Eu concordo com coisas dos dois lados! Mas também discordo de muita coisa! Eu nunca vou ser esse garoto certinho o tempo todo! Assim como nunca vou ser o cara que fecha os olhos pra injustiças que eu sei que consigo ajudar! Então, por favor, parem de brigar por isso! Isso 'tá acabando comigo!" pediu.

Os adultos se entreolharam surpresos e envergonhados, não sabiam disso.

"Agora sobre o internato! Eu posso até deixar o IL, mas eu não quero ficar pulando de escola em escola, isso acontecia quando eu era mais novo e eu quero terminar a escola sem perder algum conteúdo por ter entrado depois de todo mundo já ter aprendido!" Jeremias confessou.

"Concordo com ele! Além de eu não querer que meu neto tenha esses problemas, eu gosto de ter ele aqui com a gente! Mesmo que tenha ficado pouco esse ano! E vocês mesmos tinham concordado em deixar ele com a gente para não prejudicar os estudos! Vocês se mudam demais e ele tem a chance de ficar em um lugar só pra estudar tranquilo, não é justo tirar isso dele!" a avó exclamou.

Os pais se entreolharam.

"Também sentimos falta do nosso menino. E as mudanças ajudam a conhecer várias culturas diferentes e isso pode ser útil a ele!" o pai disse.

"Sim. Mas já perguntaram pro Jeremias como isso o afeta? Outras vezes vocês deixaram que ele escolhesse o que é melhor para ele. Por que dessa vez, que ele é até mais velho, vocês não querem deixar?" o avô perguntou.

Os pais suspiraram.

"Vocês têm razão! Fomos muito radicais! Jeremias, meu filho, o que você acha que vai ser melhor para o seu futuro?" a mãe perguntou.

Jeremias crispou os lábios.

"Eu preciso pensar um pouco." respondeu e os mais velhos assentiram.

Jeremias foi para seu quarto e se jogou na cama deitando de barriga para baixo, não fazia ideia de qual seria sua decisão.

*

De volta ao Limoeiro, Denise estava entediada na sala quando Tikara apareceu.

"Ué, não 'tava falando com o Jeremias?" ele perguntou.

"Como sabia que era com ele?" a ruiva perguntou.

"Pela conversa e meio que todo mundo sabe que vocês têm alguma coisa. Mas devia ficar esperta, nossos pais 'tão em casa." o rapaz disse se sentando.

"Quando eles 'tão juntos não prestam muita atenção ao redor. Fora que sua mãe sabe do Jeremias." Denise falou.

"E seu pai da Milena." ele disse e ela riu.

"Quem diria que até pouco tempo a gente não se aturava?! Mas você deve estar triste, quando finalmente pode ficar com a capitã, ela muda de escola." ela disse com um riso.

"Como tem tanta certeza que ela não vai fechar o ano lá igual a gente?" Tikara perguntou desviando o olhar, era um fato difícil de aceitar.

"Tikara, ela é bolsista e o IL vai cortar um monte de bolsas." ela respondeu simples.

"Mas vai rolar umas provas! Inteligente do jeito que ela é, vai passar em primeiro lugar!" ele exclamou.

"Não, inteligente do jeito que ela é, vai pular fora e ir atrás de um colégio melhor. A notícia que o IL 'tá falido já 'tá correndo pela cidade, já vi até panfleto de vestibulinho pro segundo semestre de colégio que eu nunca vi fazer isso!" Denise disse e ele respirou fundo enquanto encarava o teto.

"Você não parece preocupada com a possível saída do Jeremias." ele comentou.

Denise deu de ombros também evitando olhá-lo.

"Eu conheci ele esse ano, vou ficar bem!" respondeu tentando não demostrar suas incertezas.

Tikara riu.

"Você também se preocupa, só não quer assumir." afirmou e ela deu de ombros.

"Percebe que estamos mais uma vez perdendo alguém?" ele divagou e a ruiva riu.

"Minha mãe e seu pai foram embora, Tikara. Não considero isso um perder." ela respondeu.

"Se eles voltassem, você perdoaria?" o rapaz perguntou a olhando e ela deu de ombros.

