Interlaced
4 Dearest
Notas iniciais
— Eu espero você, então. Até o nosso próximo encontro, Sumeragi-kun.
A voz de Kuroo-sensei silenciou na linha. A chuva caía incansavelmente, encharcando as ruas da cidade e transformando o asfalto em um espelho cintilante para as luzes de néon. O som da água atingindo o pavimento criava um ruído de fundo calmante para os pensamentos de Subaru enquanto ele caminhava por Tóquio.
Envolto em seu longo casaco preto, Subaru apertou o passo para voltar para "casa". O cabelo estava penteado para trás, gotas de chuva agarradas aos fios escuros. As ruas estavam desertas; a maioria das pessoas buscara abrigo da tempestade, mas o próprio Sumeragi não se importava com o clima. A ausência de transeuntes era até conveniente: poupava-o de explicar o estado caótico de suas roupas, que escondiam um corpo marcado por ferimentos e arranhões recentes.
De repente, o coração de Subaru disparou. Ele estacou, captando uma sensação poderosa... magia pulsava pelo ar, intensificando-se a cada passo.
Ele não podia ignorar o pressentimento de que algo estava gravemente errado. Com cautela, parou no parque central — a solidão do lugar era uma vantagem agora. Encostado a uma árvore, tentou se concentrar para decifrar a anomalia. Uma forte rajada de vento o atingiu. Um turbilhão de sombras e energia o envolveu, o céu rasgou-se em um círculo etéreo, e Subaru sentiu a magia queimar sob a pele.
Antes que pudesse reagir, algo despencou dos céus diretamente em seus braços.
— Ugh! — Surpreso, Subaru segurou o peso instintivamente. O impacto quase o derrubou, mas ele firmou as pernas, recusando-se a ceder. — O qu...! — A voz de Subaru tremeu, misturando preocupação e choque: — Você...
Um anjo?
Para sua surpresa, era um jovem. Os olhos estavam fechados com força; o corpo, ferido e exausto. No entanto, o que paralisou Subaru foi a familiaridade. Aquele rosto ecoava alguém crucial de seu próprio mundo. Era ele...
— Subaru... — o garoto sussurrou roucamente o nome dele em meio a um grunhido de dor, soando fraco e transtornado.
A mente de Subaru acelerou. Aquela pessoa, ostentando o exato rosto de seu Kamui, havia literalmente caído em seus braços. Deixando as perguntas para depois, a gentileza habitual assumiu o controle, e Subaru o apertou contra o peito.
— Kamui!?
— Você é...
A voz. Aquele timbre exato. O tom do Kamui que ele conhecia nunca soava frágil, mas o garoto ferido carregava uma emoção profunda e desesperada. Quando o jovem abriu os olhos com esforço, Subaru prendeu a respiração. A semelhança era extraordinária, mas Sumeragi sabia no fundo: não era a mesma pessoa de suas memórias.
— Subaru...? — Kamui murmurou baixinho.
— Sim. Você está bem? — Subaru perguntou. — Consegue levantar?
Apesar da dor óbvia, um aceno relutante foi a resposta. O desconforto marcava aquele rosto desgastado, e as roupas estavam rasgadas e manchadas de sangue.
— Você é mesmo ele...
— Sim. Você está a salvo.
— Eu... eu sou... — Kamui estremeceu, algumas gotas de sangue espirrando no chão.
— Deixe-me ajudá-lo.
O garoto enrijeceu.
— Eu me recuso.
— Você está sangrando muito.
— Você nem me conhece!
— Isso realmente importa? — Subaru sussurrou, puxando o corpo tenso para mais perto. — Isso realmente importa agora para você?
— Mas eu sou...
— Você é Kamui. Isso é o suficiente. — A voz de Subaru soou paciente e calma acima do barulho da chuva. — Eu só quero ajudar. Já que você acabou aqui, é o mínimo.
