Interlúdio
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura!
Interlúdio
Escrito por Amanur e Noel Blue
…
Capítulo Único
…
Eu costumava imaginar aventuras para mim.
Eu inventei uma vida, para que eu pudesse,
pelo menos, existir de alguma forma.
(Fyodor Dostoyevsky)
...
Me colocaram numa sala de paredes e piso brancos. Disseram que eu tinha que ficar ali, por um tempinho. E foi só o que me disseram.
E eu odiei aquela sala. De paredes tão brancas que pareciam frios. Era uma sala espaçosa e extremamente limpa. Havia uma pequena janela no alto da parede oposta à porta, mas estava fechada com grades. Além disso, o chão refletia meu rosto, quase como um espelho d’água. De repente, me senti claustrofóbica, como se as paredes se movessem em minha direção.
Bati na porta umas três vezes, perguntando se mais alguém viria, mas não me responderam. Então, para me distrair, resolvi pensar em alguma coisa. Havia uma mesa de vidro no meio da sala, as pernas de madeira escura contrastavam contra o chão claro. Era uma mesa redonda com duas cadeiras, uma de frente para outra. Quando me vi diante delas, senti um pequeno nervo saltar no pescoço. Afinal, onde eu me sentaria? Qual era a bendita ponta daquela mesa redonda, que não tinha início, nem meio, nem fim?
Mesas redondas eram problemáticas, porque não cabiam em canto algum. Se a colocasse contra uma parede, ela não encaixaria por causa da sua curvatura. Não era como mesas quadradas que cabem perfeitamente contra uma parede. Elas se alinham pela reta horizontal da mesa, com a verticalidade da parede. Mas a cretina da mesa redonda, não. Ficaria desajeitada. Ela não pertence a canto algum. E o que lhe resta, é ficar no meio da sala, como ela, de fato, estava ali. No meio da sala, atrapalhando o fluxo de ar, o fluxo de passagem, o fluxo das coordenadas, o fluxo das linhas.
Além disso, havia outro problema com a cretina mesa redonda. Veja bem, eu tinha sido criada em uma família que se baseava na constituição de uma hierarquia. Meu pai, era o homem da casa, que sustentava tudo, e por isso ficava no topo da hierarquia. Minha mãe, pessoa que ocupava o segundo degrau abaixo daquela escada, era quem colocava tudo em ordem na casa. E, por último, eu, responsável por desordenar tudo. Afinal, acreditava eu, se tudo se mantivesse sempre em ordem, minha mãe não teria mais serventia. E aquela constituição era tão forte, que ela se mostrava em várias situações. Em reuniões familiares, por exemplo, meu pai era o primeiro a se apresentar. Depois, a minha mãe, e por último eu. O mesmo acontecia em eventos sociais. Em casa, meu pai tinha prioridade no manejo do controle remoto, e era ele quem se sentava na extremidade da mesa, como os reis faziam. E tenho certeza absoluta de que ele se sentia como tal.
Então, quando me deparei com aquela mesa redonda… Eu precisava saber em que posição eu deveria me colocar naquela mesa, precisava saber quem ficaria acima ou abaixo de mim, mas aquela mesa redonda, aquela bendita mesa não me permitia sequer supor posição alguma. Afinal, onde ela começava, onde terminava? Qual era a sua ponta?
De repente, alguém abre a porta e entra. Ele dá dois passos e para.
— Alguma coisa errada, Sakura? — ele pergunta.
— Por que essa mesa é redonda?
— Por que alguém a fez redonda?
— Por que você comprou uma mesa redonda para colocar aqui?
— Por que isso a incomoda?
— Por que você não está respondendo minhas perguntas?
— E porque você não está respondendo as minhas?
Suspirei. Ele me cansava, sempre.
E ele sorriu.
— Sente-se. — me disse.
— Não posso sentar aonde não sei onde devo me sentar.
— Você pode sentar onde quiser, Sakura.
