Internamente Evans
4 Capítulo Três
Notas iniciais
Lily usou o momento de vestir a máscara para esconder o sorriso. Não tinha nada que ela gostasse mais do que estar no centro cirúrgico. Nem mesmo a roupa cirúrgica três vezes o seu tamanho era o suficiente para tirar a felicidade de estar no seu ambiente.
Ela abaixou a máscara e se virou para Marlene, que irritadamente terminava de calçar o propé, instrumento usado para proteger os sapatos.
—Você não tinha dito que não precisava mais usar essas porcarias? – Marlene lhe perguntou, irritada. Lily sorriu de leve.
—Foi um estudo só, então nem todos os lugares adotaram ainda. Para de reclamar, garota.
Marlene retrucou mais alguma coisa enquanto as duas saíam do vestiário feminino, mas foi baixo demais para Lily ouvir. A ruiva apenas revirou os olhos, apressando Marlene.
Era a primeira vez que elas passariam a tarde no centro cirúrgico, e dizer que Lily estava ansiosa era eufemismo. Os colegas dos dias anteriores haviam dito que os preceptores eram excelentes, e que dava até para ser o instrumentador das cirurgias.
A tarefa de ser responsável por passar os materiais durante os procedimentos já era conhecida de Lily do estágio que ela fazia, mas ela estava ansiosa mesmo assim. Estar em campo, ou seja, participar de fato da cirurgia, era uma oportunidade que ela nunca deixaria de aproveitar.
—Quem é o preceptor hoje? – Marlene perguntou, percorrendo o centro cirúrgico com o olhar.
—Hoje temos Dr. Arthur Weasley, da geral, e Dr. Avery, da cardíaca – Lily respondeu – Amos disse que Dr. Weasley é incrível.
—Então cola nele – Marlene disse – Eu vou procurar algum paciente que tenha usado metoclopramida e feito uma síndrome extra-piramidal.
—Larga de ser doida, Lene, temos que achar algum preceptor ou residente para mostrar que chegamos na hora. Ou não quer que assinem nosso taxímetro?
—Só estou aqui por causa dele – Marlene disse, num tom sarcástico. O taxímetro era o que comprovava a presença dos internos nos hospitais para cumprir a carga horária, e tinha que ser assinada e carimbada por um preceptor ou residente para a presença ser validada.
—Eu realmente espero que seja brincadeira.
Lily e Marlene se viraram para a voz risonha, e devolveram o sentimento ao reconhecer Dr. Lupin.
—Eu não gosto de cirurgia, mas não é para tanto – Marlene disse. Dr. Lupin meneou a cabeça.
—Razoável. Ainda bem que nem todos gostam da mesma coisa, não é? Ou esse centro estaria abarrotado – Dr. Lupin comentou, e depois se virou para Lily – Seu Jonathan teve que passar por uma retossigmoidectomia, e está na UTI. Amanhã deve ir para a semi-intensiva, e depois volta pra gente.
Lily sorriu. Ela estivera curiosa para saber do paciente.
—Fizeram colostomia? – Ela questionou, e Dr. Lupin exibiu um pequeno sorriso.
—Qual seria a indicação?
—Bom, se ele estava mantendo a diverticulite mesmo com o antibiótico, provavelmente tinha alguma infecção concomitante, então não seria prudente fazer uma anastomose primária... mas isso seria feito em casos Hinchey III e IV, certo? Ele era Hinchey III ou IV?
—Não, e você mesma disse no seu exame: ele tinha irritação peritoneal, lembra?
—Então não foi feita?
—Não, ele era Hinchey II, sem colostomia... mas existe um outro procedimento que nos ajuda a ficar mais tranquilos com a anastomose que fizemos... – Dr. Lupin estimulou. Lily franziu o cenho.
—Hum... é um procedimento feito em Hinchey I e II?
—Exato.
—Que serve para tranquilizar sobre a anastomose... bem... eu lembro de ter lido... ah! – Lily exclamou – Ileostomia de proteção, com reversão em cerca de 3 meses!
Remus sorriu mais abertamente, mas não pode falar pois foi interrompido por outro residente.
—Remus, parece que você está com uma interna boa – Dr. Potter disse e franziu a testa – e por boa, claro que quero dizer competente. Muito bem, Evans. – Ele jogou um frasquinho na direção de Dr. Lupin, que rapidamente pegou e colocou no bolso do pijama cirúrgico.
