Internato Limoeiro

29 Capítulo XXVIII - Externalizar


Notas iniciais
Olar! Atrasei o capítulo justamente para postá-lo no dia dos namorados hehehe Boa leitura ♥

O sol estava relativamente fraco às três da tarde. Cebola estava perto do muro baixo enquanto o media com os olhos, não parecia tão baixo assim. Os caixotes que outrora ficavam lá haviam sido retirados, então ele não fazia ideia de como pularia o muro.

O moreno estava prestes a ir até o porteiro e tentar suborná-lo, algo que todos sabiam que acontecia, quando viu Toni caminhando tranquilamente por lá.

“Ei, Toni! Você sabe como eu pulo esse muro sem, sei lá, me quebrar todo no processo?” perguntou e o loiro, com as mãos nos bolsos, mediu o muro com o olhar e logo encarou Cebola.

“Não conte comigo.” falou e o outro arregalou os olhos surpreso.

“Oi? Virou certinho agora?” perguntou e o loiro negou.

“Ué, até onde me lembro, todo mundo ligou o foda-se pra todo mundo. Então por que eu deveria ajudar quem nem se importou comigo?” perguntou e Cebola riu.

“Não sabia que você era tão sensível, Toni.” comentou e o loiro revirou os olhos.

“Nada a ver! É que por um momento eu realmente achei que a gente fosse amigo, Cebola. Mas olha que maravilha! Eu não tinha amigo nenhum!” exclamou e voltou a andar.

Cebola deu de ombros e voltou a olhar para o muro. O rapaz olhou em volta, não havia nenhum inspetor. Com isso, o moreno se afastou para pegar impulso e correu dando um salto em seguida. Todavia, não conseguiu chegar até o topo, muito pelo contrário, bateu o corpo no muro caindo na grama em seguida.

“Que papelão, hein?” uma voz soou e ele olhou para o lado, Cascão estava sentado em cima do muro com um sorriso.

“Há quanto tempo ‘cê ‘tá aí?” perguntou.

“Eu tive a chance de te ver caindo. Quer ajuda ou prefere continuar tentando atravessar o muro?” o outro perguntou e Cebola revirou os olhos.

“Você faz parecer fácil!” comentou e o amigo riu enquanto descia do muro.

“Não, eu que sou melhor que você mesmo. Vai, vou fazer um pezinho pra você.” falou enquanto se abaixava e juntava uma mão na outra.

Com a ajuda de Cascão, Cebola conseguiu chegar até o topo, onde se sentou. Cascão, como já era de se esperar, pulou em questão de segundos. Novamente, ao pular do muro, Cebola se desequilibrou, caindo no chão com o processo e fazendo o amigo rir gostosamente.

“Cebola, na boa, devia ter subornado o porteiro. É meio caro, mas pelo menos tu não iria se encontrar com a Mônica todo arrebentado.” comentou e ele deu de ombros.

“Então ela realmente vai?” respondeu.

“Sim, Magali conseguiu inventar uma desculpa. Agora bora que elas já devem estar lá.” falou andando rápido com um skate embaixo do braço, havia conseguido emprestado com um amigo que morava ali perto.

“Calma! Eu caí duas vezes, ainda ‘tô me recuperando!” exclamou sentindo o joelho doer.

“Queria entrar no time sendo mole desse jeito? Acha mesmo que ninguém ia te derrubar lá?” Cascão perguntou risonho.

“Não desse jeito. Cascão! Temos que ir em um lugar antes!” exclamou animado virando uma outra rua.

“Cebola?! A gente vai se atrasar! Moleque doido!” exclamou indo atrás do amigo.

*

Enquanto isso, na festa dos times, Milena e Tikara haviam se sentado do lado de fora da edícula a fim de ficarem sozinhos. O rapaz havia acabado de contar sobre como era sua antiga escola e de como gostava de estudar nela.

“Eu ‘tava feliz lá, mas aí minha mãe e meu padrasto vieram com aquele papo de que eu devia me aproximar da Denise e fui parar no IL.” falou.

“E você não gosta nem um pouco do IL?” ela perguntou e ele sorriu enquanto a abraçava pelos ombros.

“Digamos que agora eu tenho motivos pra gostar.” Tikara disse e ela riu.

“Você diz que não se aproximou da Denise, mas ela mesma me disse que a festa de boas-vindas foi ideia sua!” a moça revelou e ele olhou surpreso.

“E por que ela te disse isso?” perguntou.

“Porque eu fui parabenizar. Só de ela ter te dado os créditos, já mostra que vocês podem se dar bem.” ela falou e o rapaz deu de ombros.

“Sendo bem sincero, acho que ultimamente a Denise tem sido mais tolerável. Ela veio comigo e com o Xaveco, não falou nada, mas também não ficou zombando da gente. Acho que o exposed mexeu com ela.” o moreno comentou.

“E você falou com ela sobre o exposed?” perguntou e ele riu.

“E por que eu falaria? Eu acho que foi merecido! Até hoje o Nik tem uns complexos por causa do jornal! Fora que você também sofreu por causa dele, e por muito tempo pelo que eu soube!” exclamou e a moça suspirou.

“Sim, mas hoje ela me pediu desculpas.” revelou e ele riu.

“E você caiu? Milena, todo mundo daquele grupo vai tentar dar uma de vítima pra limpar a própria imagem. Por mais que ela esteja mais tolerável, eu duvido que ela realmente se arrependeu!” o rapaz exclamou e a cacheada negou com a cabeça.

“Olha, eu tenho motivos pra odiar aquele grupo. Mas as pessoas mudam. Você e os meninos ‘tão andando com a Penha, e ela mudou!” lembrou e ele negou com a cabeça.

