Insuportável Dor
7 Conhecendo mais da Lire
Notas iniciais
Vazio... Escuro... Solitário...
Era assim que me sentia no momento, e desta vez, num lugar totalmente preto, que não tinha nada, silencioso, impossível de se enxergar algo. Comecei a sentir medo, desespero. Não queria me mexer, não queria respirar, não queria viver...
Tinha a sensação de estar sendo observada.
Fiquei parada à muito tempo, ninguém vinha, nada ocorria. Me agachei e começava a tremer. Temia que alguma coisa saísse das sombras e me atacasse. Fiquei aos prantos, meus soluços ecoavam naquela imensidão de trevas.
De repente, uma luz.
Surgiu à minha frente, um pouco longe, branca com pequenos feixes azulados e amarelos. Parecia um pássaro se movimentando no ar, me trouxe um pouco de segurança.
— Venha! Corra para mim... — Uma voz suave vinha da luz, ela me chamava. Sem hesitar corri em direção a ela. Só queria sair desse lugar.
— Corra... Ou ficará para sempre aqui... — Eu corria, corria e corria. A luz ficava repetindo essas mesmas frases para mim, me chamando, pedindo para correr a ela. Não sei quanto tempo fiquei assim, só sei que por mais rápido que corresse eu não a alcançava. Continuei, minhas pernas não aguentavam mais. Percebi que estava sendo enganada, aquela luz era a falsa esperança, surgindo na escuridão me dando fé, mas apenas queria me fazer acreditar que podia sair dali.
Mas eu não podia, só ficaria ali correndo inutilmente para tentar alcançar uma ilusão. Parei um pouco para descansar as pernas. Eu queria e ao mesmo tempo não queria continuar correndo. Algo se aproximava às minhas costas, dois pares de olhos escarlates e uma silhueta cinza vinha em velocidade, como uma assombração. Desatei a correr o mais rápido que pude, ao olhar para frente, percebi que a luz ficava mais distante conforme corria e a criatura ficava mais perto. Medo me dominou completamente, minhas pernas falhavam cansadas, olhei para trás e dentes sangrentos devoraram minha face.
...
— AH! — Acordei aos berros, suada. Não raciocinei direito, apenas levantei depressa em direção ao interruptor ligando a luz artificial de meu quarto. Ainda era de madrugada, estava com sono, mas não iria mais dormir de luz apagada. Deitei na cama e tentei descansar. O tempo passava e eu não dormia. Criando coragem, apaguei a luz e deitei novamente, aquela estranha sensação de ser observada me afligia.
...
O despertador toca. A sensação estranha passou de repente, eu não sentia mais medo, entretanto. Passei a noite em claro e meu maior desejo era ficar dormindo o dia inteiro, mas... Agora tenho responsabilidades e não posso deixar de cumpri-las. Levantei da cama, morrendo de sono, fui ao banheiro e comecei minha higiene matinal, me troquei, tomei um café e coloquei uma maquiagem no rosto para disfarçar as olheiras horríveis e a cara de zumbi. Me dirigi ao Maid coffee.
Meus colegas me olharam com um pouco de espanto.
— Wow, que cara de morta, um pouquinho de maquiagem não mata ninguém né? — Azin disse dando uma risadinha.
— Mas eu passei! — Já estava irritada pela noite anterior e me vem esse sujeitinho com essa.
— O que aconteceu Amy? Não dormiu bem? — Lire perguntou.
— Tive uma péssima noite, culpa de um pesadelo.
— Que ruim, se tiver muito cansada e não aguentar, me diga e eu peço para o meu pai te deixar ir pra casa.
— Não, não, não, não, estou só com sono, obrigada.
— Ok, então vamos ao trabalho.
Vestimos os uniformes e abrimos a loja, o dia foi muito cansativo para mim e anormalmente, hoje estava bem mais movimentado do que outros dias. Já estava trabalhando fazia quase dois meses e gostava muito dessa experiência. Não conversava muito com os outros por causa da timidez, mas cada vez mais eu ficava próxima a eles.
Mais um cliente entrou, Senhorita Rey Von Crimson em pessoa e seu mordomo James. Ao avistá-la meu desânimo aumentou, já me preparava para esconder e deixar esse problema com meus colegas, mas TODOS eles sumiram repentinamente. Rey realmente é um saco que ninguém quer carregar, coitado de James. Fui apelar pra Lire.