Lily apenas sorriu e corou levemente. Ela gostava de saber simplesmente porque gostava de conhecimento e por precisar saber.
Mas não tinha como negar que era bom pra caramba ter seu esforço reconhecido.
—Muito obrigada.
—Vocês duas estão aqui hoje? E quem é a terceira pessoa? – Dr. Potter perguntou.
—Emmeline Vance. Ela estava entrando no vestiário quando saímos, deve estar chegando por agora.
—Certo – Dr. Potter disse, franzindo a testa novamente e reposicionando os óculos – bom, como chegaram antes, têm prioridade. Alguma quer instrumentar?
—Lily quer – Marlene disse imediatamente. Lily a encarou levemente e se voltou para os residentes, que tinham uma expressão curiosa – ela quer muito fazer cirurgia, mas não quer ficar se colocando à minha frente para não ser injusta, então não fala.
Lily viu os cantos dos lábios de Dr. Potter remexerem, e ela imaginou que ele estivesse talvez tentando esconder um sorriso.
—Bom, então vamos comigo, Evans. McKinnon, é isso? – Marlene assentiu – McKinnon, se quiser pode vir também, para assistir. Vai ser uma colecistectomia por vídeo, e vai ser um pouco especial pois vai ser a primeira cirurgia solo de um dos nossos R1. Ou pode esperar até Dr. Lupin achar algum procedimento e segui-lo.
Marlene deu de ombros.
—Se puder avisar à sua colega que estaremos na sala 04 caso ela queira assistir, eu seria muito grato – Dr. Potter finalizou com um sorriso. Marlene garantiu que faria, com certeza, e seguiu Dr. Lupin enquanto ele ia para a emergência “procurar tarefas de R1”.
Dr. Potter ainda sorria enquanto observava Dr. Lupin sair, e Lily se perguntou se eles teriam se conhecido apenas na residência ou antes. Dr. Potter sacudiu a cabeça e se virou para Lily.
—Já instrumentou alguma vez antes? – Ele perguntou, tocando em seu ombro para indicar o caminho.
—Já, mas não tantas vezes assim – Lily disse – fiz um estágio em cirurgia, mas nem sempre dava...
—Já é alguma coisa – Dr. Potter disse, entrando na sala com ela, onde a anestesista já aguardava – Dra. Figg, que honra ter a senhora aqui – ele disse, o tom de voz claramente galanteador. A anestesista riu e revirou os olhos, mas estava aparentemente feliz quando ele tomou as suas mãos para beijar o dorso.
—Não sabia que a cirurgia seria sua, James.
—Ah, não. Hoje é dia de R1. Vou apenas fazer a câmera e expor a vesícula.
—Moody estará aqui?
—Sim. Bem, ou ele ou Arthur. Mas só observando – Dr. Potter explicou – Ah, antes que eu me esqueça, Dra. Figg, essa é Lily Evans, interna que começou essa semana. Evans, Dra. Arabella Figg é a melhor anestesista que temos.
A anestesista revirou os olhos, ralhando levemente com Dr. Potter pelos elogios, e ele rebatia dizendo que era apenas a verdade. Lily não conseguiu impedir o sorriso de se plantar no rosto com a familiaridade ali. Dra. Figg aparentava ter cerca de sessenta anos, e Dr. Potter ainda assim se divertia com ela como se fossem da mesma idade.
Dr. Potter chamou Lily, lhe mostrando o carro de vídeo que iriam usar, indicando a mesa que em que ela deveria arrumar, e contando a história do paciente, Andreas, que parecia ser bem simples. Enquanto eles conversavam sobre o caso, a porta se abriu e Lily sentiu o leve sorriso escapulir do rosto.
—Ah, Snape. Vá buscar Andreas para iniciarmos a cirurgia. Evans e eu estamos aguardando. Moody já está vindo – Dr. Potter falou. Lily sentiu o olhar de Dr. Snape a fuzilando, e o mesmo sentimento de quando haviam discutido a paciente dele no dia anterior voltou.
Lily procurou manter seus olhos longe de Dr. Snape enquanto ele passava os últimos dados para Dr. Potter. Ela não entendia muito bem o que tinha feito para que o R1 demonstrasse tanto ódio assim por ela.
Bom, além de ter discordado dele.
Mas ela tinha perguntado, não discordado diretamente. Será que isso seria o suficiente para ser tão antagonizada?
