Internato Limoeiro
33 Capítulo XXXII - Os fracassos de uma noite
Notas iniciais
O fato de o evento ter se tornado algo que englobasse mais coisas além do teatro fez com que a semana fosse corrida para alunos e funcionários.
Eram cerca de duas da tarde quando Toni foi até o auditório para observar a plateia vazia uma última vez, porém, ao chegar lá, deu de cara com preocupadas Isadora e Gabriela.
“O que aconteceu?” perguntou.
“Meu par daquela dança final não vem! Ele ‘tá com conjuntivite!” Gabriela respondeu.
“Eu até posso arranjar outro par, mas não dá mais tempo de ensaiar!” Isadora falou passando as mãos nos cabelos.
Toni levantou a sobrancelha.
“Ué, é só a Gabriela conduzir. Ela sabe os passos, a dança é curtinha e qualquer coisa eles ficam no fundo.” sugeriu e as duas o encararam.
“O quê? Eu conduzir? Vai ficar um lixo, Toni!” a cacheada falou.
O rapaz sorriu.
“Eu te ajudo! O show não pode parar!” falou e Isadora deu um pulo animada.
“Ótimo! Vou atrás de um par pra você! É a música quatro do pen drive.” exclamou saindo rapidamente.
Gabriela encarou Toni, que fazia um coque com o próprio cabelo.
“Vamos lá! Vamos ver como você conduz.” falou e ela arregalou os olhos.
“O quê? Você vai dançar comigo?” questionou e ele assentiu indo até o notebook de Isadora.
“Sim.” respondeu simples enquanto soltava a música.
Gabriela o encarou nervosa.
“Confie em você.” ele falou e ela balançou a cabeça e respirou fundo.
A moça se aproximou de Toni e levou sua mão esquerda ao ombro esquerdo dele, que era mais alto que ela. A música era clássica e um tanto lenta, a loira começou os movimentos com certa dificuldade, tanto que pisou nos pés do rapaz algumas vezes.
“Agora me gira.” Toni falou praticamente passando por baixo do braço dela.
A moça começou a rir gostosamente enquanto deitava no chão de madeira.
“Quase arranca meu braço! Você é alto, sabia?” comentou ainda rindo e ele deu de ombros também risonho.
“Você é uma péssima condutora, Gabi.” o rapaz falou e ela o encarou, era a primeira vez que ele a chamava pelo apelido.
“Você que é um péssimo conduzido.” zombou e ele estendeu a mão para ajudá-la a levantar.
“Vamos recomeçar. Vou te conduzir, pra você lembrar, e depois a gente muda.” falou e a moça suspirou pegando na mão dele.
“Tá bom.” aceitou.
A música recomeçou e Toni a puxou para mais perto fazendo com que Gabriela sentisse um arrepio a percorrer, seu outro parceiro não tinha esse jeito de pegar. A moça colocou uma mão no ombro do rapaz e a outra estava em contato com a dele.
Toni mexia o corpo de acordo com a letra calma da música, cujos instrumentos apareciam gradualmente e, quando era preciso, girava a moça com delicadeza. Gabriela estava surpresa, por mais que durante todo esse tempo tivesse ensaiado no mesmo lugar que ele, nunca havia reparado na maneira que ele dançava. Sentia-se nas nuvens enquanto ele realizava cada passo em sintonia com cada instrumento e, ainda por cima, contava os passos em voz alta para localizá-la. Após um giro que a tirou do chão, o que simbolizava o fim da dança, os olhos se encontraram e um sorriso foi trocado.
“Entendeu?” perguntou ainda com a mão em sua cintura e a loira pareceu despertar.
“Hã? Ah, sim!” falou balançando a cabeça e ele a soltou.
“Ótimo, sua vez de conduzir então.” respondeu se aquecendo.
“Prepare os pezinhos.” brincou e ele riu.
Os dois continuaram ensaiando por mais um tempo até que ela, enfim, conseguiu entender como seria a melhor maneira de conduzir. Assim que pararam, os dois se sentaram no palco.
“Cansei! A gente podia ter simplesmente pedido à Isa pra tirar essa parte!” ela disse se deitando de barriga para cima.
“Não se esqueça do clichê, precisava disso.” o loiro respondeu se levantando e ela virou a cabeça para olhá-lo.
“Você dança bem! Já dançou antes, né?” perguntou.
“Eu já fiz teatro quando era mais novo, então aprendi umas coisas. Não sei você, mas eu cansei desse auditório por hoje. A gente se vê à noite.” respondeu e logo desceu do palco e caminhou rumo à saída.
Gabriela continuou deitada enquanto encarava o teto e lembrava da dança, havia gostado da proximidade de Toni. A moça saiu de seus pensamentos ao ouvir a voz de Isadora.
“Gabriela! Perguntei pra praticamente todo mundo dessa escola e adivinha quem sabe dançar valsa?!” falou ofegante.
“Quem?” a outra perguntou.
“O Do Contra! Ele topou dançar com você, mas não vai conseguir vir pro ensaio, acha que dá conta?” falou e ela riu.
