Notas iniciais
Olá gente, capítulo novo fora da data de novo kk Mas tudo bem. Boa leitura.

Já eram quase sete da noite quando Yuri e as mulheres chegaram na casa de Sandra. Uma construção nova chamou sua atenção, um tipo de portão enorme ficava na frente de uma garagem, ele então posicionou o carro na frente da entrada, o portão se abriu revelando uma garagem com oito carros e duas motos. Yuri deixou o carro na vaga que estava livre e com ajuda de algumas pessoas eles levaram as coisas para a casa de Sandra.

Elena e Lúcia foram para o pavilhão, enquanto Yuri foi falar com Sandra. Ele observou um pouco os locais onde guardavam as coisas. No segundo andar um corredor estreito tinha três portas. A primeira era o depósito de roupas, várias malas e roupeiros estavam cheias de roupas, cada uma etiquetada com o nome de seu devido dono. Na próxima porta estava o armazém de alimentos, mais armários e duas geladeiras estavam cheias de alimentos. Por fim na última porta era o quarto da anfitriã, Sandra. Quando Yuri entrou ela estava arrumando alguns papéis. Seu quarto tinha uma janela para a rua, a cama de casal encostada na parede e do lado uma mesinha, encostada na parede do outro lado um roupeiro pequeno e rosa.
— Sandra? – Yuri abriu a porta e se sentou na cama, sua tia puxou uma cadeira e sentou também. – Tudo bem?
— Sim, sim... Estive fazendo as contas, se continuar assim, temos alimentos pra dois meses. – Ela disse e respirou fundo.
— Isso é bom, ou não? – Yuri não entendeu exatamente o que aquilo significava.
— Tudo depende do governo, mas fiz as contas contando com exageros, se mantermos tudo sob controle, podemos aguentar até cinco meses.
— Creio que estaremos livres novamente em breve, o governo está trabalhando na cura...
— Espero que sim. Talvez se durar mais de cinco meses, tenhamos que... Saquear as casas e mercados abandonados. – Sandra disse com dificuldade, parecia não aprovar a ideia.
— Não creio que iremos precisar de tanto. – Yuri disse convicto, acreditava que em pouco tempo o governo poderia resolver tudo.
— Espero que não mesmo. – Ela disse e relaxou na cadeira.
— Eu... Vi um deles... De novo... – Yuri não sabia de devia falar aquilo para Sandra, ou para qualquer um, mas precisava desabafar com alguém. – É horrível, eles nem parecem pessoas. Parecem animais completamente irracionais.
— Alguns de nós também já viram... Acredito que não podemos manter uma convivência pacífica com eles. Teremos que eliminar as ameaças. – Ela deu um certo ênfase na palavra "eliminar". Estava disposta a fazer outra coisa que não concordava.

☆ ☆ ☆ ☆

Já no pavilhão, Elena e Lúcia haviam encontrado um lugar para as duas em um canto, agora Elena vestia uma camisa social longa e branca e uma calça preta, a amiga usava uma blusa de lã longa e verde escuro e uma calça de cor escura. Estavam sentadas sobre as camas e olhavam para a televisão não muito grande pendurada no teto por um cabo de ferro e uma plataforma improvisada, um aviso indicava que um aviso seria feito em breve.
— Que merda toda é essa, né? – Elena se sentou mais pra cima na cama e escorou as costas na parede.
— Nem me fale. Mas é incrível, você continua bonita. – Lúcia disse e deu uma risada. Elena sorriu com o elogio da amiga.
— Por isso somos amigas, você é uma ótima levantadora de auto estima. – Ela disse e riu também, a amiga se sentou ao seu lado.
— É minha função, não é? As vadias brancas desistiram depois que perdeu o dinheiro. – Lúcia e a amiga começaram a rir novamente. Tinham várias lembranças de tudo que eram antes, ao que parecia Elena era muito rica até os quinze anos, mas o pai largou a família por causa de uma amante. Elena então teve que se tornar muito responsável e cuidar da família. Lúcia foi quem ficou ao seu lado, enquanto as amizades iam se desfazendo aos poucos. Ela ainda se deu ao trabalho de detalhar o dia em que ficou com um ator jovem famoso, e as duas riam enquanto Lúcia ia completando a história. Elas continuaram falando até notarem a presença de um garoto em um canto, Kauan estava lá, observando as duas.
— O que foi, garotinho? – Elena perguntou gentilmente enquanto estendia a mão chamando ele.
— Tenho doze anos. Não sou garotinho. – Ele respondeu, sua voz tinha um certo tom sério e de brincadeira ao mesmo tempo.
— Uou. – Ela abriu os braços e os cruzou de um modo "gangster" e os três deram uma gargalhada depois. – Já é um pré adolescente. Mil perdões.
— Como é seu nome? – Ele perguntou, ainda parecia tímido.
— Elena Goulart. Essa aqui é minha amiga Lúcia Malavre. – Ela respondeu e apontou pra amiga, que acenou para o garoto.
— Ah tá. Sou Kauan Teixeira... E vocês são muito bonitas. – Kauan disse, as mulheres se olharam e riram novamente, dessa vez acompanhadas do garoto.
— E então, qual sua história? – Lúcia perguntou puxando assunto com ele.
— Minha mãe é dona daqui. – Ele disse e sentou na cama com elas. – Eu nunca vi um errante, vocês já viram?
— Errante? – Lúcia perguntou sem entender o termo.
— É como todo mundo chama os infectados, porque um que ficou muito tempo com eles disse que eles ficam sempre caminhando sem rumo, como um errante.
— Não é que faz sentido mesmo? – Elena disse, parecia surpresa com a criatividade das pessoas. – Mas já vimos sim, não é algo que você queira ver...

