Notas iniciais
Fui presenteada por uma leitora, @Yumi flowers, obrigada pelo seu comentário. Ainda tem muita coisa pra rolar e isso foi a alavanca para continuar, muito obg por ler esta fic ♥

— Eu espero você, então. Até o nosso próximo encontro, Sumeragi-kun.

A voz de Kuroo-sensei silenciou na linha. A chuva caía incansavelmente, encharcando as ruas da cidade e transformando o asfalto em um espelho cintilante para as luzes de néon. O som da água atingindo o pavimento criava um ruído de fundo calmante para os pensamentos de Subaru enquanto ele caminhava por Tóquio.

Envolto em seu longo casaco preto, Subaru apertou o passo para voltar para "casa". O cabelo estava penteado para trás, gotas de chuva agarradas aos fios escuros. As ruas estavam desertas; a maioria das pessoas buscara abrigo da tempestade, mas o próprio Sumeragi não se importava com o clima. A ausência de transeuntes era até conveniente: poupava-o de explicar o estado caótico de suas roupas, que escondiam um corpo marcado por ferimentos e arranhões recentes.

De repente, o coração de Subaru disparou. Ele estacou, captando uma sensação poderosa... magia pulsava pelo ar, intensificando-se a cada passo.

Ele não podia ignorar o pressentimento de que algo estava gravemente errado. Com cautela, parou no parque central — a solidão do lugar era uma vantagem agora. Encostado a uma árvore, tentou se concentrar para decifrar a anomalia. Uma forte rajada de vento o atingiu. Um turbilhão de sombras e energia o envolveu, o céu rasgou-se em um círculo etéreo, e Subaru sentiu a magia queimar sob a pele.

Antes que pudesse reagir, algo despencou dos céus diretamente em seus braços.

— Ugh! — Surpreso, Subaru segurou o peso instintivamente. O impacto quase o derrubou, mas ele firmou as pernas, recusando-se a ceder. — O qu...! — A voz de Subaru tremeu, misturando preocupação e choque: — Você...

Um anjo?

Para sua surpresa, era um jovem. Os olhos estavam fechados com força; o corpo, ferido e exausto. No entanto, o que paralisou Subaru foi a familiaridade. Aquele rosto ecoava alguém crucial de seu próprio mundo. Era ele...

— Subaru... — o garoto sussurrou roucamente o nome dele em meio a um grunhido de dor, soando fraco e transtornado.

A mente de Subaru acelerou. Aquela pessoa, ostentando o exato rosto de seu Kamui, havia literalmente caído em seus braços. Deixando as perguntas para depois, a gentileza habitual assumiu o controle, e Subaru o apertou contra o peito.

— Kamui!?

— Você é...

A voz. Aquele timbre exato. O tom do Kamui que ele conhecia nunca soava frágil, mas o garoto ferido carregava uma emoção profunda e desesperada. Quando o jovem abriu os olhos com esforço, Subaru prendeu a respiração. A semelhança era extraordinária, mas Sumeragi sabia no fundo: não era a mesma pessoa de suas memórias.

— Subaru...? — Kamui murmurou baixinho.

— Sim. Você está bem? — Subaru perguntou. — Consegue levantar?

Apesar da dor óbvia, um aceno relutante foi a resposta. O desconforto marcava aquele rosto desgastado, e as roupas estavam rasgadas e manchadas de sangue.

— Você é mesmo ele...

— Sim. Você está a salvo.

— Eu... eu sou... — Kamui estremeceu, algumas gotas de sangue espirrando no chão.

— Deixe-me ajudá-lo.

O garoto enrijeceu.

— Eu me recuso.

— Você está sangrando muito.

— Você nem me conhece!

— Isso realmente importa? — Subaru sussurrou, puxando o corpo tenso para mais perto. — Isso realmente importa agora para você?

— Mas eu sou...

— Você é Kamui. Isso é o suficiente. — A voz de Subaru soou paciente e calma acima do barulho da chuva. — Eu só quero ajudar. Já que você acabou aqui, é o mínimo.