Vencido pela exaustão, Kamui cedeu, o rosto pálido corando de leve.
— Ok.
Subaru estava sonhando...?
KamuiO círculo mágico sob seus pés desaparecera, varrido por uma rajada de vento enquanto ele despencava junto com as gotas do céu. E então, para Kamui, tudo escureceu.
...
A chuva encobria a noite escura, batendo no telhado e fazendo a janela ranger com a força da tempestade.
Su... O peito de Kamui ardeu. Ele ofegou, puxando o ar em respirações rápidas e curtas.
— Merda — praguejou, cada movimento exacerbando a dor.
O que é este lugar? Kamui tentou se sentar, notando o desconforto de sua posição. Agarrou a capa que pertencia a Subaru, seu irmão gêmeo, identificando um cheiro familiar flutuando pelo quarto.
O ambiente era minimalista: apenas a cama e um criado-mudo. Caminhando com dificuldade até o relógio, cujo tique-taque martelava em sua cabeça, Kamui notou um calendário. Era 23 de abril, pouco depois das duas da manhã. A confusão em sua mente começava a clarear.
Subaru. Onde você está?
Ele chamou o nome do irmão mentalmente, o coração acelerado e as costas encharcadas de suor frio. Se caísse no inferno, a maldita leveza que sentia agora seria idêntica àquela sensação.
Alguém está vindo. Captando aquela presença nostálgica, Kamui ouviu passos. Era um humano, mas não um inimigo. A maçaneta girou e a porta se abriu. Um homem alto, de cabelos escuros, parou no limiar. Vestia um casaco preto adornado com marcas vermelhas — sangue.
Eles se encararam em silêncio.
— Ugh. — Kamui estremeceu em agonia, uma dor lancinante atingindo o fundo de seu cérebro. Sua condição atual não permitia lutas. — Não... Subaru — sussurrou, a visão embaçando.
Antes que pudesse organizar os pensamentos, seus membros cederam à fadiga. O estranho cruzou o quarto e amparou o braço de Kamui antes que ele atingisse o chão.
Tão rápido?
Uma mão firme nas costas de Kamui o fez tremer. O homem o abraçou gentilmente, tratando-o com extrema fragilidade.
— Kamui, por favor. Não se esforce tanto.
O homem permitiu que Kamui o olhasse nos olhos. Olhos violetas... A semelhança com o irmão que ele tanto buscava era impressionante. Hesitante, Kamui estendeu a mão para tocar a bochecha do humano. Claro, pensou, disfarçando o choque com uma risada autodepreciativa. Fui descuidado.
Em resposta, um olho violeta-azulado e um brilho de ouro intenso encontraram seu olhar. Eram olhos gentis, emoldurados por cílios longos.
— Você é... Subaru.
Afinal, estamos em outro mundo.
— Me solte.
— Deixe-me cuidar de você.
Kamui parou de lutar, os dedos ensanguentados agarrando firmemente o sobretudo daquele Subaru. Ele estava encharcado, mas Kamui estava pior.
— Eu posso me curar rápido — disse, por fim. — Você não precisa fazer nada...
— Ok. — Subaru o pegou no colo com facilidade; Kamui era leve, quase sem peso. O jovem onmyōji o encarou de perto, os rostos a centímetros de distância.
— P-por que você...
Subaru o deitou na cama, o colchão rangendo sob o peso. Kamui sentiu as bochechas esquentarem, carregado com mais perfeição do que uma princesa. Aquilo feria profundamente seu orgulho.
— Onde estamos?
— Tóquio. Meu apartamento — Subaru respondeu de forma simples.
Tch. Tóquio. Kamui caiu de costas, soltando a capa sobre o edredom. O humano o observava com preocupação genuína. A cama era imensa, mas o vampiro permaneceu encolhido. Dois olhos fixos nele revelavam curiosidade e cuidado, sem qualquer indício de culpa.