"Eu não sei. E você?" devolveu a pergunta.

"Também não sei, acho que não." ele respondeu.

Denise balançou a cabeça.

"Chega desse assunto! Seus amiguinhos não vinham hoje?" ela perguntou.

"Mais tarde. Mas além deles Milena e Penha vêm também." respondeu e ela riu.

"Nunca imaginei que algum dia você seria amigo da Penha!" comentou.

"Eu também não, a vida é uma caixinha de surpresas." falou e ela riu.

No batente da cozinha, os pais dos dois olhavam para os filhos que, diferente de antes, se falavam tranquilamente.

"Acho que o internato realmente fez bem à relação deles." a mãe de Tikara disse.

"Não só deles." o marido falou sorridente.

O som da campainha chamou a atenção de todos e Denise foi atender, era Sofia.

"Sofia! O que aconteceu?" Denise perguntou ao ver que a outra estava afobada.

Os demais deixaram as duas a sós.

"Você 'tá sabendo do que vai acontecer com o IL, né?" perguntou e a ruiva assentiu.

"Sim e vou continuar lá até o fim do ano juntinho com você!" respondeu risonha e a outra negou.

"É aí que 'tá, Dê! Eu não vou ficar!" falou e a ruiva arregalou os olhos.

"O quê? Mas seus pais sempre amaram o IL de um jeito impressionante!" exclamou.

"É… mas eles perceberam que eu ando mais confiante e feliz comigo mesma. E disseram que eu 'tô pronta pra voltar pra uma escola normal." Sofia explicou e Denise encarou boquiaberta.

"Mas… você quer?" perguntou e Sofia suspirou.

"Eu tenho péssimas memórias do IL, mas também tenho algumas boas e queria pelo menos terminar o ano lá! Com meus amigos!" ela disse.

"Você sabe se o Jerê vai continuar?" Denise perguntou.

"Eu pensei que você saberia! Ele foi pro IL justamente por morar longe da cidade, então talvez ele continue, não sei. Mas, Denise, meus pais 'tão muito decididos e ficaram mais ainda depois de saber que o IL foi processado. Não sei se vou conseguir convencer eles!" falou e a ruiva respirou fundo enquanto abraçava Sofia, não sabia o que esperar disso.

*

Não muito longe dali estavam Gabriela e Toni, ela havia o chamado para tomar sorvete e espairecer enquanto falavam do internato.

"Então você vai abandonar o IL?" ele perguntou.

"Na verdade, foi o IL que me abandonou. Todos os bolsistas fizeram uma prova difícil; passaram por trotes; tiveram que aturar um monte de coisa calados pra não perder a bolsa; tiveram que ser mil vezes mais cautelosos em tudo; ter notas altíssimas e tudo mais pra de repente a direção dar três opções: pagar metade, mudar de escola ou fazer de novo uma prova, que com certeza vai estar mais difícil." Gabriela enumerou.

"Em uma muita gente não tem esse dinheiro; na outra eles ligaram o mais singelo foda-se e na terceira não vale a pena!" a moça concluiu.

"É… e você vai estar sozinha nessa?" perguntou e ela riu.

"Não, Milena vai sair também. Mas e você? Vai continuar?" ela perguntou e ele assentiu.

"Sim! Meu pai foi na reunião e disse que não adianta procurar outra escola no meio do ano, ainda disse que quem processou acha que 'tá vivendo num conto de fadas." o loiro respondeu e ela negou com a cabeça.

"Que horror! Mas talvez seja bom pra você continuar, rever sua trajetória lá e de quebra ficar longe das, com todo respeito, belas influências masculinas da sua casa é uma boa." comentou e ele riu.

"Acho que você pode saber de uma novidade da minha vida. Minha mãe vai entrar na justiça pra ter minha guarda de volta. E pelos argumentos que ela tem, acho que ela consegue." o rapaz revelou e ela sorriu.

"Isso é muito bom, Toni!" exclamou animada.

"É! Mas ainda tem chão pela frente. Você vai fazer falta no IL, o time de vôlei nunca mais vai ser o mesmo." o loiro disse e ela riu.

