Insuportável Dor
14 Natal e revelações
Notas iniciais
Fim de ano chegou, era véspera de natal. Resolvi dar uma voltinha no centro da cidade pois em casa mesmo, não tinha nada para fazer. Árvores comuns rodeadas de luzes; enfeites natalinos em todo canto; árvores de natal de todos os tipos feitas de materiais incomuns; pessoas vestidas de Papai Noel; uma multidão correndo para lá e para cá para comprar as coisas de última hora; mercados completamente cheios; música alta. Enfim uma agitação imensa.
Apenas queria dar uma volta por aí e refletir sobre este meu ano agitado. Coisas boas e ruins aconteceram, seria o primeiro natal que passaria sem Jin, porém o primeiro a passar na casa de uma amiga.
Minha mente não queria tocar no “assunto” Jin. Confusões e mais confusões rodeavam-me quando decidia pensar sobre isso.
...
Toquei e campainha e uma certa loira de olhos verde-esmeralda me atendeu.
— Amy! Entra. — Lire como sempre estava radiante.
— Com licença. — Educação é sempre bom né?
— Chegou bem na hora, o jantar tá quase pronto!
Fui andando pela casa e cumprimentei os pais de Lire. Senti um cheiro delicioso vindo da cozinha.
— Que cheiro lindo! — Disse com água na boca.
— Né? Eu tô lambendo os beiços! Pena que minha mãe não vai deixar eu comer muito...
— Ela se preocupa muito com sua saúde.
— Essa paranoia começou desde que soubemos da doença... Não, na verdade ela sempre foi assim, tão super protetora.
— Deve ser porque você é a única filha deles certo?
— Talvez.
— Ambos se preocupam muito com você, Lire.
— Mas muitas vezes essa superproteção acaba me sufocando, às vezes nem tenho espaço direito e sou censurada em quase tudo. — Suspirou cansada.
— Esse assunto te deixa triste né? Então não vamos mais falar nele.
— Valeu Amy. — E nesse instante a campainha toca. — Deve ser o Kim. — Disse a loira e foi atender, um pequeno nervoso me tomou. Não queria ter recordações de Jin, mas era quase impossível sabendo que um era a cópia do outro. O castanho chegou, cumprimentou a todos e veio até mim.
— Oi Amy. — Me cumprimentou.
— Oi Kim, tudo bem?
— Melhor agora que te vi. — Essa simples frase me fez corar. Era desse jeito que eu ficava perto dele.
— Bem, o que vamos fazer? Acabei de descobrir que a ceia vai demorar mais um pouco. — Lire fez uma cara chorosa.
— Não sei. Hum, que tal brincar de esconde-esconde? — Sugeriu Kim e nós rimos. — Ué, o que foi, tô falando sério.
— É sério? Quer que a gente brinque de esconder? — Perguntei.
— Sim. Por que não?
— Porque estamos velhos demais pra isso? — Disse Lire.
— Ah, vamos só um pouco, relembrar a infância. Melhor do que não fazer nada.
Depois de um tempo insistindo, ele conseguiu nos convencer.
— Oito, nove, dez! Prontos ou não, lá vou eu. — Comecei a procurá-los, por um tempo, ouvi passos correndo e comecei a correr também.
— Um, dois, três, pique. — Lire ganhou mais uma vez.
— Cansei! Vamos fazer outra coisa. — Sugeri cansada, eu só sabia perder.
— Que tal vermos um filme? — Lire disse.
— Perfeito! — Amei a ideia, vimos um filme natalino de comédia. De repente senti o cheiro bom da cozinha novamente.
— Ufa! Agora sim tá pronta! — Ouvimos Alys falar.
— Comida! — Lire foi a primeira a levantar e correu para beliscar os pratos. Sua mãe deu-lhe um tapa na mão.
— Não tem nada pra me dizer antes? — Perguntou Alys, com um tom um pouco sério. Lire observou o relógio e percebeu.
— Ah sim, Feliz Natal mãe! — Ambas se abraçaram, fui até a cozinha e cumprimentei todos, Larry, Alys, Lire e por último... Kim.
— Feliz Natal Kim. — O abracei suavemente, estava corada e nervosa e este simples gesto fez-me lembrar ainda mais de Jin. Era como se estivesse realmente abraçando-o. Entretanto seu corpo era frio e gélido como um fantasma.
— Feliz Natal... Minha rosa. — Ele retribuiu o abraço igualmente.
— Cof, cof. — Nos separamos ouvindo Lire fingir uma tosse. — Agora vamos comer!
A mesa estava farta. Salada; batata assada com carne; maionese e um peru assado. Algumas garrafas de vinho e champanhe acompanhavam o jantar; de sobremesa mousse de limão e frutas variadas. Apesar das broncas da mãe, Lire se empanturrou de comida, não entendo como ela comia tanto e tinha aquele corpinho. A campainha toca novamente.
— Feliz Natal Azin! — Ouvimos Lire.
O recém-chegado entrou e todos falavam o mesmo a ele, até chegar a minha vez.
