Insuportável Dor
10 Encarando a escola
Notas iniciais
Após conversar com Lire no telefone, no outro dia tratamos de explicar a devida situação para seu pai, Larry. Acabei dizendo que meus pais faleceram e eu morava sozinha. E que alguns meses antes estava em um período difícil de minha vida e por isso parei de estudar e desejava recomeçar. Não quis mencionar a morte de Jin. Lire insistia para ele me deixar continuar no trabalho, até ajoelhou um pouco.
Larry pensou, por fim dando sua resposta.
— Tudo bem Amy, você pode ficar, só teremos que ajeitar os horários. — Ufa, quando ouvi isso senti um alívio. Imagina se eu fosse despedida? Iria enlouquecer de novo, eu gostava de trabalhar aqui.
— Yeah! Obrigada Pai! — Lire feliz o abraçou e eu o agradeci, mas sua voz cortou nosso clima.
— Só tem um porém. — Fiquei tensa. Que “porém” era este? — Se continuar aqui, terá que confiar mais em mim. No dia em que te ofereci o trabalho lembro de ter feitos algumas perguntas sobre sua vida pessoal e suas respostas foram meio diferentes...
— Pai, era um assunto delicado! — Lire protestou. Seu tom mostrava um pouco de indignação.
— Eu sei minha filha. — Larry a respondeu e virou-se para mim. — Amy, não tenho qualquer direito de me intrometer em sua vida e assuntos pessoais, sou apenas seu chefe, mas digo que me importo com as pessoas próximas a mim e isso quer dizer se elas estão bem ou não. Se vamos trabalhar juntos, preciso que seja mais honesta comigo e com os outros. Não quero que me diga tudo sobre você, apenas o necessário para eu saber que posso confiar em sua pessoa. — Fez uma pausa. — Tudo bem?
— Sim, claro, peço desculpas pela minha desonestidade, a partir de hoje eu confiarei mais nos outros. — Disse, me surpreendi com o que ele falou.
— Ah, mais outra coisa... — O observamos atenta. Eu esperava outro sermão. — Se estiver enfrentando algum tipo de problema, saiba que estarei aqui para ajudar no que puder, meus ouvidos e braços estarão abertos para você, entendeu Amy? — Terminou com um sorriso carinhoso.
— Sim, obrigada. — Retribuí o sorriso, fiquei completamente comovida com todas essas palavras. Larry mal me conhecia! E já estava disposto a querer me ajudar. Uma pequena lágrima se formava em meus olhos, teimava em saltar para fora, mas a detive. Por que eu sempre fui tão chorona?
— Ótimo, agora vamos combinar os novos horários, certo?
Depois de acertar tudinho, fomos avisar agora para nossos colegas claro, afinal sem mim no período da manhã eles teriam que se esforçar mais.
— Por mim tudo bem, agora não sei os outros molengas! — Elesis se prontificou, realmente ela não era molenga, na verdade pegava pesado em tudo o que fazia.
— Não tenho objeções, porém vai ser uma pena não ter a senhorita Amy para alegrar nossas manhãs. — Ronan sempre gentil e carinhoso, seu jeito fazia-nos sentir tão bem.
— Eu também, agora Amy não vai mais passar tanto tempo aqui... — Kim dizia num tom tristonho, mas logo se recompôs. — Mas se é por uma boa causa eu apoio totalmente! — Fez um gesto positivo para mim e deu uma piscadela.
— Humpf, eu acho é bom! Assim não vou ver tanto sua cara amarrotada HAHAHAHA! — Minha alegria se desfez na hora quando ouvi a voz estridente e irritante de Azin. Novamente me veio aquela vontade de chacoalhá-lo pelo pescoço, decidi apenas me acalmar. Por mais que esse garoto fosse irritante e até arrogante, aprendi que esse era seu modo de dizer que gosta das pessoas, por mais estranho que pareça.
— É, mas vamos ter mais trabalho para fazer... — Falou Holy com desânimo.
— E eu, mais dever de casa e mais cansaço. Não se preocupe, eu vou estar aqui com vocês no instante em que eu sair da escola. — Holy bufou as bochechas, como sempre fazia quando ficava estressadinha com algo, mas felizmente ela ficava tão fofa que dava vontade de apertá-la e foi exatamente o que fiz.