"O nada sentimental Marco Antônio vai sentir saudades de mim?" perguntou brincalhona.

Toni negou com a cabeça enquanto ria.

"Ah, nem vem, Gabriela! Eu sei que você também vai! Imagina a tristeza de não ver este rostinho lindo todos os dias." disse apontando para si mesmo e ela riu.

"Nem é tudo isso!" falou e ele se aproximou de seu rosto.

"Não sou?" ele perguntou e ela mordeu o lábio inferior olhando para os dele.

"Não! Mas até que é bonitinho." disse roubando um selinho dele que riu.

"Bom, não precisa ficar triste. Eu sei pular muro." ele falou e ela riu encarando as próprias unhas.

"Mas não sabe pular um carrinho de feira e desviar de um guarda-chuva." provocou.

"Em minha defesa, não é normal alguém te bater com um guarda-chuva só por causa de uma quase trombada. Ela pegou muito pesado!" exclamou e ela riu antes de olhá-lo bem, nunca imaginou que Toni seria uma de suas saudades do internato.

*

A caminho da casa de Tikara, Xavier estava com Nimbus bastante animado. Nimbus, por sua vez, tinha uma certa ansiedade, e não era de ver os demais.

"Você vai ver, Nim. Hoje eu faço o Nikolas chorar quando quebrar o recorde dele!" Xaveco exclamou animado.

"Como você tem tanta certeza que vai ganhar?" o outro perguntou.

"Simples, a notícia do IL pegou todo mundo de surpresa, mas Tikara e eu somos novatos, então nem afeta tanto assim. Mas como ele é veterano, tem mais lembranças. Ou seja, o cara vai estar em choque ainda." respondeu e o moreno riu.

"Você é mau quando quer, Xavier! Ele vai sair do IL?" perguntou.

"Acho que não, Tikara e eu vamos continuar e nossos pais não iriam querer destruir os três mosqueteiros, né?" falou e o outro deu de ombros.

"Mudando de assunto… eu só tenho amizade lá com você e Milena, eu vou ser apresentado aos outros?" perguntou e o loiro riu.

"Apresentado? Mas vocês já se conhecem!" respondeu e o moreno riu olhando para cima.

"É, mas… eles chamaram as namoradas hoje. E eu vou chegar lá e você vai dizer o quê? Tipo… olha, gente, eu trouxe o Nimbus pra não segurar vela sozinho. Ou… olha, gente, encontro de casais." falou esperando que o rapaz entendesse.

Xaveco olhou para Nimbus por alguns segundos antes de rir.

"Nimbus, às vezes você precisa ser mais direto." falou e o moreno olhou para os lados antes de puxar Xaveco até um beco vazio.

"Como eu disse aquele dia, você me faz querer pular aquelas 'etapas', me faz querer aproveitar cada segundo ao seu lado. Então eu, mais uma vez, decidi ignorar essa voz que me manda ir com calma e ouvir meu coração." começou e Xaveco o olhava sentindo o coração bater mais rápido.

Nimbus segurou em sua mão.

"Xavier, aqui não é um lugar tão bonito ou arrumado como o que a gente se beijou pela primeira vez! E nem como a praia em que você ganha um brilho especial, mais ainda se sua língua estiver roxa. Mas, ao seu lado, tudo em minha volta parece sumir e eu só vejo seu brilho! Sei que pode ser cedo e não precisa me responder agora, mas… quer namorar comigo?" fez o pedido com um largo sorriso.

Xaveco abriu a boca surpreso. Por mais que estivesse vivendo seus melhores dias com ele, não imaginava que seria pedido em namoro. Todavia, sentiu todas as suas incertezas do começo do ano sumirem e darem espaço para os bons momentos, e aquele sentimento era a resposta de todos os possíveis resquícios de dúvidas.

"Nimbus… eu não preciso pensar, é claro que quero namorar com você! Sempre que estou com você, eu esqueço de todas as incertezas que tive sobre minha sexualidade e me sinto feliz por ter me descoberto com você!" respondeu doce e Nimbus o abraçou.