“Tomara! Agora eu vou descansar um pouco.” falou já se levantando e deixando o local.
*
As horas pareciam passar mais rápidas que nunca, quando os jovens se deram conta já era noite. O internato estava todo iluminado e com decoração feita por profissionais, aquele evento estava sendo patrocinado. A mostra dos projetos dos grupos de estudos avançados já havia acontecido e os convidados seguiam para o auditório para assistir à peça.
No banheiro feminino, Mônica tinha as mãos apoiadas na pia enquanto encarava o próprio reflexo.
"Calma, Mônica! Vai dar tudo certo! E se der errado, a Isadora só vai querer te esganar, nada demais." falou para si mesma, suspirando ao fim.
"Falando sozinha, Mônica?" a voz de Gabriela soou de repente e ela quase gritou.
"Menina, não me assusta assim! 'Tá aí há quanto tempo?" perguntou com a mão no peito.
"Acabei de chegar. Vim só olhar no espelho." a loira respondeu enquanto passava as mãos em seus cachos.
Mônica olhou para a colega, ela não parecia nada nervosa.
"Qual o segredo pra estar tão calma?" perguntou e a outra riu.
"Lido bem sob pressão." respondeu e Mônica bateu na própria testa.
"Claro, você é capitã de um time!" lembrou e a loira sorriu.
"Não se preocupe, Mônica. A gente ensaiou pra caramba! E o Toni pode te ajudar se precisar.” falou e a morena suspirou.
"O Toni… pelo menos ele dança bem. Vamos lá?” falou batendo uma palma e as duas deixaram o banheiro.
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Mônica e Gabriela foram para trás das cortinas vermelhas sem que a plateia as percebesse, falavam demais. Lá, Magali, Jeremias e Do Contra conferiam com Xaveco os últimos detalhes do som, eles vestiam roupas nem muito chiques nem muito simples, exceto Maurício, que estava de terno.
“Por que o Do Contra ‘tá de terno?” a voz de Cebola soou de repente, assuntando Mônica.
“O que você ‘tá fazendo aqui, doido? Daqui a pouco começa a peça e você não vai conseguir assistir!” ela exclamou com um sorriso.
“Vim desejar boa sorte!” ele respondeu e ela o abraçou.
“Obrigada! E o Do Contra ‘tá de terno porque vai ser par da Gabriela, o par dela faltou.” falou e Cebola franziu o cenho.
“Par?” repetiu e ela sorriu amarelo.
“Você acabou de receber um spoiler. Agora vai lá pra plateia que eu quero ver você me apoiando!” falou dando um selinho no rapaz e o empurrando depois.
Não demorou para Isadora aparecer junto de Denise e Sofia, enquanto a ruiva ficaria nos bastidores auxiliando quem esquecesse a fala, a amiga seria a narradora da peça.
"Gente, agora é a hora! Meus três protagonistas, se ajudem e, se preciso, improvisem! Atuem com o coração e merda pra vocês!" Isadora falou sorrindo amigável para todos antes de puxá-los para um abraço coletivo.
“Power point que você queria pra fazer uma ambientação bugou, Isa! Não vai dar pra usar esse efeito!” Jeremias comentou enquanto olhava para a tela do notebook.
Isadora bufou.
“Se só isso der errado hoje, ‘tá ótimo! Conto com vocês pra música suprir a falta da ambientação.” pediu e ele assentiu.
“Venham colocar o microfone, vocês três.” Xaveco chamou com os microfones auriculares, aqueles usados na orelha, em mãos.
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Do outro lado da cortina, Carlito fazia um discurso que transmitia a impressão de que o internato sempre apoiou o grupo de teatro e o grupo de música. Quando finalmente acabou, passou a palavra para Isadora.
"Boa noite, gente! Sou Isadora, do terceiro ano, a professora de teatro! Nossa peça se chama 'Clichês de uma vida escolar' e conta a história de uma jovem novata que durante seus dias no colégio se apaixona por um dos alunos mais populares de lá. Foi escrita por mim, pela Sofia, que será nossa narradora, pela Denise e pelo Jeremias. Sem mais delongas, fiquem com a peça!" falou e logo saiu.
As luzes da plateia diminuíram e as do palco tornaram-se mais vivas. Magali começou a tocar seu teclado de forma lenta enquanto Sofia, que estava em um canto sentada, aproximava o microfone da boca.
"A história começa em uma escola grande e cheia de vida, fosse pelas suas cores, fosse pelas pessoas que nela estudavam. Era mais um ano como qualquer outro, mas tudo mudaria com aquela nova pessoa que acabava de passar pelo portão." Sofia começou a ler com a voz calma.
As cortinas se abriram e de lá várias pessoas começaram a andar de um lado para o outro enquanto faziam barulhos. De repente, Mônica entra em cena como se estivesse amedrontada.
"Como eu odeio ser aluna nova! Não conheço ninguém e todos aqui parecem ser… frios." Mônica falou enquanto olhava em volta e alisava os braços.