“A Penha ‘tá amiguinha do Nik faz um tempão, então dá pra confiar.” Tikara esclareceu.

“Sim, mas percebe que em algum momento o Nik deu uma chance pra ela mostrar que mudou? Tika, eu tenho motivos pra odiar a Denise, mas... ela parece estar tentando melhorar.” Milena disse e ele suspirou.

“Tá... eu vou falar com ela, mas é por você.” falou e ela negou.

“Ai não, né! Você tem que falar com ela por você! E pelos pais de vocês. Eu só dei uma sugestão.” a moça falou levantando os braços e ele riu.

“Tá. Eu vou tentar! Mas chega de falar dela, vamos falar de coisas que me agradam. Tipo você.” falou e ela riu.

“Vai com calma, rapaz, ainda tem me conquistar.” ela disse e ele a beijou na bochecha.

“E tem alguns truques?” sussurrou e ela mordeu o lábio inferior.

“De imediato, você pode me dar um beijinho.” ela disse fazendo um biquinho que logo foi coberto pela boca dele.

Milena gostava de beijar Tikara, ao mesmo tempo que era um beijo como qualquer outro, era completamente diferente de todos que já havia dado. Já Tikara sentia que estar com ela era algo único e que merecia toda a sua atenção.

*

Longe dali, Penha sorria após conseguir resolver um longo exercício ao lado de Nikolas. Ela havia de fato o chamado, e ele, rapidamente, aceitou.

“Que saudade eu ‘tava de ter reforço com você!” ela exclamou.

“E olha que faz pouco tempo que você ‘tá com a Hortênsia.” o rapaz comentou e ela o encarou.

“Vai me dizer que não sentiu um pingo de saudades de mim?!” falou e ele, no mesmo instante, lembrou do que Xaveco lhe disse.

“Eu te vejo todo dia, Penha, nem tem como.” respondeu e ela o encarou com um sorriso provocador enquanto apontava um dedo.

“Parra de mentir! Eu sei que você sentiu falta de eu te chamar por não saber de onde surgiu algum númerro.” ela falou e ele levantou os braços em rendição.

“Isso ainda tem, mas nenhum deles com seu sotaque e com seu jeitinho. E confesso, Penha, você faz muita falta lá.” confessou e ela bateu palmas.

“Sabia! E a Hortênsia até que é legal, mas eu tenho minha preferrência.” ela falou subindo e descendo as sobrancelhas e ele negou com a cabeça.

Antes que falassem mais alguma coisa, a mãe de Penha apareceu na cozinha, onde eles estudavam.

“Nossa, vocês ainda ‘tão resolvendo exercício? Vão dar uma volta! O dia ‘tá lindo lá fora! Por que vocês não me fazem um favor e vão comprar pão pra mim?” ela pediu.

“Tá vendo, Nik, já ‘tá querrendo dar trabalho pra gente.” Penha comentou e a mãe riu.

“Vocês ainda estão novos! É rapidinho.” ela disse e os dois assentiram.

“Por mim tudo bem. Vou só pegar minhas coisas.” o rapaz falava começando a guardar suas coisas quando a mais velha o impediu.

“Não, não! Você vai lanchar com a gente! Quando você vem a Penha fica tão animada... ela até arruma o quarto.” expôs e a filha arregalou os olhos.

“Mãe! Vamos logo, Nik!” Penha exclamou puxando o rapaz enquanto a mais velha ria.

x

Na rua, o rapaz ria da feição envergonhada e irritadiça de Penha.

“Então você não arruma seu quarto?” ele perguntou.

“Aposto que você também não.” a moça rebateu e ele deu de ombros.

“Quer ir lá pra descobrir?” retrucou inocentemente e ela riu.

“Como que é?” perguntou e ele pensou melhor.

“Não foi nesse sentido. Mas mudando de assunto... como sua mãe chama?” perguntou e ela o encarou.

“Ela te fala minhas intimidades e você nem sabe o nome dela? Ela vai ficar arrasada.” a morena comentou.

“Em minha defesa, nem você e nem ela nunca me disseram!” exclamou e ela riu.

“É Sônia.” respondeu e ele assentiu.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas caminhando na rua movimentada.

“Por que você não foi na festa dos times? Tinha quase certeza que você iria.” Nik quebrou o silêncio.

Penha deu de ombros.

“Pra quê? O tanto de merda que ‘tão falando de mim, serria só mais um momento ruim. Decidi fazer alguma coisa produtiva.” respondeu e ele assentiu.

“É, faz sentido. Olhe pelo lado positivo, vai acertar alguma coisa de matemática.” ele disse e ela riu enquanto uma dúvida a acometia.

“Nik, seja sincerro, alguma vez você usou seu conhecimento em matemática pra ficar com alguém?” perguntou e o rapaz engoliu em seco.

“Não. Mas foi mais ou menos isso que Carmem me fez acreditar que aconteceria.” respondeu.

“E como você paquerrava? ‘Tô precisando de dicas novas.” ela perguntou e Nik se sentiu um pouco mal por ela, provavelmente, estar interessada em alguém, e um tanto envergonhado pela situação de sua vida amorosa, algo que era um segredo.

“Bom... eu... ér...” falava até ela rir.

“Pelo visto erram elas que davam em cima de você. E como elas conquistavam o Nikzinho?” ela perguntou interessada e ele travou.

“Por que você quer saber?” o rapaz perguntou e ela deu de ombros.

“Curriosidade!” respondeu simples.

