Instituição JGMB - Interativa
19 Rainha Vermelha
Notas iniciais
Rainha Margareth não pôde esconder a expressão de susto ao esbarrar com o grupo de Christian e ser capturada junto a eles. Com certeza não era para isso acontecer. Como ela poderia adivinhar que eles estariam lá, no meio do caminho, com guardas totalmente alertas indo atrás deles?
Após cair sentada no chão de frente com aquele pessoal, não deu tempo nem de pensar em fugir. Já tinha guarda pronto para segurá-la bem presa pelos braços e leva-la para a direção oposta. Ele era tão forte que não tinha como reagir. O estranho é que não foi levada ao mesmo lugar que o grupo. Enquanto o resto continuou, a deixaram em outra porta, que deveria ser um dos escritórios de contabilidade, se Margareth bem se lembrava.
Por trás daquela porta tudo estaria nas mais perfeitas condições, se não fosse pelo David Moore sentado no sofá com uns papéis na mão. Da forma que os lia parecia um ator decorando as falas, as repetindo constantemente em voz alta até ficar bom. Obviamente estava tão concentrado que não percebeu a entrada de guarda e prisioneira, pois continuou com seu afazer:
—“Então tudo isso que vocês”... Não! “Tudo isso que estão vendo era”... Unhg! “Tudo que veem...”.
—Senhor. – O guarda, que ainda segurava fortemente o braço de Margareth, o interrompeu. – Ela estava nos corredores.
Moore levantou os olhos do script e botou-os sobre os dois. Enquanto um olhar de desprezo preenchia o rosto da rainha, um ar de superioridade invadiu o de David. Ele se levantou e aproximou-se dos dois.
—Muito obrigado, oficial... – David estreitou a visão para ler o nome dele no crachá. – Johnson. A partir de agora eu cuido da senhorita Margareth VI aqui.
Ela agradeceu mentalmente pelo homem forte tê-la largado e pelo David não ter mencionado nenhum dos milhares de sobrenomes dos quais não gostava, mas continuou em posição defensiva. O guarda saiu da sala, mas não trancou-a, pelo que Margareth pôde perceber. Porém, não valia a pena sair correndo por ela. Sabia que seria capturada de qualquer jeito se fizesse isso. Portando, continuou parada lá, com cara feia, como se isso fosse botar medo.
Realmente, o rosto de Margareth não amedrontava ninguém. David primeiramente a circundou, como um tubarão faz com sua presa, a olhando de cima para baixo. Sua expressão não era daquelas que um psicopata faz quando vence o oponente, mas tinha uma certa arrogância. Triunfo, essa era a palavra certa para descrever o que David estava sentindo naquele momento.
—Havia mostrado uma foto sua para os guardas e dado ordem de trazê-la até mim se aparecesse, para o caso de começar a nos procurar por aí, mas nunca pensei que conseguiria chegar, por mais acabada que esteja. – Revelou. – Como conseguiu passar por tanta segurança com suas condições, afinal?
—Não foi um desafio tão grande. – Esnobou cruzando os braços. – Sei ser discreta. E, além disso, dislexia não faz com que alguém seja menos capaz do que você. – Completou nervosa com a menção de sua doença.
David simplesmente deu de ombros e andou lentamente na direção do micro computador. Margareth observou os movimentos com toda a atenção que era capaz de dar. Ela tinha que arrumar uma forma de distraí-lo para passar uma mensagem, e depois dar um jeito nele. Mas como era o grande x da questão. Como faria isso era a pergunta para qual não conseguia achar a resposta.
—Estava ensaiando para um vídeo que vou gravar mais tarde. – Contou enquanto ligava o computador. – Vou apresentar toda a situação de agora por um ponto de vista não dinamarquês. É magnífico pensar que sou eu quem vai influenciar as gerações futuras.
—Má influência, diga-se de passagem. – Margareth comentou sarcasticamente baixinho, mas David ouviu.
—Veja bem, não quero ser seu inimigo. – Disse um pouco irritado. – Ainda posso convencer meus patrões a colocar a Dinamarca na aliança. Afinal, a quarta guerra não vai acontecer mesmo e é o único país cujo líder não sabe de nada.
Margareth não entendeu o comentário.
—O que quer dizer com “a quarta guerra não vai acontecer”?