— Kya! Para com isso! — Retrucava ela, tentando tirar minhas mãos. — Odeio quando fazem isso!
— Desculpe, mas é muita tentação para mim, você parece um bichinho. — Ela corou um pouquinho e fez biquinho. — Sua azedinha!
— Nya! E eu? Não vou ganhar nada? — Arme protestou. Eu acostumei a mimar as duas desse jeito, até parecia a mãe delas, porém enquanto eu dava atenção a uma, a outra se indignava. Ambas pareciam bebês. Fui até a roxinha e lhe baguncei os cabelos.
— Amy, você está estragando as duas! — Lire exclamava. — Desse jeito os pais delas vão te matar!
— É tanto amor que até enjoei... — Azin fez uma cara de enjoo. Agora sim eu ia bater nele, mas fui parada por Elesis.
— Bem, já que todos concordam, vamos trabalhar. Já está na hora de abrir e vocês aí com briguinhas idiotas! Bora seus preguiçosos!
A mando da ruiva, abrimos e o dia correu normalmente. No final quem estava desanimada era eu, pois o verdadeiro desafio começa amanhã de manhã. Ao olhar pra escola toda e aguentar os comentário de deboche e a solidão... Ah, a solidão definitivamente seria o pior! Pelo menos só teria que ser forte o suficiente para aguentar seis horas de aula, depois o trabalho é só diversão.
— Amy? — Uma voz cortava meus pensamentos. Virei minha cabeça e avistei uma cabeleira castanha com um par de olhos amarelos me observando, era Kim.
— Olá Kim. — Retribuí com um sorriso e percebi que suas bochechas se coloriram de rosa.
— Então, você está voltando pra escola?
— Sim.
— Isso é bom, mas posso te perguntar uma coisa?
— Claro, o que é?
— Por que você parou de estudar? — Eu já estava esperando uma pergunta assim, na verdade até me surpreendi que meus colegas não questionaram nada sobre o assunto.
— Ah bem, há pouco tempo atrás eu estava passando por uma situação muito difícil, o que fez parar de ir para a escola. — Eu procuro não mencionar o que exatamente se passou para todo mundo. Eu teria que explicar bastante coisa.
— Uma situação difícil... — Ele pareceu pensar um tempo. — Foi com uma pessoa especial pra você? — Como ele pôde dar um palpite tão certeiro?
— S-sim, como sabe?
— Apenas palpite. — Não acreditei muito, as únicas coisas que eu disse foram “situação muito difícil”. Eu poderia estar me referindo à outra coisa!
Eu terminava de lavar a louça, Kim se ofereceu para me ajudar. Após uma parcela de tempo ele tocou no assunto novamente.
— Amy, posso te perguntar mais uma coisa? — Disse meio envergonhado.
— É sobre o que falávamos antes né? Tudo bem.
— ... Essa pessoa era muito especial?
— Muito, ele era meu noivo na verdade.
— Oh, com certeza ele te amava muito, ou melhor ainda te ama!
— Como sabe?
— Quem não amaria uma garota tão bonita e legal como você? — Corei ao ouvir.
— Obrigada. Sabe, você se parece demais com ele.
— Haha. É sério?
— Tanto na aparência e personalidade, ambos são gentis, entusiasmados e conseguem agradar a todos ao redor, inclusive eu... — Kim se aproximou de mim e passou um braço ao redor de minha cintura.
— Eu sempre estarei aqui pra você, minha Rosa. — Sussurrou em meu ouvido e sorriu.
...
Deitada em minha humilde cama, eu refletia na frase que Kim me dissera
“Eu sempre estarei aqui pra você, minha Rosa.”
Isso me soa familiar, Kim e Jin são tão parecidos... Como pode? Só espero que eu não esteja ficando louca de verdade, será? Talvez, só talvez, tudo isso seja apenas um sonho bom e quando eu acordar tudo vai estar desmoronando...
Nah... Pare com bobagens, eu vou é dormir antes que minha mente me enlouqueça! Amanhã eu tenho escola oras!
...
Despertei com o toque do celular. Vi no visor o número de Lire, atendi já sabendo do que se tratava.
— Pode tratar de levantar e ir pra escola mocinha! — Bocejei de sono.
— Ah, minha cama está tão gostosa hoje...
