Intense eyes
3 Boa Noite
Alguns dias são cansativos, outros se passam como um flash, mas esses últimos dias, em particular, pareciam não passarem nunca. Talvez o motivo seja o excesso de perguntas que Victória fazia para si mesma, ela sabia que algo estava confundindo sua mente.
Mesmo hoje sendo sábado ela não poderia descansar, parecia que seu descanso nunca chegaria para falar a verdade. Trabalhar durante os finais de semana sempre fora terrível, mas adicionando aulas aos sábados vira caso de morte.
Levantou-se mais cedo do que o normal, e junto ao seu caderno de receitas foi trabalhar, hoje ela tentaria uma nova receita, e esperava que ela fosse um sucesso, mas isso apenas o tempo poderia dizer, assim como todo o resto em sua vida.
Conforme a manhã ia embora, alguns pensamentos fixavam-se em sua mente, pensamentos que ela não conseguia mais afastar. Os últimos dias no curso haviam sido intensos, e quando olhares errados cruzam-se o ar ficava pesado, e isso não acontecia só pela implicância, e sim pela atração física que Victória sentia, e algumas vezes ela achava que tal sensação era reciproca. E com um pouco de esperanças ela se sentia confusa, assustada. Não era algo comum para ela.
O dia de trabalho hoje estava sendo cansativo, já era quase meio dia e faltava pouco para que seu expediente acabasse, foi então que viu uma silhueta família. Daniel. Em um momento de desespero ela tomou a decisão mais infantil que viera em sua mente. Saiu correndo pela porta dos fundos, e antes que pudesse recuperar seus sentidos ela trombou de cara com alguém.
– Mas que... – A mulher parou no meio da frase quando olhou para Victória, que gelou no mesmo instante. Parecia que o mundo conspirava contra ela.
– Desculpe prof... Jeniffer. – Disse rapidamente na tentativa de corrigir o seu erro.
– Atrasada para algum lugar, senhorita Victória? – Seu olhar intenso trazia-lhe tremores.
– Eu...
– Foi o que pensei. – Sorriu de uma forma sarcástica. – Ou talvez a sorte apenas está ao seu favor. — Foi então que Victória decidiu partir, sem mais nenhuma palavra, sem cruzar mais nenhum olhar.
Voltou para casa, almoçou e pediu para que o tempo passasse um pouco mais rápido hoje, e como consequência de seu pedido o tempo ficou cada vez mais lento. A vida é irônica, quanto mais você deseja algo, mais distante ela parece ficar. Olhou a sua volta, procurando algo para fazer, mas nada parecia interessante. Então ela decidiu pensar, torturasse e assim o tempo ficaria mais rápido e ao mesmo tempo mais lento, seus pensamentos eram uma arma em suas mãos naquele momento e ela se perguntava o motivo de querer tanto que desse a hora de ir para o curso hoje, nem mesmo ela sabia o que pretendia com aquilo, o que pretendia falar. Se ela ao menos pudesse conversar sobre isso com uma amiga... Mas como ela poderia dizer para alguém que estava sentindo atração por uma mulher? Não, ela não teria tamanha coragem de admitir isso em voz alta para outra pessoa, não conseguia admitir direito nem para si mesma.
Arrumou-se e saiu em direção à lugar nenhum, faltava ainda algumas horas para que ela pudesse ir para o curso. Ela começou a andar, andou pelos jardins da vizinhança, andou pelo parque, olhando para as flores de diversas cores que ali haviam, andou em círculos e quadrados, de todas as formas possíveis e de alguma forma o tempo começou a fazer o trabalho dele, o ponteiros do seu relógio começaram a circular conforme ela dava seus passos perdidos pela cidade. E quando os ponteiros de seu relógio já haviam feito o trabalho deles ela finalmente foi para casa, tomou um banho, arrumou-se detalhadamente e foi de moto até o curso. O caminho habitual de cinco minutos tornou-se longo.
Chegou faltando alguns minutos para sua aula começar, decidiu dar uma última checada em sua aparência no banheiro. Olhando fixamente para sua imagem refletida no banheiro, ela respirou fundo, pensando em o que falaria, de certa forma ela sentia que tudo tinha uma grande probabilidade de ir água a baixo. Foi quando o som da porta abrindo tirou-a do transe, mas ao mesmo tempo algo improvável aconteceu. Jeniffer entrou no banheiro, ela usava uma roupa preta, justa, e Victória não poderia deixar de notar que ela ainda não havia colocado seu jaleco ainda.
– Boa noite, professora Jeniffer. – Victória disse recuando, decidindo não falar nada. Talvez ela ganhasse alguma coragem até o final da aula. Arrumou sua bolsa e foi em direção da saída, mas algo a impediu. Jeniffer a segurou pela mão puxando-a rapidamente para perto de seu corpo, beijando-a intensamente. E por um instante Victória tentou escapar dos braços dela, mas era segurada firmemente. Um milhão de sensações invadiram o corpo de Victória naquele momento, seus olhos fechados faziam com que aquela escuridão girasse, quando elas finalmente se separaram ela estava ainda mais confusa.
– Boa noite, senhorita Victória. – Disse ela por fim, saindo do banheiro sem olhar para trás, sem dizer mais nada.
A menina tremia confusa, perguntando-se se o que havia acontecido a alguns segundos atrás era real, mas a sensação do beijo ainda permanecia em sua boca, dando-lhe a conclusão que tudo ali realmente estava acontecendo. Decidiu ir para casa, tomar um ar e assimilar os pensamentos que rodeavam a sua mente.
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