—Estamos prontos? – Dr. Moody perguntou.
—Snape foi pegar o paciente – Dr. Potter respondeu – E Evans vai instrumentar para a gente.
—Certo. Vamos esperar a paciente, então. James, vocês já terminaram a escala do próximo mês?
Lily percebeu que aquilo encerraria a conversa que estava tendo com Dr. Potter, e se aproximou de Dra. Figg.
—A senhora trabalha aqui há muito tempo? – Ela perguntou.
—Ah, sim, muito tempo. Quase 30 anos, e adoro. Gosto muito de ver os internos e os residentes evoluírem – Dra. Figg explicou – James, por exemplo. Quando ele chegou era uma bola de energia que precisava ser contida. Alastor já teve de reclamar com ele diversas vezes por causa disso, e hoje é um dos nossos melhores residentes, se não o melhor.
Era fácil perceber o afeto que a anestesista tinha por Dr. Potter, e Lily deu um pequeno sorrisinho.
—Quem observa bem consegue visualizar rapidinho os melhores, e eu me orgulho em dizer que consegui reconhecer alguns dos melhores enquanto residentes.
A resposta de Lily foi interrompida pela chegada de Andreas com Dr. Snape, a enfermeira e uma técnica de enfermagem, que seria a circulante da cirurgia. Dr. Potter a chamou.
—Quando terminarem de fazerem o check-list você pode se lavar, ok? Snape vai logo em seguida, e se tiver alguma dúvida, ele lhe ajuda a escolher os materiais.
Lily assentiu e ficou esperando o check-list de segurança para garantir que a paciente era a paciente certa, que o procedimento seria realmente aquele, se todos os materiais necessários estavam em sala, se os materiais da anestesia estavam disponíveis e todos os outros critérios que compunham uma cirurgia segura.
Assim que terminou, Lily saiu da sala para fazer a lavagem cirúrgica das mãos. Amarrou a máscara antes, e iniciou o processo de cinco minutos para garantir a melhor limpeza possível para o procedimento. Quando estava terminando, Dr. Snape apareceu.
—Evans, você está no rodízio de cirurgia, não de anestesia. Deve ficar com a equipe cirúrgica e não anestésica, entendido?
Lily arregalou os olhos e assentiu com a cabeça, as mãos pingando no chão.
—E pelo amor de Deus não contamine nada ou você vai sair da minha cirurgia.
Lily apenas assentiu novamente e seguiu para a sala, tomando o máximo de cuidado para não contaminar as mãos. A capa estéril estava em cima da mesa junto com a compressa para enxugar as mãos. Lily respirou fundo e se concentrou mais do que o normal.
Ela definitivamente não queria dar motivos para Dr. Snape odiá-la ainda mais.
Uma das coisas que Lily simplesmente amava em cirurgia era que tudo tinha técnica e organização. A lavagem das mãos começa nas unhas e termina nos cotovelos. Enxugar as mãos com um dos lados da compressa e fazer a manobra para usar o outro lado. Segurar a capa cirúrgica de um determinado modo para evitar contaminação. A técnica de calçar as luvas de modo que as mãos nunca toquem o lado externo das luvas. A arrumação da mesa cirúrgica.
Claro que havia algumas diferenças de lugar para lugar, mas a base permanecia a mesma, sempre com o objetivo de ajudar o paciente. Ela sabia que uma coisinha que fizesse de errado poderia prejudicar, então era preciso tomar cuidado.
A organização metódica caia muito bem para Lily.
—Qual o tamanho de sua luva, querida? – A circulante perguntou.
—Sete – Lily respondeu – É meu primeiro dia aqui, qual o seu nome?
A circulante sorriu.
—Pode me chamar de Pince, querida.
—Prazer, Pince, sou nova interna aqui, Lily.
Pince sorriu novamente, e Lily calçou as luvas enquanto a circulante amarrava a capa cirúrgica. Quando terminou, separou as capas e as luvas dos residentes e se pôs a arrumar a mesa à medida que Pince lhe oferecia os materiais.
Dr. Snape logo chegou, se vestindo e calçando as luvas. Se aproximou da mesa, mas aparentemente não achou nada para criticar, pois apenas pegou a solução de limpeza e um dos campos estéreis e ficou esperando Dr. Potter também se arrumar.
Lily observou atentamente os residentes pintarem o abdome de Andreas com a solução, posicionarem os campos e quando haviam terminado, aproximou a mesa do paciente.
