Instrumento Tempestuoso.
20 2ª pt: Suspiros afogados.
Notas iniciais
I'm hoping that I'll find what I've been chasing.
Espero que eu encontre o que eu tenho perseguido. (Down – Jason Walker).
A caminhada já tinha durado algumas horas e eu estava impressionada com o tamanho daquela floresta.
- Eu queria entender porque estamos demorando tanto. – Disse, com a voz entrecortada por conta do cansaço.
- Eles nos pegaram no caminho, colocaram reforços pelo atalho. Estamos pegando o caminho mais longo. – Patch respondeu calmamente, com a respiração normal.
Até Daniel e Shaunee já tinham cansado de apenas caminhar. Daniel subiu para as nuvens e voava acima de nós. Shaunee virou uma borboleta vermelha e voava ao meu redor. Um susto me ocorreu quando, repentinamente, Shaunee se transformou diante de mim. Não que nunca tivesse visto suas pernas se esticando, as asas aumentando, os cabelos surgindo e o rosto se formando. Mas sempre era incrível deslumbrar tal cena. E então, quando olhei, seus olhos estavam inteiramente alarmados, mas animados.
- Estamos perto. – Ela sussurrou perto do meu ouvido.
Em ansiedade, ergui o rosto rapidamente, procurando por um Castelo em ruínas a diante, mas só o que via era mais árvores e folhas caídas ao chão. Não havia nada de diferente na paisagem à frente.
- Não, bobinha. – Ela empurrou meu ombro. – Estou dizendo que chegamos perto de mais pessoas para nos acompanhar.
Em resposta, dois topos de cabeças com tufos loiros surgiram ao longe. Era como se ambos brilhassem para nós, sentindo nossa chegada e nos fazendo sentir a presença de ambas as pessoas. A escuridão cobria suas silhuetas parcialmente, e durante alguns segundos, os corpos eram apenas sombras perdidas em escuridão completa. Aos poucos, minha visão se amplificou e enxerguei os rostos que conhecia muito bem. Mesmos olhos, mesmas maçãs do rosto erguidas e mesmos fios louros. Era Aphrodite e Stevie. Mesmo tendo fisionomias identificas, suas auras eram distintas. Uma inteiramente branca e outra coberta de preto. Uma luz e outra trevas. Sombria e divina. Mas, por mais incrível ainda que pudesse parecer. A que carregava a expressão vazia e pouco se importando com o que acontecia ao seu redor não era a pertencente à Nação Sombria, e sim a Divina. E a que carregava o sorriso amistoso e feliz em nos encontrar era a que estava na Nação Sombria. Um arrepio percorreu meu corpo com a constatação.
Stevie se apressou entre as árvores e quase não a reconheci vestida toda de preto. Um colete negro sobre uma blusa de couro e uma calça jeans escura, enquanto calçava coturnos como a noite. Ela correu para os braços de Shaunee, e as amigas se abraçaram. Fios louros e escuros se misturavam e ao longe, Aphrodite encarava com uma sobrancelha erguida, como se fosse um esforço assistir a cena de afeto tão de perto. Aphrodite se aproximou, mostrando-se com um vestido mullet negro e uma meia calça arrastão e botas também escuras.
- Onde está Daniel? – Indagou, jogando os cabelos para trás dos ombros, em seu típico gesto.
- Voando. – Cameron ergueu as sobrancelhas, como se fosse algo óbvio.
A caminhada não tinha parado dada a chegada de ambas. Minhas pernas ainda estavam moles como massinhas, o suor seco me deixava imunda, enquanto mais surgia por minha pele. Patch ainda estava meramente distante, talvez pela presença de tantas pessoas. Mas, ainda assim, estava. Ariane andava ao nosso redor, mas sempre fazendo comentários animados quanto ao canto de pássaros e em como as flores eram tão lindas ali. Eu gostava de todo seu entusiasmo, pois, de alguma forma, aquilo se transmitia pelo ar para mim.
Minhas marcas tinham voltado ao normal. Incompletas, para ser exata. O brilho opaco não as rodeava, e elas estavam cinza, apagadas contra a pele como cicatrizes antigas. Ergui o rosto e notei que Cameron me fitava de soslaio, dei um meio sorriso para mostrar que o via me olhando.
Lentamente, vozes de conversas distintas começaram a se erguer ao nosso redor. Ariane puxando assunto com Patch e Aphrodite, e Shaunee e Stevie emergidas em comentários pessoais. Então, lentamente, Cameron e eu diminuímos a velocidade. Ficamos ombro-a-ombro e ele me encarou, virando-se completamente para me olhar.
- Pare de me olhar assim. – Sussurrei, olhando adiante, para a mata que se abria para mais e mais mata.
- Oras. Você está suja e um pouco fedorenta, mas ainda é a coisa mais bonita no meio de todo esse mato. – Ele deu de ombros. E sorri, achando incrível como ele conseguia fazer elogios, e ainda assim, soar completamente arrogante, mas lisonjeiro.
- Muito obrigada por ressaltar. Mas sua aparência não está das melhores. – Sorri, olhando-o de soslaio.
Uma comoção entre as vozes se alastrou por meu corpo, de certa forma, não notei que Daniel voltara a caminhar junto ao grupo. Mas não fora por isso que os ruídos de espanto foram emitidos.
Lobo.
Era por isso que as costas das garotas estavam rijas e encarando a frente. Seus olhos castanhos pareciam amistosos, mas os lábios estavam repuxados para trás, mostrando os grandes e ferozes dentes levemente amarelados, como folhas velhas de um antigo e empoeirado livro.