Os dois simplesmente ignoraram tudo ao redor, fosse o medo de serem vistos, fosse fato de estarem em um beco nada agradável ou até mesmo que tinham um compromisso, e se beijaram apaixonadamente. Era um beijo sereno e recheado de sentimentos que deixavam tudo mais bonito. Quando o ar faltou, os dois mantiveram as testas coladas e um sorriso foi trocado.

"Eu adoraria ficar aqui, mas temos um encontro de casais pra participar!" o loiro disse e o outro assentiu.

X

Enquanto isso, na casa de Tikara, o rapaz terminava de arrumar a sala enquanto Milena trocava mensagens com Gabriela. Penha, que acabara de chegar, se sentou ao lado de Nikolas, que parecia perdido em seus pensamentos.

"Que calor que 'tá lá forra!" comentou após dar um beijinho no rosto dele e ele a olhar.

"Nem percebi." ele disse.

Penha o observou.

"O que foi? Você 'tá com uma carrinha…" perguntou o abraçando pelos ombros e ele forçou um sorriso.

"Ainda 'tô um pouco surpreso com a novidade do IL." respondeu.

"Nada de falar de internato aqui hoje! É dia de jogar e talvez bater recordes!" Tikara disse e Milena riu.

"Por que não pode falar do IL?" Penha perguntou.

"Tika 'tá meio triste com esse assunto!" a cacheada respondeu.

"Por quê? 'Tá com pena do Carlito?" a outra perguntou e ele deu de ombros.

"Quem em sã consciência tem pena dele? Ele passou pano pra bullying porque quis." respondeu.

"Eu diria que porque ele é idiota. Mas o Tika aboliu o tema internato depois de eu falar que vou sair de lá. Nik 'tá aí de prova." Milena explicou e o namorado cruzou os braços.

Penha olhou para Milena.

"Você vai pra onde?" perguntou curiosa e a outra deu de ombros.

"Não sei ainda. Mas ficar no IL não vai valer a pena pra mim, muito esforço pra um lugar que 'tá em ruínas." respondeu.

"Ah, que pena. Mas confesso que sabendo que você já não vai tentar manter a bolsa no IL, eu fico mais esperrançosa com a vaga. Eu querro continuar com meu amor e com os bocós pelo menos até o fim do ano." Penha disse e Nikolas sorriu amarelo.

"Tá vendo? Você poderia nutrir uma amizade com a Penha, mas sua escolha foi abandonar a gente!" Tikara comentou emburrado e ela riu enquanto o abraçava.

"Ele ficou sentido, gente. Eu não abandonei vocês, só vou mudar de escola! Ainda vamos nos ver!" ela disse dando um beijo nele enquanto ria.

"Não sendo só pra jogar, 'tá ótimo. Esses meninos jogam demais, só se veem forra do IL pra isso!" Penha comentou e a campainha tocou.

"Porque é legal!" Tikara falou indo atender.

Xaveco e Nimbus entraram.

"Chegou o casal que faltava! Vamos jogar!" o loiro disse alto e todos os encararam.

"Ah, então é ele! No fim das contas você realmente trocava a gente pelo Nimbus. Bem-vindo ao grupo, cara!" Nikolas falou com um sorriso, que foi retribuído.

"Antes de mais nada, o tema internato está proibido hoje. E Nimbus, todos vamos nos empenhar pra vencer esse senhor aqui que está desestabilizado!" Tikara disse apontando para o dono dos dreads.

"E ele não é o único. Oi, meninos!" Milena cumprimentou.

"Gente! Serrá possível que eu fui a única que ouviu a palavra casal? Eu nem sabia que eles erram gays! Muito menos que namorravam! Porra, Xavier! Por que não disse nada? Na nossa vez a gente te disse!" Penha perguntou.

"O namoro é recente e não ouvi nenhum parabéns, inclusive." Nimbus respondeu entrando no clima deles.

"Parabéns! Não seja um namorado ruim ao Xavequinho!" Milena disse.

"Parrabéns pela corragem em namorrar o adivinho do grupo." Penha falou.

"Eu não sou adivinho! Sou observador!" Xaveco respondeu.