David revelou toda a história para a figura a sua frente, já que não havia mais motivos para escondê-la. Muito pelo contrário, o mais correto naquele momento era contar para que a outra pudesse tomar partido. Essa já devia ser centésima vez que o mundo de Margareth tinha caído num único dia. “Era só um domingo...”, ela reclamava mentalmente, desejando pela primeira vez estar no gabinete cumprindo o dever de analisar as leis.
—Mas... Por que nunca soubemos disso? – Margareth perguntou após se recuperar do choque. – Quero dizer, algo tão importante assim, que todos os governantes sabem, eu deveria saber também.
David a encarou intensamente por um tempo e respirou fundo ao se ajeitar melhor na cadeira. Esse era o dia do Conte um Segredo ao Seu Adversário.
—Parece que realmente me obrigam a ser o cara mal da história. – Fez um comentário sobre si mesmo. – Está preparada para mais uma revelação?
Margareth fez que sim com a cabeça e murmurou um “prossiga”. E assim David o fez.
—A senhorita sabe por que seus pais estavam indo para a Inglaterra, nesse mesmo dia, há exatamente vinte anos atrás?
Essa pergunta atingiu em cheio o coração da rainha, como se fosse uma facada. Mas fez todo o esforço possível para isso não transparecer na superfície. Levou uns segundos até ter certeza de que a voz não sairia trêmula.
—Claro que sei. – Se pronunciou. – Eles iam ter uma reunião com a família real britânica e levaram meu irmão para ele aprender como é isso. E também, – Acrescentou ao lembrar de outro fato. – eles me contaram que tinham esperanças que meu irmão gostasse da filha mais nova dos reis britânicos. É que Félix já tinha mostrado que não gostava de mulheres dessa forma, era homossexual. – Revelou. – Não julgue meus pais, eles eram muito amorosos, mas bem antiquados com uns assuntos.
—Em parte a senhorita está certa. – David apagou a informação extra do irmão de Margareth da memória. – Eles foram se encontrar com a família real e o primeiro-ministro inglês junto ao primeiro-ministro dinamarquês. Mas eles não contaram o que iam discutir, contaram?
—Sobre a crise dos outros países na Europa.
—Exatamente o que contaram à população. Interessante. – Moore constatou. – Mas não foi isso que eles foram discutir realmente. Eles foram conversar sobre a proposta dos presidentes dos Estados Unidos e da Rússia, que era sobre essa nova ordem mundial da qual lhe falei. Ainda havia nações que não estavam propensas a aceitar isso, a Dinamarca, por exemplo. – Contou. – Por isso arrumaram um jeito de derrubar o avião em que estavam viajando e mata-los, para botar medo nos outros países e fazê-los concordar com tudo.
Margareth prendeu a respiração para não dar uma surra na cara do outro naquele momento. Falar isso assim, sem rodeios, como se não fosse nada, era horrível. Simplesmente não dava para respirar, pois o coração parecia ter engolido todos os outros órgãos e batia mais intensamente do que nunca. Como assim o acidente aéreo que provocara a morte de seus familiares foi para fazer chantagem por causa de uma ideia besta?
—Já que só você não sabia disso, resolveram ignorar a Dinamarca por um bom tempo, mas parece que sua força de vontade te levou longe. – Finalizou. – Agora, se me der licença, antes mesmo de terminar de ler o roteiro, preciso checar as pessoas que são prioridade a esquecer do que está acontecendo.
Ele passou o dedo na tela e apareceu a imagem da câmera de segurança do lugar onde Harold Laudrup e Klaus Jorgensen estavam presos.
—Quem pode ser o primeiro a passar pelo apagador de memórias? – Ele perguntou como quem não queria nada, mas na verdade estava com rancor porque lembrara que descobrira sobre o pen drive com as informações de Scarlett. – Que tal começarmos pelo seu namoradinho pau mandado? Minha esposa, seu namorado, seria o correto para ficarmos quites, não? E vocês acharam mesmo que um advogado na forma de um pen drive arrumaria tudo. Estavam jogando contra o meu país, a nação mais poderosa que existe. Nós podemos fazer o que quisermos.
Margareth não sabia bem ao certo o quê se passava em sua cabeça naquele momento. Raiva, tristeza, instinto de proteção, amargura, nojo, vontade de chorar, sede de vingança... Seja o que for. A questão é que ela resolveu agir naquele momento, com todo o impulso e reflexos que tinha. Ela lentamente envolveu a mão na plaquinha da mesa que dizia “David Moore, Leader” e rapidamente atacou-o com aquilo como se estivesse lutando esgrima e atingiu um ponto crítico, que o fez desmaiar.