— A cama não vai te ensinar a fazer cálculos! Anda, anda, anda! Daqui a meia hora eu vou ligar de novo e se não tiver pronta, eu vou aí de carro pra te buscar ouviu? — Lire costumava ser autoritária, mas porque se preocupava conosco.
— Tá bem, tá bem mamãe... — Ri e desliguei.
Levantei e fui ao banheiro lavar o rosto e tomar um banho, coloquei meu uniforme escolar, que cheiraria a mofo se eu não lavasse ontem. Após me trocar, fui tomar o café, torradas com geléia de morango, suco de laranja pura e uma maçã para acompanhar. Ultimamente eu procurei melhorar minha alimentação também. Comparado a quem antes não comia quase nada, eu estou em forma! Lire me ligava novamente.
— Já estou pronta e vou sair agora de casa, mami.
— Humpf, ainda bem, quer uma carona?
— Não, não, tudo bem, andar é bom pra saúde.
— Uma garota que só come porcarias, falando em saúde? Hahaha.
— Pelo menos eu como mais do que antes.
— Okay, okay, olha quero te falar uma coisa. — Fiquei tensa com suas palavras, parecia séria. — Não se preocupe com o que os outros vão pensar ou falar a seu respeito. Você está lá pelo seu futuro e não pra gradar ninguém, não deixe que te ponham para baixo ou te façam desistir, vai ser difícil, mas vai recompensar e muito! Pode ter certeza.
— Lire...
— Ah outra coisa que sempre digo, é deixe que pensem, deixem que digam, deixe que olhem! As palavras só nos machucam se as deixarmos invadir nossa mente. Ah e a melhor arma pra quem tenta nos magoar são o silêncio e o desprezo. As pessoas só conseguem nos magoar se deixarmos nos levar por palavras. Se perceberem que não ligamos pro que dizem, nos deixam em paz pois é nossa atenção que procuram atingir.
— ... Lire, você é algum tipo de sábia ou conselheira? Nunca ouvi alguém me falar algo assim!
— Talvez eu tenha sido na minha vida passada, apesar de não crer nisso.
— Okay, obrigada pelos conselhos, vou dar o meu melhor. Deseje-me sorte, Bye!
— Boa sorte! Bye!
...
Eu caminhava lentamente pelo corredor para chegar à minha sala. Percebia os olhares dirigidos a mim e alguns cochichos enquanto passava. Não podia negar, eu estava nervosa, mas procurava não olhar para ninguém. Como Lire me disse, eu andei de cabeça levantada.
Chegando ao meu destino, me dirigi à minha mesa, porém não sem antes escutar uma piadinha.
— Olha só quem apareceu. — Olhei para ver quem era. Apenas um garoto que costumava ficar com Jin. Sem ligar para o que disse, apenas me sentei. O professor chegou, fez a chamada e esqueceu de dizer meu nome.
— Professor, você esqueceu de me chamar. — Disse com uma voz calma.
— Esqueci? Ah sim! Amy Aruha né? — Assenti com a cabeça.
— Professor acho que você quis dizer Fantasma Aruha. — O mesmo garoto dissera e ouvi umas risadinhas. — Porque todos sabem o quanto essa menina parece uma morta na sala!
— Chihiro! Calado, sente-se! — Mandou o professor. O garoto sentou fazendo um gesto para ele se acalmar. — Amy, venha até aqui. — Caminhei até sua mesa.
— Vish. — Escutei outro colega falar, apenas ignorei.
— Vejamos... Amy você tem um excesso enorme de faltas e notas. Se ainda tem esperanças de passar esse ano, eu sugiro que se esforce bastante para recuperar tudo e também precisa conversar com os outros professores sobre isto, entendido?
— Ok.
O resto da aula se passou normalmente. Como esperado, fiquei o intervalo sozinha, até aquele garoto, o tal de Chihiro vir me perturbar.
— Ora, ora Amy. Há quanto tempo! — Fiquei calada, ele passou a mão em meus olhos, disse hey algumas vezes, tentando chamar minha atenção. — Além de monga, agora é cega e surda?
— Percebi que sentiu muitas saudades de mim né? — Disse, na mais pura frieza. Tentei seguir o conselho de Lire para ignorar, mas quando a pessoa pedia para você ser mal-educada, você tinha que dar uma lição nela.