"Não sei se você merece parabéns, Nimbus. 'Tá mais pra um boa sorte! Esse daí perde muitos jogos pro sedentário ali." Tikara zombou.

"Eu sou sedentário em outros tipos de jogos, mas você não quer que fale do IL. E parabéns aos dois, finalmente largou a vela, Xaveco." Nik disse.

"Por que não pode falar do IL?" Nimbus perguntou curioso.

"Porque Milena 'tá saindo e Tikarra 'tá triste. E eu com você, Xavier! Ouvia caladinho eu dizer que não tinha namorradinha sendo que gostava do mesmo que eu." Penha falou negando com a cabeça e ele riu.

"Eu achei que eles tinham dito pra vocês sobre eu ser gay, que péssimos namorados que vocês arranjaram!" Xaveco disse.

"Você não disse se era pra gente falar ou não." Tikara lembrou.

"Claro que podia! Elas são do, agora, sexteto, que logo será quinteto." Xaveco disse risonho.

"Insensível!" Tikara exclamou.

"Na verdade, possível quarteto. Que não sei o que meus pais vão decidir, eles são pessoas difíceis." Nimbus disse.

"Ou trio." Nikolas sussurrou.

"O quê?" Penha perguntou a ele.

"Eu não disse nada." respondeu.

Xaveco o olhou.

"Só agora que percebi… Nik 'tá com uma cara estranha hoje." observou.

"Eu percebi também, mas ele disse ser por causa do que não deve ser dito hoje, que começa com I e termina com L." Penha disse com um riso ao fim.

"Eu achei que fosse porque vamos bater o recorde dele, mas tenho minhas dúvidas…" ele disse.

Nikolas bufou.

"Sério que temos um casal novo e o foco 'tá em mim?" perguntou.

No mesmo instante, a mãe de Tikara apareceu.

"Nossa, como aqui 'tá cheio hoje. Ah, Nikolas! E ai? Aceitou a proposta? Deve estar muito feliz! Seus pais estão!" ela perguntou e todos o olharam sem entender.

"Que proposta?" Penha perguntou.

A mãe de Tikara olhou para Nikolas sem graça.

"Ih… você não tinha dito ainda? Desculpe! Vou deixar vocês." ela disse saindo em seguida.

Todos encararam Nikolas, que suspirou.

"Eu também vou sair do IL! A professora Ana Paula dá aula naquele colégio que todo ano vence olimpíadas de matemática e tem muito foco em exatas, e pelo visto desde a mostra de projetos a diretora de lá 'tava de olho em mim e na Hortênsia. Então nós dois vamos fazer a prova, mas independentemente do nosso resultado conseguiremos uma bolsa lá." revelou.

Os amigos pareceram atônitos, exceto Milena e Nimbus por não terem a mesma proximidade que os demais tinham.

"Essa diretora deve odiar o IL mesmo, tirou os únicos monitores de matemática." Nimbus sussurrou para Milena.

"Eliminando a concorrência." Milena sussurrou de volta.

"Dá pra vocês dois serrem mais sensíveis?! Nikolas não vai mais estudar com a gente!" Penha exclamou.

"Nosso melhor amigo!" Xaveco disse.

"Entendeu porque eu não queria falar do IL? Nikolas… você vai aceitar?" Tikara perguntou.

Nikolas deu de ombros.

"Eu ainda 'tô pensando, mas… eu acho que vou." respondeu.

Penha levantou e pegou sua bolsa.

"Eu vou pra casa, divirtam-se jogando." ela disse e o namorado levantou também.

"Penha!" chamou e ela o parou.

"Eu preciso absorver tudo isso, Nikolas. Então preciso ficar sozinha!" falou o beijando e saindo rapidamente.

Nikolas suspirou e se virou para os demais.

"Eu não vou jogar hoje, gente. Não 'tô com cabeça. Quebrem meu recorde!" falou também indo embora.

Milena e Nimbus se entreolharam, o clima estava ruim.

"Vocês querem ficar sozinhos?" ela perguntou calma alisando as costas do namorado.

"Sim!" Tikara falou com a voz baixa e ela assentiu e o beijou no rosto.