Vencido pela exaustão, Kamui cedeu, o rosto pálido corando de leve.

— Ok.

Subaru estava sonhando...?

Kamui

O círculo mágico sob seus pés desaparecera, varrido por uma rajada de vento enquanto ele despencava junto com as gotas do céu. E então, para Kamui, tudo escureceu.

...

A chuva encobria a noite escura, batendo no telhado e fazendo a janela ranger com a força da tempestade.

Su... O peito de Kamui ardeu. Ele ofegou, puxando o ar em respirações rápidas e curtas.

— Merda — praguejou, cada movimento exacerbando a dor.

O que é este lugar? Kamui tentou se sentar, notando o desconforto de sua posição. Agarrou a capa que pertencia a Subaru, seu irmão gêmeo, identificando um cheiro familiar flutuando pelo quarto.

O ambiente era minimalista: apenas a cama e um criado-mudo. Caminhando com dificuldade até o relógio, cujo tique-taque martelava em sua cabeça, Kamui notou um calendário. Era 23 de abril, pouco depois das duas da manhã. A confusão em sua mente começava a clarear.

Subaru. Onde você está?

Ele chamou o nome do irmão mentalmente, o coração acelerado e as costas encharcadas de suor frio. Se caísse no inferno, a maldita leveza que sentia agora seria idêntica àquela sensação.

Alguém está vindo. Captando aquela presença nostálgica, Kamui ouviu passos. Era um humano, mas não um inimigo. A maçaneta girou e a porta se abriu. Um homem alto, de cabelos escuros, parou no limiar. Vestia um casaco preto adornado com marcas vermelhas — sangue.

Eles se encararam em silêncio.

— Ugh. — Kamui estremeceu em agonia, uma dor lancinante atingindo o fundo de seu cérebro. Sua condição atual não permitia lutas. — Não... Subaru — sussurrou, a visão embaçando.

Antes que pudesse organizar os pensamentos, seus membros cederam à fadiga. O estranho cruzou o quarto e amparou o braço de Kamui antes que ele atingisse o chão.

Tão rápido?

Uma mão firme nas costas de Kamui o fez tremer. O homem o abraçou gentilmente, tratando-o com extrema fragilidade.

— Kamui, por favor. Não se esforce tanto.

O homem permitiu que Kamui o olhasse nos olhos. Olhos violetas... A semelhança com o irmão que ele tanto buscava era impressionante. Hesitante, Kamui estendeu a mão para tocar a bochecha do humano. Claro, pensou, disfarçando o choque com uma risada autodepreciativa. Fui descuidado.

Em resposta, um olho violeta-azulado e um brilho de ouro intenso encontraram seu olhar. Eram olhos gentis, emoldurados por cílios longos.

— Você é... Subaru.

Afinal, estamos em outro mundo.

— Me solte.

— Deixe-me cuidar de você.

Kamui parou de lutar, os dedos ensanguentados agarrando firmemente o sobretudo daquele Subaru. Ele estava encharcado, mas Kamui estava pior.

— Eu posso me curar rápido — disse, por fim. — Você não precisa fazer nada...

— Ok. — Subaru o pegou no colo com facilidade; Kamui era leve, quase sem peso. O jovem onmyōji o encarou de perto, os rostos a centímetros de distância.

— P-por que você...

Subaru o deitou na cama, o colchão rangendo sob o peso. Kamui sentiu as bochechas esquentarem, carregado com mais perfeição do que uma princesa. Aquilo feria profundamente seu orgulho.

— Onde estamos?

— Tóquio. Meu apartamento — Subaru respondeu de forma simples.

Tch. Tóquio. Kamui caiu de costas, soltando a capa sobre o edredom. O humano o observava com preocupação genuína. A cama era imensa, mas o vampiro permaneceu encolhido. Dois olhos fixos nele revelavam curiosidade e cuidado, sem qualquer indício de culpa.