"A novata sentia a frieza daquela escola e era como se aquilo tirasse todo seu ânimo. Enquanto ela tentava encontrar o caminho para a sala da diretoria, dois amigos andavam lado a lado, felizes com o início de mais um ano letivo." Sofia leu.
"Que droga de vida, viu!” Toni exclamou, tirando algumas risadas da plateia.
“O que foi, Arlindo? Levou um fora?” Gabriela perguntou enquanto carregava alguns livros.
“E que tipo de garota seria doida o suficiente para me rejeitar, Aurora?” o rapaz perguntou dando um sorriso presunçoso.
Aurora (Gabriela) revirou os olhos.
“Qualquer uma que tenha um pouco de cérebro, sei lá.” comentou e ele riu.
“Sabemos que você me ama. Mas as coisas andam meio chatas, sabe? Sempre os mesmos rostos... nada muda!” Arlindo (Toni) exclamou entediado e a outra riu.
“Aurora e Arlindo eram amigos de longa data, embora fossem muito diferentes, ele um atleta popular e ela uma aluna muito estudiosa. Os dois continuavam caminhando quando o destino decidiu entrar em ação. A novata, ainda perdida, olhava tão confusa ao redor que não percebeu Aurora e Arlindo em sua frente e acabaram colidindo.” Sofia leu.
“Desculpe!” a morena disse se abaixando para pegar seus livros e o rapaz também se abaixou.
As mãos se tocaram e os dois trocaram um olhar.
“Oi! Você é nova aqui?” ele perguntou enquanto a olhava e Aurora (Gabriela) revirou os olhos.
A plateia riu enquanto cochichava sobre a cena clichê.
“Já até sei o que vai acontecer!” uma pessoa comentou alto.
“Eu ‘tava shippando ele com a loirinha. Me ferrei!” uma outra comentou.
“Que educação a minha! Sou Arlindo, mas pode me chamar de lindo, afinal, quando te vi perdi todo o ar.” o loiro falou galanteador subindo e descendo as sobrancelhas.
Mônica tentou segurar o riso enquanto olhava para Toni e tentava fazer uma expressão de vergonha. O rapaz mantinha sua mesma expressão galanteadora e a plateia também parecia ter achado graça, já que começaram a rir e resmungar.
“Arlindo, deixa de ser idiota!” a loira falou e o rapaz bufou.
“Não ‘tá na hora da sua ida matinal à biblioteca? ‘Tô no meio de um esquema aqui!” falou apontando para a novata e a cacheada bufou antes de sair de cena.
Arlindo (Toni) se virou novamente para a morena, que ainda segurava o riso.
“Aquela é a Aurora, às vezes chata e às vezes legal. E você? Qual seu nome? E de que sala é?” perguntou e ela passou as mãos nos cabelos.
“Sou Isabela! Do primeiro ano!” respondeu.
O rapaz abriu um sorriso malicioso.
“Somos da mesma sala! E esse nome combina muito com você, já que é a mais bela desta escola.” falou piscando um olho e Isabela (Mônica) respirou fundo.
“Nossa, sério isso?” comentou e ele riu.
“O quê? Sou um cara realista.” o rapaz disse e ela negou.
“Não, é só um cara bobo mesmo. Agora se me dá licença...” falou se afastando.
O loiro sorriu enquanto observava ela se afastar.
“Já vi que este ano vai ser interessante!” falou esfregando as mãos uma na outra.
A plateia, novamente, resmungava risonha.
“Já dá pra saber como isso acaba.” alguém comentou.
“Meio mosquinha morta essa Isabela, né?” uma pessoa criticou.
“Esse Arlindo é lindo mesmo. ‘Tô sem ar.” uma outra comentou risonha.
A peça foi acontecendo e seguindo todo um roteiro recheado de clichês que se voltavam muito mais para uma evolução de relacionamento entre Toni e Mônica do que para Gabriela, que ficava em segundo plano e aparecendo apenas com Toni. Os três faziam um bom trabalho, mas era perceptível, principalmente para a plateia, que Mônica não gostava muito de contracenar com Toni, diferente de Gabriela, que conseguia deixar tudo menos mecânico. Outro motivo eram os comentários da plateia, eles não pareciam estar gostando da atuação de Mônica.
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As cortinas se fecharam para um breve intervalo, era momento de mudar o figurino. Mônica respirou fundo enquanto ia trocar de roupa.
“Mônica, ignora os comentários.” Gabriela comentou enquanto ajeitava seu vestido longo.
“Eu ‘tô bem, é que... eles não ‘tão errados! Você e Toni têm uma dinâmica muito melhor!” confessou desanimada e a loira sorriu amarelo.
“Bom... é que Isadora focou tanto em construir uma amizade entre mim e Toni que esqueceu de fazer o mesmo com vocês dois.” a outra comentou.
Mônica suspirou enquanto terminava de vestir seu vestido longo cheio de brilho.
“Sabia que não devia ter aceitado ser protagonista! Mas agora já foi. Vamos tentar salvar o fim! Como você consegue ter tanta química com ele? O Toni é um pé no saco!” exclamou e a cacheada umedeceu os lábios.
