Intempestiva
4 Capítulo 4: Oportunidades
Eu ingressei numa faculdade para um curso de dois anos em Gestão Empresarial e no primeiro dia eu me interessei em ser participativo em tudo o que envolvia o curso. Em menos de uma semana, eu já possuía alguns conhecidos como o Caio Amorim, o louco. Pois, segundo ele mesmo, ao ir à festa de uma mulher chamada Daniela Campos, ele pulou do telhado com tudo na piscina, o que lhe rendeu o apelido por causa do mergulho “radical”. Caio era gêmeo fraterno da Erissa que também estudava conosco. Fisicamente os dois não eram parecidos, Caio tinha os traços ângulos e a Erissa possuía o rosto pequeno, sob os óculos de grau, um par de olhos azeviche expressavam doçura. Erissa era quieta e quando eu a olhava, ela fingia não notar. Eu não era introvertido, foi fácil conhecer pessoas, a minha personalidade sempre foi o meu marco. Muitas garotas faziam charme para chamar a minha atenção. Eu gostei disso, da sensação que isso me proporcionava. Na minha casa tinha espelho, e eu sempre tive características físicas que as mulheres se interessavam.
Na faculdade as amizades já estavam definidas naquele típico padrão por afinidades. Daniela (aquela da festa na piscina) era dona de um olhar felino com aqueles olhos engatinhados e sorriso de Mona Lisa. Ela foi a última integrante a entrar no trio que agora fazia um quarteto. O jeito da Daniela me interessava mais do que eu gostaria. Ela era uma mulher atraente e de personalidade forte.
Caio organizou uma sessão de cinema no apartamento que ele dividia com a irmã. Eu tinha suspeitas do motivo por trás disso.
O lugar em questão era um típico apartamento padrão com uma sala de estar confortável e um sofá gigante que abrigou perfeitamente seus quatro ocupantes. Para ser honesto, eu estava atento a Daniela, fazia algum tempo que eu havia notado
as suas olhadas de soslaio, e também tinha percebido a maneira como Caio a olhava.
Eu queria aquela mulher e saber que o meu amigo também demonstrava interesse por ela quase me fazia querer desistir.
Mas tudo dependeria exclusivamente dela.
A encarei sem nenhum disfarce se dependesse de mim a Daniela seria minha.
Caio ficou encarregado de pôr o filme na TV.
— E aí o que vai ser? Ele queria saber o gênero do filme.
Pelo amor que não seja Romance. Eu hein!
— Drama. Sugeriu Erissa.
— Terror. Nós dissemos ao mesmo tempo.
— Ok. Vocês ganharam. Caio apoiou Daniela e eu.
Depois disso as duas garotas foram preparar o lanche, eu até queria ajudaria, entretanto, seria uma vergonha mostrar minha falta de prática em algo tão simples como um preparo de um lanche.
— Você não leva muito jeito nessas coisas não é? Perguntou Daniela ao fatiar o bolo.
— É assim tão óbvio?
Ela sorriu fraco.
— Na verdade não.
Erissa que seguia tirando os copos do armário e os depositando em cima da mesa acompanhava nosso pequeno diálogo com os olhos. Notei que as maçãs do rosto dela eram proeminentes um charme à parte.
Enquanto Caio era comunicativo, a sua irmã era mais quieta.
Na tela da televisão o filme que parecia bom era péssimo. Cruzes! O personagem que parecia ser perspicaz e com instinto de sobrevivência se tornou um lesado e sem vontade de querer. Conclusão, gastei meu tempo em um filme idiota.
— Eu gostei do filme. Daniela comentou.
Eu não ousei olhá-la para não entregar o meu descontentamento. Realmente gosto não se discutia.
Flagrei Erissa me olhando de testa franzida. Eu sorrio fraco ao piscar para ela e observá-la desviar o olhar. Por fim, na casa dos gêmeos não aconteceu nada mais do que agradáveis conversas acompanhadas de um bom lanche.
O meu objetivo era ficar com a Daniela e na segunda-feira, por causa de um trabalho em dupla, eu tenho a oportunidade. Como o meu grupo era formado por quatro pessoas quando se fazia dupla, automaticamente Caio e Erissa faziam uma e Dani e eu a outra dupla.
Daniela era uma mulher disciplinada com os estudos e possuía um lindo par de pernas que me faziam pensar coisas.
— Decidiu fazer a minha parte no trabalho? Eu falei provocativo, sabendo que ela não era aluna que levava mochilas nas costas.
Ela estava empenhada em suas anotações e fez um gesto de palma para cima, sem me dar atenção. Olhei sobre seus ombros.
— Baixou para 5? Tentei mais uma vez.
Sem tirar os olhos da sua tarefa ela me diz:
— 2 × 5?
— 15.
— Não seria 10?
— Quem disse? A matemática não é exata. Devolvi cheio de humor.
Ela ri, na verdade, gargalhou diante de mim, até parar de escrever e desatar a dar risadas.
— Hm. Eu queria que flertasse comigo na mesma quantidade que está rindo.
Ela parou de rir e ficou seria para me olhar com aquelas esferas felinas.
— Nem nos seus melhores sonhos
Tão seca e direta.
Um desafio, eu sei que ela queria me irritar e como resposta dei um sorriso.
Veremos, veremos.
