Instinto & Coragem - Fanfic Interativa
6 6. Salão Tarbeck
Notas iniciais
SALÃO TARBECK
Quando a música diminui até desaparecer e as velas chegam ao fim de suas ceras, quase todos já se haviam recolhido para os aposentos especiais na fortaleza ou tendas comuns no pátio. Contra as ordens de sua mãe, continuava acordado. Não vendo o salão, podia ouvir exatamente os violinos sendo guardados e os bêbados carregados para fora. Ouvir, como de costume, o que não tinha idade para ver. Ler o que ainda não podia sentir. Pensar o que não podia dizer. Não via a hora de completar seus 14 anos e se livrar da mãe, da ama de leite, do capelão de Monte Espinho. Por ora, apenas fugia do quarto.
Não deveria estar no castelo, na verdade. A tenda de seu pai fora armada às pressas no final do acampamento, pois a viagem para aquele torneio levara mais tempo que o esperado, graças às dores de Lady Hawthorne, sua mãe.
Recebeu um quarto dentro da fortaleza, apenas ele e sua mãe, uma cortesia para com os problemas respiratórios que muitas vezes o afligia quando dormia am relento. Ocupavam um quarto que deveria ser do escudeiro de Lorde Lannister, mas que estava vago já que o lorde não comparecera ao banquete. Na verdade, queria muito ter dormido lá fora, no frio, junto dos guardas, cavalariços e senhores de baixas posses. Queria se sentir um deles. A princípio, não era para ele ter vindo. A mãe o proibiu, assim como o meistre, mas após implorar ao senhor seu pai, conseguiu um lugar na carruagem. Não gostava da superproteção que lhe davam. Mas, com a chegada do bebê, talvez não fosse mais tratado como o frágil herdeiro. Afinal, seria um irmão mais velho! Estava muito empolgado!
Entediou-se rapidamente do esconderijo e resolveu retornar ao quarto. Tateando pela parede a relva dos entalhes, até sentir uma alça adornada de folhas em ouro. Empurrou-a e desapareceu na escuridão. Dentro, a fraca luz que entrava pelas cortinas da janela revelavam a silhueta de sua ama, deitada na cama com os braços próximos ao peito e as pernas encolhidas, ocupando menos espaço possível. Soren costumava ficar curioso com as amas, pois elas eram muito diferentes dos homens e dele mesmo. Sabia que homens foram criados pelos deuses para proteger e lutar e que mulheres para gerar e cuidar, mas ainda parecia estranho que uma mulher precisasse daqueles peitos tão saltados e de cinturas tão finas. Não fazia sentido. Como isso poderia ajudar em gerar e cuidar? De noite, quando não sentia sono, ele olhava para a túnica leve da ama e analisava os vincos do tecido, sua pele e o peito levantando e abaixando calmamente. Leu livros que diziam como o corpo reagia após a morte, então se imaginava colocando o travesseiro sobre o rosto dela, para depois ver se era verdade. Seus músculos ficariam rígidos? Seus olhos perderiam o brilho?
Nunca colocaria em prática o que imaginava, pois era sensato, mas a curiosidade quase lhe matava pelo resto da noite.
Agora, vendo-a encolhida, não sentiu vontade de observá-la ou de planejar assassinatos. Saltou pesadamente sobre a cama e acordou-a em pânico.
— Senhor? — ela balbuciou com os olhos ainda fechados. — Soren, o que houve?
— Pesadelos — mentiu com uma carinha de medo. A mentira dos pesadelos era eficaz, mas nos últimos tempos a mãe vinha levando-o mais vezes às orações noturnas. — Estou com medo.
A ama abriu um sorriso gentil e envolveu-o com os braços, trazendo-o para junto de seus seios e se deitando protetoramente, até que estivesse imóvel sob seu peso. Soren aninhou-se entre os seios dela e percebeu que fazia sentido serem desse tamanho. Eram confortavelmente protetores. Os deuses não haviam errado em fazê-la assim.
“Hoje não parece que irá chover” olhou para o céu, sem nenhum sinal de nuvens ou vento. Peculiarmente, todos os torneios que disputou naquele ano foram debaixo de chuva fina e fria. Começara a encarar a chuva como um presságio de sorte. Agora, queria acreditar no brilho do sol. Estalou o pescoço de um lado para o outro, tentando relaxar seu corpo e sua mente. A princesa e sua família estariam assistindo o torneio, provavelmente o Rei estaria atento aos promissores cavaleiros, então ele deveria se sair bem se quisesse provar o seu valor diante de pessoas importantes. Antes de voltar para Riverspring e a vida de responsabilidades.