O primeiro pensamento da rainha foi “Bem feito”, mas depois se perguntou: “Eu matei ele!?”.
Ela velozmente passou para o outro lado da escrivaninha e botou a mão embaixo das narinas do Moore e sentiu a respiração. “Ah, menos mal”. – Pensou. Agradeceu mentalmente a Axel por ensiná-la tão bem a duelar e a Karen por ter feito-a estar ali a tempo de fazer alguma coisa. Só para confirmar, ela ainda prendeu-o no banheiro e trancou a porta por fora, para que não saísse.
Foi ao computador, checou de que câmeras eram as imagens que estavam sendo mostradas e partiu para o terraço, que era onde eles estavam. Dessa vez com o dobro de silêncio.
...
Desolado é pouco para descrever o estado de Ed naquele momento. Estava acontecendo tanta coisa naquele mesmo dia. Viu pela primeira vez em anos seus irmãozinhos para depois descobrir sobre uma quarta guerra, ser atraído para uma armadilha sem tamanho (2 vezes), e ainda por cima, perder seu melhor amigo. Isso era péssimo. Apesar de nunca demonstrar, estava realmente preocupado com tudo. Afinal, ele gostava de seus irmãos, gostava da Terra, gostava de seus amigos e gostava de Henry. Gostava de verdade. E um pensamento melancólico invadia sua mente: E se uma de suas síndromes atacasse, o que era extremamente provável, como faria para silenciá-las depois que usasse a injeção extra que sempre carregava? Quem o ajudaria?
Não teve tempo de pensar na resposta, pois no meio do caminho os guardas que os levavam pareciam ter recebido novas ordens por pela escuta da orelha, pois mudaram o rumo para uma sala onde lia-se na porta “Questing Room”, ou Sala de Interrogatório, em português.
Os homens armados os deixaram lá dentro e, enquanto o resto saiu, apenas dois continuaram nas duas extremidades da porta. Era uma sala pequena, mas em que coube todo mundo, até porque a decoração era algo entre mínima e inexistente. As paredes eram totalmente brancas, uma delas continha um espelho que ia de ponta em ponta, com outra porta na lateral, e no meio, uma mesa. O que era surpreendente era a máquina que estava em cima dela, um apagador de memória, e que em frente a ela estava Tanaka Dong-Su, com Jennifer e Randhir Murray lado a lado.
—Oh. – Jennifer fez uma interjeição de surpresa e observou cada um dos novos integrantes da sala. – Então esses são os amigos do nosso filho?
—Eram os amigos do nosso filho. – Randhir consertou. – Soube pelo próprio Henry que tentaram falar com ele. – Mostrou-os a escuta no ouvido, por onde deve ter recebido a ligação. – Todos armados até os dentes... São realmente péssimas influência para o Henry. Ainda bem que ele passou pelo apagador de memórias antes de chegarem lá. Alteramos suas lembranças para pensar que todos estão doentes e que estamos aqui para curá-los. É a única maneira de fazê-lo cooperar conosco.
Bem, isso explicava porque Henry ficou com medo deles, tentou se afastar e deu um ataque quando Ed o tocou.
—Isso é impossível. – Carol protestou. – Já pesquisei sobre isso. Essa máquina não consegue criar memórias falsas, só apagar elas.
—Pois agora pode. – Dong-Su levantou a mão com a chave de fenda como se estivesse acenando para lembrarem que ele estava lá também. – Com uns ajustes meus, claro.
—Dong-Su? – Miguel parecia ter notado só naquele momento a presença do indivíduo. – O que você está fazendo aqui?
—Eu... Estou do lado deles.
—Então é isso? – Hyun-Ae questionou nervosa. – Você resolveu fazer parte dessa trama toda para ser um ajudante?
Dong-Su devolveu sua chave de fenda à mesa e voltou-se ao grupo.
—Não, eu sou um dos líderes. Só estou fazendo isso porque era o ajudante de um professor de engenharia mecânica, então sei do assunto. – Começou a explicar. – E além disso, ou eu aceitava ajuda-los e virava líder, ou ficaria trancafiado em uma das celas que nem vocês. A decisão foi muito óbvia, você é inteligente, consegue ver meus motivos, não é?
