Instinto de Gato

1 Capítulo 1 - O lado ruim de amar


Claws sempre foi uma cidade bem localizada, ela estava no centro de tudo, apesar disso ela é uma cidade pequena comparada com grandes metrópoles. Por estar no centro sua formação tem a mistura de vários cantos do mundo, tem influências japonesas, inglesas e até brasileiras.

Ela é uma cidade autossuficiente o que a torna autônoma das outras cidades, qualquer um que venha a morar ali, não precisa mais sair da cidade, afinal ela tem tudo o que precisa para viver uma boa vida. Por causa dessas condições, ela é bem calma e pacífica. São raras as vezes que se ouve alguma notícia ruim.

Apesar de que dois meses atrás, os jornais mostraram por vários dias seguidos um incidente que para muitos foi uma mudança bem drástica daquilo que eles estavam acostumados a viver naquela cidade.

Nas ruas de Claws, Neo Lancaster andava tranquilamente enquanto pensava nos seus poderes. Fato curioso sobre ele é que se trata de um gato que desde que ele se lembra consegue se transformar em um humano, porém ele detesta sua forma humana.

Porque para ele que sempre odiou os seres humanos, se transformar em um deles é algo repugnante. E enquanto pensava sobre isso, surgiu a dúvida do porquê tamanho ódio, nunca veio a cabeça dele o motivo de tanto ódio, despertando assim uma curiosidade tão grande que ele sentiu a necessidade extrema de descobrir o porquê.

Ele teve uma ideia de estudar em uma escola, afinal nenhum lugar melhor para aprender alguma coisa do que em alguma escola, mesmo que o que ele queira seja diferente do que eles ensinam. Imaginou que se agisse como um humano poderia entender melhor sobre eles e assim entendendo melhor da onde vem o seu ódio.

Sua forma humana aparentava ter dezessete anos, seu cabelo é preto como a cor de seu pelo na forma de gato, mas não é muito grande e também não muito pequeno, sua altura é um pouco mais alta do que os seres humanos normais da sua idade, ele é magro, porém podia se ver que ele não era fraco como alguns magros por ai, seu corpo até que era atlético. Em todas as suas características físicas o que mais se destacava eram os seus olhos, todo o seu ódio parecia estar visível em seus olhos consumindo vagarosamente a existência dele.

Em Claws, há quatro grandes escolas, elas são bem famosas em comparação as outras, para qualquer um que passe alguns dias por lá, acabaria conhecendo pelo menos uma delas, Seika, uma escola fundada por antigos japoneses que viveram em Claws, totalmente voltada as tradições orientais e maneiras escolar deles, conhecida por ser uma escola que tem de tudo para te desenvolver para o futuro, até para quem não sabe muito bem o que quer seguir de carreira, afinal conta com vários clubes diferentes cuja as atividades estão relacionadas com profissões e tarefas diárias. Depois tem a Futura, antigamente era um grande centro de pesquisas só que acabou crescendo tanto que abriu novos espaços para estudo, se tornando assim uma nova escola. Também posso citar a Academia L. G. Butcher, uma escola voltada totalmente para esportes, conhecida por ser muito rígida com quem entra e por isso muitos que saem de lá são atletas de alto nível ou desistentes e por fim a elegante escola Cherry, um nome que muitas pessoas achariam estranho para uma escola, lembraria de algum tipo de café, porém seu uniforme de cores claras e tons de rosa são bem característicos, não há como confundir e isso acabou sendo um simbolo para ela, Cherry cai tão bem quanto o próprio uniforme, mas o que a torna popular são seus cursos de artes de altíssimas qualidade.

Apesar delas oferecem ótimas opções para os futuros de seus alunos, elas são tão simples quanto qualquer outra escola. Neo acabou por escolher Seika e não pela premissa que todos sabiam dela e sim porque estranhamente chamou atenção dele, como se fizesse parte dela há muito tempo.

Neo decidiu entrar naquela escola, mas ele não sabia como funcionava para que isso se tornasse realidade e não tinha ideia alguma em mente, então decidiu simplesmente entrar e andar pelos corredores. Por fora a escola parecia ser pequena em comparação as outras, mas estando dentro dela provava completamente o contrário, ele até conseguiu se perder na escola. Depois de dez minutos passeando pela escola, ele ouve uma voz de uma pessoa atrás dele o chamando:

—Neo. –A voz parecia ser de uma mulher, porém ele não conseguiu reconhece-la e decidiu se virar para ver quem era.