“O Toni não é bem um pé no saco, ele até que é legal.” falou e a morena riu.
“Estamos falando do mesmo Toni? ‘Tá bom que ele é um ótimo ator, mas nunca esqueço que ele fazia bullying, que o Cebola se sentia pressionado por causa dele e por aí vai.” respondeu.
Gabriela, sem perceber, franziu o cenho.
“Mônica, do mesmo jeito que o Cebola quis mudar, o Toni também pode querer.” falou e Mônica olhou surpresa.
“Gabriela... eu sei que a peça fez vocês se aproximarem, mas ele fazia bullying!” lembrou.
“E o Cebola também! Eu não ‘tô passando pano pros bullyings, mas se todo mundo daquele grupinho teve uma segunda chance, por que ele não pode? Vamos rápido que é quase hora do segundo ato!” falou deixando o banheiro em seguida.
Mônica encarava a porta boquiaberta e, pela primeira vez, percebeu que desde o exposed Cebola sempre teve alguém ao seu lado, diferente de Toni.
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Enquanto isso, nos bastidores, Magali, Jeremias, Denise e até Xaveco corriam contra o tempo para conseguirem partituras de músicas românticas que não utilizavam bateria. Isadora e Denise pareciam desesperadas enquanto alegavam que precisavam de músicas românticas para “amolecer” a plateia, que estava insatisfeita com o casal.
“Mônica e Toni são bonitos e o roteiro é clichê romântico! Como o público não ‘tá gostando?” Magali questionou enquanto lia superficialmente uma matéria sobre músicas apaixonadas.
“O nome disso é química, meu amor! Toni e Mônica não têm nenhuma! Dá pra ver na cara dela!” a ruiva comentou também pesquisando.
“A gente devia ter previsto isso!” Isadora comentou enquanto passava as mãos nos cabelos.
“Como? Na nossa cabeça, a essa altura, a plateia estaria apaixonada! E não shippando o Toni com a Gabriela!” Jeremias exclamou enquanto olhava as horas.
Antes que falassem mais alguma coisa, Sofia apareceu.
“Gente, segundo ato em quinze segundos.” falou e logo saiu.
Magali e Jeremias se entreolharam de olhos arregalados.
“Jerê! Todas essas músicas pedem bateria... A gente vai ter que dar um jeito!” ela exclamou e ele respirou fundo.
“Por que raios no grupo de música só tem o Do Contra de baterista? Vamos improvisar, Magá!” ele falou e cada um voltou para sua posição.
Mônica ajeitava uma coroa de flores em sua cabeça enquanto observava Magali e Jeremias conversando sobre as músicas e ouvia a conversa entre Isadora e Denise sobre o rumo que a peça havia tomado. Com isso, olhou em direção a Toni, que conversava com Gabriela, e suspirou. Desde o começo dos ensaios, nunca havia sequer tentado se aproximar de Toni para conhecer melhor seu parceiro de cena, apenas ensaiava seu texto e ia embora.
A moça estava se perdendo em seus pensamentos quando ouviu Denise a chamar.
“Mônica! Você já vai entrar!” alertou e ela balançou a cabeça e respirou fundo.
De volta à peça, a plateia demonstrava estar entediada, o espetáculo não estava interessante e esse desinteresse por parte do público afetava o caminhar da peça, a própria atuação dos jovens e até a narração de Sofia.
“Isabela chegou ao baile sentindo um certo desânimo. A ausência de Arlindo apenas confirmava suas dúvidas: ele não gostava tanto assim dela para acompanhá-la ao baile.” Sofia narrou sem o mesmo ânimo de parte do primeiro ato.
“No que eu estava pensando? Ele é o capitão do time! O cara mais lindo e popular do colégio! Por que ele se apaixonaria por mim quando pode ter qualquer uma?” Isabela (Mônica) se questionava enquanto andava pelo palco.
“Beeela! Minha parceira desistiu de última hora, ‘tá a fim de entrar comigo?” um rapaz do terceiro colegial, que interpretava um outro interesse amoroso de Isabela (Mônica), apareceu.
“Isabela olhou para os lados antes de aceitar ou não o pedido de Jorginho, o outro popular que tinha fama de iludir as garotas a troco de ‘novas aventuras’. Mesmo que Isabela soubesse disso, o peso da rejeição de Arlindo era demais.” Sofia narrou.
“Claro, Jorginho. Vamos lá!” falou desanimada e ele entrelaçou seu braço ao dele e saiu de cena.
Arlindo (Toni) apareceu junto de Aurora (Gabriela), ele estava sentado no chão, como se estivesse triste, e ela estava sentada ao seu lado com sua coroa de flores no colo.
“Você ‘tá aí perdendo a garota que é apaixonado por bobagem!” ela exclamou.
“Aurora, você ouviu o Jorginho! Ela gosta dele! Ela aceitou ir ao baile com ele!” falava até ela segurar em seu rosto com as duas mãos.
“Arlindo, olha pra mim! É um baile, não é um casamento! Se você gosta mesmo da Isabela, fala pra ela! Mostra que realmente se importa e o Jorginho que se lasque! Ele só usa as garotas!” ela exclamou mantendo fixos os olhares.