Nikolas olhou para Penha por alguns instantes e sentiu que, para ela, podia contar um de seus grandes segredos a respeito de sua vida amorosa.

“Olha, o que eu vou dizer agora só fica entre nós. Nem mesmo Xavier e Tikara podem saber.” falou e ela sorriu boquiaberta e um tanto honrada.

“Vai me contar um segredo que nem seus amigos sabem? Eu preciso sentar pra ouvir, vamos sentar ali na praça!” falou o puxando até a praça de uma igreja onde se sentaram em um banco.

Nikolas respirou fundo e passou as mãos na cabeça.

“Eu... eu nunca beijei!” respondeu e ela arregalou os olhos e escancarou a boca.

“Não acredito! Sérrio?! Mas como?” exclamou e ele revirou os olhos.

“Por que a surpresa? Antes do IL eu preferia videogame e no IL era um nerd que se escondia na biblioteca depois de levar um fora colossal, nos dois casos eu nunca fui o bonitão da sala, então...” falava até ela rir.

Nikolas negou com a cabeça enquanto se levantava.

“Não sei por que eu te disse! Depois você me entrega minhas coisas.” falou e já ia sair quando ela o puxou.

“Eu não ‘tô rindo de você, Nikolas! ‘Tô rindo da situação! É que não entra na minha cabeça que logo você nunca beijou!” explicou e ele franziu o cenho.

“E por que não?” perguntou de braços cruzados.

Penha sorriu carinhosa.

“Porque além de ser uma pessoa incrível, você é muito bonito.” respondeu sincera e ele encarou surpreso, não esperava aquela resposta.

“Ah... valeu, eu acho.” ele respondeu coçando a nuca.

Assim como Nikolas, que não tirava Penha da cabeça, a moça também tinha quase todos seus pensamentos voltados para ele, então viu ali a oportunidade perfeita de conseguir algo que vinha imaginando há um tempo.

“Bom... você me ajudou com matemática, então se quiser ajuda pra descobrir como é beijar na boca...” falou com um sorriso.

Nikolas franziu o cenho, mas estava interessado.

“Me ajudar?” perguntou.

“Eu posso te ensinar a beijar.” explicou e ele arregalou os olhos.

“O quê? Não! Isso vai... isso vai acabar com nossa amizade! E beijo por pena é humilhante.” exclamou lutando contra seu eu interior, que clamava pelo sim.

A moça arregalou os olhos e riu incrédula.

“Pena? Eu acabei de dizer que te acho bonito, Nikolas. E outra, é só um beijinho, o que demais pode acontecer?” ela perguntou e o rapaz pareceu pensar.

Os dois queriam aquele beijo, e queriam que não fosse por meio de uma proposta estranha como aquela, mas tinham receio de se declararem e não for a vontade do outro, então, decidiram aproveitar a chance.

“Não acredito que vou dizer isso, mas só um beijinho.” falou e ela sorriu abertamente.

“Não se preocupe! Vem comigo atrás da igreja.” Penha disse o puxando pela mão.

“Atrás da igreja? ‘Tá me levando pro pecado, Penha?!” ele comentou e ela riu.

“Relaxa, todo mundo faz isso.” ela disse e eles pararam atrás da igreja, onde não tinha ninguém.

Nikolas alisou o próprio braço.

“Tá... o que a gente faz agora?” perguntou e ela se aproximou dele até que ele se encostasse na parede.

“Antes de mais nada, relaxa! Você confia em mim, e eu confio em você. E então tenta me acompanhar, mas sem pressa.” falou desinibida e ele respirou fundo tentando ignorar todo constrangimento que sentia.

Penha se aproximou mais de Nikolas, que fechou os olhos, levou suas mãos até a nuca do rapaz e logo juntou seus lábios aos dele em um selinho. Devagar, ela começou a movimentar a boca, a cabeça e as mãos para aprofundar o beijo. Nikolas, por sua vez, como era inexperiente não sabia ao certo o que fazer ou onde colocar as mãos, mas a sensação de ter uma boca em contato com a sua era melhor do que imaginava, mais ainda por ser a de Penha. Tanto que começou a tentar se mexer um pouco e mexeu a cabeça, conforme a boca se movimentava, e suas mãos alcançaram os quadris da moça. Em resposta, Penha colou seu corpo ao dele.

Por mais que Penha fosse experiente, o contato dos lábios carnudos de Nik com os seus a levou às nuvens e intensificava a vontade de beijá-lo, tanto que, sem perceber, sua língua entrou em ação. Nikolas, por um momento, achou estranha a língua dela dentro de sua boca, mas o órgão mexia de um jeito tão sutil que parecia mudar a sensação, era estranhamente boa.

Todavia, por mais que o rapaz, como vários adolescentes, já tivesse treinado beijos, inclusive de língua, nunca havia sido com outra pessoa, então não sabia como reagir, e Penha percebeu. Com isso, ela parou de beijá-lo daquele jeito para distribuir vários selinhos em seus lábios e parar após um demorado.

Quando ela se afastou ele abriu os olhos e viu ela sorrir.

“Sabia que seu rosto ‘tá quentinho?” Penha comentou na tentativa de deixá-lo confortável e ele riu gostosamente.

“Você sabe quebrar o clima, parabéns.” Nik falou e ela o abraçou.

“Você que deu seu primeirro beijo, eu que dou os parrabéns.” falou enquanto beijava sua bochecha.

Nikolas estava sem graça, tanto que não conseguia nem parar de rir e nem olhar para Penha.

“Você se importa de me devolver as coisas na segunda? Eu... eu...” falava e ela sorriu, achou fofo vê-lo todo envergonhado.