—Sabe montar a câmera? – Dr. Potter perguntou. Lily sentiu o rosto corar.
—Não, nunca me ensinaram. – Ela respondeu. Percebeu Dr. Potter sorrir pelas pregas ao redor dos olhos.
—Nada como o presente para aprender.
Ela prestou atenção em como Dr. Potter lhe ensinou a montar a câmera e a ótica (lembrando de ter muito, muito cuidado com esse material depois de ouvir o quanto custava), além de sempre colocar as proteções plásticas estéreis, e programar a câmera adequadamente para qualquer procedimento por vídeo.
—Muito bem, agora estamos prontos. Dra. Figg, podemos prosseguir? – Dr. Potter perguntou. A anestesista assentiu – Snape, é sua cirurgia. Vamos ajudar Andreas.
—Bisturi – Dr. Snape solicitou sem olhar para cima. Lily estava acostumada (realmente não dava para ficar olhando para outros lugares durante uma cirurgia), e apenas passou o instrumento tomando cuidado para não se cortar nem cortar Dr. Snape.
—Evans, vamos fazer a técnica fechada do pneumoperitônio. Sabe o passo-a-passo? – Dr. Potter perguntou.
—Sim, senhor.
—Ótimo. Mas por favor, não me chame de senhor. Não devo ser nem cinco anos mais velho que você – Ele respondeu, e Lily conseguia ouvir o sorriso na voz.
—Snape, cuidado quando inserir a agulha de Veress – Dr. Moody disse, se aproximando para observar o trabalho do residente.
—Ele sabe, senhor – Dr. Potter disse – Já fez o pneumoperitônio. Mas nunca passou os trocartes antes. Lembre-se de fazer os movimentos de rotação…
Lily não tinha como não admirar o jeito que Dr. Potter orientava o R1 naquela cirurgia. Ela sabia que era um grande momento para Dr. Snape, e conseguia perceber que ele estava indo muito bem. Ele podia não ter ido com a cara de Lily, mas não dava para negar que era competente.
—Aqui… Snape, aguarde antes que queimar… Evans, quando vemos o leito da vesícula assim precisamos encontrar logo a artéria cística e o ducto cístico, para seccioná-los e depois prosseguir para a retirada da vesícula. – Dr. Potter explicou.
—Certo – Lily concordou.
—Sempre que chegamos aqui procuramos um referencial anatômico que nos leva à artéria cística. Sabe dizer qual é?
Lily percebeu os quatro médicos da sala lhe olhando e limpou a garganta, preferindo olhar para a tela onde ela conseguia ver exatamente o que Dr. Potter queria.
—Bom, precisamos delimitar o trígono de Calot, certo? – Ela disse e conseguiu ouvir o suspiro de impaciência de Dr. Snape. Dr. Potter o encarou uma vez e retornou a Lily.
—Exato. Mas quais são os limites?
—Ducto cístico, ducto hepático comum e borda do fígado?
—Isso mesmo – Dr. Potter respondeu.
—E qual outro referencial para a artéria? – Dr. Moody instigou ainda mais.
—Bem, é um linfonodo, deixa eu lembrar o nome… – Lily respondeu, puxando a mente para os livros que lera há poucos dias – Mascagni! Linfonodo de Mascagni, que repousa na própria artéria.
—Hm… parece que encontramos alguém que não tenha a cabeça vazia, Potter – Dr. Moody disse. – E Snape, lembre-se que todos estão aqui para aprender. Não quero demonstrações de impaciência com internos ou serei obrigado a fazer o mesmo com você.
O resto do procedimento seguiu com tranquilidade. Dr. Potter orientava Dr. Snape, dando-lhe dicas de como melhorar a empunhadura do instrumental, de como tornar a cirurgia mais fácil.
—Muito bem, Snape – Dr. Moody disse quando a vesícula foi retirada completamente – Parabéns pela primeira cirurgia. Continue operando bem.
Lily não observou Moody sair pois precisava continuar focada no procedimento, mas sentia que ele não havia ficado completamente satisfeito com seu residente. Dr. Potter pediu os fios para fechar o orifício maior com Dr. Snape, e quando terminou, cumprimentou o R1 apertando sua mão.