Vestiu a cota de malha com a ajuda de Foote, seu escudeiro, amarrou as braçadeiras nos punhos e cotovelo, o peito da armadura junto das costas, caneleiras e couro cosido nas pernas. O último elemento era o semblante que mostraria a todos dentro das justas: um rosto inexpressivo de olhos fechados e boca entreaberta em um sorriso de ódio. Não era o mesmo que o seu próprio rosto, mas capacetes bonitos eram regalias de casas mais importantes. Por ora, era apenas um Sarwyck. Enquanto apresentavam os cavaleiros de acordo com sua Casa, fez uma rápida oração aos deuses para que o abençoassem ali. Pediu ao Pai para que o vencedor fosse eleito de forma justa, pediu ao Ferreiro para que sua espada fosse certeira e não se cegasse e ao Guerreiro, por bravura. Não costumava ser religioso, mas torneios erguiam o temor de qualquer homem.
Quando o arauto anunciou seu nome, entrou junto do pequeno séquito que levava consigo. Quinze homens de Riverspring, Foote e dois cavalos, comprados com o dinheiro dos torneios anteriores. Não era nada comparado aos outros cavaleiros que tinham até três escudeiros, colunas enfileiradas de guardas e animais incríveis que valiam duas vezes mais a sua vida inteira. Lembrou-se do que uma vez seu pai lhe disse: cavalos bonitos demais são apenas isso, bonitos demais. Um cavalo de guerra é verdadeiramente feio, pois não se importa em se ferir e não teme morrer. Não olhou para os lados, para as arquibancadas cheias de olhos. A maioria ali eram damas, aquelas mais bem nascidas sentadas a frente e o resto do povo mais atrás, gritando e aplaudindo. Escutou alguém dizer “Cavaleiro da Primavera” e sentiu-se mais corajoso para erguer a mão e acenar.
Com todos os concorrentes enfileirados, o Rei se sentou no trono improvisado para sua celebração e ordenou que as regras fossem seguidas sob os olhos dos deuses e que o mais forte e corajoso vencesse. Como de costume, as damas elegeram o juiz da paz para a justa, que seria Lann Tarbeck, o anfitrião de todos. Com o último adendo pelo espírito esportivo, os trompetes soaram e os cavaleiros voltaram a se recolher para o local de espera.
A primeira justa seria entre o Príncipe Warren e Jeffrey Serrett, seu oponente na noite passada. Aproveitou para escovar seu cavalo, para acalmá-lo dos gritos e som de espadas em atrito. O torneio seria realizado com três armas a escolha dos concorrentes: espadas de cortesia, lanças de madeira e alabardas. Respirou fundo mais uma vez, agora tentando acalmar a si mesmo. Por que se sentia prestes a explodir? O nervosismo nunca era bom antes de um duelo, poderia deixá-lo desatento e vulnerável. Seu escudeiro notou como estava ofegante e começou a abaná-lo com um brasão qualquer jogado por ali.
O príncipe ganhou sua justa, embora visivelmente Sor Jeffrey não tivesse usado totalmente as suas habilidades de cavaleiro, como fizeram na noite passada. Ao se recolher, triunfantemente orgulhoso por ter resistido ao príncipe por mais de dez minutos, Jeffrey tirou sua armadura e se aproximou, com um sorriso amigável.
— Esse torneio é seu, se assim quiser — disse.
— Você quer dizer, se eu derrubar o príncipe?
— Quando você derrubar. — O cavaleiro chamou um escudeiro a paisana e ordenou que lhe trouxesse vinho. Agora que não estava mais dentro do torneio, podia beber. — Acho que uma dama sorriu para mim. — Seus olhos brilhavam.
— Aposto que ela estava sorrindo para o príncipe ao seu lado. — retrucou, de maneira brincalhona. Sentia-se realmente animado em manter alguns cavaleiros como amigos próximos, os quais não podia ter em Riverspring, pois era uma terra sem grandes torneios ou guerreiros para se conversar sobre.