“E se dessa vez for diferente?” o loiro respondeu desanimado.
“Só tem um jeito de descobrir. E se não for pra ser, eu vou estar aqui para te ajudar a levantar e seguir em frente!” falou e ele olhou para ela com um sorriso.
“Beija, beija, beija!” uma pessoa da plateia gritou.
“Aurora... você é a melhor amiga que alguém poderia ter! Eu te amo muito!” exclamou enquanto a puxava para um abraço.
“São lindos demais!” outra pessoa comentou.
“Eu também te amo, mas amaria mais se não ficasse atrapalhando minha noite! Eu tenho um par que vai chegar daqui a pouco pra me buscar.” a moça falou e ele se levantou a ajudando a levantar e pegando o adereço dela que estava no chão.
“Eu conheço o cara? Ele presta? Tentou algo?” perguntou ajeitando a coroa de flores na cabeça da moça levando um tapinha no braço.
“Para de me encher e vai atrás dela, energúmeno!” a loira sorriu docemente e ele retribuiu antes de correr.
“Arlindo corria em direção ao ginásio onde Isabela estava prestes a dar sua mão para Jorginho para a dança mais romântica que aquele baile tocaria.” Sofia lia enquanto a plateia olhava um tanto entediada.
“Esse momento seria mil vezes melhor se fosse com a Aurora e o Arlindo! Esse Arlindo não tem química nenhuma com essa Isabela! Dá pra ver que o tempo todo ela ou ‘tá com cara de tédio ou com cara de riso, não parece estar apaixonada por ele!” uma pessoa comentou.
“Verdade! Agora quando aparecem a Aurora com o Arlindo, a gente vê que eles realmente são próximos! Dá pra ver que se gostam de verdade.” outra falou.
“Eles que deviam ficar juntos! Tudo parece mais genuíno!” uma garota comentou.
Sofia, e os atores, tentavam a todo custo ignorar esses comentários. Enquanto Sofia narrava uma cena do baile, Isadora, bem baixinho, chamou Toni, que olhou discretamente.
“Toni! Dá o seu melhor! Nos surpreenda com uma declaração que seja linda! Foda-se o roteiro, já ‘tá uma porcaria há muito tempo!” pediu e ele arregalou os olhos.
“Como eu vou fazer isso, Isadora?” questionou baixo e ela apenas juntou as mãos como se implorasse e ele logo precisou entrar em cena.
“A entrada de Arlindo parou todo o baile, ele sequer usava um terno como todos os outros ou tinha os cabelos alinhados, tinha uma cara de cansaço e determinação. Ele se aproximou de Isabela e suspirou antes de começar a falar.” Sofia narrou e Arlindo (Toni) colocou os cabelos para trás enquanto pensava em como salvar o fim da peça.
Como seu personagem estava ofegante, ele pôde fingir que recuperava o fôlego, então usou esse tempo para pensar. Foi nesse momento que seus olhos se encontraram com os de Gabriela, que sorriu para ele como forma de incentivo. Naquele momento, Toni se lembrou de suas conversas, de seus ensaios e até mesmo da dança de mais cedo, e isso o inspirou.
“Isabela! Não dance com ele, dance comigo!” pediu.
Mônica levantou a sobrancelha, aquela não era a fala esperada. No mesmo instante, Magali e Jeremias começaram a tocar "pense em mim”. O público pareceu gostar da escolha julgando pelos gritinhos e risadas.
Toni quis rir, mas conseguiu manter sua expressão. Gabriela, que estava mais ao fundo ao lado de Do Contra, riu com ele. Já Mônica ainda estava surpresa com a improvisação.
“O que você ‘tá fazendo, Arlindo? Não acha que já me machucou muito com sua indiferença? Você só me mostrou que estão certos sobre você só querer mais uma aventura!” ela improvisou.
“Não ouviu a narradora? É o puto do Jorginho que usa as garotas! Arlindo te ama, idiota!” uma pessoa falou alto.
“O Jorge, pelo menos, mostrou gostar de mim. Diferente de você que não retribui sentimentos e não se importa com os dos outros!” completou.
Arlindo (Toni) umedeceu os lábios enquanto ficava em um joelho só. A fala da morena havia alterado completamente suas próximas falas.
“Eu realmente não tenho facilidade com sentimentos, você é a primeira que os desperta em sua totalidade! Eu posso ter sido um idiota ontem ou pode ser que eu seja amanhã, mas eu não posso ser um completo idiota agora e deixar uma pessoa que me faz tão bem ir embora da minha vida como se não fosse importante!” começou e a plateia, assim como o elenco inteiro, pareceu interessada, suas palavras pareciam sinceras.
“Desde de que te conheci, eu sinto que me divido em Arlindo pré-Isabela e Arlindo pós-Isabela. E eles são diferentes, muito diferentes. O primeiro era uma bobo que ignorava os sentimentos alheios, o segundo ainda é um bobo, mas que tem medo dos próprios sentimentos, mas que quer superar isso. E você, Isabela, só de estar ao meu lado me faz sentir coisas que nunca pensei que sentiria um dia.” falou sorrindo ao fim.