Hyun-Ae não respondeu, só piorou a expressão em sua cara. Randhir continuou com o que falava no começo:
—Mas, enfim, gostariam de nos contar como conseguiram passar por todos os nossos guardas e chegar até lá sem serem percebidos?
—Parece que seus guardas são meio inúteis. – Zombou Jean.
Uma das sobrancelhas de Randhir se curvou e devolveram o olhar de desafio ao francês.
—Parece que vamos ter que encomendar mais uma invenção de você, Tanaka. – Ele se dirigiu ao coreano sem desviar o olhar. – Um detector de mentiras mais potente, para extrair a informação da cabeça desses seres.
Dong-Su concordou com o pedido. Randhir voltou-se para o grupo.
—E vocês. – Ele começou. – Não preciso de tantas pessoas para contar o que aconteceu. Uma basta. As outras passarão agora mesmo pelo apagador de memória.
—Se vou ser castigado de qualquer forma, – A voz de Ed ressoou fraca no início, mas depois se elevou. – prefiro ser castigado por ter realmente feito algo ruim.
E então, sem um aviso sequer, segurou o apagador de memórias com as duas mãos, e antes que pudessem fazer qualquer coisa, ele tacou-o no chão. Pecinhas minúsculas se espalharam pela sala em uma velocidade impressionante. Ed até mesmo pisoteou a placa mãe por diversas vezes antes dos guardas pegarem-nos todos e os levarem à cela mais próxima, que no caso era o terraço. Antes de deixa-los lá, os guardas ainda revistaram-nos e retiraram todas as armas, munições e outras coisas que carregavam nos bolsos, como a injeção de Ed, e então finalmente os trancafiaram lá dentro.
Aquele terraço era um gigantesco vazio com teto e paredes de vidro, dando-lhes uma vista da paisagem de 180 graus. Seria um lugar muito bacana se não estivesse funcionando como jaula e a única saída era a porta por onde haviam os deixado, que no caso estava sendo guardada por duas pessoas armadas pelo lado de fora. Mas lá dentro já havia duas pessoas que poderiam explicar-lhes tudo: Klaus Jorgensen e Harold Laudrup
Ed encarou avidamente o chão e se deixou cair recostado na parede. Enquanto cada um ia para perto deles, Chris se juntou ao de heterocromia, pois não queria se aproximar de seus “ex-chefes”.
Após o grupo e os dois homens conversarem e uma clara explicação sobre tudo o que ocorreu para a dominação da base ter sido dada, além de repassarem a informação que receberam para os jovens sobre a quarta “não” guerra, um tempo de silêncio se passou até Carol perguntar:
—Mas eu ainda não estou entendendo. Como vocês deixaram que eles entrassem?
—Nós não deixamos ninguém entrar. – Harold explicou. – A porta é pesada e resistente a qualquer coisa. Ela literalmente só pode ser aberta pelo lado de dentro. Nós até vimos pela câmera de segurança eles tentando abri-la, mas em vão.
—A entrada deles aqui continua sendo um grande mistério. – Klaus confirmou.
Após todas essas grandes revelações, Chris voltou-se para Ed. Sabia que ele deveria ter sido o que mais sofrera com a perda de memória de Henry, então para animá-lo, resolveu comentar algo de bom que ele fizera:
—Bom, pelo menos Ed quebrou o apagador de memória para dar um tempinho a mais para a gente.
Ed virou a cabeça para Chris e disse na lata:
—Eu não quebrei o apagador de memórias para nos dar tempo.
—Não? – Chris parecia realmente não entender. – Por que fez isso, então?
Ed voltou a encarar o horizonte de vidro e suspirou profundamente. Chris já estava achando que estava sendo completamente ignorado quando o outro respondeu-o com outra pergunta:
—Se perdesse o Jean, como você ficaria?
—Muito feliz. – Respondeu sem ter que pensar.
—Ei! – Jean gritou para ele. – Duvido que viva um dia sem mim. – Chris revirou os olhos.
—Se perdesse a Arícia, então. – Ed insistiu. – Como ficaria com isso?
Dessa vez Chris hesitou um pouco antes de responder:
—Muito feliz.
—Demorou pra responder é porque me ama! – Arícia gritou de volta meio melancólica. Ela também estava bem triste após a visita ao escritório dos Murray.
—O fato é – Ed interrompeu. – que eu quebrei o apagador de memórias pensando que foi aquilo que fez o Henry se esquecer de nós.