Antes que pudessem continuar o assunto a transmissão que todos estavam esperando começou na televisão. O silêncio absoluto tomou conta do local, cortado mais uma vez pelo apresentador.
" – O governo continua mantendo todos os esforços na cura, mas nós, cidadãos comuns, temos um novo objetivo, nos ajudar, a sobrevivência de cada um não cabe mais a cada um e sim a todos. E temos uma triste notícia, os infectados terminais, não podem ser trazidos de volta. Isso mesmo, quando se levantam após a morte, continuam mortos. Só resta um instinto incontrolável de se alimentar, então, lutem contra eles se precisarem. Não será crime matar um morto, então, eles só são vulneráveis na cabeça, mirem na cabeça e acabem com eles. O governo agradece a compreensão de todos."

Assim que a transmissão acabou, uma conversa sem fim atingiu um volume incontrolável, o assunto era justo esse, sobre não haver volta para os mortos, embora todos já esperassem aquilo, sabiam que agora poderiam revidar, nem por isso iriam a caça, mas podem se defender e lutar, e isso de certo modo aliviava a tensão e a culpa de todos.

Esse foi o assunto por mais de uma hora, mas a única coisa que aliviou os ânimos de todos foi a janta. Carne, arroz, feijão e salada a vontade era suficiente para desviar a atenção de todos, em que o Sandra e outras mulheres serviam tudo para as pessoas que vinham buscar.

☆ ☆ ☆ ☆

Ana e Mariana foram as últimas a se servirem, pegaram a comida e se dirigiram para suas camas. Estavam comendo em silêncio, Ana tinha os olhos vermelhos, mas não estava mais chorando. Mariana se esforçava para comer mas não conseguia.
— Tudo bem? – Ana perguntou, comeu mais um pouco de comida
— Claro. Sabe, eu tenho vontade de chorar e gritar e chutar tudo, mas deve ser a adolescência. – Ela respondeu de cara fechada, apenas revirava a comida com o garfo.
— Não é mesmo. Estou assim também... – Ana respondeu, mas não desistia de comer.
— Que droga. Eu queria tanto ir no show da Katy Perry. E o mundo acaba antes. – Mariana disse rindo alto.
— O mundo não acabou, Mariana. – A irmã disse, olhou para a menor que estava com os olhos cheios de lágrimas.
— Eu espero que não. Mãe e pai, devem estar preocupados lá na Amazônia. – Mariana disse com a voz embriagada pelo choro.
— Eles devem estar bem, logo nos veremos... – Ana também começou a chorar, as duas se abraçaram. Seus soluços se misturavam em meio ao choro silencioso das duas. Em alguns minutos elas estavam bem novamente, e voltaram a comer.