—Boa técnica. Deixe Evans suturar o subcutâneo e a pele, sim? Vou descrever a cirurgia. Dra. Figg, muito obrigado pela excelente anestesia de sempre. Pince, obrigado por nos ajudar. Evans… – Ele disse, e Lily pensou que talvez ele estivesse sorrindo levemente – Voltarei para conferir a sua sutura. Sabe fazer intradérmico? – Lily assentiu – Ótimo. Deixe uma cicatriz bem bonita para Andreas, sim?
Lily assentiu mais uma vez, e separou o material de sutura, ocupando o lugar deixado por Dr. Potter. Dr. Snape não perguntou se Lily precisava de ajuda, nem pegou a tesoura para ajudar a garota – nada do que ela não imaginasse que ele faria. Com calma, ela se pôs a fazer os pontos com todo o cuidado que podia, mesmo que demorasse mais. Por isso, resolveu nem mesmo olhar para Dr. Snape, que estava de braços cruzados observando com o que ela sabia ser uma expressão de impaciência.
Quando ela estava iniciando os pontos do último corte (já que era uma cirurgia por vídeo e ficava com alguns cortes pequenos espalhados pelo abdome), ouviu Dr. Snape também sair de campo. Não se incomodou e continuou o seu trabalho.
Ouviu a porta abrindo, mas preferiu continuar a sutura.
—Viu, Aluado, ela sutura melhor que Rosier – Uma voz risonha disse.
Lily finalizou o último ponto e só então olhou para a direção de Dr. Potter, que estava acompanhado por Dr. Lupin e por Marlene, os três observando o trabalho de Lily.
—Esse intradérmico é para poucos – Dr. Lupin concordou.
Lily agradeceu e pediu a Pince o material para fazer o curativo, ignorando os olhares de Marlene enquanto finalizava seu trabalho. Depois de tirar as luvas e a capa, foi falar com Dra. Figg e Pince, para em seguida lavar as mãos para tirar o talco.
—Já impressionando, ein, ruiva? – Marlene provocou, se postando ao seu lado. Lily revirou os olhos, mas suas bochechas coradas traíam sua animação.
—Não é nada disso, Lene, não exagera.
Marlene ergueu as sobrancelhas.
—Tá bom então. Vamos lá que Remus disse que tem algumas coisinhas interessantes pra gente.
Lily assentiu e seguiu Marlene. Ela não tinha dúvidas que veria coisas interessantes.
***
—Sexta-feira da semana que vem vai ter uma bandinha legal no Três Vassouras, topam?
Marlene aceitou imediatamente, e Lily também concordou. Mary era ótima em achar bandas novas, e as duas amigas se aproveitavam disso o máximo possível.
—Com a condição de que não atrapalhe o seu TCC, Mary – Lily disse logo em seguida, terminando de passar o café.
—Não vai. Estou com a programação toda pronta. Escreverei 15 páginas até esse domingo, e até sexta farei todas as tabelas, e daí vamos no Três Vassouras tomar várias e esquecer um pouco desse inferno. E vocês podem beber também, eu acho. Não me importa muito, mas seria interessante alguém sóbrio para cuidar de mim e levar pra casa?
—Eu posso ser a motorista da rodada, terei que passar enfermaria no sábado que vem – Lily se ofereceu.
—Não vai ficar ruim pra você não, Lil? – Mary perguntou – Sei que você não gosta de sair na véspera de ir pro hospital…
—Bom… que horas você pretende voltar? Se for até duas da manhã, tá tranquilo pra mim…
Mary sorriu e aceitou a proposta de Lily. Marlene trouxe a cesta de pão da cozinha, e as três se sentaram para comer juntas, como sempre tentavam fazer.
—Espera, se você tem que passar enfermaria, eu também tenho? – Marlene perguntou
—Não, nós duas passamos esse fim de semana, mas eu vou cobrir para Emmeline. É aniversário dela ou algo assim na sexta-feira, e ela me pediu para passar para ela no sábado, e ela passa pra mim no dia do congresso.
—Então está tudo combinado, certo? Sexta que vem, nós três no Três Vassouras, 2h da manhã voltando pra casa!
—E sábado eu deixo o kit ressaca para vocês duas antes de sair – Lily garantiu.
—Essa é a minha garota! – Mary completou, piscando para Lily.
Lily sabia quão sortuda era em ter amigas como as que tinha, e muitas vezes, como naquele jantar simples, se pegava refletindo exatamente isso. Observava Marlene e Mary se cutucando e rindo, e sabia que tinha encontrado uma pequena família ali para compensar a distância da sua.
Fale com o autor