Instrumento Tempestuoso.
14 Descoberta.
Notas iniciais
Músicas:
No Light, No Light e Seven Devils - Florence + The Machine.
PS.: Tô quase pegando a ideia da minha escritora GabrielaF6 e colocar as frases de uma música no início da cap, hahahaha. Boa leitura! ♥
Passear pelos campos do Castelo Divino tornou-se uma das únicas atividades para se exercer. Como eu estava lá apenas para um “estudo” e como não tinha intimidade com ninguém, resolvi aproveitar o tempo sozinha. Dentre as minhas coisas, aquele aparelho estranho de Patch estava no meio, com a música que escutamos juntos no pântano, então eu a colocava para tocar com o efeito replay e revivia os momentos incríveis que presenciei naquele dia.
Foi caminhando dentre as flores que o vi parcialmente. Ele não estava muito longe e nem muito perto. Mas reconheceria suas feições onde quer que estivesse. Depois de um tempo, aprendi que o portão abria quando quem o comandava permitia. E naquele instante ele abriu pelo meu desejo.
Scott estava vestido de sua maneira habitual. Uma camiseta branca e um jeans escuro pendurado em seu quadril. Quase cai de joelhos naquele momento. Uma realidade minha estava ali; ali fora, tão perto que era quase possível sentir seu cheiro. Respirei fundo e notei que podia mesmo sentir seu cheiro habitual de hortelã.
Corri em sua direção, sem pensar no que aquilo me causaria e vice-e-versa. Meus pés só cessaram quando meus braços estavam apoiados em seus ombros, um de seus braços em torno da minha cintura e uma mão funda em meus cabelos. Suspirei. Gostando da forma como seu corpo se encaixava no meu. Gostando de como ele me levava ao habitual. Ao que eu estava acostumada. Aquilo me dava ainda mais saudades de Vee e foi quando comecei a chorar em seus braços. Foi quando realmente me vi sem condições e sabia que demoraria bastante para parar.
- Shh. – Ele sussurrou, sentando-se no chão e colocando-me em seu colo, sem nunca me soltar ou abandonar a carícia dos meus cabelos, aquele toque me acalmava muito. – Está tudo bem, amor.
Arfei, ouvindo sua voz rouca ao pé do meu ouvido, em uma intimidade que não desfrutava há muito tempo.
- Eu sinto tanto a sua falta. Durante tanto tempo, eu nunca pensei em ligar, ou ir a casa ver você... – Tentei terminar a palavra, mas afundei meu nariz em seu pescoço.
- Não estamos mais morando lá. Papai notou que havia algo de errado, estamos na outra casa agora. – Ele disse, e seu peito tremeu sobre o meu.
- E Vee. E a mãe dela? – Eu indaguei me lembrando do sorriso espontâneo de minha melhor amiga.
- A mãe dela deve estar monopolizada por um feitiço. Pois pensa que a filha está todo dia no café, almoço e jantar. – Ele parecia indignado e parecia saber ainda mais que eu.
Desci de seu colo e cruzei as pernas no chão, fitando seu rosto de perto. Vendo a barba por fazer escurecer seu rosto, seus fios um pouco mais longos escorrendo por sua testa branquinha, no mesmo tom castanho-escuro da sobrancelha. – Você sabe mais que eu.
O avaliei com os olhos, sabendo que encontraria a resposta verdadeira nas ações do seu corpo. E lá estava a prova. Seus ombros ficaram rijos e suas mãos se uniram, entrelaçando os dedos, até sua testa brilhou com uma gota de suor que escorreu.
- Eu sempre soube. – Ele confessou. – Papai e eu sempre desconfiamos que isso viria a acontecer. Sua mãe te deixou aos cuidados dele na noite em que morreu. A tarefa era que nem o Lado Sombrio e nem o Divino te encontrassem.
É claro que fiquei estupefata com a revelação. Mas não fiquei nervosa por ele esconder aquilo de mim, na verdade fiquei agradecida, pois assim fiquei sabendo de forma verdadeira, enxergando tudo como deveria ser visto. E agora, querendo encontrar quem matara minha mãe. Pois pelo pesar nos olhos de Scott, eu sabia que era isso que realmente tinha acontecido. O medalhão em meu bolso tomou vida e antes que lhe respondesse eu o tirei rapidamente do bolso, com medo de que começasse a me queimar.