“Tá bom, Nik.” respondeu e ele sorriu enfim a olhando, e logo abaixando a cabeça de novo e riu fazendo ela rir também.

“Valeu. Eu vou indo nessa! Tchau, até segunda!” falou saindo rapidamente e ela foi para casa com um sorriso nos lábios.

Assim que entrou em casa, a mãe de Penha franziu o cenho.

“Ué... cadê o Nikolas? E o pão?” Sônia perguntou e a filha riu, havia esquecido completamente de ir à padaria.

“Ele precisou ir emborra e o pão ia demorrar pra sair. Eu vou pro meu quarto, depois arrumo a cozinha.” falou saindo e a mãe riu desconfiada, mas não disse nada.

No quarto, Penha abraçou seu travesseiro enquanto um sorriso bobo estava em seus lábios.

“Eu não acredito que ele topou aquele pretexto besta! Mas ainda bem que topou!” comentou risonha e pegou seu celular. Queria falar para alguém que havia beijado o garoto que não saía de sua mente, mas não tinha muitas opções.

“Pra quem eu falo? Já sei!” exclamou e foi até um contato que pegara do grupo da sala.

“Oi, Flávia! Sei que nunca te mandei mensagem, mas eu beijei o Nik, foi ótimo pra carramba e precisava falar pra alguém!” enviou e depois se jogou na cama abraçando o travesseiro.

Nikolas, por sua vez, ia para casa de ônibus com os pensamentos a mil. Por um lado, pensava que ter aceitado a proposta havia sido ruim, já que iam se ver na segunda e o clima seria outro; mas, por outro lado, sentia-se feliz por ter aceitado, o beijo de Penha havia sido ótimo, mesmo não conhecendo outros, tanto que queria repetir.

“O que essa garota ‘tá fazendo comigo?” comentou com um riso.

*

De volta ao internato, Ramona e Do Contra estudavam para o simulado na biblioteca. Como a visão que tivera mais cedo ainda estava na mente do rapaz, vira e mexe ele a olhava e perdia o foco em seus exercícios.

“O quê?” ela perguntou e o moreno pareceu despertar.

“Que o quê?” perguntou.

“Você ‘tá aí me olhando!” ela respondeu.

“Não... eu ‘tava olhando pro nada! ‘Tava distraído!” inventou e ela assentiu.

“Como você resolveu a 4? Eu não consegui entender até agora.” a ruiva disse aproximando o rosto do caderno dele.

Do Contra sequer havia resolvido exercício, mas tinha outra coisa em seu caderno. Sem perceber, ele havia feito um desenho de uma parte de um rosto que mostrava apenas os olhos e algumas sardas próximas a eles. Ramona viu o desenho e encarou o amigo.

“É impressão minha ou você me desenhou?” ela perguntou e ele sorriu amarelo.

“Desenhei? Nem percebi. Ainda sou do grupo de arte, no fim das contas.” improvisou uma resposta e ela riu enquanto olhava melhor.

“Eu não sou do grupo de arte, mas posso te desenhar também.” Ramona disse enquanto começava a desenhar e o rapaz riu.

“Quero só ver. Que pose eu tenho que fazer? Essa? Essa? Ou essa?” perguntou fazendo três poses diferentes: a primeira era séria, a segunda uma careta e a terceira um sorriso.

Ramona pareceu pensar enquanto ria.

“Eu gostei mais da terceira. Só espere um minuto, mas não vale espiar!” falou ficando de costas para ele enquanto deslizava a caneta em uma folha.

Do Contra observava os cabelos ruivos dela balançarem enquanto ela desenhava e apoiou a cabeça na mão. Assim que ela se virou, tinha um sorriso sapeca nos lábios.

“Já? Foi bem rápida!” falou e ela mostrou o desenho. Era um desenho de palitos em que o desenho tinha um topete, que era mais grosso que o boneco.

Do contra riu gostosamente.

“Você gostou da terceira pose e usou a primeira. Vacilo.” respondeu.

“Não fale mal dos meus dotes artísticos!” exclamou brincalhona e ele riu mais.

“Foi mal. Você treina seus dotes artísticos quando ‘tá fora do IL?” perguntou e ela se reclinou na cadeira.

“Não, eu fico muito no jardim da minha casa. Gosto de cuidar de plantas.” ela disse.

“Então você deve adorar a hortinha daqui.” respondeu simples e a moça franziu o cenho.

“Hortinha?” perguntou e ele levantou as sobrancelhas.

“Você não sabia? Fica atrás da cozinha.” ele respondeu e ela levantou fechando seu caderno.

“Vamos lá? Eu quero ver!” pediu e ele assentiu também pegando suas coisas.

“Claro!” respondeu e saiu com ela.

Os dois foram até lá e Ramona sorriu ao ver várias plantinhas que cresciam e outras já grandes. Do Contra observava a moça com um sorriso.

“Você vem fazer fotossíntese aqui também?” perguntou e ele riu.

“Aqui não, mas se você quiser, a gente pode vir aqui tomar sol, às vezes. Tem sol suficiente pra todos nós.” o rapaz respondeu e ela assentiu.

“Eu vou adorar!” aceitou o convite e ele sorriu em resposta.

*

Em uma mesa de uma sorveteria perto do internato, Magali e Mônica esperavam os meninos, que estavam atrasados. A de cabelos curtos não sabia que Cebola estaria junto, então xingava Cascão.

“Francamente, Magali, quase uma hora de atraso! Será que ele vem mesmo?” perguntou e a amiga assentiu, ela trocava várias mensagens com ele, a culpa do atraso era de Cebola.