“Então te peço desculpas por ter sido um idiota e peço que me dê uma chance. Uma chance de mostrar o quanto você é importante pra mim! Então dance comigo, não dance com ele." falou estendendo sua mão, mas como se seu corpo e sua mente o traíssem, sua mão não se direcionou para a garota que estava em sua frente, e sim para a direção de Gabriela.
Em um ato rápido, Toni fingiu ter sido um alongamento e estendeu a mão para Mônica, que a pegou.
“Desculpe, Jorge... simplesmente... é ele!” falou e o outro saiu bufando.
Os dois trocaram um abraço que a tirou do chão e a luz diminuiu enquanto a música clássica e lenta iniciava. Com isso, o par começou a valsa junto dos demais colegas com seus respetivos pares. Mônica assumia que o rapaz dançava bem e que isso poderia estar fazendo com que a plateia parecesse extasiada com a dança e, talvez, pelas palavras do loiro.
“No meio da dança, o olhar de Arlindo e de Isabela se encontraram. E, como se fosse premeditado, os lábios se juntaram lentamente como no mais belo sonho de amor.” Sofia leu.
Mônica olhou para Toni e se sentiu desconfortável em beijá-lo, mas, para a sua surpresa, ele não a beijou na boca, e sim na bochecha, mas havia sido de um jeito que o público pensaria ter sido um beijo na boca.
“Com esse beijo, Isabela chegou a uma conclusão.” Sofia falou e Mônica sorriu abraçada a ele antes de se virar para a plateia.
“Talvez os clichês de uma vida escolar não sejam tão impossíveis assim.” falou piscando um olho e logo a luz aumentou e a música se encerrou mostrando ser o fim da peça.
O elenco deu as mãos e se abaixou agradecendo ao público que aplaudia animado. As cortinas se fecharam e os aplausos continuaram.
“Pessoal, e desse baile fictício, criamos um real baile do IL. Vamos para a quadra e lá a festa começa!” o professor de música, que, de última hora, havia ajudado Magali e Jeremias, falou e o público começou a sair do auditório.
Nos bastidores, um abraço coletivo foi trocado entre os atores enquanto Magali e Jeremias se jogavam exaustos em suas cadeiras.
“Nunca mais participo de uma peça de teatro!” Magali falou e ele riu.
“Idem! Nem na escrita, nem no som. Mas tu arrasou!” falou enquanto fazia um high-five com ela.
Os jovens não pensaram em mais nada, apenas foram beber água, trocar de roupa e aproveitar a festa.
*
Havia se passado alguns minutos desde o fim da peça e Jeremias andava pelo internato como se fugisse de alguém. Durante sua andança, trombou tão forte com alguém que quase caiu.
“Jeremias! ‘Tá fugindo de quem?” uma conhecida voz feminina reclamou, era Denise.
“Da Isadora frustrada com a peça e da minha família.” respondeu e a moça franziu o cenho.
“Da Isadora eu até entendo, agora da sua família...” falou esperando uma explicação.
“A peça foi um fiasco, e adivinha quem ‘tava no roteiro?” falou e a ruiva cruzou os braços.
“Que culpa a gente tem que o Toni tinha mais química com a Gabriela do que com a Mônica e que o público percebeu isso?” ela questionou.
“Sei lá, a gente nem pensou em fazer eles se falarem.” respondeu.
“Ai, Jeremias, isso não era obrigação nossa! Foi a Isadora que fez os outros dois lá interagirem, ela que tinha que ter pensado nisso! Ou até mesmo eles dois. Para de se culpar! Você fez sua parte lindamente, inclusive com a música. Agora você precisa relaxar!” ela disse abraçando o rapaz pelos ombros.
Jeremias ia dizer algo quando ouviu uma voz conhecida o chamar. Era sua avó, que não estava sozinha.
“Eu vou deixar vocês sozinhos!” a ruiva falou saindo em seguida.
O rapaz apenas suspirou antes de sentir ser abraçado.
“Meu filhinho! Que saudades de você!” a mãe exclamou enquanto o apertava.
“Como você cresceu, Jeremias! Já ‘tá da minha altura!” o pai comentou com um sorriso.
“Também senti saudades!” Jeremias exclamou com um sorriso.
“Você que escreveu essa peça?” o avô perguntou sério.
O rapaz não escondeu seu desconforto e engoliu em seco.
“Também. Mas e ai? Gostaram?” perguntou ansioso olhando para todos.
Os quatro trocaram um olhar que deixou as coisas óbvias: não haviam gostado.
"Achei bobinha demais, sei o quanto você é criativo e não vi isso." o avô criticou.
“Não é que não gostamos, é que... foi raso e com algumas ideias que reduzem demais.” a mãe tentou amenizar.
Jeremias suspirou.
“Era um clichê! Não tinha muito o que fazer de diferente.” explicou.
“Tinha, sim! Vocês podiam ter usado o espaço pra trazer alguma crítica, alguma...” a mãe de Jeremias falava até ser interrompida pelo avô do rapaz.
