Intempestiva
3 Capítulo 3. Festas de fim de ano
Notas iniciais
A dor de cabeça me acordou sendo o resultado da noite de bebedeira. Ainda meio atordoado, procurei por alguém na cama, eu estava sozinho.
Lembrei-me de um olhar castanho que me seduziu.
Flashes da noite passada invadiram a minha mente.
Olhei para baixo das cobertas.
Sim. Eu passei a noite com alguém que estranhamente saiu sem fazer barulho.
O lado bom foi ter ficado livre de todo o drama do dia seguinte.
Joguei as cobertas para o lado, com a intenção de vestir uma cueca. Quando os meus olhos caíram sobre a cama, fiquei chocado por ver sangue no lençol.
Uma virgem…
Uma virgem não era opção para terminar a noite. Não quando você passou menos de uma hora conversando com a pessoa. Não quando você sequer sabia o nome dela.
As minhas lembranças do dia anterior não eram nítidas, e forçar a mente não ajudava a aliviar aquela dor de cabeça chata.
Quando saio do quarto, parecia que um tornado havia passado por ali. Por sorte, tinha alguma comida no armário da cozinha que eu comi para em seguida tomar um remédio para dor.
Por volta das dez da manhã, eu descia para pegar o carro, dirigir de ressaca não era uma sensação agradável e com o dia limpo, então, a experiência não era das melhores. Ainda bem que o carro tinha vidros escuros que bloqueiam a luz solar.
Cheguei à casa dos Torresland e a primeira pessoa que encontrei foi Celeste que aparentava estar tranquila, mas assim que me viu o seu rosto ganhou um aspecto travesso.
— O bom filho à casa torna.
— Oi! Pra você também, Lete. Dei-lhe um beijo no rosto.
— Não. Eu estou brava com você. Ela se afastou.
— Ainda por causa da festa?
— Claro. Ela respondeu como se fosse óbvio. Eu queria rir.
— Celeste, aquela festa não era para você.
Ela ficou revoltada.
— Eu estudo na mesma escola que você até outro dia frequentava.
Revirei os olhos.
— Você nem é assim tão mais velho do que eu.
— Essa não é a questão, Lete. Você é muito inocente para andar nas festas que eu vou, e eu não suportaria ver a minha irmazinha sendo paquerada.
Foi a vez dela de revirar os olhos.
— Seu chato. Celeste veio me abraçar era o seu jeito de demonstrar que não estava mais irritada.
— Como foi a sua festa?
— Boa.
Ela se soltou para me olhar nos olhos.
— E os detalhes?
— Não tem detalhes. Eu me diverti e foi isso.
A curiosidade dançava nos olhos dela.
— E por que dormiu fora?
— A festa acabou tarde, eu achei melhor dormir no apartamento mesmo.
— Nada de interessante aconteceu?
Ser afetado por uma amnésia que me ocultava alguns acontecimentos da noite anterior não tinha nada de interessante.
— Nadinha.
Ela suspirou.
— Acabou seu interesse repentino?
Celeste deu de ombros e sorriu amarelo.
Eu sei que fui perdoado pela minha irmãzinha, mas com relação a Paula a história era mais complicada. Ela simplesmente havia pegado suas coisas e ido embora. Ninguém havia entendido direito, mas como Paula era maior de idade ela poderia fazer o que quisesse.
Mais tarde descobri que ela foi para o litoral passar um tempo na casa de uma amiga que nós não conhecíamos.
Eu gostei da ideia de não vê-la mais.
As festas de fim de ano estavam chegando e todo ano a minha mãe contratava uma empresa de buffet para cuidar dessas celebrações.
Minha mãe exagerava nessas ocasiões por gostar das festas de final de ano. O meu pai a apoiava em tudo por querer vê-la feliz. E se o contexto fosse outro? E se o bolso dele não fosse capaz de acompanhar o deslumbramento dela. Como seria isso?
Eu pensava em um possível fiasco quando me deparo com a chegada dos pais de Paula que vieram de São Paulo para passar as festas aqui. O tio Bento que era o irmão do meu pai possuia um humor piadista que só ele e a tia Rita riam.
E essa não era nem a parte ruim da história. Além de aparecer na minha casa, Acácio teve a cara de pau de esperar seus familiares me cumprimentarem para vir falar comigo.
Ele estendeu a mão no ar.
— Eu espero que nós estejamos quites agora.
Fiquei olhando-o como se ele tivesse uma doença contagiosa.
Cerrei os punhos com força, decidido. Ignorá-lo.
— Eu sei que você pegou a minha irmã. Depois que descobriu o que aconteceu entre Sylvia e eu, eu não me importo. É o que dizem não é? Olho por olho e dente por dente.
Então eu avancei nele, o meu punho voou até acertar a cara dele e retornar para trás molhado de sangue que pertencia aquele maldito. A minha vontade era jogá-lo no chão e afundar a cara dele no assoalho. Mas o meu pai não me deixou terminar ao me puxar pelos ombros e me conter.
— Pelo amor de Deus! Você enlouqueceu? Pare com isso agora!
Para? Eu queria desfigurá-lo por completo. Toda a humilhação e dor que ele ajudou a me causarem borbulhava no meu peito.
Eu tentei me soltar das mãos do Augusto, mas vieram outras para me deter, o tio Bento veio ajudar o irmão.
Tia Rita se abaixou desesperada para ajudar o filho.
— O que tem de errado com você? Ela estava furiosa.
A minha mãe veio às pressas.
— Meu filho, por favor. Esse é o momento em que devemos deixar as mágoas para trás.
Eu apertei os dentes, furioso vendo o pulha se levantar com as mãos na boca.
Eu saio pela porta ignorando os pedidos da minha mãe para que eu ficasse. Se ela havia convidado aquele infeliz era sinal que eu não precisava estar presente.
Eu não queria mais ver ninguém, na verdade o que eu queria era continuar a quebrar a cara dele, mas como não era possível. A solidão foi a segunda opção. Vou para o apartamento na península.
Tive que desligar o celular pessoal por causa das inúmeras ligações vindas da minha família. Pelo telefone fixo peço comida no fast food.
Àquela traição doeu muito, mas vindo do meu primo doeu dobrado. Os dois eram traidores. Acácio por ser um covarde e Silvia por ser uma vagabunda.
Mudei a linha de pensamento para qualquer distração que não me deixava puto.
Na semana seguinte ao natal, eu retomei para casa e pedir desculpas a família por ter causado confusão na festa. Não foi fácil ouvir o discurso de que devemos perdoar o próximo como a nós mesmos que a minha mãe me falou, no entanto eu consegui ouvir tudo sem dizer uma palavra. O sermão do meu pai foi voltado para a vergonha que eu causei a família e a decepção por não ter conseguido demonstrar a educação que eu havia recebido. Com a cabeça quente de chifres era difícil pensar em educação no momento.
O réveillon trouxe um alívio para o meu estado de espírito atribulado pela última festa. Os fogos de artifício em Copacabana vieram com o tema "amor a cada visita", em homenagem ao título de Capital Mundial da Arquitetura recebido pela cidade. A praia de Copacabana virou um palco de réveillon, recebendo mais de 3 milhões de pessoas que festejaram o início do novo ano.
Final de ano trazia sempre uma sensação de novas oportunidades para o dia seguinte. Era o começo de um ciclo nesta vida de metamorfose em um tempo que nunca para.
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