“Sim, ele teve um problema. Sabe como é, ele é o capitão do time! Não seria fácil sair assim!” ela disse e a amiga encostou a cabeça na mesa.

“Podiam então ter marcado mais tarde. Por que mesmo você trouxe essa mochila?” perguntou apontando para a mochila amarela no chão.

“É meu patins! Cascão anda de skate e um dia ele me chamou pra ir na rampa, então sugeri que a gente fosse lá.” a outra respondeu e Mônica riu.

“Hum... você que sugeriu? Que romântico.” brincou e Magali riu enquanto olhava para algo atrás de Mônica.

“Você acha isso romântico? Então dá uma olhadinha naquilo.” falou apontando com a cabeça e Mônica se virou. Assim que olhou, arregalou os olhos.

Cebola e Cascão haviam chegado, mas a surpresa era que Cebola tinha um buquê de rosas vermelhas em mãos e um sorriso idiota nos lábios. Cascão apenas ria da cena.

“Você sabia disso?!” questionou e a amiga levantou os ombros.

“Mais ou menos. Que ele ia pular o muro do IL e vir, eu sabia, agora a parte das flores não.” respondeu e os dois se aproximaram.

“Hello, girl! Flowers for you! Oi pra você também, Magali.” ele falou estendendo o buquê para Mônica, que as pegou com um sorriso e as aproximou do rosto, adorava o aroma das rosas.

“Aff, ‘tá em inglês! Estragou todo o clima!” Cascão comentou cumprimentando as duas com um beijo na bochecha.

“Você que estragou! Mônica e eu nos aproximamos onde? Na monitoria de inglês!” Cebola explicou.

Mônica riu animada.

“Que isso, Cebola? Por que flores?” ela perguntou sorrindo.

“Eu queria falar com você e não quis vir de mãos vazias.” respondeu.

“Mas quis embaçar o rolê dos outros.” Cascão reclamou e Cebola revirou os olhos.

“Ela ‘tá aqui, não ‘tá?” rebateu apontando para Magali.

“Vocês realmente demoraram! O sorveteiro daqui até achou que a gente tinha levado um bolo.” Magali comentou.

Cascão pareceu lembrar de algo.

“Falando em bolo, eu não trouxe flores porque ia atrapalhar a gente, mas trouxe um chocolate. Espero que goste.” Cascão disse entregando à Magali uma barra de chocolate e ela sorriu.

“Ah, obrigada! Você fez a escolha certa! Eu prefiro comida a flores.” ela respondeu animada beijando o rosto do rapaz.

“Agora que ele ‘tá aqui, não precisa mais... espera aí... você nem ‘tava nervosa com o encontro de vocês, né, safada?” Mônica falou e a amiga sorriu amarelo.

“Talvez.” respondeu e a outra riu negando com a cabeça.

“Eu adoro o sorvete daqui, vou pedir um e a gente já vai lá!” Cascão falou para Magali que assentiu.

“Vou pedir um também!” Cebola disse acompanhando o amigo.

Magali cutucou Mônica.

“Miga! Ele te trouxe flores! ‘Tá querendo mesmo seu perdão!” exclamou e Mônica riu.

“E vai conseguir, Magali! Como eu consigo ser rígida com alguém que pula o muro, faz esquema pra me ver e ainda traz flores?!” questionou e a outra riu.

“Golpe baixo, né?” comentou e os dois retornaram.

“E ai? Como foi pular um muro?” Mônica perguntou a Cebola.

Cascão riu sapeca.

“Tu tinha que ter visto, Mônica, o cara conseguiu se quebrar duas vezes!” Cascão revelou e a de cabelos curtos riu olhando para Cebola.

“Mas como? Pra subir e pra descer?” Magali perguntou e Cascão assentiu.

“Exatamente isso!” exclamou e as duas riram.

“Ah, qual foi? Vão dizer que sabem pular muro?!” Cebola comentou.

“Eu nunca tentei.” Mônica respondeu.

“Nem eu, mas você pensou em usar os caixotes que ficam lá?” Magali perguntou e Cebola riu após dar uma colherada em seu sorvete.

“A filha do diretor ensinando alguém a fugir do internato... Cascão, você ‘tá sendo uma péssima influência pra ela!” ele comentou.

“Cebola, eu sou muito mais que a filha do diretor! E esses dois me ajudaram a ver isso. E te ajudaram a ver que a vida é mais do que a popularidade pode oferecer, não?” ela falou apontando para Cascão e Mônica.

Cebola arregalou os olhos, mas sorriu.

“Assumo que sim.” respondeu.

“Ei, Mônica, a gente é foda pra caramba!” Cascão falou fechando o punho e estendendo para ela dar um soquinho e ela o fez enquanto ria.

“O que seria dessas pobres almas sem a gente, Cascão?” questionou brincalhona.

“Perdidas! Completamente perdidas!” ele respondeu e os quatro riram.

“Já começou a se achar. Qual de vocês trouxe uma mochila?” Cebola perguntou apontando para o objeto no chão.

“É da Magali. Ela e Cascão vão praticar esportes radicais.” Mônica respondeu.

“O que ‘cês vão fazer?” perguntou curioso.

“Magá anda de patins e eu de skate, então vamos pra rampa. Foi ideia dela!” Cascão falou sorrindo para a moça que sorriu.

“Acho que vai ser divertido. Até chamaria vocês, mas...” ela falava até Cebola ter uma ideia.

“A gente pode fazer uma coisa que eu sempre quis fazer!” ele exclamou olhando para Mônica, que franziu o cenho.

“O quê?” ela perguntou e ele sorriu dando mais uma colherada em seu sorvete.