Mordisquei a ponta do polegar, olhando para aquela mesa redonda, que parecia me afrontar. Olhava para mim com aquele seu enorme olho redondo, bem no centro da mesa. E me encarava como se me desafiasse a uma aposta. “Duvido que você consiga escolher uma lugar!” — parecia me dizer. Eu sabia que deveria ser como tirar um band-aid do joelho, de uma só vez, sem volta. Mas toda vez que eu pensava em escolher uma daquelas cadeiras, o rosto zangado do meu pai aparecia refletido no vidro daquela mesa redonda, e depois aquele rosto se multiplicava pelo chão branco.
— Não, eu não consigo escolher.
Ele suspirou.
— Então, você se importa se eu escolher?
Se ele escolher, não terá sido culpa minha. Então, fiz que não com a cabeça, e ele escolheu a cadeira de frente para a porta. Sentei devagar, quase com medo, e coloquei as mãos no colo.
Ele sorriu e sentou logo depois. Ao passar por mim, senti aquele perfume que eu tanto gostava. E percebi que hoje ele também estava vestindo a camisa azul escura, com as mangas enroladas nos braços. Eu gostava quando ele usava tons escuros, ficava elegante, e ele parecia, de alguma forma, mais alto.
— Você está bonito hoje. — comentei.
— Obrigado, você não está tão mal, também.
— Modéstia sua — passei a mão pelo cabelo, tentando arrumá-lo — Eu nem tive tempo de me arrumar hoje.
— Você não precisa se arrumar para ficar bela.
— E você, nunca perde a chance de me elogiar, não é mesmo?
Ele sorri.
— Como foi sua noite? — me perguntou.
— Eu tive um sonho estranho. — comentei.
— Que sonho foi esse?
— Um sonho esquisito. Acho que você não iria querer saber.
— Me conte.
— Bom… Eu não me lembro muito em detalhes… Lembro que era noite. E eu estava sozinha numa casa, talvez a minha, ou dos meus pais… Eu estava sentada numa poltrona na sala, tomando um vinho, ou uísque, eu não me lembro agora. Estava mexendo no colar de ouro que você me deu de aniversário, e me lembrando do nosso primeiro encontro. Você tinha me convidado a um parque de diversões, jurando que não largaria a minha mão, porque eu morria de medo daqueles brinquedos malucos. Então começamos pelos brinquedos mais bobos, como o carrossel, depois pelo trenzinho infantil. Éramos os únicos adultos naqueles brinquedos. Eu morria de vergonha, mas você parecia tão seguro de si, não se importava com os olhares e risadinhas que as pessoas davam em nossa direção. Depois, fomos para a roda gigante, e mesmo que eu tremesse de medo e soasse frio, você manteve sua promessa, e não soltou minha mão. Me lembrei até do cheiro da pipoca que você comprou para nós, e do calor da sua mão. Me lembrei das trocas de olhares, dos sorrisos tímidos, e risadas nervosas…
— Você sonha em cores?
— Ah, sim.. Vejo cores bem vivas… Tanto nesse sonho quanto nas lembranças que estava tendo. Verdes, azuis, amarelos, vermelhos... Enfim, como eu ia dizendo, lá estava eu, naquele transe nostálgico, mergulhada naquelas doces lembranças do passado, saboreando tudo nos mínimos detalhes, no escuro daquela sala, sozinha… Ou, pelo menos, achei que estava sozinha, porque, de repente, ouvi um barulho no andar de cima. Então, minhas pernas começaram a se mover por conta própria, como se não fizessem mais parte do meu corpo. Foram caminhando, entre passos incertos, pelas escadas, até o andar de cima. Eu dizia a elas que parassem, que não deveriam seguir adiante, mas elas teimavam comigo, fingiam não me ouvir. O barulho vinha do nosso quarto. Não sei como eu soube disso, mas eu tinha certeza de que era dali que aquele ruído estranho vinha. Então, sigo caminhando devagar pelo corredor até parar na porta. Tenho medo do quê ou quem vou encontrar ali, e mesmo assim minhas mãos começaram a se mover em direção à maçaneta. Mas bastou para que eu a tocasse com as pontas dos dedos que a porta se abriu, e você apareceu na minha frente, usando essa mesma camiseta azul, de mangas dobradas nos braços.