— Lire, por favor me livre da Rey hoje! — Ajoelhei e peguei suas mãos.
— Mas Amy, parece que ela está diferente hoje!
Comecei a observar a rosada e realmente se comportava de maneira muito estranha, eu diria até anormal. Puxou sua própria cadeira e pegou o cardápio, disse também para James se sentar e pedir algo. O mordomo recusou educadamente, mas de tanto Rey insistir, acabou aceitando. Desta vez, Arme a atendeu e eles pediram duas tortas de limão e duas xícaras de café, incrivelmente ela não foi arrogante e grosseira, após ser entregue o pedido agradeceu e não deu suas paranoias.
— Mas não é possível. — Fiquei boquiaberta e morrendo de curiosidade para saber o que a deixou assim.
— Mas que reviravolta não? Será que vai ser desse jeito amanhã e depois de uns tempos? — Perguntou Lire também surpresa, mas sorridente.
— Tomara, meus dias de trabalho vão ser menos “trabalhosos”.
— Bem, vamos voltar as tarefas, o café está cheio hoje! — Lire girou os calcanhares pra andar, mas parou no meio e virou-se para mim. — Ah sim, mais tarde temos que comemorar!
— Comemorar? O quê? A possível mudança da Rainha de Elyos? — Esse era um dos títulos a qual Rey se proclamava.
— Hum, digamos que também. — Te conto tudo no fim do dia, a loira saiu andando apressada.
Fiquei confusa pensando no que poderia ser essa “comemoração”. Não sei quanto tempo fiquei no mundo da lua, só acordei com alguém cutucando minha testa repetidamente.
— Hey acorda, você tá aonde, em Marte? — Azin me “acordou”, e olhava-me esperando uma resposta.
— Não seria correto estar no mundo da lua?
— É muito clichê se todos falam, eu sou original. — Falou num tom debochado e em seguida orgulhoso dando ênfase ao eu. — De qualquer jeito, volte ao trabalho. — Ordenou-me.
— Você não é meu chefe. — Me irritei, esse garoto conseguia me tirar do sério em poucos segundos.
— Mas você não é paga pra ficar parada em pé no meio do salão né? — Então vê se sai logo de Saturno e nos ajude, bicho-rosa. — Saiu andando à cozinha, me deixando com vontade de pular em seu pescoço, odeio quando me põem apelidos rosados.
...
Terminado nosso produtivo dia, nos preparávamos para ir embora quando Lire veio e chamou todos para conversar.
— Pessoal, como disse mais cedo, gostaria de fazer uma comemoração, para celebrar os dois meses que nossa Amy está conosco! — Quando ouvi isto não poderia ficar mais nervosa. — Queria planejar uma festa do pijama em minha casa, sexta a partir de sete da noite. Vai ter jogos, filmes, doces, comida e tudo mais! E aí o que me dizem? — Todos disseram sim, exceto eu. — E você Amy? Não me diga que não vai! Vai ser a estrela principal da noite!
— Ah bem, eu... V-você não precisa fazer isso por mim Lire... É muita gentileza...
— Ah! Você vai sim querendo ou não! Eu já disse sim e fiquei empolgado. — Pronunciou Azin num pequeno misto de raiva.
— Por favor Amy... Vai ter doces... — Arme dizia fazendo beicinho em conjunto com uma carinha e voz chorosa.
— M-mas não quero que se incomodem por minha ca...
— Nada disso! Não vai incomodar em nada, fico feliz em comemorar esta ocasião! Além disso você é minha amiga Amy. — Lire me cortou.
— Vai ser divertido, vamos senhorita Amy. — Ronan me encorajou.
— ... Okay, eu irei. — Suspirei.
— Ótimo! Então todos tragam pijamas, jogos, livros, travesseiros... O que quiserem! — Concordamos e fomos embora.
...
Os dias se passaram e finalmente a sexta-feira chegou. Após o trabalho, passamos em casa e arrumamos as coisas para a festa, nos encontramos no Maid Coffee e o pai de Lire nos levou até sua casa.
Quando chegamos, reparei que a casa era um pouco maior que a minha. Possuía três quartos; banheiro; cozinha; lavanderia; um pequeno jardim e sala. Tudo com medidas um pouco maiores, porém nada exagerado.
— Bem pessoal, se quiserem tomar banho aqui, sem problemas. Vamos colocar os pijamas?