Ele, ainda encarando um a um do grupo, caminhou até estar diante de mim, mas Patch fora mais rápido e ficou entre nós. O lobo rugiu, como se ordenasse que saísse. E como que para mostrar que era amigo de certa forma. Os pelos começaram a diminuir até sumir e o dono do corpo do lobo ficava em pé. Antes que pudesse controlar meu impulso, passei por Patch e me joguei contra os braços do meu melhor amigo.
Meu corpo que antes parecia cansado, se refez em uma nova força. Na força de que agora iríamos juntos atrás de Vee. De que Vee, provavelmente, estaria esperando ser salva. De que fazia tempo que estava lá. Apenas esperando. Incapaz de fazer algo.
- Você está aqui. – Murmurei em um suspiro.
Dizem que os abraços verdadeiros são dados de olhos fechados, e naquele momento, eu só via a escuridão das minhas pálpebras. Scott apertou minhas costelas com seu abraço de urso e me ergueu do chão com suavidade, depois me deslizou para baixo e arrumou meus cabelos, em uma carícia que tinha costume em fazer. Sorri.
- Vamos logo. Já estamos ficando atrasados. – Patch apressou a todos que pararam para observar a cena.
Scott não tirou os olhos dos meus, e ao mover os pés para retomar a caminhada junto com todo aquele pessoal, ele tomou minha mão na sua.
*
A noite havia caído sobre a mata e agora, conseguíamos ver as pontas macabras do Castelo dos Renegados. Era incrível como as pessoas os respeitavam tanto, sendo que estavam unidos para acabar com o que existia da Nação Divina e Sombria. Ainda assim, a maioria das pessoas ao meu redor estava dormindo. Scott, pouco antes de cair em um sono profundo, jogou um cobertor verde escuro sobre meus ombros. Agora, só havia duas pessoas acordadas.
Patch e eu. Nossos olhos, mesmo a distância estavam em um encontro eletrizante e sua presença me deixava aflita e satisfeita. Como se só ele tivesse a capacidade de me proteger com todos aqueles músculos que percorriam o longo de seus braços.
Patch se levantou. Agora, depois de tanto caminharmos, ele vestia um jeans e camiseta preta. Seus olhos eram mais escuros que o céu infinito que nos cobria. Ele caminhou na minha direção, e quando pensei que escutaria o som das folhas secas crepitando-se sob seus pés, errei... ele não fazia som algum ao se mover. Sua mão foi estendida diante de mim, enquanto nossos olhos continuavam em um encontro diferente, amistoso.
Movi minha mão até a sua e ele me ergueu do chão com suavidade. Seus dedos percorreram os meus com intensidade, se fechando ao longo do caminho e se entrelaçando. Aquele toque emanava para o restante do meu corpo e caminhamos dentre as árvores o suficiente para nos afastarmos dos demais que dormiam perdidos em seus sonhos, ou sufocados por pesadelos.
Patch parou de caminhar durante alguns instantes. Sua mão subiu pelo meu braço e ele me empurrou para trás até que minhas costas tocassem a árvore atrás de mim com estranha graciosidade. Um frio subiu pela árvore e percorreu meu corpo, mas Patch resolveu o problema pressionando a frente do seu corpo contra o meu. Abaixei meu rosto enquanto seus fios escorriam por sua testa e tocavam a minha. Com um movimento com seu indicador, ele levantou meu rosto até que nossos olhos estivessem ligados por um elo de olhar.
- Porque me trouxe aqui? – Sussurrei em indagação.
Patch ergueu um canto de sua boca, em um sorriso fantasma. Mas eu não conseguia sorrir e nem sabia explicar o motivo, ou entender porque aquilo estava acontecendo.
- Não sabemos o que será daqui para frente. – Ele deu de ombros e beijou a ponta do meu nariz demorada e delicadamente. – E quero que saiba que sinto algo por você, mas que não queria sentir.
Quando a menção a Maldição escorregou de seus lábios o ar faltou em meus pulmões e senti meus olhos arderem suavemente. Suspirei, sentindo o toque de sua testa chiar em uma queimadura suave.
- Somos um desastre juntos. – Sussurrei. – Gosto de estar com você. Mas dói. Literalmente.
Patch sorriu, o som se sobrepondo a chiadeira da dor. O som se sobrepondo sobre tudo o que me impedia de continuar onde estava. A pressão do seu corpo contra o meu era dolorosa, mas emitia um tom de certo ao meu interior.
- Estamos indo para lá buscar a Vee. E com certeza os Renegados dirão algo para você. Preferia que não, mas estaremos dentro do Castelo deles. Cabe a você acreditar ou não. Quero que se lembre das poucas coisas que vivemos juntos e quero que saiba, que depois dessa fase... que lutaremos para derrotar a Maldição.
Concordei com um movimento de cabeça, entendendo que suas palavras tinham mais significado para ele.
Por fim, Patch roçou seus lábios contra os meus. E meu corpo reagiu ao instinto. Meus braços deslizaram pelos seus e circularam seu pescoço, tornando o beijo mais profundo. Suas mãos me seguraram pela cintura. E patch desencostou nossos lábios, me deixando em dúvida se aquilo realmente era um beijo. Ao fitar seus olhos, notei a animação e ele sorriu contra meus lábios.
Eu abri a boca sob a pressão da sua e sua língua tocou a minha inteiramente. Abri os lábios para recebê-lo com suavidade. Aos poucos nosso beijo se tornou uma dança sensual entre as línguas. E naquele momento, eu não queria e nem iria transferir meus pensamentos para as dores que se locomoviam como lavas escaldantes por onde nossos corpos se chocavam. Eu superaria a dor. A superaria por Patch.
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