X

Um tempo depois, Magali já estava com seus patins e Cascão com o skate prontos para descerem a rua que dava acesso à rampa.

“Acha que vai dar merda?” Cascão perguntou.

“Certeza. Mas a parte difícil ele já conseguiu!” ela disse apontando para os dois que se aproximavam.

Cebola carregava Mônica, com as rosas, dentro de um carrinho de supermercado. Ela ria e ele também.

“Vocês vão cair!” Cascão alertou.

“Não se preocupem com a gente. Vamos apostar uma corrida?” Mônica perguntou e os outros dois riram.

“Vocês já perderam! No já.” Magali disse piscando um olho para Cascão que entendeu o recado.

“JÁ!” ela exclamou e os dois saíram rapidamente.

“Eles vão ganhar, Cebola! Rápido!” Mônica exclamou e Cebola empurrou o carrinho e logo subiu em um pequeno espaço que tinha atrás.

Os dois riam gostosamente enquanto sentiam o vento no rosto e bagunçando os cabelos.

“Uhul!” ela gritou animada.

“Cara, isso é mais legal do que eu imaginava!” ele falou também animado.

Cascão e Magali haviam parado antes de chegarem na rampa e os esperavam, tinham em mente que o carrinho viraria. Como se já fosse premeditado, o carrinho começou a tombar.

“Cebola, a gente vai cair!” Mônica exclamou pouco antes do carrinho virar e os dois caírem no chão, ela em cima das rosas e ele em cima dela. Mas, em vez de se xingarem, os dois riam da situação como se nada de ruim tivesse acontecido.

Cascão e Magali se entreolharam antes de saírem de lá cautelosamente enquanto Cebola ajudava Mônica a se levantar.

“A gente é doido, Cebola! E as rosas todas estragaram, que dó! Só uma que não.” ela disse olhando para as rosas já sem pétalas ou amassadas e pegando a única que estava intacta.

“Pelo menos uma sobreviveu! Cadê aqueles dois?” perguntou olhando em volta.

Mônica sorriu enquanto colocava a rosa na orelha.

“Acho que querem ficar sozinhos, ainda é um encontro. Vamos sentar ali.” falou apontando para o meio fio.

Os dois sentaram lá e deixaram o carrinho ao lado.

“Por que você veio, Cebola?” ela perguntou e ele apoiou as mãos na calçada.

“Você disse que eu precisava ir com calma nesse meu processo de tentar melhorar. Eu sei que você não me desculpou ainda, mas eu queria seu apoio! Você tem sido muito importante pra mim, Mônica!” exclamou e ela sorriu.

“O Cebola de fora IL quer entrar no IL, mas sozinho eu não consigo. Ainda mais agora que eu quero ser alguém melhor, mas que ninguém acredita nisso.” confessou e ela assentiu.

“Eu te desculpei, Cebola, há muito tempo. Mas ainda quero ver essa mudança, e vai ser um prazer te ajudar nesse processo.” a moça respondeu e ele a abraçou pelos ombros.

“Obrigado, Mô.” agradeceu e ela sorriu apoiando sua cabeça no ombro dele.

Os dois ficaram alguns segundos apenas abraçados e aproveitando a presença um do outro. Mônica estava com saudades de ficar tão próxima dele, assim que se virou para ele, que fez o mesmo, acariciou seu rosto antes de juntar seus lábios aos dele. O beijo era calmo e cheio de saudades, quem os via podia pensar que eram um casal apaixonado e, no fundo, eles se sentiam um pouco assim.

*

Enquanto isso, Cascão e Magali estavam sentados no topo da rampa comendo chocolate e falando da vida. Aquele encontro não tinha “cara” de primeiro encontro, os dois eram tão confortáveis um com o outro que todo o constrangimento e nervosismo de um primeiro encontro havia sumido.

“Então você já teve um porco de estimação? E o que aconteceu com ele?” ela perguntou.

“Ele foi pra uma fazenda, não sei se ainda ‘tá vivo, mas foi um grande amigo da infância. Você tem algum bichinho?” falou e ela assentiu.

“Sim, tenho um gato! Meu pai não gosta muito dele, porque ele é alérgico, mas o Mingau já foi muitas vezes minha plateia enquanto eu tocava teclado ou cantava.” Magali revelou e Cascão riu.

“Então o Mingau ‘tava no céu! Você canta e toca muito bem.” comentou e ela riu brincando com uma mecha de cabelo.

“Nem sempre foi assim, Cascão. Mudando um pouco de assunto, fiquei aqui pensando no que o Cebola disse! Você e Mônica realmente mudaram a minha vida.” confessou e ele riu negando com a cabeça.

“Que isso, Magá. A gente só te deu um empurrãozinho, o resto foi tudo você mesma!” exclamou e ela sorriu.

“Agora chega de falar, e de comer chocolate, e vamos nos divertir! Viemos aqui pra isso!” exclamou.

“Que tipo de diversão?” ele perguntou com o olhar na boca da moça que percebeu e riu.

“Essa também.” falou enquanto se inclinava para beijá-lo. Cascão adorava quando ela tomava alguma atitude.

Os beijos deles sempre eram diferentes, era como se sempre conseguissem melhorar. E isso estava ficando viciante para os dois, tanto que até esqueceram o que iriam fazer.

*

De volta ao internato, Gabriela havia voltado mais cedo da festa, havia interagido com praticamente todo mundo e achara uma ótima experiência. Estava cansada demais para estudar, então decidiu tomar um banho e ir caminhar pelo internato.

Como já imaginava, encontrou Toni sozinho, mas daquela vez ele estava sentado na escadaria com um livro no colo.

