Intempérie
1 Intempérie
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Intempérie
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Victor tinha um sorriso que semeava tempestades. Hugo havia dito isso para ele uma vez, como uma advertência, mas as palavras só o fizeram sorrir ainda mais largo e mais afiado.
Oh, ele sabia que os dois se meteriam em confusão naquela noite; tinha sabido mesmo antes de deixarem o apartamento que dividiam por causa da faculdade. Uma premonição, algo como eletricidade estática arrepiando os pelos da sua nuca. Ou talvez fossem apenas peças se encaixando.
Victor tinha recebido uma ligação da irmã horas mais cedo, informando que a mãe dele havia reatado com o pai, o que era o mesmo que dizer que ela teria um olho roxo dentro de duas semanas. Ele estivera bebendo desde então. Havia sido Hugo quem conduzira a velha Belina até uma festa qualquer, de alguém que era só meio conhecido, apenas porque Victor precisava continuar bebendo, precisava da música alta e da aglomeração.
E, então, como uma consequência natural, eles tinham acabado ali, no meio da noite, na parte de trás da Belina de Hugo, com Victor sangrando sobre o banco do carro por causa de uma briga.
Não era uma situação exatamente inovadora na vida dos dois, mas a rua estava escura, e Hugo não conhecia aquele bairro. Ele lançou um olhar desconfiado pela janela, porém não havia nenhum movimento até onde de ele conseguia enxergar. Ao perceber sua apreensão, Victor deixou escapar um muxoxo exasperado.
— Do que você está com medo? Ninguém estaria tão desesperado a ponto de querer roubar esse carro.
A Belina tivera fama de econômica na época em que fora lançada, mas agora, quase quarenta anos depois, bebia ainda mais do que Victor. Além disso, Hugo precisara dar três voltas pelo quarteirão até achar uma vaga grande o suficiente para o carro, e eles demoraram algum tempo para conseguirem fechar os vidros do automóvel, porque eles emperravam. Definitivamente, a Belina não era nada prática, mas tinha estilo. Hugo gostava dela.
— Você está manchando meu carro de sangue, então tenha mais respeito — falou. Em seguida, puxou a maleta de primeiros socorros que ficava em baixo do banco do passageiro.
Para além de gaze e água oxigenada, a caixa continha um conjunto de linhas e agulhas de sutura, injeções antitetânicas e anestésicos injetáveis, todos surrupiados do consultório modelo da faculdade, onde Hugo estagiava como enfermeiro. Victor precisara de cada uma daquelas coisas.
Com uma careta de dor, Victor estendeu o braço machucado. Havia absoluta confiança no gesto. Hugo sentiu seu coração acelerar ao tocar na pele dele.
— Aqui, segure isso — disse, passando o seu celular para Victor. — Coloque na lanterna, eu preciso ver o estrago.
O outro obedeceu, e Hugo avaliou o corte — um rasgão de boas proporções logo acima do cotovelo —, limpando-o o melhor que podia. Por fim, decidiu que não seria necessário dar pontos. Quando finalmente conseguiu estancar o sangramento e fazer um curativo razoavelmente decente, escorregou os dedos até tomar o pulso de Victor entre suas mãos.
Cada junta da mão dele estava esfolada. Logo hematomas aflorariam na pele. Hugo forçou o movimento do pulso, para então testar cada um dos dedos. Victor deixou escapar um gemido agoniado.
— Porra. Acha que eu quebrei alguma coisa?
— Não, mas aquele cara tinha uma cabeça muito dura.
Com delicadeza, Hugo traçou os contornos dos ossos de Victor. Depois enfaixou seus dedos. Já tinham estado daquela forma uma centena de vezes antes, e a proximidade era sempre prazerosa e torturante. Nos últimos tempos, porém, as brigas tinham se tornado cada vez mais e mais constantes, e mais perigosas. Era a segunda vez em dois meses que alguém puxava um canivete para Victor.
Hugo terminou de passar a gaze pelas juntas do outro, em seguida deu um último apertão no curativo em seu braço. Mas, em vez de se afastar, deixou a mão pousada ali.
— Você vai acabar se matando.
Victor bufou, como se a declaração fosse absurda.
— Brigando com filhos da puta como aquele? Nem pensar.
— Um dia um desses canivetes vai furar algum lugar que eu não consigo costurar, ou um desses idiotas vai ter uma arma...
— Que merda você queria que eu fizesse? Fugisse como um covarde? Deixasse o babaca falar daquele jeito com a garota com quem eu estava?
Uma onda de raiva arrastou-se pelo peito de Hugo, arrebentando contra suas costelas. Ele aumentou o aperto sobre o machucado de Victor, fazendo-o uivar.