— É mesmo? — ele perguntou, com aquele sorriso meio sarcástico no rosto.
— Sim. Acho que devo mesmo gostar muito dessa sua camisa.
— Não foi a que você me deu de aniversário, no ano passado?
— É? Não me lembro disso…
Ele sorriu.
— Sakura, você se lembra das trocas de olhares do nosso primeiro encontro, mas não se lembra do presente que me deu no ano passado?
— Bom, fazer o quê? — dei de ombros.
— E como termina esse sonho?
— Ah, sim… Bem, deixe-me ver… Você apareceu na porta, e cruzou os braços, fazendo aquela sua cara de bravo, e me perguntou o que eu queria, como se eu não tivesse permissão para transitar pela minha própria casa.
— Achei que você não tivesse certeza sobre onde estava…
— Não quando eu estava lá embaixo, na sala, mas aquela maçaneta era igual ao do nosso quarto. — respondi, com convicção.
— Está bem. Prossiga.
— Então… Eu ouvi uma risadinha. Uma risadinha debochada, e feminina.
— E você tem certeza do que ouviu?
— Não tenho certeza de nada...
— E o que aconteceu depois?
— Eu tentei entrar no quarto, passar por você, mas você não me deixava passar. Você se postou como uma pedra de mármore, como um soldado na minha frente. Eu estava ficando tão frustrada e furiosa. Quando dei por mim mesma, eu já gritava e batia em você. E mesmo assim, você não se movia, e aquela risadinha continuava ecoando no meu ouvido, zombando de mim.
— E porque você acha que essa risada zombava de você?
— Por ter sido idiota, cega. Por ter confiado demais, por ter sido ingênua e acreditado demais em todo mundo. Eu sempre fui assim, nunca me questionei sobre a lealdade das pessoas. Sempre acreditei que tudo tinha um lugar, tudo tinha a sua ordem, e que todos prezavam por isso… Mas, aí, então, você veio, e bagunçou com a minha cabeça.
— Eu sou o culpado?
— Sim.
— Tem certeza de que eu sou o culpado por você ter se deixado levar por mim? Ou por qualquer coisa que tenha acontecido com você?
— Bom… — cocei a cabeça, me sentindo confusa — Certamente que só eu posso ser culpada por minha ingenuidade, mas você teve culpa por se aproveitar dela. Suas intenções o tornam culpado.
— E como é que você sabe sobre as minhas intenções?
— Por causa dos seus atos.
— E quais foram os meus atos?
— Bom… — cocei a cabeça outra vez, pensativa — Você me fez me apaixonar por você.
— Só isso?
— Você cuidou de mim…
— Me parece que só fiz o bem… não?
— Você me fez confiar em você… Você sempre me faz confiar em você. Você sempre parece ter o controle sobre mim, mas no sonho não, no sonho eu tomei o controle.
— E como é que você fez isso?
— Foi fácil. Eu o apunhalei no peito.
— Entendi… E você gostou disso?
— Sim, na verdade, sim. Senti uma enorme satisfação ao ver seu sangue escorrer entre meus dedos.
— Mas e porque você está chorando?
Então, percebi que havia lágrimas escorrendo pelo meu rosto, e as limpei com a mão. E dei de ombros.
Ele sorriu.
— E depois? — me perguntou — Conseguiu entrar no quarto?
— Foi tudo muito estranho. Depois que você caiu no chão, eu apenas voltei para o andar de baixo, e me sentei na mesma poltrona.
— Você se lembra de como se sentiu?
— Me sentia como tivesse sido dopada. Acho que fiquei num estado meio letárgico...
— Você não acha que isso significa alguma coisa?
— Eu não sei… Mas eu disse que era um sonho estranho, não disse? — me abaixei para tirar um fio de cabelo meu que havia caído sobre os meus pés, por que começou a me incomodar por não estar no lugar — Mas, me pergunto se isso é real?
Quando voltei a me acomodar na cadeira, vi que ele tinha sumido, e a porta estava aberta.
...
Fim
...
Fale com o autor