Meninas se trocaram em um quarto e meninos de outro.
— AHAHAHAHA. — Gargalhava Arme.
— Do que diabos está rindo escandalosa?! — Elesis questionou com um misto de raiva.
— Sua calcinha tem um morango gigante escrito “me coma” hahaha.
Percebendo o comentário, todas nós olhamos a calcinha da ruiva e demos pequenas risadas. Elesis ficou vermelha dos pés à cabeça.
— PAREM DE RIR! Qual é a graça? É só uma calcinha!
— Você é sempre tão durona, machona e mandona, mas usa uma calcinha dessas, é hilário! E o melhor de tudo é que posso usar isso pra te subornar! — Arme debochou da amiga.
— Não vai ter nem tempo de contar, vou quebrar seus dentes antes! — Assim Elesis partiu pra cima da roxinha, que se defendeu dando uma travesseirada na agressora.
A ruiva pegou outro travesseiro e ambas começaram a dar travesseiradas fortes. Lire chegou para interferir e acabou sendo atingida entrando na brincadeira. Eu as observava dando risadas até que fui atingida em cheio na cara, olhei para o lado e Holy ria freneticamente e começava a dar mais pancadas em mim. Assim eu decidi brincar também. Durante cinco minutos, ficamos nos “agredindo” até que desabamos cansadas na cama.
—HAHAHAHA! — Desta vez Elesis deu uma gargalhada alta.
— O que foi agora? — Holy pergunta.
— Lire, por que está fantasiada de gato?
Olhamos para a loira que vestia uma espécie de camisola de alcinhas com comprimento até o joelho de cor caramelo e listrada de marrom, pantufas de texugo, orelhas e patas de texugo, juntamente com uma cauda e um gorro com uma folhinha em cima.
— Não é um gato e sim um texugo, eu gosto de dormir assim.
— Parece de criancinha.
— Pelo menos é bonitinho, por falar nisso não está sentindo calor com essas calças Elesis?
— Não. — A ruiva respondeu. Vestia um pijama bem simples, na verdade nem podia-se dizer que era um, apenas uma calça de moletom azul bebê junto a uma regata branca com espadinhas desenhadas. Aproveito para dizer que Arme vestia uma camisola roxa no joelho com estampa de balas, pirulitos, bolinhos e pantufas roxas; Holy também estava com uma camisola até o joelho, verde claro com estampas de limões, pantufas e um gorrinho verde de dormir; já eu estava com um short e uma blusa de alcinha rosa com estampas de morangos. Ouvimos batidas na porta.
— Hey, não acham que estão demorando muito? — A voz de Ronan era ouvida atrás da porta, Lire abriu-a e a reação deles foi de surpresa.
— O que é isso? Concurso de fantasias? hahaha. — Azin zombou, seu “pijama” era apenas uma regata folgada e um short pouco acima do joelho.
— Eu achei bonitinho. — Disse Ronan, que usava uma calça de moletom e uma camisa.
— Tá, tanto faz. Lire, sua mãe mandou avisar que a janta está pronta. — Resmungou Azin.
Descemos para jantar e encontramos uma mesa linda, com muita comida. Havia lasanha, pedaços de frango frito, batatas assadas, suco. Todos nos deliciamos até ficarmos cheios. Em seguida assistimos a um filme de terror e Arme e Holy tremiam de medo.
— Kya! — Gritou a verdinha se escondendo em mim.
— Não me digam que estão com medo desse filminho. — Azin zombava das garotas.
— Mas esses zumbis são tão bizarros e feios... — Justificava Arme.
— Ah... Tadinha das bebês... Perceberam que o papai não tá aqui pra ninar vocês? — Azin continua zombando delas.
— O quê?! — Holy ficou indignada.
— Eu não sou bebê! — Arme disse.
— Não se preocupem, a gente canta uma musiquinha de ninar depois, ok? — O garoto permaneceu zombando, imitando bebês, chamando-as de medrosas. Decidi cortar o “barato” dele.
— Mas e você ? Não tá com medo?
— E-eu? Haha, é claro que não! Eu sou homem! — Respondeu nos rebaixando.
— É mesmo senhor machão? Então por que suas pernas estão tremendo? E como explica o suor na sua camisa? — Perguntei em tom zombeteiro.
— D-do que e-está falando? — Ele gaguejava enquanto tentava parar de suar e tremer.