Quando Neo se virou, percebeu que a mulher que estava parada na frente dele não era tão alta, um pouco mais baixa que ele, estava usando uma roupa formal, parecia ser uma pessoa importante, seu cabelo é preto liso bem grande, seus olhos escondidos atrás de um óculos com lentes finas eram da mesma cor que seu cabelo e ela estava com uma expressão facial estranha apesar de estar séria, parecia como se ela estivesse segurando para não chorar e ela disse:

—Neo, é você mesmo... –Afirmou a mulher estranha.

—Eu te conheço? –Perguntou Neo de uma forma fria.

Houve um silêncio por um tempo como se aquelas palavras tivessem se tornado facas e machucado vagarosamente ela, porém Neo não se importou muito com isso e parecia como se ela tivesse percebido isso e disse:

—Bem, desculpa... Devo ter te confundido com outra pessoa.

—Tudo bem, as pessoas cometem erros, vou me indo. –Neo virou de costas e se preparava para sair dali.

—Espere! –Ela se aproximou de Neo e deu um abraço, virou ele de uma forma gentil e continuou –Você veio aqui por algum motivo, certo?

—Eu gostaria de entrar nessa escola –Quando Neo disse isso, os olhos dela pareciam brilhar, com uma extrema felicidade, mas ela não perdeu a linha.

—Eu sou a diretora dessa escola, para entrar aqui você tem que falar comigo, Meu nome é Karine.

—O que eu tenho que fazer? –Perguntou ele.

—Nada, você já está matriculado, hoje é domingo, suas aulas são de Segunda a Sexta das 7:30 até as 12:55, portanto você já pode vir amanhã, não falte e nem se atrase. Vou providenciar seu material e te entrego semana que vem, se precisar de ajuda para qualquer coisa pode vir falar comigo qualquer hora, tá?

Neo estranhou aquilo, pois não sabia como estava matriculado sem ao menos precisar fazer alguma coisa, mas achou que não havia necessidade de se importar com aquilo e aceitando a oferta oferecida, disse:

—Tá, vou embora agora.

—Neo... Se cuide.

Neo se virou de costas, assentiu de leve e foi embora.

Enquanto andava na rua percebeu que não tinha lugar para "voltar", não tinha uma casa, apartamento ou algo que os humanos tinham para "morar", como gato ele vivia e dormia em qualquer lugar, ninguém se importava muito com isso. O maior problema que ele tinha era com quem odiava e também quem amava muito os gatos, com pessoas do primeiro tipo ele corria perigo de morte (Por causa de venenos, atropelamentos e sabe se lá mais o que) e com o segundo tipo seria o risco de acabar ficando preso em algum lugar (Existem muitas pessoas que tem dó de um gato de rua ou algo parecido e acabam levando ele para casa.). Estranhamente muita gente que vive em Claws gosta muito de Neo, porém ele mesmo não sabe o porquê, muitas pessoas o alimentavam, davam água e agradavam ele, desse jeito era fácil sobreviver nas ruas, porém mesmo assim continuava odiando aqueles seres esquisitos.

Neo começou a procurar um lugar que pudesse morar como humano, porém as coisas não eram tão simples assim, o mundo deles funcionava de uma forma completamente diferente. Para se obter qualquer coisa funcionava por meio de trocas, você precisava de uma certa quantidade de dinheiro para trocar por aquilo que queria, se aquilo que você quer for de valor muito alto é necessário trocar por muito dinheiro, mas, afinal o que é dinheiro?

A noite havia chegado e Neo gastou muito tempo em uma busca que acabou virando uma falha, pelo menos ele conseguiu algumas informações importantes sobre como viver naquele mundo.

Sem opções, virou gato, escolheu um lugar confortável e dormiu.

No outro dia Neo acordou um tanto quanto ansioso, talvez por ele estar presenciando uma experiência que nunca viveu em toda a sua curta vida, entretanto precisava manter o foco naquilo que ele almejava que era descobrir o motivo do seu ódio, virou humano e foi para escola no horário que a Karine havia dito.