“Pelo amor de Deus, minha filha! É uma peça escolar! Esses jovens gostam dessas coisas bobas! Pra que ficar levando essas coisas sérias do mundo pra escola?” questionou sério.
“Por que não levar? É uma escola interna! Tenho certeza que em algum momento já aconteceu alguma forma de bullying aqui dentro!” o pai de Jeremias argumentou.
“Dá pra parar de brigar? Vocês nunca veem o Jeremias, e quando veem ficam aí brigando!” a avó exclamou brava.
Jeremias revirou os olhos. Aquela discussão acontecia sempre que seus pais se encontravam com seus avós. E, como sempre, concordava em partes dos dois lados.
“Olha... eu ‘tô bem cansado e com fome. Vamos comer que hoje o cardápio aqui ‘tá bom!” sugeriu e eles foram para onde eram servidas as comidas.
Os pais do rapaz falavam sobre vários assuntos relacionados à ocupação deles, de jornalistas voltados a causas ativistas, enquanto os avós reclamavam de várias coisas comentadas por eles. No meio disso, Jeremias se sentia desconfortável e um tanto mal por querer que os pais e os avós se distanciassem novamente.
*
Não tão longe dali, Milena brincava com sua comida enquanto ouvia mais uma história sobre seus irmãos.
“Milena, por que não vimos nada sobre algum projeto seu? Seus irmãos estão dentro de projetos.” o pai comentou.
A moça respirou fundo.
“Eu não participei de nenhum projeto, eu faço parte do time de futebol, então...” falava até ser interrompida.
“Seu irmãozinho também entrou pra um time! E sua irmã ‘tá liderando o time de handball, sabia?” a mãe revelou.
Milena cruzou os braços.
“Eu sou capitã do time de futebol feminino e co-capitã do masculino.” revelou.
“Muito legal, mas não podia entrar em algum projeto? Seus irmãos...” falava e a moça quase socou a mesa, mas se segurou quando seu irmãozinho bocejou.
“Fabinho já ‘tá ficando com sono... o pobrezinho tem jogo amanhã.” o pai comentou e Milena se levantou.
“Eu vou entender se precisarem ir. E eu preciso... preciso ir ver como ‘tá a Gabi. Acabei nem dando os parabéns!” falou com a voz trêmula.
“Sabia que sua irmã ‘tá pensando em entrar pro teatro? Teria sido incrível ver você atuando, Milena! A gente já vai, não quer ir pra casa conosco?” a mãe perguntou e a filha negou.
“Eu vou ajudar a arrumar tudo.” falou e eles sorriram.
“Muito bem, querida! Sempre evoluindo! Se cuida, te amamos!” o pai falou e logo saíram.
Milena os observou se afastarem com um olhar triste, tanto que sentiu algumas lágrimas surgirem. Com isso, decidiu ir até o gramado atrás da quadra, queria ficar sozinha. Todavia, não teve essa sorte.
“Oi, Milena! O que aconteceu?” era Tikara, que logo se sentou ao seu lado após ver sua expressão triste.
Milena, sem nem perceber, apoiou a cabeça no ombro do rapaz.
“Eu não aguento mais, Tikara! Meus pais sempre, sempre me comparam aos meus irmãos! Eu posso ter conseguido a porra da bolsa neste internato de merda; eu posso passar todos meus fins de semana estudando pra ter nota boa; eu posso ser capitã de time; eu posso fazer qualquer coisa! Mas nunca vou estar à altura deles! Sempre vou ser a medíocre da família que... que nada que faça vai estar bom o suficiente!” desabafou sentindo um peso deixando suas costas.
Tikara abraçou a moça com ternura e beijou-lhe o topo da cabeça.
“Milena, você sabe o quanto é incrível! E não precisa provar isso pra ninguém! Mas não acha que precisa falar isso pra eles?” falou com a voz calma.
“Como? Eles vão falar que meus irmãos não pensariam assim.” supôs.
“Você ‘tá colocando palavras na boca deles! Vai ver eles nem percebem que ‘tão comparando. Eu não tenho irmãos e a Denise não conta, então não sei como é ser comparado o tempo todo com irmãos, mas se te deixa tão mal... acho que devia falar pra eles.” Tikara falou sincero e ela suspirou enquanto limpava as lágrimas e se aconchegava nos braços dele.
“Não sei se tenho coragem pra dizer isso, Tika. É difícil você simplesmente chegar nos seus pais e dizer que... que uma atitude deles, os pais, incomoda!” disse sincera.
Tikara crispou os lábios, de fato não era algo fácil e muito menos algo que imaginou que lidaria um dia. Mas estava disposto a ajudá-la.
“Pais também podem errar. E não precisa ser hoje, pode ser quando você se sentir pronta e pode contar comigo pro que quiser!” falou e ela riu enquanto o encarou abobada.
“Tikara, a sua fofura me deixa sem palavras às vezes.” falou e ele riu.
