Intempestiva
1 Capítulo 1: Decepção
Notas iniciais
Sílvia Jequitibá foi o meu primeiro amor, a minha primeira namorada. Com ela, eu tive as minhas descobertas (juvenis) da paixão ao amor. No entanto, eu também conheci a soberba e o ódio, sentimentos que despertaram o pior do meu lado humano. O nosso relacionamento não era perfeito, nós tínhamos os nossos desentendimentos e, por mais amor que eu tivesse sentido por ela, traição era demais para mim.
Eu nunca a perdoarei.
A verdade era que eu não queria mais olhar na cara dela. Entretanto, ela também estava na festa dos formandos. Felizmente, seria a última ocasião que a veria.
Era doloroso admitir o quanto ela estava linda. Os traços do rosto contornados pela maquiagem de festa, o vestido vermelho sem alças de cetim destacavam as curvas que eu tanto amei. Tão linda e tão cretina… Desviei os olhos ao dar um gole na minha bebida. Como alternativa, encarei o outro lado do salão e vi uma garota de óculos de armação colorida.
Olhei-a atentamente. O rosto não me era completamente estranho, mas não conseguia me lembrar de onde. Os cabelos tinham um tom estranho difícil de identificar por causa da trança colada na cabeça. O rosto redondo não apresentava vestígios de pintura. Depois que popularizaram esses meios artificiais, dificilmente se via alguma mulher em sua essência natural.
Eu amava as mulheres.
Seja elas maquiadas ou não. Mas aquela ruiva… Eu não me lembrava dela. Seria uma penetra? Não era feia… Dei uma olhada em seu corpo de bonitas proporções. Faltavam-lhe roupas que a favorecessem.
Fui flagrado por ela que simplesmente abaixou a cabeça. Algo nesse comportamento me fez perceber o porquê de eu não me lembrar dela.
As tímidas não faziam o meu gênero, ao contrário das decididas.
A noite estava apenas começando… Devolvi o copo para a mesa.
Ao levantar a cabeça, deparei-me com Sílvia bem na minha frente. Sua expressão demonstrava uma segurança que eu sabia ser apenas aparência.
— Eu quero falar com você.
Só podia ser curtição com a minha cara. Ela pensava que eu era idiota ou o quê? Qual era a parte das ligações não atendidas ou mensagens não respondidas ela não entendia?
Semicerrei os olhos.
— Não vai falar nada?
Continuei a encarar o seu cinismo de maneira séria.
— Eu não tenho nada para falar com você.
— E nós?
Realmente deveria ser atriz.
Depois de tudo o que aconteceu ela ainda acreditava que existia alguma possibilidade?
— Não existe mais o “nós”. Acabou.
Fiz aspas com as mãos. – Você pensa que eu sou tão otário ao ponto de perdoá-la?
Os olhos de Sílvia ficaram lacrimejados.
— Você não me dá a chance de ao menos me explicar…
Sentir que a raiva e a mágoa ameaçavam emergir, no entanto, me mantenho firme e aparentemente neutro.
— Contra fatos não há argumentos. Não importa o que você diga, eu nunca vou perdoá-la.
Os olhos marejados expulsaram as lágrimas.
Cinicamente eu sorrio.
Aquela conversa não resultaria em nada. Definitivamente, o casal que um dia existiu acabou no momento que ela quebrou o meu coração.
Limpei a boca com a costa da mão de maneira brusca. Eu não iria me irritar agora. Sílvia não iria me desestabilizar nunca mais, muito menos cortar a minha animação para a minha festa de mais tarde. Festa essa que eu iria me divertir até que as minhas forças se esgotarem.