— Ah, ela acenou para mim, eu tenho certeza. — Jeffrey empoleirou-se entre o estandarte da Cas Tarbeck e o de Sua Majestade o Rei. — Ali, com o cabelo preso por uma fita amarela. O rosto não é muito especial, mas tem seios fartos.
— Com vestido branco?
— Essa mesmo — Jeffrey sorriu, admirando a sua admiradora. — Conhece?
— É sobrinha de Jason Plumm, senhor de Solar Raiado. — avaliou melhor — E ao lado está a prima e atrás a tia.
Sor Jeffrey o olhou instigado, perdendo o interesse nas mulheres Plumm.
— Você as conhece? — Soava mais impressionado que surpreso, mas ainda falava com informalidade.
— Passei algumas semanas em Solar Raiado, quando era mais novo. — contou — E minha mãe é prima de Sor Jason, logo somos parentes, de algum modo.
— Ah, eu adoraria ter uma família nobre, como a sua. Fui armado cavaleiro, mas tudo o que sei fazer é usar a espada em torneios. Se ao menos tivesse influência com uma ou outra família, talvez eu conseguisse um bom casamento. — ele falava seriamente, de um modo que Jasper não esperava do rapaz aventureiro e zombeteiro. Talvez houvesse mais de Jeffrey que ele não sabia. Um cavaleiro recém armado, sem terras ou riquezas deve se preocupar em arranjar logo uma mulher de bom nascimento, assim imaginava. — Quantos anos tem sua prima?
— Senhora Plumm ou a filha?
— A mais jovem e solteira, é claro. — Jeffrey revirou os olhos, mas sorria.
— Acho que… por volta de treze ou quatorze. Mas pensei que estivesse interessado na outra prima.
— A sobrinha de um senhor pequeno é praticamente tão nobre quanto eu. — ele explicou — Poderíamos ser da família, eu e você. Quando vencer o torneio e arranjar uma mesa de homenagem no grande salão de Tarbeck, coloque-me sentado ao lado da moça. Lembre que sou seu amigo.
Jasper ia respondê-lo, mas o escudeiro acenou e pediu para que se arrumasse, pois agora seria seu duelo. A justa que enfrentaria era contra Sor Balon Lydden, o Sombrio. Era um homem já entrando na meia-idade, com cabelos calvos e olhos pesados em bolsas de pele logo abaixo. Lembrava-se de vê-lo se embebedar além do que deveria durante o banquete e, por seus modos ao montar o cavalo, provavelmente ainda não havia se recuperado. Os Lydden eram famosos pela falta de cortesia dentro dos torneios, não eram a família mais adorável do reino, mas pelos mesmos motivos mantiveram-se firmes em Covafunda por séculos. Mais gerações do que os Tarbeck e Reyne podiam contar juntos.
Não temia por Balon Lydden mais do que temia por aparecer em frente ao rei e, principalmente, à Princesa Annelyse. Cumprimentou o anfitrião do Torneio e o Rei, sentados na parte mais alta da plateia. A justa seria feita em cinco encontros, contando que ambos optaram por usar as lanças de madeira. Jasper sentia-se mais confortável com a lança, em cima de um cavalo, e Sor Balon sabia que, de todas as armas, a lança era a menos dolorosa. Assim, os cavaleiros se colocaram um de cada lado da justa e esporearam seus cavalos a trote lento, dando início ao primeiro encontro.
Seu sangue estava muito quente dentro das veias e sentia as bochechas pulsarem violentamente contra a viseira, mas não desviou os olhos das fendas que permitiam ver os precários movimentos de seu adversário. Mesmo se quisesse, Sor Balon Lydden não tinha mais os mesmos reflexos da juventude e contemplava o torneio apenas em honra ao Rei, assim como muitos dos demais cavaleiros nomeados para as justas. Talvez fosse isso que Jeffrey quisesse dizer, sobre vencer o torneio facilmente.
O encontro aconteceu tardiamente. Balon precipitou-se, tentando atingi-lo quando ainda estava fora de controle. Com o corpo pesadamente esticado para a frente e o braço caindo sem força para erguer a lança de sua má investida, Jasper deu um leve cutucão em sua panturrilha e passou por ele sem maiores atritos. Era descortês acertar o adversário quando este estava em situação tão desfavorável, incluindo que só podia acertá-lo no rosto e no peito, a posição lhe prejudicou a mira. Jasper nunca mirava o rosto dos cavaleiros mais velhos. O impacto do capacete era pior que a lança em si e se demorava a recobrar os sentidos, principalmente se já não possuía reflexos tão apurados. Ouviu o som abafado dos aplausos por seu ato de cortesia.