Estranhamente Neo carregava em seu pescoço uma coleira azul que quando ele se transformava em humano ela virava um colar e automaticamente vestia ele com um conjunto de roupas que estivesse em sua memória, nesse caso Neo tinha dois conjuntos de roupa, uma na qual ele usava sempre (Calça preta, camiseta regata branca e tênis preto com azul) e o uniforme daquela escola que ele tinha se matriculado, porém não lembrava como tinha adquirido aquele objeto, ele nunca tinha visto aquilo em lugar nenhum, só que como não tinha outra escolha acabava usando para suas necessidades como humano.

Neo chegando na escola poderia ver vários estudantes usando o mesmo uniforme, aquela enorme quantidade de roupas iguais, uma cena que dava uma certa nostalgia para ele apesar de não achar vestígios em sua mente de já ter visto aquilo, de certa forma começou a ficar feliz e ansioso por estar vivenciando aquele momento, porém não podia esquecer do motivo de estar ali.

Para se acalmar um pouco e esclarecer o resto de suas dúvidas, Neo decide ir conversar com Karine, a diretora da escola, indo no lugar onde supostamente acharia ela, a diretoria. Chegando perto do local, ele foi surpreendido novamente, só que dessa vez por um homem com a aparência de trinta e três anos, cabelo castanho claro e curto, parecia ter a mesma altura que Neo, tinha uma expressão jovem e seus olhos tinham uma "chama de determinação", pela aparência e energia que ele possuía parecia ser um professor de educação física, que olhou para Neo com um olhar de surpresa não como se ele fosse esquisito ou uma pessoa qualquer e sim como se ele significasse algo para aquele homem que acabou falando:

—Neo, a quanto tempo... O que faz por aqui? –Perguntou surpreso.

Não restava dúvidas de que aquele homem parecia conhecer Neo, mas como ele não tinha recordações sobre o homem, então deduziu que fosse um engano e respondeu:

—Você deve ter me confundido com outra pessoa –Disse Neo de forma fria, ignorou o homem e tomou iniciativa para entrar na diretoria, mas o homem continuou:

—Não, é você mesmo, não lembra de mim? –Perguntou o homem.

Naquele momento Neo tentou mais uma vez se lembrar, mas não conseguiu e tentou de novo. Nessa vez ele conseguiu se lembrar de alguma coisa, entretanto não conseguia uma imagem clara e continuou tentando e tentando, Neo não havia percebido, mas seu corpo estava ficando fraco, suas mãos começaram a tremer e sua visão ficava diferente, para quem olhava os olhos de Neo, via que estavam iguais de gato, porém mesmo se esforçando muito, não teve sucesso e isso deixava-o irritado por sua falta de capacidade e então decidiu usar suas últimas forças para tentar uma última vez que por sorte acabou dando certo, ele acabou vendo uma imagem daquele homem na frente dele no mesmo lugar, entretanto parecia ser mais jovem que aquele tempo e disse as seguintes palavras:

—Anh? Você é aluno novo? Deve estar feliz por ser o seu primeiro ano na escola, né? Relaxe, não deixe a pressão te esmagar, o meu nome é Erick, prazer em conhece-lo, você parece ser um garoto cheio de dúvidas, mas vejo potencial em você, caso elas estejam te atormentando, venha falar comigo! –Disse Erick todo sorridente e animado.

Naquele momento Neo olhou para os olhos de Erick e disse:

—Você é o Erick...

E sua mente ficou fraca e começou a apagar, ele sentiu o corpo perdendo toda a força e percebe que começa a cair para traz e ouve uma voz vindo de longe:

—Neo! –Gritou Karine preocupada.

Ele continua a cair, nesse momento sente uma mão e um braço macio o segurar e ele para de cair, a sensação de estar aos braços daquela pessoa era muito aconchegante, dava para sentir um cheiro doce vindo dela e com uma voz melodiosa disse:

—Você está bem?

Ele conseguiu ver fios de cabelo loiro que brilhavam com o sol, tudo aquilo fazia ele sentir uma sensação quente e o fazia tão bem quanto nunca antes sentiu, disse com a voz fraca:

—Um anjo...

