Interativa - O Décimo Reino
8 VIII - Aconteceu Algo?
Notas iniciais
Anael abriu um olho no mesmo segundo que ouviu algo se mover no cômodo ao lado do que estava. Ouviu alguém sussurrar “droga!” mas não reconheceu a voz. Ele e os cinco integrantes do grupo estavam numa casa de dois andares, com muitos quartos. A ele havia sido garantido a regalia de dormir sobre um lençol no chão, enquanto os outros ficavam nos sofás ou camas. Estava tudo muito escuro ainda, a luz da lua não penetrava a grossa camada de cortinas em sua janela.
— Humanos são realmente muito idiotas. – Ele sussurrou num tom extremamente baixo, se levantou do chão sem emitir nenhum som, sentiu um pequeno desconforto em suas costas de dormir sobre uma superfície dura.
Mais um som quase imperceptível de passos se ouviu pelo corredor inteiro do segundo andar que levava até as escadas para baixo. Alguém estava tentando ser sorrateiro ali.
— Excelentes habilidades furtivas. – Anael parecia gostar de falar consigo mesmo. Não estou louco não, mas é que as vezes parece que só eu me entendo, pensou sozinho ao perceber seu hábito. Também era possível ver que estava sendo sarcástico.
Os passos continuaram até o primeiro andar, e então a porta rangeu. Alguém havia aberto ela. Ele rapidamente saiu de seu cômodo e fez o mesmo percurso em total silencio, mas não conseguiu ver quem havia saído antes da porta se fechar.
Anael pensou em chamar todos para ver quem estava faltando, mas se a pessoa saiu sem avisar a todos tinha um bom motivo para isso. E é bem mais vantajoso para mim saber o que esse cara está fazendo às escondidas, quem sabe dê para fazer até uma negociação ou algo assim. Anael desceu as escadas, Agnes estava deitada no sofá, dormia calma, mas ele parecia temer que ela desse um tiro nele a qualquer momento. Botam o cão mais feroz na guarda, não é? Ele quase riu alto com esse pensamento, levou a mão a boca para conter a risada que insistia em sair.
O anjo abriu a porta bem devagar, olhou ao redor para se certificar que não havia nada por perto, e após feita a confirmação saiu e fechou a porta. Havia uma pequena sombra ao longe que olhos normais não conseguiriam nem ver, mas ele conseguiu e se pôs a seguir a pessoa.
Anael seguiu a pessoa por quase quinze minutos, ambos sem fazer nenhum som alto o suficiente para chamar atenção do outro, até que o cara parou e entrou num edifício, que por sinal era um estúdio de som. Anael nem fazia muita ideia de pra que era aquilo, então simplesmente seguiu e esperou alguns minutos do lado de fora. Até que se cansou e sem cerimonias abriu a porta do local.
Quem estava lá dentro nem percebeu que ele havia entrado, estava ocupado batendo um martelo sobre um pedaço de metal. Usando grossas luvas e uma fornalha ao seu lado. Anael rapidamente entendeu qual o motivo da escolha daquele local.
— Então esse é seu passatempo? – Anael fechou a porta atrás de si para que nenhum som saísse, e gritou para ser ouvido.
— Sim, é algo que eu gosto de fazer... na verdade as vezes acho que é a única coisa que eu faço de um jeito excepcional. – O homem parou de bater no metal, que estava tomando forma de uma espada. Estava distraído e nem percebeu que havia outra pessoa dentro do mesmo local que ele. A cara que ele fez após perceber que havia sim alguém ali quase fez Anael gargalhar. – O que...? Como?
— Melhor você se explicar antes que eu use os poderes de Louise para saber o que significa isso. Contando. – Anael levou a mão ao ar e iniciou uma contagem regressiva, marcando cinco dedos.
— Tá bom, tá bom eu falo! – Luriel soltou o que estava fazendo e olhou para Anael, dando um extenso suspiro. Começou a coçar a nuca com um dedo procurando as palavras certas para contar o que estava fazendo. – Bem, acho que é meu jeito de lutar. Do jeito que eu posso...
— Seja mais detalhado, vamos, temos tempo. – Anael baixou sua mão e sentou escorado na parede sorrindo. Luriel sorriu de volta, mas parecia um bem mais sincero que o de Anael.
— Bem... é que... eu não quero fama, nem reconhecimento ou algo assim, e não gosto muito de me envolver em lutas... então descobri um jeito de ajudar sem precisar fazer nada que eu não gostasse. Uso meus poderes para alterar o metal que já temos e fazer armas com uma qualidade incrivelmente superior as comuns, forneço para a cidade além da muralha. Mas não quero ser reconhecido por isso, então prefiro fazer em segredo. – Ele terminou de falar e suspirou novamente, ainda estava com um sorriso largo em seu rosto.
— Então era isso? – Anael pareceu um pouco decepcionado ao ver que não era algo grandioso e um segredo mortal.
— Sim. Por favor, não conte para ninguém, é sério... – Luriel fez um gesto exagerado de juntar as mãos como se estivesse fazendo uma prece.
— Tem uma condição. Você quer ajudar, não é? Faça um contrato comigo. – Anael se levantou e passou a mão em sua roupa para tirar a poeira.
Luriel o olhou por um instante. Realmente, não tem motivos para não fazer, eu quero lutar do meu jeito, e isso pode ser possível com a ajuda dele. E não é como se eu tivesse alguma escolha realmente.
— A gente precisa mesmo se beijar? – Luriel enfim falou com o tom animado de volta em sua voz após alguns minutos em silencio.
— Infelizmente sim.
— Se queria era só ter pedido, não precisava fazer tudo isso. – Luriel piscou para Anael, deu um sorrisinho e fez um bico com os lábios que simulava um beijo.
— Pelos céus, você é perturbado. – Anael disse e fez uma leve cara de nojo que fez Luriel gargalhar, Anael sorriu de leve em seguida, era um sorriso bem tímido.
— Vamos, me beije. – Por fim Luriel se aproximou do anjo e fechou os olhos enquanto Anael levava seus lábios aos dele. Sob aquela luz fraca e o som de uma fornalha estalando os dois se beijaram, talvez tenha levado um pouco de tempo a mais que o necessário, mas Anael não estava mais contando. Por um segundo teve vontade de mover seus braços até o pescoço de Luriel, enquanto sua língua, um pouco relutante, queria continuar aquilo.
Mas então recou repentinamente enquanto o círculo com símbolos surgia sob os pés de Luriel. A energia amarela percorreu seu corpo e o círculo se estilhaçou enquanto a energia se dispersava pelo ar.
— Isso foi interessante. – Luriel voltou a sorrir enquanto Anael parecia um pouco atordoado com algo.
— Por que... aquilo ali, – Anael apontou para um ponto um pouco abaixo da cintura de Luriel. – Está marcado? Aconteceu algo?
Luriel sentiu um pouco do seu rosto corar enquanto se virava de costas para disfarçar.
— É apenas uma reação humana comum a esse tipo de contato. – Ele disse e deu uma risada nervosa.
Anael simplesmente deu de ombros e se voltou a se sentar no chão.
* * *
— Então é isso que ele faz toda noite... ele é o famoso ferreiro desconhecido que todos falam... – Alguém sussurrou através de uma minúscula abertura na porta, em seguida fechou e desapareceu nas trevas.
Fale com o autor