— A garota sequer esperou a briga terminar para desaparecer! E não finja para mim que você não estava com ela apenas porque sabia que ela é exatamente do tipo que gosta de provocar essas confusões!
— Isso não tem nada a ver com ela, ok? É uma questão de princípios. Se a garota está comigo, eu não vou deixar que ela seja desrespeitada.
Hugo suspirou, sentindo-se dolorido como se também tivesse acabado de sair de uma briga. Céus, daria um mundo e meio para saber se Victor defenderia a ele com tanta fúria.
— Você não precisa ir tão longe para provar que é diferente do seu pai.
As palavras saíram antes que Hugo pudesse contê-las. Ele esperou que Victor fosse se armar para uma nova luta, dessa vez contra ele. Em vez disso, Victor desatou a rir, uma risada pesada que encheu o carro. Contra tudo que Hugo podia esperar, o outro relaxou sob os seus dedos e virou-se para apoiar as costas mais confortavelmente contra o assento da Belina.
Hugo o imitou, sem saber mais o que fazer, e ficaram ambos sentados lado a lado no banco de trás do automóvel, os assentos da frente vazios. Os dois deviam parecer estúpidos ali, mas era quase três da manhã e a rua continuava escura e deserta.
— Talvez eu seja um filho da puta muito diferente do meu pai. Preferências completamente diferentes das dele. Talvez esse seja o problema.
Hugo podia sentir todo o seu braço esquerdo colado ao braço direito de Victor. Oo contato era morno, queimando através da sua pele.
— Se não é esse o problema, eu não entendo. — O fato de os pais de Victor haverem reatoado havia sido o estopim para essa briga, mas ela era apenas mais uma numa contagem de dezenas. — Queria saber do que você está fugindo.
Aquelas palavras fizeram a risada de Victor se transformar em um sorriso fino e meio zombeteiro. No fundo, Hugo não conseguia culpar quem brigava com Victor: era muito fácil querer bater nele quando ele sorria daquela forma.
— Como se eu fosse a único a viver fugindo. — Havia todo um conjunto de sugestões por trás do tom de Victor, e Hugo sentiu seu coração bater onde deviam estar seus intestinos.
De repente ele sentiu a mão de Victor — recém enfaixada — resvalar para o seu joelho e ficar ali.
Todos os olhares disfarçados, todas as vezes que ele tinha cerrado os punhos para suportar ver Victor com uma garota diferente a cada semana, os toques roubados ao fazer curativos para ele, nunca o suficiente... Victor sabia sobre os seus sentimentos. Hugo sentiu-se arder de raiva.
Ergueu os olhos para Victor, mas ele havia apagado a lanterna do celular algum tempo atrás. Tudo o que Hugo pôde vislumbrar foi mais daquele sorriso. Victor era uma força da natureza, e isso era a melhor e a pior parte dele. Estar entre uma ventania podia parecer prazeroso e libertador por alguns instantes, mas era preciso muita energia para permanecer no meio de uma tempestade. Talvez fosse por isso que Hugo se sentia sempre tão cansado.
Cansado demais para se importar, ele percebeu, um segundo antes de puxar Victor em sua direção e o beijar. Demorou um segundo para Hugo perceber que Victor não estava afastando-o, e, então, Victor entreabriu os lábios e correspondeu. Um dos socos que Victor recebera durante a briga tinha cortado a parte interna da sua bochecha. A boca dele tinha gosto de sangue. As mãos de Hugo foram para o pescoço de Victor. Ele sentiu o aperto do outro contra sua cintura; a barba de Victor roçou em seus lábios quando ele tomou fôlego, mas ainda assim o beijo se manteve.
Pareceu um longo tempo até que Hugo se afastou, e logo ele desejou não ter feito isso, pois no instante seguinte Victor estava sorrindo novamente.
— Caralhos, a quantidade de vezes que eu me perguntei se você faria isso em algum momento... — Victor falou com um suspiro.
— Eu odeio você.
— Não, não odeia. E às vezes eu acho que você é a única pessoa que não faz isso.
Lentamente, Hugo estendeu a mão e tocou os lábios de Victor, desenhando a boca dele com ponta dos dedos. Ele tinha beijado esse sorriso e semeado sua própria tempestade. Na penumbra do carro, o fato ainda parecia irreal.
Como se tivesse passado tanto tempo desejando aquilo quanto Hugo, Victor o guiou para mais perto, abraçando-o e acariciando seu ombro.
Era apenas a calmaria do olho do furacão, mas também era o melhor que ambos tinham tido até então. Hugo deixou-se envolver.
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