E acabou apagando.

Depois de um tempo dormindo, Neo acorda assustado e fica sentado no lugar onde ele estava, demorou um pequeno tempo para que percebesse onde era aquele lugar. Primeiro notou que estava sentado em uma cama com lençóis brancos, depois ele olhou da direita para a esquerda e viu que em volta tinha uma cortina branca, ele se perguntou para que servia aquilo, mas logo esse pensamento foi embora quando ele começou a sentir uma sensação estranha vindo da sua mão esquerda, era macio e quente e ele não conseguia mexe-la. Quando Neo olhou ambas as mãos, viu que elas estavam encobertas assim como seu corpo da cintura para baixo, porém estranhou que elas estivessem com silhuetas diferentes, comparando as duas, percebeu que aquela mesma mão que estava sentindo a sensação estranha, tinha uma silhueta maior. Como Neo era curioso decidiu ver embaixo do lençol se havia algo de diferente, decidiu ir com calma, descobrindo devagar, mas mesmo assim não conseguiu evitar de se assustar com o que viu.

Era uma garota e estava segurando a mão dele, isso era o que causava a sensação que ele estava sentindo, realmente muito boa aquela sensação, macia, fofinha e quente... Ele ficou mais calmo quando percebeu que ela estava dormindo e não representava nenhum perigo, até lhe causava um conforto anormal, então ele começou a analisar melhor o que estava segurando sua mão. A primeira coisa que reparou foram os cabelos daquela garota, loiros, lisos, longos e sedosos, brilhavam na luz do sol, pareciam ser macios, Neo queria toca-los e como ela estava dormindo achou que não tinha problema se ela não soubesse disso. Então, ele tocou e acariciou, era melhor do que ele tinha imaginado, depois de um curto tempo mexendo no cabelo dela, ele se lembrou que era o mesmo cabelo que tinha visto quando estava prestes a desmaiar e ficou espantado, vendo mais claramente ela era incrivelmente linda. Seu coração começou a bater mais forte, sentiu sua cabeça ficar mais quente e o resto do corpo frio, suas mãos ficaram geladas e sentia vários calafrios percorrendo por todo o seu corpo, sua cabeça girava devagar e os pensamentos começavam a ficar embaralhados, quando lentamente a garota abre os olhos e acorda.

Neo ficou encantado ao ver os olhos dela serem azuis da cor do mar, nunca tinha visto nada parecido e observou pelas expressões dela que ela ainda estava se situando no lugar onde estava e se lembrando o porquê de estar ali, quando percebeu o que estava acontecendo ela se afasta meio desajeitada e com vergonha e acaba caindo da cadeira onde estava sentada, Neo preocupado foi olhar como estava ela e viu uma cena meio engraçada, uma garota tão frágil e delicada, deitada no chão toda esparramada, ele teve vontade de rir, mas ainda estava assustado pela cena que havia acontecido minutos antes e então perguntou gaguejando:

—V-você está b-bem?

E enquanto a garota rapidamente se levanta, se arruma e senta novamente na cadeira, responde gaguejando:

—D-desculpe Neo, e-eu não queria... Err... Dormir assim, sabe?

Quando a garota disse o nome de Neo, ele ficou sério e surpreso, e começou a se perguntar várias coisas, como alguém que ele nem conhecia sabia seu nome? Por que existem pessoas que ele não conhece que sabem o nome dele? É muita coincidência existirem tantas pessoas assim, então perguntou:

—Como sabe, meu nome? –Perguntou Neo de uma forma fria

—Eu ouvi a Karine dizer o seu nome quando você havia desmaiado.

Depois de ouvir aquelas palavras, a desconfiança de Neo diminuiu e estranhamente ele se arrependeu de ter tratado mal aquela garota que fazia ele sentir estranhas sensações tão boas e então, ele disse algo que poderia ser classificado como raro vindo dele:

—Desculpa pelo meu modo de falar, não era minha intenção te tratar dessa forma, espero que não tenha se ofendido.