—Sabe, você não é o único que ficou triste pelo Henry. – Arícia expôs tristemente. – A forma que ele me olhou... Parecia que eu era uma criminosa. Perceber que perdi a afeição dele está sendo como se eu percebesse que roubaram o chocolate que ia comer, como se perdesse parte de minha alma, não sei. É um vazio, como se faltasse algo importante, não sei o que é isso.
Carol não pôde esconder o olhar perplexo do rosto ao encarar a colega.
—Amiga, eu não acredito nisso! – Ela pôs a mão sobre o ombro da outra. – Você olhava o Zulu, mas quem você curtia mesmo era o Henry!
—O quê!? – Arícia perguntou espantada. – De onde você tira essas coisas, menina? Ele era meu amigo. Sendo assim, eu não poderia gosta dele.
—Você gosta, sim. – Hyun-Ae comentou de longe. As duas olharam para ela. – Que foi? Era óbvio.
Harold e Klaus observavam a discussão de mais longe ainda.
—Sou só eu ou as crianças de hoje estão muito mais complicadas? – Harold se questionou.
—Eu sou sempre a vela, então não deveria falar nada, mas você e a rainha também são tão complicados quanto eles.
Harold olhou Klaus pelo canto do olho. Klaus reconhecia que sempre que lhe davam aquele olhar, na verdade estavam pedindo para que calasse a boca. Enquanto isso, a conversa sobre quem shippava ou não HenryxArícia se desenrolava com o resto do grupo.
—Mas não pode ser! – Carol reclamou. – Eu sou a melhor amiga da Arícia! Como não reparei nisso antes?
—É que você também estava ocupada demais admirando meu irmão para se dar conta.
A voz saiu do além. Todos olharam surpresos para um canto, onde Isis estava sentada.
—Isis! – Arícia exclamou. – Você estava aqui esse tempo todo?
Ela fez que sim com a cabeça.
—Estou esperando para passar pelo apagador de memória, mas pelo visto vou ter que ficar aqui mais um pouco.
—Você estava aqui desde o princípio e não estava tentando fugir!? – Miguel perguntou incrédulo. – Como assim?
—É que estou aqui porque quero. – Contou desanimada. – Meu irmão também está nessa jogada toda. Prefiro esquecer que ele me decepcionou e passar o resto de minha vida ao lado dele a ficar relembrando disso tudo para sempre.
Miguel se aproximou ainda mais dela. Ele simplesmente não conseguia acreditar que aquela era mesmo a Isis Khumalo falando.
—Você está... – Miguel procurou a palavra certa. – Desistindo?
Isis suspirou bem fundo e declarou:
—Todo vilão é um herói em sua própria mente. – Citou. – Vai ver eles é quem estão certos. Talvez nós sejamos os verdadeiros vilões pensando nos tratarmos de heróis.
—Você está desistindo? – Miguel repetiu a pergunta. – Está simplesmente desistindo de lutar?
Isis fez que sim com a cabeça. Miguel reprovou com a cabeça.
—Quem é você e o que fez com a Isis que conheço? Ela é chata, mas você é mais. A Isis que conheço jamais abaixaria a cabeça numa situação dessas. Ela iria simplesmente responder a todos e arrumar uma forma de dar voadoras em todo mundo. – Ele a segurou pelos dois ombros e a sacudiu. – Eu nunca pensei que um dia iria dizer isso, mas eu quero a Isis Khumalo que eu conheço aqui. Você pode fazer isso?
Isis continuava o olhando sem expressão. Miguel olhou para baixo com a derrota. Ela realmente não iria ceder. Para Isis, o mundo havia acabado ali. O mediano se levantou e virou-se para seu grupo, que por sinal, por ainda ser um grupo, ele ainda era o guia. Para ser um bom guia, ele precisava fazer alguma coisa.
—Muito bem, gente. Essa guerra toda já ficou pessoal há muito tempo. – Caminhou até o centro da sala. – Alguém tem alguma ideia? Hyun-Ae? Edward? Christian? Um plano?
Arícia balançou a cabeça em negação.
—Acho que a Isis tem razão por um lado. – Contou. – Quero dizer, vamos encarar os fatos. É impossível sair do topo de um prédio que sei lá quantos andares tem. Só um milagre poderia nos tirar daqui.
Como se o universo ouvisse atentamente o pedido de Arícia, um som de luta foi ouvido do lado de fora da sala e a porta se escancarou.
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