Aquilo dissipou todos os seus anseios e o fez aproveitar o momento. Nada era melhor que o som dos gritos de adoração e o sentimento de vitória. Virou o cavalo rapidamente e avançou para o segundo encontro. Sor Balon Lydden não estava de todo recuperado e deixou a guarda muito baixa. Atingiu-lhe o peito em cheio, fazendo-o se estatelar no chão em meio segundo. Quando a adrenalina abaixou de seus ouvidos, escutou seu nome ser aclamado pela plateia e ergueu a viseira, recebendo todo o afeto dos que torciam por ele. Era esse o sentimento que mais adorava dentro dos torneios, que o fizera deixar o silêncio de Riverspring para abraçar aquele mundo! Nada podia se equiparar.
Recolheu-se ainda vibrando diante de sua vitória contra Sor Balon. Jeffrey o recebeu com tapas no ombro e o parabenizou por ter derrubado gentilmente o velho cavaleiro. Assistiram aos demais competidores, um a um sendo eliminados por outros competidores igualmente tediosos. Para aqueles que assistiam, o torneio estava empolgante, mas para os olhos treinados de Jasper e Jeffrey, todos os demais, com exceção de Sua Alteza Real e o alto Sor Cygnus Lannister, eram no máximo patéticos.
Assistir a Cygnus fora quase um espetáculo. O homem que colocara a primeira espada em suas mãos era o melhor espadachim que já vira. Seu equilíbrio sobre o cavalo não superava seu oponente, mas a defesa que montava era quase impenetrável. Cygnus agia no último encontro, sem quando seus adversários estavam mais ofegantes e cansados de investirem contra ele sem sucesso. Aproveitando-se disso, ele atacava com toda a força que possuía e acabava derrubando violentamente o seu oponente. Desafortunadamente, quem o enfrentava era um cavaleiro andante que, pobremente armado e vestido, não parecia ter mais que quinze anos. Ele caiu de costas, sendo atingido na tempora direita. A viseira, feita de metal vagabundo, simplesmente se desfez onde o golpe o acertou e abriu um corte pequeno que ensanguentou todo o capacete e cota de malha, levando os espectadores a bradar pela justa.
Quanto mais violento, mais a plebe gostava.
Jasper não se importava em impressionar o povo, apenas a Princesa e por isso optaria pelo caminho da cordialidade. Não sem um pouco de ressentimento pelos aplausos por Cygnus. Tinha-o como um pai, assim como também Lorde Lannister, que o tomou como protegido quando pediu.
— A próxima rodada será sorteada agora — Jeffrey o cutucou no ombro e ambos se empoleiraram para ver Lorde Lann Tarbeck sortear os nomes para as seguintes justas.
O Príncipe Warren enfrentaria seu escudeiro, Sor Ronnel, que havia ganho a própria justa com mais sorte do que habilidade. Cygnus Lannister lutaria contra Steffon Clegane, o impetuoso Cavaleiro da Guarda Real. Ele, o Cavaleiro da Primavera, teria de enfrentar outro cavaleiro desconhecido. As justas mais aguardadas foram feitas primeiro, onde grandes Casas se enfrentavam.
Estava, sinceramente, decepcionado. Queria derrubar logo alguém importante.
Se tinha direito a alguma palavra com os deuses, deveria agradecê-los mais tarde. Quando sentou-se na sala particular de Lorde Tarbeck, escapando do banquete, e encontrou Steffon Clegane bebendo sozinho diante da janela, não imaginou que o reencontraria nas liças. Eles beberam, sim, e talvez tenham compartilhado também uma criada ou duas. Esse tipo de afinidade levava anos para ser construída, mas algumas horas e jarros de vinho foram suficientes. Cygnus não era o homem mais sociável, mas sabia reconhecer amizades. Quando se encararam sobre os cavalos, viu Steffon rir de dentro de seu capacete e retribuiu cuspindo no chão. As arquibancadas silenciaram, pois sabiam que o atrito de ambos seria perigoso. Cavaleiro da Guarda Real ou não, Steffon Clegane era conhecido por uma crueldade que beirava a perversidade contra inimigos e Cygnus orgulhava-se dos próprios feitos dentro de torneios.