“Oi, Toni!” ela cumprimentou e ele a olhou.

“Oi! Se divertiu na festa?” perguntou fechando o livro e a moça assentiu.

“Sim! Todo mundo do meu time parece gostar mais de mim agora que falei com eles. Teve gente que falou que me achava esnobe porque eu só falava com eles pra dar ordens.” a loira revelou e ele riu.

“Eu disse que tinha que falar com o time!” falou e ela se sentou ao lado dele.

“O que ‘tá fazendo aqui sozinho?” ela perguntou.

“Biblioteca ‘tá cheia hoje e não gosto de estudar no dormitório. E sobre eu estar sozinho... é meio óbvio, ninguém gosta de mim.” o rapaz respondeu e ela fez uma careta.

“Tá bom, Toni, até então eu tenho evitado te perguntar isso, mas... você não vai fazer nada?” Gabriela perguntou e ele franziu o cenho.

“Como assim?” perguntou.

“Você parece se incomodar com isso, mas não faz nada pra resolver! Não acha que precisa tomar uma atitude?!” ela questionou e ele riu.

“E o que você sugere? Nem vem me dizer que se eu pedir desculpas tudo vai mudar, porque não vai. Muita gente aqui tem raiva de mim!” exclamou.

“Não vem dar uma de inocente pra cima de mim, Marco Antônio! Muita gente tem mil e um motivos pra te odiar! E você sabe disso!” rebateu e ele suspirou.

“Claro que eu sei. Justamente por isso eu sei que pedir desculpas não vai adiantar de nada.” respondeu.

“Vai sim! Se você realmente se arrependeu, não porque alguém ‘tá falando e sim porque você sente que ‘tá na hora de mudar, vai adiantar sim. Pode ser que os outros não te desculpem, mas se você não der um primeiro passo, você vai ficar nessa pra sempre!” exclamou e ele umedeceu os lábios.

“Como você sabe disso? Você nunca foi odiada por ninguém.” ele disse e ela riu.

“Talvez não, mas eu experimentei a sensação de mudar a maneira como vejo algumas coisas. E sabe qual a melhor coisa nisso tudo? A gente acaba se conhecendo melhor.” respondeu e Toni a olhou por alguns segundos, Gabriela era uma garota forte, desde que entrara no internato. O rapaz sabia de tudo que ela havia passado com o jornal e quase nada parecia a abalar, então talvez ela estivesse certa.

“Tá bom, eu posso tentar me desculpar com algumas pessoas.” falou e ela sorriu enquanto batia palminhas.

“Muito bem!” exclamou e, no mesmo instante, passou um rapaz que Toni, uma vez, fez um trote.

“Ei, cara! Foi mal pelo trote que fiz há um tempo.” falou e o rapaz o encarou.

“Vai se lascar, mentiroso!” exclamou mostrando os dedos médios e saiu.

Toni olhou para Gabriela, que sorriu amarelo.

“Esteja preparado pra isso também. Não é todo mundo que vai te desculpar.” alertou.

“Pelo visto isso vai me dar trabalho.” ele comentou e ela tocou em seu ombro.

“Vai, mas não se preocupe, vai dar certo. E pode contar comigo.” a loira disse e ele sorriu.

“Já que posso contar com você, bem que tu podia me ajudar em química.” mudou o foco e ela levantou.

“Não foi você que disse que eu tinha que sair da minha rotina hoje? Então não vou abrir um caderno! Boa sorte!” ela disse saindo em seguida e ele riu divertido.

*

Denise decidiu ir para o internato a fim de conseguir ajuda de seus amigos para estudar para o simulado, tinha em mente que não conseguiria mais as colas. Ao entrar, viu que a quadra estava bastante movimentada e foi até lá.

“O que ‘tá acontecendo aqui?” ela perguntou para a primeira pessoa que apareceu, por acaso era Hortênsia.

“Tem gente jogando futebol. O que você ‘tá fazendo aqui, Denise? Você não fica aqui aos fins de semana.” respondeu fazendo uma pergunta em seguida.

A ruiva deu de ombros.

“Tinha que resolver umas coisas. A propósito, Hortênsia, você ainda ‘tá no jornal?” perguntou e ela assentiu.

“Sim, sem você lá as coisas melhoraram bastante.” respondeu e a outra revirou os olhos.

“Você pode me ajudar com uma coisa?” perguntou e a morena franziu o cenho.

“Em quê?” perguntou.

“Eu preciso de alguns números de celular, não é pra trote, é pra... eu quero me desculpar com algumas pessoas.” respondeu e a outra riu.

“Não vai colar, Denise, ninguém vai cair nesse papo de arrependimento.” alertou.

“Vai me ajudar ou não?” Denise perguntou e a outra riu.

“Eu vou pensar.” Hortênsia respondeu com um riso e logo bufou ao olhar para frente.

“Olha aquilo ali! Narcisa nem disfarça que arrasta um caminhão pelo Jeremias!” exclamou e Denise olhou e abriu um sorrisinho, ele estava sem camisa.

“Primeira vez que vejo ele sem camisa. Mas a Narcisa não é a fim dele, é por causa do exposed que ela fez, ela se arrepende.” comentou e a outra riu.

“Você que acha! A bobona quis dar uma de Isadora e chamou ele pro jornal.” respondeu e Denise franziu o cenho.

“Dar uma de Isadora? Como assim?” perguntou sem entender.

“Você não soube? Dizem por aí que Isadora é a fim dele! Por isso ela chamou ele pro roteiro.” respondeu.

Denise riu alto.