“Eu não sou um cara fofo o tempo todo, mas algumas pessoas conseguem ver esse meu lado. Mas é um segredo.” ele disse fazendo um gesto de silêncio e, em resposta, ganhou um abraço apertado.
“Fico feliz em ser uma dessas privilegiadas.” Milena disse enquanto ele retribuía o abraço e a beijava em seguida.
*
Outra pessoa que queria fugir da mesa da família era Ramona. Seus pais não puderam ir, então sua avó e sua prima foram, o problema era que as duas não eram as parentes favoritas de Ramona e vice-versa. As duas reclamavam de tudo, do local, da decoração, da comida e até mesmo da estrutura do prédio.
“Que lugar horrível!” a avó comentou enojada.
“Fora que só dá esquisito em escola interna. Me surpreende aquele loiro bonitão da peça estudar aqui, no mesmo lugar que a estranha da Ramona!” a prima comentou risonha.
Ramona revirou os olhos.
“Se odiaram tanto, por que ainda estão aqui?” ela perguntou.
As duas olharam surpresas, Ramona nunca respondia esse tipo de provocação.
“Olha só isso... veio pra se socializar e ‘tá virando um bicho selvagem! Seu pai vai ficar sabendo disso!” a mais velha exclamou.
“Não ‘tá virando, vó. Sempre foi.” a prima falou venenosa.
Ramona bufou.
“Você cai matando em cima de todo mundo e eu que sou o bicho selvagem?” rebateu e a prima bufou irritada.
“Pelo menos qualquer pessoa se interessa em interagir comigo! Diferente de você, que é só uma coisinha insignificante que ninguém jamais vai se interessar! E sabe por quê, Ramona? Porque você não tem atrativos! E não ‘tô falando só de beleza! Você não é interessante, só fica atrás de plantas e é tão patética, mas tão patética que precisou vir pra um colégio interno pra aprender a interagir com gente em vez de plantas!” a outra retrucou alto fazendo Ramona tremer a boca.
“E-eu tenho amigos!” exclamou.
“Mesmo? E quem garante que são seus amigos mesmo? Aposto que foi por pena da garotinha que foi pro internato pra fazer amizades... Não acha?” a outra retrucou e a de cabelos curtos abriu e fechou a boca sem uma resposta.
Diante da falta de resposta de Ramona, Amanda riu.
“Cadê toda aquela coragem agora? Você sabe que ninguém de fato se interessaria por você, Ramona! E internato nenhum vai mudar isso!” falou rude.
Ramona olhou para a avó esperando alguma forma de apoio que não veio. A avó sempre deixara claro que preferia Amanda, principalmente por odiar Viviane, a mãe de Ramona.
“Vamos embora, Amanda. Este lugar me dá nojo. Ramona, querida, vou falar ao seu pai que este internato tem mexido com sua cabeça. Pode ser que ele se decepcione, mas pra quem já foi casado com sua mãe...” a mais velha disse levantando e saindo com a outra neta.
Ramona ficou ali sentada sentindo um nó na garganta, aquelas palavras haviam doído, mas sua raiva veio de sua falta de resposta. A moça levantou e praticamente correu até a área verde, onde tirou os óculos e passou o braço nos olhos úmidos.
“E ai, Mona? Também fugindo dos parentes?” a voz de Do Contra soou e ela, no mesmo instante, tentou interromper as lágrimas.
“Na verdade, elas foram embora. Elas ‘tavam cansadas!” falou com a voz embargada e ele olhou para ela com a sobrancelha erguida.
“Tudo bem com você?” perguntou preocupado e ela engoliu em seco.
“T-tudo eu só... eu só... não quero falar sobre isso!” exclamou abraçando os joelhos.
Do Contra não insistiu, por mais que quisesse. Apenas se sentou ao seu lado e afrouxou a gravata.
“Onde você aprendeu a dançar?” ela perguntou de repente.
“Digamos que fiz aulas quando mais novo, eu era animadinho demais.” falou e ela forçou um sorriso.
“Eu era desanimadinha demais.” comentou e ele riu.
“Por isso somos complementares.” brincou tocando na cabeça dela com a própria e ela riu fraco.
Os dois ficaram em silêncio novamente, mas, diferente das outras vezes, aquele era incômodo. Era notável que Ramona não estava bem, mas Do Contra não queria parecer invasivo.
“Ér... eu sei que você não quer me contar o que houve, mas quando quiser... sou todo ouvidos. De imediato, eu ‘tô com fome. Quer ir comer alguma coisa?” perguntou e ela negou.
“Não, eu ‘tô sem fome. Do Contra, sem querer ser chata, mas... eu queria ficar um pouco sozinha.” falou e ele assentiu se levantando.
“Ah, ok. Até... até depois.” disse e ela assentiu.
O rapaz se afastou e deu uma última olhada na direção da ruiva que olhava para o céu. A tristeza nos olhos de Ramona lhe cortava o coração, e esse corte o jogava em um árduo dilema: respeitar a escolha dela ou tentar fazê-la se abrir, mas como era um rapaz que odiava que invadissem seu espaço, decidiu deixá-la em paz, mesmo que seu coração não ficasse em paz.
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