Insubstituível

1 Único - [In]substituível


Notas iniciais
Dunno, faz tempo que penso em retratar a relação do Ayato com o Naki de alguma forma. Mesmo eles sendo diferentes, ambos tem um mesmo ponto de vista dentro da Aogiri. Eu quebrei a cabeça para essa ficlet, não saiu como eu esperava, mas é um bom resultado, não acho que fugi da personalidade deles.

“Todos são substituíveis”

Aquelas palavras gélidas desprovidas de qualquer emoção ecoavam na mente do jovem ghoul de cabelos azulados como se lutassem entre ser esquecidas ou ser absorvidas por ele, o deixando confuso. E alguém tão temperamental ficar confuso daquele jeito não terminaria bem.

Sozinho durante sua ronda, Ayato praguejava e socava o que encontrava pela frente, fossem latões de lixo, grades ou mesmo paredes – um murro certeiro numa parede de concreto não era nada para um ghoul. Estava frustrado.

“É tão engraçado ver ghouls se preocupando uns com os outros”

E lembrar da frase de Takizawa quase o fez materializar a kagune durante um ataque impulsivo à outra pobre parede.

Ele então sentiu algo vindo contra si. Seus reflexos rápidos apanharam a coisa em pleno ar: um pedaço de carne fresca ainda quente e úmida de sangue. O jantar.

Acho que te devo uma. – resmungava um vulto vindo das sombras daquele beco até alcançar o resquício da luz vacilante de um poste. Naki.

Ayato o olhou com desprezo, suas íris avermelhadas acalmaram-se para o habitual azul num bufar incomodado, e devolveu a carne. “Não quero” disse antes de dar as costas ao loiro e seguir a ronda, agora controlando seus impulsos de atacar o que tivesse pela frente.

Entretanto teve os passos acompanhados.

Eu também não gostei do que Tatara disse. – falou, ignorando todos os sinais vindos de Ayato mostrando que queria ficar sozinho – Se eu não estivesse preso quando o aniki foi morto… – interrompeu-se fungando, como se contivesse o choro –Não pensaria duas vezes em ir ajudá-lo. – Em algum momento jogou o pedaço de carne fora.

Ayato bufava, praguejando baixinho a incômoda presença de Naki. Por quê mesmo o havia salvado aquela hora?

Se importar com os outros é coisa que os humanos fazem. – pensou alto. Recordava-se momentaneamente de seu péssimo pai, e todos os ensinamentos baseados no estilo de vida dos humanos – Sentimentos inúteis. – Parou de repente, pisando numa parede de grade segurança. Aquele beco levava à uma queda de onde era possível ver a rua num nível inferior, e a grade impedia qualquer desavisado de cair de uma altura perto dos 3 metros.

A cidade vista de cima era escura e desértica. O cheiro de alguns poucos humanos passando por ali pairava no ar, bem com o cheiro de ghouls de baixo nível espreitando sua próxima refeição. Uma cena comum que por algum motivo deixava Ayato incomodado hoje.

De longe ele assistiu a caça. Ouviu o humano gritar, ouviu tiros de uma arma de fogo comum, ouviu uma kagune se erguer e então o som de carne sendo cortada finalizando a caçada. Não longe dali ouvia passos apressados; outro humano, fugindo.

Naki vinha atrás, não chegou a ver nada. Antes do segundo humano ser pego por outro ghoul, Ayato pôs o pé no chão e deu meia volta. Passou pelo loiro, que havia parado ao ver o mais novo retornar, e então um pensamento lhe ocorreu:

Naki foi encurralado pelos doves. A ordem era deixá-lo para trás, mas eu voltei e graças à isso este idiota inútil ainda está aqui.

Ninguém é substituível – Naki disse após Ayato afastar-se um par de passos e parar ao ouvi-lo – Ninguém pode substituir o aniki. Ou a menina lá (qual era o nome dela? Udekushi?) – um soluço. Por mais que tentasse parecer forte, não era. – Colocar um no lugar de outro no lugar não pode substituir.

Ayato revirou os olhos com desdém, mas estava cabisbaixo e pensativo também. – Colocar um no lugar de outro é exatamente o que substituir significa – riu baixo – Idiota.

Não é nada! – retrucou já choroso – Mesmo com alguém no lugar do aniki, não é o mesmo que o aniki!

Nenhum outro ghoul demonstrava tanto senso de companheirismo como Naki o fazia. Mesmo não confrontando Tatara por suas ordens de abandonar e substituir. Ouvia suas ordens calado, cumpria-as como podia, mas seria incapaz de deixar os gêmeos para trás numa luta.

Você é mesmo um idiota – Ayato deu de ombros e começou a andar. – Se preocupar com os outros está longe de ser coisa de um ghoul, ainda mais um da Aogiri. Pare de chorar.

Ayato seguiu seu caminho de volta para a base tendo Naki choramingando e reclamando em seu encalço. Era irritante? Sim. Poderia até dar um chutão naquele bebezão de um vez, mas não deu, preferiu ignorar.

Se Naki tivesse sido pego no lugar de Hinami, e alguém fosse posto em seu lugar… Poderia ser um Rinkaku qualquer, mas seria esse idiota ingênuo e chorão? Impossível existir alguém como Naki. Isso o tornava…

– Insubstituível. – Murmurou para si mesmo, sem chamar a atenção do loiro.

Alguém no lugar de Yamori, não é Yamori para o Naki. Alguém no lugar da Hinami… Não é a Hinami. Ocupar a função e ocupar o lugar são coisas completamente diferentes, e apenas Naki, o tolo, era capaz de entender isso. Aos poucos, Ayato também.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.