“Eu sou do roteiro, querida! Eu sei que eles não têm nada!” exclamou e a outra riu.

“Você fica o tempo todo com ele? Você nem é do grupo de teatro! O que será que acontece quando você não ‘tá lá?” comentou e Denise abriu a boca surpresa, nunca havia pensado nisso.

Olhou novamente para Jeremias, que ainda falava com uma animada Narcisa.

“E a idiota da Narcisa fica em cima de quem não se envolve seriamente com ninguém. O menino passa o rodo!” exclamou e Denise a encarou.

“Você ‘tá com ciúmes de quem exatamente? Da Narcisa ou do Jeremias?” ela perguntou e a outra se calou.

“Da...de... nenhum! Aff.” Hortênsia falou saindo e a ruiva riu.

“Hortênsia gosta da Narcisa... quem diria? Mas foda-se isso, será que Isadora e Jeremias têm alguma coisa? Naah... ela nunca deu mole pra ele!” comentou e olhou de novo direção de Jeremias.

Como se o destino estivesse zombando de si, Isadora havia aparecido ao lado de Jeremias bastante animada. Os dois não faziam nada, apenas conversavam, mas a conversa com Hortênsia fez com que Denise se incomodasse a ponto de ir até lá.

“Jerê! A pessoa que eu queria ver! Ah, oi, Isa! Eu ‘tô atrapalhando?” ela perguntou com um tom de voz estranho enquanto colocava o braço no ombro do rapaz.

Os dois se entreolharam.

“A gente só ‘tava falando da peça.” Isadora respondeu e a outra riu.

“E por que não fui chamada pra conversa? Eu também sou da peça!” Denise apontou para si mesma.

“A gente nem sabia que você ‘tava aqui, Denise.” Jeremias respondeu.

“Agora sabem!” exclamou e Isadora franziu o cenho.

“Depois a gente se fala, Jerê.” a loira falou saindo em seguida.

Denise se virou para o rapaz.

“Cês ‘tão ficando?” interrogou direta e ele olhou sem entender.

“Da onde você tirou isso?” perguntou.

“Esquece! Eu preciso da sua ajuda! A Sofia ‘tá por aqui?” falou olhando em volta e ele negou.

“Ela precisou ir pra casa, mas você precisa de ajuda em quê?” perguntou e ela ia falar quando reparou bem nele, ele ainda estava sem camisa.

“Poderia vestir sua camisa, por favor? Prefiro falar com pessoas vestidas.” ela perguntou e ele riu.

“Ok. Pode ir falando enquanto isso.” ele disse vestindo a camiseta e ela encarava.

“Eu... eu queria você, quer dizer, que você me ajudasse a... a... a me desculpar com os outros! É isso!” falou um tanto hipnotizada até ele terminar de vestir sua camiseta.

“Como assim?” ele perguntou já vestido.

Denise balançou a cabeça a fim de recuperar o foco.

“No caderno que você e Sofia me deram tem todo mundo que eu expus de alguma forma, e eu queria me desculpar com essas pessoas. Então talvez Hortênsia me ajude com os números de celular e preciso de ajuda pra montar um tipo de lista com todos os nomes.” falou e ele assentiu.

“Tudo bem, mas não seria mais fácil pessoalmente?” ele sugeriu e ela negou.

“Tá maluco, Jeremias? Se eu me desculpar pessoalmente com os outros, eu levo uma surra!” falou e ele riu.

“A mensagem não impede ataques.” o rapaz lembrou.

“Na minha cabeça, sim! E ai? Vai me ajudar?” ela perguntou e ele assentiu.

“Vou, mas vou tomar banho primeiro.” falou e ela riu enquanto apertava o nariz.

“Tá precisando mesmo.” a moça comentou com a voz fanha.

“Ah, para, vai dizer que não gosta do meu cheiro?” falou brincalhão e ela deu de ombros.

“Gosto quando ‘tá cheiroso, e não é isso que ‘tá acontecendo.” a ruiva respondeu.

“Ok, vou ficar cheiroso pra você. Mas um alerta, sei que Sofia é a voz da sua consciência, então tente ser uma boa garota sem ela.” brincou e ela riu alto.

“Ah, Jeremias, pessoas certinhas como ela precisam de umas como eu pra agitar a vida.” Denise comentou.

Jeremias a encarou com a sobrancelha erguida.

“Dizem que eu sou certinho, preciso de alguém como você na minha vida?” perguntou e ela abriu a boca surpresa, mas interessada.

“Precisa, urgente. E não estou falando nem de Narcisa, Isadora ou as meninas que você ilude por aí.” ela disse e ele riu.

“Eu não iludo ninguém. Mas já que preciso com tanta urgência, me apresenta alguém. A gente se vê na biblioteca.” falou piscando um olho.

Denise brincou com uma mecha de cabelo.

“Prazer, eu!” ela comentou consigo mesma com um suspiro.

Já Jeremias se afastava imaginando se ela havia entendido a indireta, mas, pela falta de resposta, havia imaginado que não.

“Eu não tomo jeito mesmo...” ele comentou enquanto ria consigo mesmo.

Nenhum dos dois sabia, ou havia percebido, que um sentia atração pelo outro, tanto pela beleza quanto pela personalidade e pelo relacionamento que vinham construindo. Nenhum dos dois era tímido e muito menos adeptos a relacionamentos sérios, mas sabiam que naquele caso era diferente, sentiam isso. Então não sabiam ao certo como lidar.

O resto do dia passou sem muitas emoções, mas, para muitos deles, aquele dia ficaria marcado.

Notas finais
Ps. o nome da mãe da Penha é inventado