— Você pretende me encarar a noite toda?
— ... Apenas me certificando de que você é real. — Subaru fez um gesto apaziguador e, piscando algumas vezes, tocou a bochecha de Kamui com a ponta dos dedos. — Oh. Você é real.
A sobrancelha de Kamui contraiu-se em irritação.
— Eu te disse para não...
— Minhas desculpas. — Por um segundo, Subaru pareceu genuinamente envergonhado e recuou. — Não sei de onde você veio, e você provavelmente não vai me contar tudo agora. E tudo bem. Eu não vou te machucar.
— Deixe-me ver seu ferimento... — O toque superficial de Subaru no peito do garoto arrancou-lhe um grunhido alto.
— Me desculpe! — Subaru afastou-se no mesmo instante.
— Não me toque! — Kamui exigiu, soando raivoso. Subaru sabia, porém, pelo olhar fugaz de arrependimento do garoto, que era a dor falando.
— Vou me curar logo. Eu só preciso de...
Sangue.
— Eu só preciso de um tempo. — Kamui fez uma careta. As luvas de Subaru eram muito frias. A magia oculta sob o tecido apenas piorava a agonia.
— Esse sangue em você... — Kamui notou a mancha nas roupas do onmyōji.
O humano abriu a boca em resignação.
— Ah. Não é meu.
Um silêncio caiu entre eles.
— É seu.
— De onde você me conhece? — Kamui questionou. A resposta era óbvia. A interligação de seus nomes e a semelhança impressionante não eram mera coincidência. — Saiba que eu não sou a pessoa que você esperava.
— Eu sei — Subaru sorriu fraco. — Mas não é apenas o seu rosto. Seu nome, seus olhos... sua voz.
— Onde ele está?
Em vez de responder, Subaru apenas suspirou. Kamui piscou. Ah. Entendi.
— Minha prioridade aqui é garantir seu bem-estar. — Ajoelhando-se ao lado da cama, Subaru continuou: — Vou deixá-lo em paz para que cuide de si mesmo primeiro. — Levantou-se e caminhou até a saída. — Você é livre aqui. Pode explorar o apartamento, sair ou ficar. Leve o tempo que precisar.
— Por que está fazendo tudo isso? — Kamui indagou. Subaru parou na porta. — Só porque eu sou ‘Kamui’? Porque me pareço com ele?
— Antes de tudo, você é alguém precisando de ajuda. Ficar lá fora não é a melhor das suas opções.
— E se eu for um inimigo? E se eu quiser matar você?
Subaru sorriu à distância.
— Se for o caso, descanse por enquanto. Descobriremos o que fazer em seguida.
Subaru saiu. Sozinho, Kamui soltou um suspiro melancólico. Aquela aura o deixava ansioso, mas agora que o humano se fora, ele podia respirar livremente.
O quarto exalava um charme inegável, com iluminação suave e decoração minimalista. O cheiro familiar permeava o espaço, tingindo as bochechas de Kamui com um leve rosa.
Um gemido gutural escapou de sua garganta. Segurando a camisa com os dentes, ele expôs o torso e esperou. Em instantes, a pele retorcida e a cicatriz em seu abdômen fecharam-se sozinhas. Apenas o ferimento na cabeça exigiria mais tempo, justificando sua confusão mental tardia.
— Finalmente... — murmurou, encostando a cabeça no travesseiro com alívio. Com um feitiço rápido, limpou os vestígios de sangue de sua pele e roupas, rendendo-se ao sono logo depois.
Meia hora mais tarde, Subaru retornou com um copo de água gelada. Puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama, vigiando o garoto. A respiração de Kamui havia se estabilizado, os traços relaxando à medida que a dor cedia.
Enquanto o observava dormir, o onmyōji questionava-se sobre aquele encontro improvável, a mente repleta de curiosidade e apreensão:
Como você veio parar aqui? O que aconteceu com você?
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