— Feliz Natal roxinho! — O Abracei deixando-o surpreendido com o ato, senti seus braços me rodearem.
— Feliz Natal também rosinha. — Enquanto estávamos nesses cumprimentos vi Kim torcer o nariz meio sério, ciúmes?
...
— Bom, gente vou indo. Senão fica tarde para eu ir a pé. — Levantei.
— Fica Amy, eu te levo depois. — Larry ofereceu.
— Não, tudo bem, vou andando mesmo. Obrigada por me deixarem ficar.
— Espera Amy, eu vou com você. — Kim se levantou. — Já está tarde pra mim também.
— Então só Azin vai ficar conosco? — Alys perguntou ao liláceo.
— Sim, mas já já vou indo também.
— Que pena, não vou ter ninguém pra conversar. — Lire lamentou.
— E nós? — Larry respondeu ao comentário da filha.
— Ah, mas vocês vão ter o seu momento especial sozinhos...
— Lire! — Alys envergonhada, reprimiu a loira.
— Ops...
...
Estávamos à sós... Completamente à sós; eu e ele; ele e eu, Kim e Amy. Não posso dizer que era um momento romântico considerando o local. Caminhávamos por uma rua escura e deserta, o vento frio ousava castigar nossos rostos e corpos, não havia barulhos, nem de animais ou qualquer alma penada passando ali. Kim voltou a fazer sua expressão séria e tristonha; olhar cabisbaixo. Perguntei-me se ele era bipolar de tanto que mudava sua personalidade. Ficamos um bom tempo no silêncio absoluto.
— Amy? — Kim com um tom melancólico, chamou.
— Sim?
— Quero te levar pra um lugar, você vem?
— Ah, tudo bem. — Segui-o imaginando o que ele planejava. Chegamos em um parque e sentamos num banco.
— É um lugar bonito. — Elogiei prestando atenção nos enfeites.
— Preciso te falar uma coisa... Uma coisa muito importante. — Surpresa pelo seu tom meio urgente, fiquei quieta esperando-o falar. — Eu não sou quem finjo ser.
— O que quer dizer com isso?
— Meu nome não é Kim, não sou uma pessoa normal... — Ele mantinha o olhar cabisbaixo. — Menti pra todo mundo, principalmente você.
— Não entendo o que diz. — Eu fiquei confusa com essas palavras. Ele suspirou.
— E eu nem sei como te dizer isso...
— Se você não me falar, nunca saberei. — Disse e abri um sorriso sem dentes.
— Na primeira vez que me viu, você não suspeitou de nada?
— Não, apenas que você é muito parecido com uma pessoa que conheci.
— Parecido? A melhor palavra é idêntico né? Sou idêntico ao Jin né? — Fiquei surpresa e mais confusa ainda. Como?
— Como sabe sobre isso?
— Sei absolutamente tudo sobre você Amy... Vivemos juntos desde o orfanato.
— O quê? M-mas quem é você? — Perguntei receosa e com medo.
— Sou eu, Jin.
— Só pode estar brincando? Quem te falou do Jin e da minha vida? — Eu não acreditei naquilo.
— Estou falando sério. — Disse olhando em meus olhos. — Não acredita? Eu posso provar.
Ele se levantou do banco, seus cabelos mudaram para vermelho e os olhos pra dourados, suas roupas mudaram para as que Jin estava usando no dia do acidente. Paralisei no lugar, eu tinha enlouquecido de vez? Não sabia o que pensar, falar, não acreditava no que acabei de ver!
— V-Você, n-não é... Real... — Gaguejei, estava com muito, muito medo.
— Amy... Minha rosa, não tenha medo. — Tentou se aproximar, mas me afastei.
— Você está morto! Não existe! Só posso estar louca!
— Sim estou morto, mas eu lhe disse que íamos nos encontrar não disse?
— Era apenas um sonho! É impossível um morto se passar de vivo!
— Não exatamente, é possível sim... O fiz pra ficar perto de você... — Sua voz era triste, ele colocou uma mão em meu rosto, tirei-a bruscamente. Levantei e saí correndo.
— Me deixa em paz! — Atravessei a rua sem prestar atenção, somente atordoada, e não vi que um caminhão vinha em minha direção.
— AMY! — Não daria tempo para me desviar. Fechei os olhos e aguardei o impacto. Mas tudo que senti foi meus pés saírem do chão e meu corpo ser empurrado. Caí no asfalto. — Você está bem? — “Jin” me perguntava atônito.
— Sim... — Fora tudo tão rápido, meu cérebro não processava as coisas direito.
— Sei que está confusa e com medo, mas por favor deixe-me levá-la para casa pelo menos essa noite. Não quero que te aconteça nada! — O suposto Jin me pediu, eu apenas assenti com a cabeça e saímos andando, eu não me atrevia a olhá-lo.
...
Chegando em casa, entrei e ia fechar a porta sem dizer nada.
— Amy... Eu prometo... Que vou te explicar tudo.
— Estou cansada, por favor vá. — Ele desapareceu de minha frente num pequeno clarão. Fechei a porta e desabei no chão.
— O quê... Aconteceu?
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