Só então notei os desenhos no colar com um pingente de coração. Scott aproximou seus dedos, mas a luz forte que surgiu do medalhão, impediu que ele o tocasse.
- Onde encontrou isso? – Ele indagou, com as sobrancelhas unidas em dúvida tangível.
- Bem aqui. – Disse, reconhecendo o espaço ao redor e deixando de vê-lo em instantes. Sentindo-me puxada para dentro dele, para dentro de uma verdade que não conhecia...
A primeira coisa que vi foi a minha mãe apoiada contra a árvore. O mesmo homem da outra visão estava atrás dela e ambos conversavam de maneira íntima, mesmo estando distantes. Era a noite o nosso fundo e um campo vasto, bem parecido com o que eu Scott estávamos há segundos. Suas mãos estavam fortemente agarradas ao tronco da grande árvore e meus pés caminharam até próximo à cena. Suspirando, eu passei o dedo pela pele de minha mãe, mas não senti nada, somente o ar. Eu via seus lábios se movendo, as reações em seu rosto e no dele também, mas não escutava absolutamente nada, o silêncio me percorria por inteiro. Comecei a olhar ao redor, assustada e notei uma luz forte não muito distante dali, mesmo semicerrando os olhos eu não conseguia enxergar o que havia atrás dela.
Me espantei quando os olhos de minha mãe esbugalharam e ela se soltou da árvore, correndo em direção a um veículo estacionado ao longe.
- Mamãe... – Meus lábios se moveram, mas nenhum som foi emitido quando notei um homem todo vestido de negro indo a passos calmos atrás dela.
Ela só o notou quando tropeçou e se virou em seu corpo, fitando o cano da arma apontando diretamente para o centro de sua testa. Uma lágrima escorreu de seu rosto, antes de tudo explodir ao meu redor. Antes que eu visse sua morte.
Retornei ao espaço real, respirando com dificuldade e encarando Scott com os olhos bem apertos. – Minha nossa... eu... eu acabei de ver.
Scott voltou seus olhos para os meus. – Ver o que?
- Minha mãe... de novo. Ai, meu Deus. – Aquilo era tenebroso, ver o instante em que ela morreu e não poder fazer nada. Com sua presença tão constante em visões, eu podia jurar que ela ainda estava viva.
- Nora, esse o medalhão da Profecia e também é o Medalhão que sua mãe deixou para que você a encontrasse. – Scott disse, seus belos olhos abertos e um sorrisinho escondido no canto de sua boca.
Meu coração aumentou, sentindo o medalhão se amarrar em torno de minha mão, como se pertencêssemos um ao outro, como se sua morte realmente não fosse verdadeira, como se ele fosse o primeiro passo para que eu a encontrasse.
As lágrimas já estavam escorrendo de meus olhos sem que eu notasse. – E como sabe disso? – Indaguei em meio a um choro feliz, mas querendo o ouvir falar que ela poderia estar viva de novo.
- Foi o que Harrison disse, e essa era sua última esperança.
Scott havia ido embora há alguns minutos. Mas eu quis ficar lá. Talvez pela informação que ele me concedeu, ou talvez porque a imagem da minha mãe ainda estava muito viva na minha mente. Virei meus olhos para a esquerda e avistei uma árvore.
Ela era idêntica
Sem nada para colocar ou tirar. Eu me levantei ainda estarrecida e com coração acelerado. Meus passos foram mais velozes que o normal, e eu sabia que estava tendo a manifestação de algo em meu corpo. Toquei o tronco da árvore com os dedos. Sentindo as circunferências que a marcavam. Tendo um pequeno sobressalto quando o interior dela se moveu em meus dedos, mas depois me lembrando de onde estava e do que era.
Era a mesma árvore da visão. A árvore em que minha mãe estava apoiada quando arregalou os olhos e saiu correndo em direção do que pensou que fosse o fim e que na verdade foi o início de algo. Eu fui o início de algo e provavelmente o seu fim. A provocadora do fim da pessoa que eu menos tinha contato e que mais amava em minha vida.
- Passeando pelos arredores? – Me assustei com a voz que indagava e virei às pressas para fitar uma garota pálida e branca caminhar em minha direção.