—Anh? Ofender pelo o que ? –Perguntou a garota confusa de uma forma inocente, ela realmente não sabia do que ele estava falando e as doces expressões dela demonstravam claramente isso e Neo vendo aquela cena ficou com vergonha por ela ser incrivelmente bonita, acabou perdendo a linha do raciocínio e tentou explicar todo enrolado o que tinha dito:

—Mas, como assim? Eu... Er... Falei de uma forma fria contigo e você pode... Ah –Tentou explicar Neo.

A garota começou a rir levemente e disse com um sorriso gentil no rosto:

—Você é engraçado.

Neo ficou quieto por alguns segundos, ele não conseguia se expressar direito , porém ele queria muito saber sobre aquela garota, então se concentrou e perguntou:

—Qual seu nome? Já que você sabe o meu... –Neo perguntou na defensiva.

—Meu nome? É Saya Hirano.

—Prazer em conhecê-la, realmente não consigo entender, mas estou muito feliz por estar com você.

Ouvindo aquilo Saya ficou vermelha a ponto de ficar muito vermelha da mesma forma que Neo estava, o clima tinha ficado muito pesado e houve um silêncio por alguns minutos, porém tudo isso foi interrompido com um barulho vindo da porta. Os dois tomaram um susto por estarem concentrados apenas neles mesmos, não demorou muito para abrirem a cortina e Neo e Saya tomarem mais outro susto cortando assim aquele clima tão bom que estava entre os dois, então eles puderam identificar a origem do barulho, a enfermeira e a diretora haviam chegado ali para verificar o estado de Neo:

—Neo!! –Disse Karine aliviada em ver que ele parecia bem.

—Acalme-se Karine, ele ainda precisa de repouso, não force o corpo dele, fale baixo e maneire em suas ações. –A enfermeira alertou seriamente.

A enfermeira tinha a quase a mesma altura que a Karine, porém era um pouco mais baixa e encorpada do que ela, tinha o cabelo curto e liso bem escuro, seus olhos eram claros, mas, não tão bonitos quanto de Saya, sua atenção voltou para Karine quando ela respondeu ao alerta.

—Tudo bem, eu entendo, me desculpe.

—Não é a mim que deve pedir desculpas, eu não estou fraca, peça desculpas ao Neo.

—Tudo bem, me desculpe Neo...

—Eu não ligo.

—Você parece bem arrogante para alguém que está fraco, hein?! Mocinho... –Disse a enfermeira enquanto puxava a orelha esquerda dele.

—Aí, isso dói.... Por que está fazendo isso? Quem é você? Sua médica gorda!

—Gorda?!!! –Aquela palavra despertou a fúria dela e ela desferiu um mega soco na cabeça de Neo –Olhe bem como fala comigo, meu nome é Katherine, nunca mais me chame de gorda, está me ouvindo? Ou vai passar o resto da vida nessa enfermaria...

—Achei que disse que ele precisava de repouso, Kathy... –Disse Karine decepcionada.

—Ele teve o que mereceu. –Disse Katherine dando de ombros –E você, Saya, volte para a aula, eu sei que está preocupada com o bem-estar dele, mas, ele vai ficar bem, jovens são assim se recuperam rapidinho, quando melhorar eu mando ele de volta, até lá espere pacientemente.

—Tenho mais medo que você prolongue o estado dele por aqui –Disse bem baixo como se fosse para ela mesma enquanto levantava da cadeira em que estava sentada e deu um longo suspiro.

—Falou algo? –Perguntou confusa, achando que sua mente tinha pregado peças em si mesma.

—Não, estava só pensando alto, Tchau Neo, nós vemos mais tarde... –Disse Saya acenando para Neo que depois se virou e acabou indo embora, mas, suas palavras ficaram como o ar que Neo respirava e agora faziam parte dele, com isso acabou se sentindo bem estranho, ele queria muito que ela ficasse, mas, não sabia o porquê.

Balançou a cabeça e tentou esquecer, mas, estava difícil, então Katherine fechando a cortina, disse:

—Durma um pouco Neo, assim as horas passaram mais rápido e você logo estará melhor para andar por aí.

Katherine se virou de costas junto com Karine e seus vultos sumiram da cortina.

Fácil falar, difícil fazer. Apesar de ser difícil pegar no sono no começo com Saya invadindo a mente dele, o corpo dele realmente estava fraco e acabou fazendo com que ele dormisse sem perceber.