"Fiquem bem, ok?" Nimbus disse saindo com Milena após beijar o topo da cabeça do loiro.

Tikara olhou para Xavier, que havia se sentado.

"É impressão minha ou o cara que sem querer juntou o grupo 'tá pulando fora?" falou forçando um riso e o loiro o olhou sério.

"Não precisa zoar, Tikara. Eu sei que você 'tá mal por dois motivos, e não tem problema nisso! É um baque!" Xaveco disse.

"Acho que também preciso absorver tudo isso. Ainda quer jogar?" perguntou e o outro negou se levantando.

"Acho que não. Eu também tenho muita coisa pra absorver. A gente se vê amanhã, Tika." falou também deixando o local.

*

Magali estava deitada no sofá assistindo a um programa qualquer quando seu pai apareceu, ele parecia esgotado.

"Pai! Podemos conversar?" ela perguntou e ele assentiu.

"Claro! Já tive muitas conversas hoje, mas tenho tempo pra mais uma." respondeu e ela sorriu.

Magali se ajeitou.

"Eu queria me desculpar pela maneira que falei com o senhor. Eu fui desrespeitosa e não sou assim!" ela disse e ele assentiu.

"Acho que também te devo desculpas, minha filha. Tanto por ofender daquele jeito injusto o seu… amigo quanto por outras razões como minha postura no internato." falou.

"Claro!" desculpou-o.

Carlito sorriu.

"Mereço um abraço?" perguntou e ela sorriu enquanto ia abraçar o pai.

Assim que se afastaram, ela o olhou. Havia recebido mensagens dos amigos sobre a reunião do internato, mas queria ouvir dele.

"Eu ouvi uma conversa sobre um possível fim do internato. O que aconteceu?" perguntou e ele suspirou.

"Eu fiz muitas escolhas erradas, Magali. E agora as consequências vieram! O IL vai fechar ano que vem, mas até o fim do ano continuará funcionando. Porém… muitos alunos vão sair, disso eu sei." ele respondeu.

"Não tem nada que a gente possa fazer?" perguntou e ele negou.

"Não. Eu sinto muito." falou saindo da sala desanimado.

Magali olhou com pesar para o pai e sentiu o desânimo a acometer. Diante disso, decidiu chamar os amigos para fazerem alguma coisa.

X

Em uma lanchonete, os quatro amigos falavam sobre o internato.

"Deve estar feliz, Cascão. Você nunca gostou do IL!" Cebola comentou e o amigo riu.

"Não é como se eu odiasse, eu só prefiro não morar literalmente onde estudo. Na real, eu 'tô feliz por sair IL, mas 'tô mal por não estudar mais com vocês!" Cascão respondeu.

"Penso o mesmo! Eu tinha me acostumado, mas estudar num lugar que 'tá falindo é ruim até pro nosso aprendizado." Mônica disse.

"Vocês já sabem pra onde vão? Eu, pelo visto, vou mudar de escola só ano que vem." Magali perguntou com a cabeça apoiada na mão.

"Vou pra uma escola bilíngue. Vai tentar, Mô?" Cebola perguntou e ela riu.

"Nem a pau! Eu ainda não sei o que vai acontecer. Talvez eu continue até o ano que vem também, meus pais não disseram nada sobre me tirar agora." ela disse.

"Talvez eu volte pro Colégio Limoeiro." Cascão comentou incerto.

"Que tristeza! O quarteto se desfazendo." Mônica disse deitando a cabeça na mesa.

"Não vamos mais estudar juntos, mas ainda podemos ser amigos! Uma coisa não anula a outra!" Cebola disse afagando os cabelos da namorada.

Diante disso, Magali pensou um pouco e sorriu.

"Gente! Acho que em vez de ficar tristes, a gente devia aproveitar nossos últimos momentos no IL! Até tenho uma ideia e tenho certeza que meu pai não vai barrar, principalmente a essa altura do campeonato!" falou e eles a olharam.

"Que ideia?" perguntaram e ela sorriu animada, seria algo inesquecível para eles.

Notas finais
O trecho que Jeremias cantou é da música "lutar pelo que é meu", do Charlie Brown Jr.