Seus cabelos sedosos percorriam um longo caminho até sua cintura. Sua pele branca era quase transparente. Seus olhos escuros me fitavam ao longe e seus lábios vermelhos se destacavam em seu rosto com um desenho elegante. – Bem que me disseram que estaria aqui. – Ela disse ainda mais próxima, foi quando notei as presas apontando por baixo de seus fartos lábios superiores.
Meu coração se acelerou e um instinto me perseguiu. Em todo aquele tempo em ambos os Castelos, ninguém me ensinara a lutar e o meu Grande Guardião do Castelo Divino estava em algum lugar... menos comigo.
Eu suspirei, exalando coragem suficiente para encara-la nos olhos; diretamente nos olhos. Ergui os meus, e a olhei profundamente, como que para lembra-la quem eu era. Mesmo sem ninguém ter me dito, eu sentia que exercia algum poder avassalador... mas tinha medo de chegar o dia em que o usaria por completo. Duas almas distintas em um único corpo deve fazer um mal danado.
- Quer algo comigo? – Indaguei, elevando o queixo e fitando-a fervorosamente.
Eu sabia que devia enxergar algum tipo de luz por estar onde estava. Mas eu não a encontrava dentro de mim, eu estava em uma repleta escuridão do meu próprio interior. Eu devia sentir algo como uma paz distinta, mas eu só sentia a escuridão percorrer todos os membros do meu corpo. E aquilo era tão prazeroso, porque era como estar novamente com Patch. No meio do seu quarto, perdida em seus lençóis e alucinada por seus olhos.
E então a canção começou. E foi naquele momento que notei que ela vinha de dentro de mim... “Holy water cannot help you now, See, I've had to burn your kingdom down, And no rivers and no lakes can put the fire out, I'm gonna raise the stakes, I'm gonna smoke you out” a letra era alucinante, ricocheteando pelo meu corpo e adornando as batidas do meu coração no ritmo dos batuques da canção. Meus lábios se moviam junto à voz linda e inigualável da mulher. Meus olhos piscavam com os pratos da bateria de fundo. A melodia angustiante, carregada de trevas me levava ainda mais para um destino em que eu não me enxergava.
- Eu vim vê-la de perto. – A voz da vampira diante de mim atravessou a canção. Mas ainda assim, ambas estavam lá.
Eu me sentia de alguma maneira diferente, e levantei os braços para fita-los. As andorinhas estavam parcialmente apagadas e o Dragão completamente aceso, tomando conta de todo o meu antebraço. O sorriso da mulher diante de mim murchou como flor ao outono e a mesma deu passos vacilantes para trás, como que para tomar distância de algo completamente perigoso.
Meus olhos serpentearam por seu corpo esguio. Passando por seu peito que subia e descia com a respiração ofegante e, por fim, pousando sobre as andorinhas completas em torno de seu antebraço. Então percebi que ela tinha sede de algum tipo de vingança, mas medo de uma das minhas espécies e que achou mais simples me enfrentar no Castelo Divino. O canto do meu lábio direito subiu em um sorriso maligno, mostrando-lhe que eu já entendia tudo. Meus cabelos se abanaram em uma brisa suave que deslizou por meu corpo.
Estava me sentindo bem por estar no completo poder da situação e comecei a caminhar em sua direção, um passo de cada vez, enquanto escutava a música tocar mais alta... clamando por aquele momento. Assim como senti quando o Medalhão se aqueceu em meu bolso.
- Vá embora daqui, já viu o que tinha para ver. – Por fim, bati o pé no chão, mas não com intenção de provocar algum susto, mas para frisar minhas palavras.
O chão nos abanou sobre ele, fazendo com que a mulher diante de mim corresse com ainda mais intensidade dentre a grama alta. Depois, a música acabou de repente, e eu fiquei completamente ofegante. Me assuntando quando palmas fracas surgiram ao longe.
- Nunca vi ninguém ser tão ruim com Zoey, como você foi hoje. Parabéns, novata. – Aphrodite disse ao longe, com seu ombro empoleirado no carvalho em que vislumbrei minha mãe há poucos minutos.
Com os ventos chacoalhando seus cabelos dourados e aquele sorrisinho nojento nos seus lábios, eu quase chorei ao encontrar uma leve semelhança com Vee.
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