Segui até a mesa da família Torresland, composta pelos meus pais Augusto e Teresa, a minha irmã Celeste que se encontrava distraída numa conversa com a nossa prima Paula Damásio, que nesse momento me olhava. Ela havia me rendido algumas dores de cabeça com Sílvia no tempo em que se hospedou na minha casa. Durante muitos anos, evitei as investidas da Paula, mas quando eu flagrei Sílvia me traindo com o irmão dela, o Acácio, que também conhecia a minha até então namorada desde o ensino fundamental já que havíamos estudado o 8° ano juntos, e no ano seguinte ele foi transferido para outra escola, mas nós não perdemos o contato por ele ser meu primo e principalmente meu amigo. Eu achava que era até flagrar ele aos beijos com a minha namorada. Após eu meter a porrada nele, eu agi por impulso ao tomar a irmã dele naquela madrugada em que ela me procurou. Foi complicado ter que dizer a ela que tudo havia sido momentâneo, mesmo com o meu coração partido, eu ainda amava a minha ex-namorada. Foi doloroso ver Paula se vestir e correr porta afora com lágrimas nos olhos. Eu sabia que aquela atitude impensada me causaria problemas familiares. Lidaria com eles depois, mais perturbado do que antes, eu voltei a dormir.
Surpreendeu-me que no dia seguinte, Paula não correu até os tios para contar a eles, Afinal, ela estava amadurecendo. Já não me entregaria mais aos meus pais como aconteceu no beijo roubado por ela no começo da nossa adolescência.
Paula notou que eu caminhava em direção à mesa, mas eu não a olhava realmente e sim para Celeste de cara fechada. Quase gargalhei diante da sua pirraça adolescente. Segundo suas palavras, ela estava chateada comigo. O motivo? A minha festa privada, à qual eu a proíbe de ir. A minha irmãzinha jamais iria numa festa dessas. Não se eu souber. A tiracolo eu também vetei a Paula.
Como eu tinha que fazer presença mesmo, resolvi pegar alguns petiscos que estavam sendo servidos aos convidados. Controlei o sorriso, puxei uma cadeira ao lado de Celeste e me sentei. — Eu trouxe um agrado pra você. Coloquei um “Vol au vent” na sua frente. Via o seu semblante mudar rapidamente. — Vai me levar à festa com você?
Apoiei o antebraço na mesa.
— Não.
A expressão de birra retornou, ela virou a cara.
— Então, não fale comigo. Gargalhei. Celeste deveria ter herdado o comportamento temperamental da Teresa. Mordisquei um petisco parecido com o que dei a Celeste em formato de copinho feito com massa folhada e recheado com creme. Uma delícia.
— O que está acontecendo com vocês dois? Minha mãe Teresa Torresland perguntou. Eu expliquei sobre a insistência da Celeste em querer ir à festa privativa.
— Ela não aceita a minha negativa.
— Se o seu irmão não acha uma boa ideia você ir, é porque não é festa para pessoas da sua idade.
Minha irmã suspirou.
— Eu não quero que vá Celeste, você é muito jovem para frequentar festas depois das 23h00min. Augusto Torresland se pronunciou.
Celeste pegou o petisco e o mordeu. Deveria ter gostado já que mordeu outras vezes, engoliu e falou. — Estão todos contra mim, tudo bem família, eu não queria ir mesmo nessa festa idiota do Gustavo.
Será que ela pensava que convenceu alguém?
A cerimônia de colação de grau foi marcada por bonitos discursos de agradecimentos e motivação. Após horas afins, eu passei a corda do capelo do lado direito para o esquerdo. Enfim formado no ensino médio, nós jogávamos os capelos para cima naquele típico ritual de “lance do chapéu” que acontecia nas formaturas.
Na festa social eu mantinha a boa etiqueta, tentei ser cordial com as pessoas que vieram falar comigo como o Arthur, Marcelo, Monique, Carlos e a Selma, todos formandos assim como eu. Havia também os cumprimentos de alguns conhecidos.
O coquetel durou mais tempo do que eu imaginava. Então, quando fui liberado para sair de cena, me despedi da família e fui em direção ao meu apartamento na Península.
Com dois apartamentos por andar e hall privativo, o lugar possuía uma sala de estar espaçosa, uma sala de jantar, uma cozinha com uma grande despensa e armários Ornare, um banheiro de serviço em anexo, um lavabo e quatro suítes. A suíte máster era um show à parte. Eu já me programei para essa noite. Tirei o blazer e a gravata, abri alguns botões da camisa e substituí a calça social por um jeans.
Nada de formalidades.
Fale com o autor