Cinco encontros não seriam necessários.
Ambos escolheram a espada e investiram sem trote, com uma corrida que exigia dos cavalos muita força e resistência para aguentar o peso da armadura e dos brutos. As lâminas sem fio se encontraram imediatamente e Cygnus sentiu a baforada do hálito de Steffon quando ele ofegou e continuou a corrida até o final da liça. O impacto não prejudicou nenhum e em segundos se colocaram a correr novamente. Tudo indicava que a justa acabaria em menos de cinco minutos, algo que não era tão estimulante para a multidão, mas muito estimulante para os próprios cavaleiros.
O segundo encontro veio em falso e Cygnus sentiu o impacto do metal reverberar por todo seu braço, até o ombro. Por pouco não deixou a espada cair, mas continuou com o corpo ereto e o rosto erguido, demonstrando não estar abalado. Secretamente, isso funcionava contra oponentes tolos, mas Steffon era experiente e percebeu seu erro. Na próxima vez em que se atingiram, Clegane focou seu peito, mas teve o golpe defendido por pouco. A dor já começava a subir por seu pulso.
Mas não podia se render, não havia dor no mundo que o fizesse desistir daquela justa.
O quarto e decisivo encontro veio após um breve intervalo que Cygnus pediu para ajustar as manoplas, enquanto dava tempo de sua mão descansar dos golpes. Steffon sorria para ele e parecia exultante por estar na vantagem. O Lannister sentia seu animal cansado. Estava exigindo demais do cavalo que não estava acostumado com rapidez dos encontros. Talvez perdesse o rendimento caso fosse para o quinto encontro. Então decidiu que tentaria o tudo ou nada.
Olhou firmemente para Steffon e moveu a espada no ar, sentindo seu equilíbrio tosco e demonstrando que estava em disposição. Os aplausos vieram, mas se calaram assim que ambos começaram a cavalgar em direção ao outro.
Só precisava de uma abertura e o atingiria. Se conseguisse acertá-lo na parte de fora da cabeça, jogando seu corpo para o lado, talvez Steffon caísse devido a seu peso. Era como ele mesmo costumava vacilar. Apostaria nisso. Steffon não ergueu a espada para atacar e continuou defendendo seu peito com o cotovelo bem posicionado. Fingiu fazer o mesmo. Algumas vaias vieram quando as pessoas perceberam que eles não investiriam naquele encontro, mas assim que seu corpo passou por Steffon, Cygnus moveu o cotovelo agilmente e jogou a espada contra o capacete do adversário. Clegane desequilibrou-se, debaixo a espada cair. No final da liça, agarrava-se ao cavalo, mas não chegou a tocar o solo.
Teriam de encarar o quinto encontro.
Cygnus respirou fundo, estava cozinhando dentro da armadura, com a adrenalina e o sol salgando a sua pele. O intervalo foi então pedido por Steffon para que o escudeiro lhe trouxesse uma nova espada. Ele o encarou com raiva estalando dos olhos e, sem dizer uma palavra a ninguém, apenas montou posição de defesa e começou a correr. Cygnus seguiu-o e se preparou.
Como imaginado, seu cavalo não corria mais com a mesma determinação e ele próprio sentia que não podia mais sustentar o braço da espada erguido por tanto tempo. O último encontro exigia que ambos os cavaleiros se atacassem e assim a sorte decidiria se cairiam ou permaneceriam empatados, para que o juíz decidisse quem saía vencedor. O ataque foi feito por ambos.
Infelizmente, estava mais cansado.
Não soube dizer onde o ataque o atingiu, mas rolou da sela e caiu com um dos pés ainda preso ao arreio. Seu escudeiro o ajudou a se levantar e, com uma mesura cortês, deixo as justas. Era difícil ouvir os aplausos por um oponente que o havia derrotado. Cygnus sabia que nem sempre se vence um duelo.
Começou a ventar e pediu para um dos copeiros trazer qualquer manto que pudesse parar o tremor de seus ossos. Estava velho demais para aquilo. Assistindo seriamente ao torneio, Lorde Tarbeck perguntou-se o que dera na cabeça de seu antepassado para construir um Salão ao invés de uma fortaleza comum, apenas com lareiras quentes e pátios de treino. A tradição dizia que todo homem Tarbeck em condições deveria participar dos torneios que dava, mas ele declinava desde os trinta anos, alegando ter fadiga. Assistir aos jovens já era deveras exaustivo.