— Hahaha é verdade, está se tremendo todo! — As duas meninas riam. Importunamos Azin por um tempo até Elesis nos interromper.
— Hey vocês! Eu quero assistir!
Acabado o filme, Lire foi a cozinha e ficamos na sala, um silêncio entediante nos rondava.
— Cricri... — Disse num sussurro, mas não esperava que me ouvissem e dessem risadinhas.
— E aí Amy, tá gostando da festa? — Perguntou-me Ronan.
— Ah sim, claro!
— Humpf, essa festa devia ser pra mim! Todos sabem o quanto dou duro no trabalho! — Azin reclama com um pouco de indignação.
— Ah tá! Você só limpa as mesas, enquanto nós atendemos, levamos os pratos, limpamos o café, cozinhamos. A maior parte do tempo o senhor só fica sentado! — Arme protestou.
— O quê?! Não senhora, eu... — Azin não teve tempo de terminar a frase, pois a televisão desligou. Ronan se levantou e tentou acender a luz, mas não teve sucesso.
— Parece que acabou a energia, vou pedir umas velas, já volto pessoal. — Ronan já ia se retirar quando Azin correu em sua direção.
— Espera! Me leva junto!
— Tá com medinho é? — Elesis zombou.
— Claro que não, só vou aproveitar pra ir no banheiro.
— Sendo assim vou também. — A ruiva se levantou e os três se foram deixando apenas eu, Arme e Holy. Uma parcela de tempo se passou e ninguém aparecia, até que comecei a me incomodar com a escuridão e o silêncio.
— Meninas, não acham que estão demorando demais? — Não tive resposta. — Meninas? — Novamente silêncio. Comecei a entrar em pânico, não é nada legal acabar de ver um filme de terror e acontecer tudo isso em seguida.
Levantei decidida a procurá-los. Andava tateando tudo, mas como estava um breu, bati os pés em vários objetos até conseguir chegar a cozinha.
— SURPRESA! — Disseram todos a mim. Na mesa havia um bolo sabor floresta negra, alguns beijinhos, brigadeiros e doces variados. No centro do bolo, uma vela de número dois; fiquei abismada.
— Pessoal... Vocês fizeram isso por mim?
— Não! — Disse Azin. — É claro que foi pra você bicho-rosa! — Seu tom era de ironia, queria pular em seu pescoço.
— Ah deixa disso, vem Amy, assopre a vela! — Lire me puxou. Fiquei em frente ao bolo e assoprei-a, meus colegas se aproximaram de mim. — Agora hora das fotos! — Fizemos algumas selfies e nos deliciamos com as guloseimas.
— Pessoal... Obrigada... Eu realmente não mereço... — Disse à eles com algumas lágrimas se formando em meus olhos. — Nem sei o que dizer.
— Não precisa falar nada Amy, lembre-se do que eu disse quando nos conhecemos. Você é minha amiga, na verdade de nós todos, e fizemos isso por que gostamos de ti. — Lire me abraçou, após ela vieram os outros. — Limpe essas lágrimas que agora é hora de cantar!
Após comermos fomos ao quarto da loira, ela ligou um karaokê e nos incentivou a cantar, o problema era que faltava a coragem.
— Vamos gente, vai ser legal!
— Não é uma boa ideia sabe... Se a Elesis cantar os vidros vão rachar! — A roxinha zombava da ruiva que por pouco não foi para cima dela.
— Hey hey, não sejam tímidos, olha... Eu canto primeiro. — A loira colocou uma música qualquer e começou a soltar voz; nos impressionamos. Ela cantava bem! Seu canto era suave e ornava com a canção.
Aos poucos nos soltamos e todos cantaram exceto eu.
— A estrela principal tem que cantar também! — Holy me puxou. — Sei a música perfeita para você Amy! — Escolheu World is Mine da Hatsune Miku. Normalmente eu ficaria envergonhada, mas criei coragem, afinal eu amava cantar e dançar e adorava mais que tudo mostrar meu talento. No começo fiquei parada como um bambu, mas me contagiei com a música e só sei que dancei ao ritmo dela. Meus colegas assoviavam e me olhavam. Terminei com uma reverência e fui aplaudida.
— Nossa, você canta muito bem! — Um elogio vindo de Elesis, okay isso não é muito normal.
— Pareceu uma verdadeira diva. — Fiquei encabulada com o elogio de Ronan.