A minha história com Daniela não envolvia amor, eu estava atraído por ela e interessado em conquistá-la. Tudo se resumia à atração física que eu sentia por ela.
A minha mente divagou, enquanto eu olhava para a boca da professora Regina que se mexia sobre um assunto que eu não escutei. A professora era uma coroa loira de no máximo 45 anos.
— Acredita poder controlar a realidade e afirmar o que vai acontecer no futuro de forma objetiva. Daniela respondeu sem hesitação. O pescoço moreno se revela quando ela moveu os braços para prender o cabelo.
A professora deveria ter feito uma pergunta que eu não havia prestado atenção. Pois eu só pensava na sua teimosia em não admitir que ela também tinha interesse em mim. Me fez querer apertar o seu pescoço.
— Torresland? A professora me encarava como se esperasse por alguma coisa.
Ela estava impaciente.
— Ela quer saber a respeito da organização que adota o planejamento estratégico situacional. Erissa sussurrou atrás de mim.
Ela era tão silenciosa em sala de aula que eu até esquecia da sua presença ali.
— Responda à pergunta. Insistiu a professora.
Puxei a resposta na memória. Eu era desligado, mas não ignorante.
— É aquela que identifica e analisa seu contexto problemático de forma subjetiva ao agregar em seu planejamento percepções subjetivas dos colaboradores. Falei de maneira tranquila.
Após avaliar a minha resposta de maneira suspeita ela disse. — Certo. A professora se virou em direção à sua explicação no quadro.
Lancei mais um olhar em direção às costas da Daniela. Eu só não esperava que ela fosse tão determinada em não ceder e para o meu descontentamento ela estava tendo êxito em cumprir a sua palavra. Era evidente que ela gostava do meu bom humor, no entanto, toda a minha demonstração de interesse não recebeu o retorno esperado. Os meus convites para sair foram todos recusados, o meu orgulho ferido, eu já estava me cansando de dar murros em ponta de faca.
Teve um dia que eu propositalmente a esperei na entrada da sala para cumprimentá-la. Dani estava mais bonita do que nunca naquela blusa vermelha de gola alta justa ao corpo.
— Bom dia Gatinha. Puxei-a pela cintura beijando seu rosto perfeitamente maquiado.
— Desista. Daniela retirou as minhas mãos dela.
Mais um fora para a minha coleção e chacota de quem via o que ela fazia. Fiquei puto pela nova humilhação, mas não revelei a minha irritação. Atrás dela apareceu o carrancudo Caio que me cumprimentou gestualmente.
— Bom dia Gustavo. A irmã dele diz.
— Bom dia Erissa. Aproximei-me para beijá-la no rosto. Sem olhar se a mulher que me desprezava observava ou não, ainda estava com a última desfeita atravessada na minha garganta. Porém, o que continuava a me intrigar era o seu comportamento contraditório, ela sempre me dava respostas negativas, no entanto, os olhares discretos nunca me deixavam.
Na sala de aula ela era uma nerd que sentava na primeira fileira e mesmo assim sempre dava um jeito de virar a cabeça para me localizar com os olhos.
Quando a flagrei fazendo o monitoramento do dia, eu a olhei de maneira acusatória que silenciosamente dizia “Eu sei que você estava me procurando”, ela simplesmente retornou à posição inicial de prestar atenção na explicação do professor.
Daniela Campos só podia estar jogando comigo. O que aconteceria se ela soubesse que o jogo de caça e rato já estava me cansando? Será que ela mudaria seu comportamento? Eu tinha que cair na real, se ela me quisesse já teria cedido. Seja realista, eu já tinha perdido essa.
Eu acabei de decidir que eu não perderia mais tempo com alguém que não me queria.
Para preencher o meu tempo livre com algo que poderia render bons frutos, eu enviei alguns currículos para algumas empresas que estavam contratando, mas como ainda não era formado, seria pouco provável; o meu conforto era saber que eu possuía muitos cursos, e tinha fluência em três idiomas, inglês, espanhol e alemão, além do próprio português.
Apesar de ser um teste, poderia dar certo, não é?
Os meus planos foram por água abaixo quando fiz a besteira de mandar um currículo para um amigo próximo do meu pai. Por consequência disso, Augusto ficou sabendo e veio me questionar os motivos de eu não ter o procurado. Contei a verdade que eu estava apenas me testando.
O meu pai fundou o grupo Torresland e se tornou um poderoso empresário de uma rede de supermercados, eu como herdeiro primogênito teria privilégios se fizesse a abordagem. Vendo a minha vontade de trabalhar, Augusto me encarregou de ficar responsável por uma das suas filiais. Assim, eu continuei a frequentar as aulas pela manhã e à tarde iniciei os trabalhos como chefe de setor. A minha função se definia basicamente em acompanhar as atividades de entrega dos fornecedores, atuando mais como um fiscalizador rígido. Alguns funcionários tentaram agradar o novo chefe, outros disfarçaram sua oposição ao meu privilégio.
Eu não me importava, mas havia dias em que trabalhar e estudar me causavam uma tremenda exaustão, no entanto, eu não reclamava a decisão havia partido de mim.
Sem vontade de colocar os pés na rua, as saídas no final de semana se tornaram escassas. Arthur até desconfiava da minha quietude, mas não comentava nada.
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