Seu rei, ao contrário, parecia uma criança rindo e aplaudindo aos cavaleiros. Seus defensores do reino. Devia alguma admiração aos homens que morreriam em guerras para defender seu trono, no entanto… Lann imaginou que os deuses foram sábios. Não teria nascido um bom rei se assim fosse, mas Corlos sabia se divertir com um reino para governar.
Viu de soslaio que Lady Tarbeck abanava-se e aparentemente suava. Os sintomas da velhice a deixavam de sangue quente e recentemente havia perdido todas as discussões contra ela. Vencê-la nunca fora a coisa mais fácil de se fazer, na verdade, mas com o passar do tempo talvez ele tivesse amolecido. Ou ela estava mais dura. Não importava, sentia-se grato com a vida que tinha e os filhos que recebera. Desde que o reino não se envolvesse em uma guerra nos próximos cem anos, ficaria feliz.
Ainda não conseguia olhar para um Lannister sem ter a vontade de desviar os olhos em seguida. Lann sabia que metade do Rochedo o odiava e culpava pela morte de Tyman Lannister. Quem não procuraria culpados pela morte do jovem e encantador leão? É claro que a história que se contava de que Tyman morreu defendendo a sua honra em um julgamento por combate não era de todo mentira, mas se assim fosse, não estaria vivo e sim condenado, já que Tyman perdeu o duelo. Cygnus era parecido com Tyman, embora fosse mais bruto e menos amigável. Há vinte anos as pessoas esqueciam-se que ele e Ty foram grandes amigos. Companheiros ainda em tenra idade, quando o Lannister veio morar como protegido do antigo Lorde Tarbeck. As famílias enfim se entendiam e a amizade foi natural, assim como era natural com Corlos.
Infelizmente, quando Tyman morreu, não houve tempo para lamentar sua morte. Ainda sentia a dor em seu coração velho. Para as filhas bastardas, oferecera casamento com cavaleiros de sua Casa, mas Tytos declinara a todas as ofertas. Eram casamentos bons, melhores do que bastardas esperariam. Porém Tytos nunca o perdoaria.
Cygnus caiu do cavalo e perdeu sua justa. Metade das pessoas que assistia vaiaram pela queda, a outra metade gritou pelo cavaleiro que o havia derrubado. Steffon Clegane não era afamado, mas como Cavaleiro da Guarda Real, possuía o apoio daqueles que admiravam o Rei. Corlos não esperava nada mais de um de seus guardas pessoais e aplaudiou-o animadamente. Lann temia olhar para qualquer local, então continuou arrumando o manto sobre seus ombros, até estar totalmente enrolado. Sua filha mais velha, sentada na cadeira ao seu lado, colocou uma mão sobre seu braço e inclinou-se afetuosamente em sua direção.
— Sente dores no estômago novamente, pai?
— Não, querida — acalmou-lhe com um sorriso. Lanna, sua donzela, já passava da idade de se casar. Por um tempo, ele imaginou que poderia fazê-la uma princesa e talvez uma Rainha. Lembrava-se de uma vez ter dito a ela que seria uma princesa quando fosse mais velha. Graças aos deuses, Lanna era jovem demais para se lembrar da promessa e nunca o cobrou por nada.
Suas tentativas de levar um noivado entre as Casas Tarbeck e Casterly se frustraram. Mesmo dentro das graças do Rei, Corlos era astuto demais para se permitir levar pela amizade. Ele preferiria casar seu filho com um inimigo a dá-lo a seu fiel aliado. Esperto ou não, Lanna esperara por tempo demais. Quando Barbare sugeriu um torneio, a princípio recusou a ideia, mas em seguida viu como uma grande oportunidade. A Casa Tarbeck era a segunda maior do reino, o que significava que qualquer outra família adoraria casar seu primogênito com eles.