A noite passou rápido para todos, a primeira a acordar foi Ana, graças aos seus hábitos comuns. Se dirigiu para um dos banheiros e até se surpreendeu com tudo que havia lá, cremes, escovas, produtos de beleza. No dia anterior ela tinha ficado surpresa com a água aquecida, pelo visto estavam em um paraíso. Isso fazia ela pensar em como seriam os abrigos que o governo organizava, com certeza era mais seguro, mas tinham um limite, e se a situação fosse como os carros do dia anterior indicavam, esse limite se esgotou bem rápido.
Ela saiu em dez minutos do banheiro, mesmo sendo ainda sete da manhã, várias pessoa estavam acordando. Outra surpresa para Ana foi a presença de Sandra em seu lugar, esperando ela.
— Olá, algum problema? – Ana perguntou cautelosa.
— Não, não. De jeito nenhum. – Sandra disse se sentando. – Vim designar uma tarefa para você.
— Ah, claro, no que posso ajudar? – Ana perguntou, tinha uma certa curiosidade sobre o que poderia fazer ali.
— Eu que pergunto, no que você pode nos ajudar? – Sandra questionou Ana, que se escorou na parede para pensar.
— Bom, eu era secretaria, então...
— Você pode contabilizar os mantimentos? – Sandra interrompeu, já tinha uma função para a mulher.
— Claro. Gostaria de pedir se posso ficar com minha irmã para me ajudar? – Ana preferia ter a irmã por perto, mais por medida de segurança do que por precisar de ajuda.
— Tudo bem, agradeço pela contribuição. – Sandra deu as informações que Ana precisava saber e anotou tudo em um bloco, antes de entregar as anotações para a mulher. Então deu as costas para sair, mas parou e se virou para Ana, abriu a boca para falar mas nenhuma palavra saiu. Ela levantou o dedo indicador como se esquecesse de algo, virou-se e saiu dali, Ana não entendeu bem o que houve, mas podia deduzir que tinha algo a ver com Yuri.

Ana se dirigiu para os depósitos, Mariana a acompanhou, elas permaneceram em silêncio a maior parte do tempo. Ana lia nos papéis suas funções, era responsável por qualquer retirada de qualquer produto do local. Ela observou o depósito, parecia cheio de todo tipo de alimentos. Os não perecíveis estavam em caixas, no bloco de notas pediam que ela organizasse tudo nas prateleiras. As geladeiras continham frutas, na outra, estava cheia de carnes. Ainda dizia que ela podia retirar duas frutas por dia pelo seu trabalho.

— Já ganhando alguns privilégios? – Mariana perguntou quebrando o silêncio, enquanto as duas abriam as caixas com alimentos.
— Claro, tantos. – Ana não parecia muito feliz, embora tivesse disfarçado bem com Sandra.
— Quanto tempo acha que vamos ficar por aqui? – Mariana viu sua tentativa de puxar conversa dar errado uma vez, mas não desistiu.
— Nem eu sei, na verdade, nem imagino. – A mulher não parecia muito interessada em falar.

O trabalho das duas prosseguiu em silêncio, nenhuma disse nada por um longo tempo além das ordens de Ana para a irmã.

☆ ☆ ☆ ☆

Elena quase protestou contra sua tarefa, e iria, se tivesse muita escolha, mas limpar os quartos não parecia ser o ideal para ela, quando disse que era jornalista, ninguém deu muito valor para ela, e acabou ficando com aquela tarefa, não que não soubesse faze-la, sabia sim, e muito bem por sinal, mas não era exatamente o que queria, acreditava que podia ajudar de um modo mais "intelectual", mas seus apelos eram inúteis agora, então de conformou, um terceiro depósito havia ficado nas mãos de Lúcia, o de produtos de limpeza e higiene, e com mais cinco pessoas eles foram buscar os produtos para limpar os quartos. Lúcia ainda fez piada com a amiga, mas Elena não riu.

A manhã passou rápido para todos, e o calor típico de dezembro havia ficado mais marcantes, ao meio dia, trinta e cinco graus era a temperatura aproximada, mas era como uma pequena fornalha dentro do pavilhão. Elena agradeceu ter terminado seu trabalho cedo, e foi para o jardim, uma brisa leve e agradável era permanente no jardim da frente, e isso trazia mais pessoas que tivessem terminado seus serviços. O almoço foi servido, carne, massa e legumes acompanhados de suco, e novamente Elena se sentia com sorte.

Mas parecia que sua sorte estava prestes a terminar, primeiro foram apenas dois errantes, saindo de uma casa, uma mulher e um homem todos esfarrapados e com marcas de mordida, algumas pessoas nem perceberam, mas três foram surgindo, quatro, cinco e o número subia, até que cinquenta caminhavam na direção da pequena cerca de um metro do pátio, o pânico tomou conta de todos, e as pessoas começaram a correr e gritar. E gritavam, e mais surgiam. Elena parou e sentiu como se tivesse descoberto algo importante, encheu os pulmões de ar e gritou com toda força.
— Eles são atraídos pelo som! – Elena viu cada barulho parar, as pessoas ficaram inertes, observando eles tentando caminhar pela cerca, embora não conseguissem. Parece que as pessoas acabaram de perceber que quanto mais gritassem e se desesperassem, pior seria. Então o silêncio tomou conta realmente, apenas o som das criaturas.
— Todos para dentro! – Sandra gritou da janela de seu quarto, as pessoas correram, com medo mas sem fazer som, entraram no pavilhão. As portas de metal bateram, e Sandra pessoalmente trancou o local por dentro.

Notas finais
E então, o que acham? Ainda tenho espaço pra mais duas fichas, então podem mandar Até mais.