— Você pretende me encarar a noite toda?

— ... Apenas me certificando de que você é real. — Subaru fez um gesto apaziguador e, piscando algumas vezes, tocou a bochecha de Kamui com a ponta dos dedos. — Oh. Você é real.

A sobrancelha de Kamui contraiu-se em irritação.

— Eu te disse para não...

— Minhas desculpas. — Por um segundo, Subaru pareceu genuinamente envergonhado e recuou. — Não sei de onde você veio, e você provavelmente não vai me contar tudo agora. E tudo bem. Eu não vou te machucar.

— Deixe-me ver seu ferimento... — O toque superficial de Subaru no peito do garoto arrancou-lhe um grunhido alto.

— Me desculpe! — Subaru afastou-se no mesmo instante.

— Não me toque! — Kamui exigiu, soando raivoso. Subaru sabia, porém, pelo olhar fugaz de arrependimento do garoto, que era a dor falando.

— Vou me curar logo. Eu só preciso de...

Sangue.

— Eu só preciso de um tempo. — Kamui fez uma careta. As luvas de Subaru eram muito frias. A magia oculta sob o tecido apenas piorava a agonia.

— Esse sangue em você... — Kamui notou a mancha nas roupas do onmyōji.

O humano abriu a boca em resignação.

— Ah. Não é meu.

Um silêncio caiu entre eles.

— É seu.

— De onde você me conhece? — Kamui questionou. A resposta era óbvia. A interligação de seus nomes e a semelhança impressionante não eram mera coincidência. — Saiba que eu não sou a pessoa que você esperava.

— Eu sei — Subaru sorriu fraco. — Mas não é apenas o seu rosto. Seu nome, seus olhos... sua voz.

— Onde ele está?

Em vez de responder, Subaru apenas suspirou. Kamui piscou. Ah. Entendi.

— Minha prioridade aqui é garantir seu bem-estar. — Ajoelhando-se ao lado da cama, Subaru continuou: — Vou deixá-lo em paz para que cuide de si mesmo primeiro. — Levantou-se e caminhou até a saída. — Você é livre aqui. Pode explorar o apartamento, sair ou ficar. Leve o tempo que precisar.

— Por que está fazendo tudo isso? — Kamui indagou. Subaru parou na porta. — Só porque eu sou ‘Kamui’? Porque me pareço com ele?

— Antes de tudo, você é alguém precisando de ajuda. Ficar lá fora não é a melhor das suas opções.

— E se eu for um inimigo? E se eu quiser matar você?

Subaru sorriu à distância.

— Se for o caso, descanse por enquanto. Descobriremos o que fazer em seguida.

Subaru saiu. Sozinho, Kamui soltou um suspiro melancólico. Aquela aura o deixava ansioso, mas agora que o humano se fora, ele podia respirar livremente.

O quarto exalava um charme inegável, com iluminação suave e decoração minimalista. O cheiro familiar permeava o espaço, tingindo as bochechas de Kamui com um leve rosa.

Um gemido gutural escapou de sua garganta. Segurando a camisa com os dentes, ele expôs o torso e esperou. Em instantes, a pele retorcida e a cicatriz em seu abdômen fecharam-se sozinhas. Apenas o ferimento na cabeça exigiria mais tempo, justificando sua confusão mental tardia.

— Finalmente... — murmurou, encostando a cabeça no travesseiro com alívio. Com um feitiço rápido, limpou os vestígios de sangue de sua pele e roupas, rendendo-se ao sono logo depois.

Meia hora mais tarde, Subaru retornou com um copo de água gelada. Puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama, vigiando o garoto. A respiração de Kamui havia se estabilizado, os traços relaxando à medida que a dor cedia.

Enquanto o observava dormir, o onmyōji questionava-se sobre aquele encontro improvável, a mente repleta de curiosidade e apreensão:

Como você veio parar aqui? O que aconteceu com você?



Notas finais
Mal sabe Subaru que esse Kamui tem sede de outra coisa XD
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.