— Hey sabe que a Holy tinha razão? Essa música é sua, até porque você e a cantora parecem duas patricinhas, além de serem quase idênticas! — Novamente o garoto de cabelos lilás atacou.
— É mesmo, só muda as cores. Amy você pode até se disfarçar um dia de Hatsune Miku. — Arme ressaltou.
— Descarto essa ideia, além disso não sou patricinha! — Sério, o que eu tenho haver com patricinha? Só por que gosto de rosa?
— Mas parece. — Azin me contrariava, iniciamos uma discussão infantil.
— Okay, okay bebêzinhos vamos tocar mais uma. — Elesis encerra a discussão.
Cansados de karaokê fizemos um jogo de verdade ou desafio, uma das coisas que eu sempre tive medo de jogar, sério, as pessoas gostam de ver o circo pegar fogo e nos desafiam a fazer justamente coisas embaraçosas.
— Verdade ou desafio? — Lire me pergunta, escolhi verdade.
— Qual é o problema rosinha? tá com medo? — Azin me irritava profundamente.
— Okay Amy, é verdade que você deixou Azin te carregar quando torceu o tornozelo?
— Sim. — A loira não parava de associar as perguntas com o garoto desde que isso aconteceu. Não havia nada de mais nele me carregar no colo, havia?
— Hum. — Ela disse em tom de malícia e girou a garrafa, desta vez Holy me perguntava.
— Verdade ou desafio?
— Pó... Pó; pó; pó; pó... — O implicante lilás imitou uma galinha, com raiva escolhi desafio.
— Huhuhuhu. — Holy riu maliciosamente, fiquei com medo. — Vamos ver, te desafio a... Dar um selinho no Azin!
— QUÊ, de jeito nenhum! — Ela só pode estar ficando louca!
— Eu não vou beijar ninguém! — Disse ele.
— Ah vamos só um selinho, vai ficar só entre nós! — A verdinha insistiu.
— Beija, beija, beija! — Encorajavam os outros, eu dizia não e não firmemente.
— Se não beijar vai pagar mico. — Droga, é por isso que não gosto desse jogo!
— Okay — Suspirou ele. — Eu topo, é só um selinho né? — Dito isso ele me beijou, mas se separou rapidamente, fiquei corada e abismada. E claro ouvimos as famosas risadinhas da malícia.
— Vamos continuar? — Disse eu, visto que me encaravam, a próxima rodada era Elesis perguntava a Azin.
— Desafio. — Nem deixou a ruiva perguntar.
— Tem certeza? — Elesis tinha um tom sacana.
— Absoluta certeza em toda a minha vida. — A ruiva deu risadas.
— Te desafio a se vestir de mulher por dois minutos! — Todos gargalhamos.
— Só pode tá de sacanagem!
— Pó; pó; pó; pó; pó... — Imitei uma galinha. Após uns três minutos discutindo, conseguimos convencê-lo, colocamos um vestido florido e sapatilhas, uma tiara e até o maquiamos, ficou uma graça.
— Vocês... Me pagam... — Disse horrorizado, ao mesmo tempo entre dentes.
O resto da noite se foi, fizemos coisas diversas como jogar; ler alguns livros; contar histórias de terror e piadas; comemos muitas guloseimas; conversamos; etc. Todos com exceção de Lire e eu dormiram por volta das três da manhã, decidimos conversar em particular.
— Gostou da surpresa? — Me perguntou.
— Sim, muito obrigada, obrigada mesmo.
— Não agradeça, saiba que você já é especial. — Disse com um sorriso. É incrível como ela sempre sorria, até mesmo em situações delicadas.
— Sabe, Lire... — Comecei apoiando uma mão no queixo.
— Hum?
— Essa foi minha primeira festa do pijama, nunca tinha dormido na casa de uma amiga antes.
— Sério? — Ela ficou boquiaberta, um pouco chocada.
— Sim, sério.
— Mas, por quê? Você não tem muitos amigos?
— Hum, não. Na verdade... Sempre foi somente eu e Jin. — Estava meio perdida em meus pensamentos, até que deixei escapar essa frase sem querer.
— Jin?
— Ele era meu namorado...
— Era?
— Sim, ele faleceu há um tempo atrás. — Respondi com amargura.
— Ah, sinto muito Amy.