As horas passaram e Neo acabou acordando sozinho, Katherine estava sentada e concentrada em organizar algumas papeladas que estavam encima de sua mesa, mas logo quando viu que Neo havia acordado se virou para ele e disse:

—Daqui 10 minutos será a última aula, é uma pena você não ter aproveitado o seu primeiro dia de aula inteiro, mas, eu posso te ajudar a ter pelo menos a última aula, como se sente?

Neo se sentou na cama e ficou de frente para ela, estava meio tonto e sua visão um pouco embaçada para observar o que havia em volta dele, mas, parecia estar melhorando e disse:

—Obrigado, estou meio tonto, mas me sinto melhor, poderia me levar para a aula?

—Você me parece bem, então vou te levar até lá, como você é "aluno novo" tenho que apresenta-lo devidamente.

Katherine se levantou e foi próxima a ele, para ajudá-lo a levantar, depois disso pediu para que a seguisse, agora que não tinha distrações e não estava fraco, Neo pôde analisar melhor a sua volta, a enfermaria tinha quatro camas na frente de onde estava a cama em que estava sentado e todas elas da mesma forma, a direita dela havia mais duas camas e duas janelas e a sua esquerda que agora era a sua frente, havia a escrivaninha da Katherine com uma cadeira rústica de madeira simples.

Depois do rápido reconhecimento do local, ele seguiu a enfermeira até o que seria a sua sala de aula, o 3° D, nada de especial no "nome". Enquanto pensava que seria difícil lembrar o caminho até lá, havia muitas salas e era difícil decorar todas, porém ele confiou plenamente que com o tempo iria conhecer os caminhos melhor do que ninguém daquela escola.

Não demorou muito para chegar na porta da classe e o sinal bateu, logo em seguida o professor que estava dentro da sala saiu e o próximo chegou, era um senhor velho um pouco menor que Katherine, Neo poderia chutar que tinha uns 65 anos de idade, usava típicas roupas de velho e carregava uma bolsa pequena com provavelmente seus materiais na mão direita junto com uma pasta na esquerda e havia um gato atrás dele, então Katherine conversou um pouco com ele e parecia que ele havia entendido alguma coisa, ela se virou para Neo e disse:

—Neo, ele vai te apresentar para a classe agora, não tenho nada para te dizer, mas, acho que posso te desejar boa sorte! –Disse Katherine, piscando para ele.

Logo, ela foi embora e o professor disse:

—Vamos Neo, para a nossa aula. –Sua voz realmente era de um velho e ele respondeu:

—Tudo bem.

Neo se virou e entrou na sala, logo em seguida o professor entrou também. Neo foi até próximo da mesa e se virou para a esquerda ficando de frente para todos presentes na classe fazendo uma análise do local assim como havia feito na enfermaria. Atrás dele havia uma lousa que cobria a parede inteira, a mesa junto com uma cadeira que estava a sua direita ficava no meio em frente à lousa, na sua frente haviam trinta cadeiras organizadas em cinco fileiras de seis cadeiras, sendo que vinte e nove delas estavam ocupadas pelos alunos que agora estavam olhando para Neo, somente a última delas no fim da fileira da direita estava livre e ficava perto de uma enorme janela e na sua esquerda só havia uma parede. Neo agora olhava melhor para a cara de todos, era uma típica sala de aula comum, não havia muita novidade nela, tinha um cara mais fortão e valentão, outro mais magrinho e parecia ser inteligente, uma garota que parecia ter tido vários garotos como namorado além de ser completamente esnobe, outra mais simples e tímida, eles não pareciam surpresos com a presença dele, pareciam assustados e alguns tristes, outros viraram a cara para o lado, parecia que ver ele era doloroso, cortando o clima o professor pegou um giz e deu na mão dele e disse:

—Escreva seu nome e sua idade na lousa e se apresente para todo mundo saber quem você é.

Ele não queria fazer isso, preferia muito mais simplesmente ser uma pessoa anônima, conhecer muitas pessoas poderia trazer problemas para ele no futuro, para ele pessoas são sinônimo de problemas, quanto menos conhecer melhor, somente conhecer aqueles que são uteis para ele. Mas, como não teve escolha, virou-se de costas e de frente para a lousa e escreveu Neo Landcaster e 17 anos disse:

—Meu nome é Neo Landcaster, tenho dezessete anos, prazer em conhece-los.