— Claro! Sabe que é a monguinha predileta da nossa sala, sabe o quanto te adoramos! — Ah, mas essa falsidade dele me deixava com vontade de esfolá-lo vivo. Era assim na frente de Jin também. — Amy, me responde uma coisa...
— O que é? — Fui meio grossa aqui, a presença dele me irrita.
— Quantas lágrimas derramou até agora no túmulo do Jin hein? — Ódio, puro ódio tomava conta de meu ser. Como ousa fazer descaso com uma coisa dessas?
— Eu? Derramei muitas sim, ao contrário de você que nem sequer compareceu e ainda dizia que era o melhor amigo dele! — Chihiro deu um sorrisinho debochado. — Mas foi bom você não ter ido mesmo, a sua cara de inveja ia fazer as flores do caixão murcharem!
Pude ver uma expressão de raiva tomar seu rosto. Senti sua mão fechar em um punho e vir em minha direção. Sim, definitivamente ele ia me bater, porém o sinal indicando o fim do intervalo o interrompeu, Chihiro se recompôs.
— Você se acha muito forte né? Faz essa fachada de forte e fria, mas é só encostar que você cai. — E saiu andando para a sala.
Tirando algumas bolinhas de papel e aviõezinhos que acertaram em mim, o dia passou rápido, o sinal do fim da aula tocou e eu dei graças aos céus. De lá mesmo eu fui para o café contar as novidades pra Lire.
...
— Nossa Amy! Ele te bateu? — A loira perguntou surpresa.
— Não, por que o sinal tocou, mas foi quase.
— Que horror! Se ele fizer alguma coisa com você fala pra diretora!
— Sei, mas muitas vezes não resolve.
— Algumas vezes sim, ele pode ser expulso, ou pegar advertência...
— Mas com certeza ele vai ficar com mais raiva de mim.
— Ele quem? — Ouvimos Azin questionar enquanto passava por nós.
— Não, é n-nada.
— EU QUERO SABER AGORA! — Azin praticamente gritou e insistiu o quanto podia, até que resolvemos contar. — Lire, você sabe que diretora não resolve nada!
— Depende do caso.
— Que nada, você acha que ele vai ter medo? Amy, a próxima vez que ele fizer isso ou até ameaçar, fale pra gente! Esse moleque precisa de uma surra!
— Ai, ai... — Fiquei atônita, não queria causar confusões.
— Assim quem vai acabar levando surra é você! — Lire respondeu. — Você nem conhece esse garoto!
— Ele também não me conhece!
— E o que isso tem a ver? — Lire estava ficando doida.
— E aí pessoal, o que fazem de bom? — Kim chegou sorridente.
— Humpf, Kim me diz uma coisa, você acha normal um cara bater numa garota? — Azin perguntou.
— Claro que não, isso é covardia, uma mulher não consegue se defender de um homem! Pelo menos se estiver desarmada. Mas por quê?
— Um cara quase bateu na Amy hoje na escola dela!
— O quê?! É sério? E você tá bem Amy? — Kim mudou sua expressão alegre para uma nervosa e preocupada.
— Estou bem, sim, pessoal... Vamos resolver esse assunto mais tarde, temos que trabalhar. Ah, e poderiam não contar pra mais ninguém, por favor?
Todos assentiram e retornamos aos nossos afazeres. Durante o dia todo, Kim ficou ao me redor, certificando-se se eu realmente estava bem, até que tocou no assunto da conversa.
— Amy, sei que falou para resolvermos mais tarde, mas pode me dizer quem ameaçou te bater?
— Um garoto da minha sala chamado Chihiro.
— Chihiro?! — Ele se surpreendeu. — Por acaso seria Yasuke Chihiro?
— Sim, esse mesmo, você o conhece?
— Conheço, já foi um amigo meu, não sabia que ele era assim. — Disse com tristeza e decepção. — Bem, está tudo bem com você mesmo né?
— Sim, sim, estou bem.
— Que bom... Jamais me perdoaria se alguém machucasse minha rosinha... — Disse num sussurro quase inaudível.
— O que disse?
— N-nada, vamos trabalhar!
Assim o dia terminou com pequenas confusões escolares, só espero não ser pior amanhã.
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