— Tudo bem, não se preocupe. Mas e você Lire, ainda continua indo escondida no teatro? — De repente ela me puxou para mais perto e sussurrou um “shiu” olhando para trás verificando se sua mãe nos ouvia.
— Desculpe, é que eu não gostaria que meus pais soubessem sabe? Senão vão me vigiar vinte e quatro horas por dia. E sim, eu continuo indo lá.
— Mas, por quê? Naquele dia se eu não tivesse perto de você, poderia ter acontecido algo ruim não é?
— É, mas é difícil deixar de fazer coisas que eu quero tanto... Por causa dessa doença. — Seu tom era frio.
— Mesmo arriscando sua saúde?
— Sim.
— Lire... Como sou sua amiga, meu dever seria contar para seus pais ou te convencer a desistir dessa ideia maluca, mas... Não vou fazer isso. Irei guardar seu segredo, com uma condição. — Falei em tom autoritário.
— Qual?
— Que você pegue leve nesses exercícios. Não se force, não vá ao teatro frequentemente e principalmente vou estar sempre te acompanhando pra saber se não está fazendo nenhuma besteira, ouviu?
— Okay, okay, mommy. — Demos risadas.
— Hey Amy.
— Hum?
— Eu tirei uma foto do Azin vestido de garota.
— Legal, hahaha. — Sorri com a imagem dele com um vestidinho curto, mostrando suas pernas peludas.
— Vou postá-la na internet. — Lire tinha agora um sorriso maligno.
— Coitado, vai ser crueldade! — Ele iria ficar com muita raiva de todos nós.
— Muahahahahaha. — Ela deu uma risada cruel, mas disse que não faria isso, em seguida bocejou.
— Melhor ir dormir, está muito tarde. — Sugeri e ela assentiu sonolenta. Fomos andando ao quarto, até que parei no caminho. — Ah Lire?
— Sim?
— Quando uma pessoa perde alguém importante para ela e não consegue superar direito, o que você acha que ela deve fazer? — Eu estava com essa pergunta entalada na garganta, antes mesmo de contar do Jin e queria um conselho de Lire.
— Hã? Bem, essa pessoa deve continuar sua vida. Tragédias e tristezas são obstáculos na vida de todo mundo. São uma parte ruim dela, mas servem para nos fazer mais fortes, assim amadurecemos para enfrentar fatos piores. Mesmo que seja difícil, essa pessoa não vai poder ficar o tempo todo preso em seu passado, caso contrário enlouquecerá ou perderá o resto de sua vida.
Fiquei boquiaberta com sua explicação, uma garota tão nova, com uma doença que afeta sua vida cotidiana falando com muito otimismo.
— Filosófico demais? — Perguntou com seu senso de humor.
— Está ótimo, obrigada. — Comecei a andar novamente, entretanto ela segurou-me pelo pulso.
— Nã na ni nã não, ainda não vamos nos deitar. — Fiz uma careta confusa e Lire pegou dois canetões pretos. — Tenho uma ideia.
...
No outro dia, os outros tiveram um susto ao olharem no espelho e verem suas caras desenhadas de preto. Claro, eles quase nos mataram. Curtimos a manhã e a tarde de domingo. Ao anoitecer nos preparamos para ir embora. Larry, pai de Lire, nos deu uma carona.
— Tchau diva! — A loira se despedia de mim com acenos, adorava ser chamada assim.
— Não se esqueça de trabalhar amanhã, Hatsune Miku rosa! — Desta vez não fiquei com raiva dele, decidi apenas acenar. O carro se foi, me deixando com minha solitária casa.
A partir do momento em que pisei os pés dentro, senti um calafrio em minha espinha. Depois de experimentar a companhia animada de meus amigos, era estranho chegar no lar e não ter ninguém para conversar, afinal morar sozinha não é nada fácil. Além de cozinhar e limpar tudo, você tem que encarar a solidão. A não ser que tenha um(a) namorado(a) que more junto.
Jantei, tomei banho, assisti tv e mexi na internet e logo chegou a hora de dormir. Na noite de sexta lembro de ter descansado tão bem na casa de Lire, sem pesadelos e sonhos bizarros. Que fiquei com medo de deitar, sentia como se houvesse a presença de alguém me vigiando. Me enrolei dos pés à cabeça e me encolhi na cama, criei coragem e fechei os olhos apenas rezando pra não ter nenhum sonho ruim.
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