— Só isso? Você poderia falar sobre o que gosta ou não gosta, talvez o que faz normalmente... –Perguntou o professor curioso.

—Sim, só isso. –Respondeu Neo friamente.

—Tem certeza? –Tentou mais uma vez.

—Sim... –Dessa vez com um tom determinado para que não tivessem mais perguntas.

Os alunos continuaram com a mesma cara, como se fosse realmente muito doloroso ver a presença dele e isso irritava Neo, os alunos permaneceram quietos e ele não sabia o porquê, nem conhecia ninguém ali e todos agiam como se ele fosse alguém que eles conhecessem a muito tempo, aquilo não podia ser coincidência, porém interrompendo o pensamento de Neo, uma pessoa levantou, fez uma reverência e disse:

—Prazer em conhece-lo Neo.

Neo não havia percebido antes a presença dela, mas, agora podia ver que era a garota que havia cuidado dele quando desmaiou, aquela linda garota chamada Saya, seu sorriso fez toda a raiva que havia dentro dele desaparecer, ela estava sentada na última cadeira da fileira oposta onde estava a cadeira vazia, ele ficou triste por não poder sentar perto dela, mas, feliz por ela estar na mesma classe que ele.

Assim que ela se levantou, todos olharam para ela e sorriram, fazendo o mesmo que ela tinha feito, algo que não era comum de alguma classe fazer, surpreendendo o professor e principalmente Neo. Aquela energia que eles passaram para ele era realmente aconchegante fazendo com que ele se sentisse muito bem, como se fosse bem-vindo. Quase que mudando seu pensamento sobre as pessoas, ele não sabia o que fazer e disse:

—Acho que vocês não precisavam ter feito algo tão extravagante assim...

Toda a classe ficou em silêncio, sem responder o que ele disse, apenas ficaram com o sorriso e se sentaram, uma cena bizarra, então Neo ficou um pequeno tempo parado, provavelmente esperando pela resposta de alguém, mas, como não houve, ele foi diretamente para o lugar onde não havia ninguém sentado e se sentou, percebeu que havia uma mochila azul e preta embaixo da cadeira com uma carta com o nome de Neo, mas, não pode ler, pois o professor chamou a atenção de todos dizendo:

—Bem, nunca vi uma cena como essa, mas, seguimos com a aula... Meu nome é Walter Rogerio se quiserem podem me chamar de Rogerio, serei o professor de vocês de matemática, esse é o meu companheiro Lanny, ele realmente é muito simpático, espero que vocês cuidem bem de nós. –Ele apontou para o pequeno gato preto que estava ao seu lado e depois pegou um pequeno colchão na bolsa e colocou encima da mesa, logo em seguida Lanny se deitou naquele colchão e o professor pode começar a aula. –Abram suas apostilas na página 2. –Pediu o professor

Neo abriu a carta e estava escrito:

"Prometi que conseguiria isso semana que vem, entretanto consegui mais cedo do que imaginei. Não pude te entregar isso hoje cedo, você vai precisar disso se quiser aprender alguma coisa nessa escola, os professores usam esses materiais para ensinar aos alunos as determinadas matérias que são especialistas, também tem os horários das aulas em uma pasta com os dias das provas além de outras coisas que você irá precisar, como sei que sua cor favorita é azul, te dei especificamente dessa cor, se precisar de qualquer coisa, venha falar comigo" Boa sorte, Karine.

—Bem, isso vai ser útil, obrigado... –Pensou Neo, abrindo a apostila na página 2 como o professor havia pedido.

A última aula passou muito rápido para Neo que só havia assistido ela, então ele pensou em ir falar com Saya, mas, até criar coragem para falar com ela, Saya já tinha ido embora.

Sem nada para fazer Neo pensou em virar gato e andar por aí, mas.... Quando ele tentou, não conseguiu. Não sabia o porquê de aquilo estar acontecendo, mas, não conseguia voltar a sua forma original, o que teria acontecido que tenha feito ele mudar a ponto de perder seus "poderes"?