Lanna Tarbeck tinha olhos tímidos e um nariz arrebitado, sua mudança de humor surpreendia até mesmo aqueles que a viram crescer e, substituindo uma beleza de donzela, possuía uma personalidade agradável. Educada como uma dama digna de seu nascimento, sabia rir e conversar animadamente, assim como sabia ser uma donzela romântica quando queria. Desde que fosse forte, o lorde pensava que suas filhas poderiam se casar com qualquer homem, que ninguém ousaria lhes fazer mal. Criou-as para que fossem fortes. Talvez Lady Tarbeck as tenha estragado um pouco, mas quem poderia culpar uma mãe protetora? Para Barbare, era melhor saber das fofocas de um castelo que sobre os suprimentos das cozinhas. De certo modo, podia estar certa.
Mas para aquele torneio, precisava que a filha fosse mais esperta que a mãe e jogasse as peças certas no tabuleiro. Os pretendentes não eram muitos, pois Lann não submeteria sua filha a um casamento inferior ao seu nascimento. Estava pensando em tentar arranjar algo com os Reyne, uma família tão antiga quanto os Tarbeck e de grande prestígio com Vossa Majestade. A preferência era pelo lorde solteiro, mas alguns rumores diziam que ele era imprudente e ligeiramente tendencioso a atos libidinosos. Nenhum marido estava a salvo da cama quando ela chamava, mas Lann não queria sentir-se culpado por entregar sua filha a um ser asqueiroso. Sor Ronnel, escudeiro do Príncipe e jovem de poucos encantos era mais maleável, embora não possuísse terras ou títulos maiores. A esperança era que um dia sua amizade com Warren gerasse algum fruto, mas até lá não poderia brincar com o futuro de sua filha mais velha. O Cavaleiro da Primavera tinha admiradoras por toda a platéia e vira de soslaio que Lanna também o observara atentamente, mas Riverspring era dezenas de vezes menor que Salão Tarbeck e os Sarwyck não possuíam fortuna ou elevado reconhecimento dentro da Corte para servir bem ao casamento.
Isso lhe dava opções cada vez piores.
Stefan Clegane, o irmão mais novo de Steffon, era o herdeiro da Fortaleza. Mas ninguém confiaria a sua filha a um Clegane. A família ainda tinha sangue de camponês e dizia-se que eram carrascos com qualquer um que não fosse dos seus.
Poucas famílias ocupavam uma boa posição e dispunham de estabilidade. As últimas guerras ainda ressoavam consequências a todos. Os Hawthorne tinham um garoto de seis ou oito anos dormindo em sua fortaleza, com certeza não esperaria até a maioridade para desposar sua filha já com mais de vinte anos. Os Westerling possuíam apenas mulheres nos ramos diretos de sucessão da família. Infelizmente, Janna Westerling não parecia disposta a anunciar seu herdeiro e muito menos a casar-se com um usurpador. Os seguintes lordes eram ainda mais lamentáveis. Queria que sua filha se casasse com orgulho, mas como quando se vem de uma Casa tão grande quanto a sua? Apenas duas outras famílias podiam se equiparar. Reyne e Casterly. Deveria lutar por aquilo!
Enquanto divagava consigo mesmo, a multidão se animou nos bancos e na platéia, entusiasmados com a aparição do príncipe e de seu escudeiro. Ambos bem-nascidos, ricos e amigos de longa data. Esses combates eram sempre emocionantes e apenas perdiam para os combates entre inimigos mortais.
Príncipe Warren não colocou o capacete, deixando seu rosto a mostra diante de todas as damas. Cabelos castanhos enroscando-se atrás das orelhas, em cachos grossos, sobrancelhas arqueadas e esparsas. Uma pele de azeite, como sua mãe Westerling e os olhos azuis do pai. Warren herdou o lado mais selvagem da família, com uma altura acima da média e boa estrutura. Não era aquilo que as donzelas chamavam de “belo”, seu rosto não expressava nenhuma sutileza e nenhum romantismo, mas continuava sendo o príncipe herdeiro do Rochedo, e isso era mais que o suficiente.
Lanna aplaudiu quando eles entraram.
— Você está torcendo por quem?
— Nenhum dos dois. — a filha respondeu, mas não desviou os olhos dos cavaleiros.
— Seja sincera, Lanna.
— Pai — A garota o encarou e então sorriu — Ron Reyne, eu prefiro os mais fracos. Tenho piedade deles. Não consigo torcer pelos que vencem.
Lorde Lann Tarbeck assentiu e achou gracioso os sentimentos de sua filha.
Ambos os garotos se posicionaram com os cavalos e as espadas. As justas, após a primeira duas horas e meia, passavam a ser entediantes e cansativas. Ele sentia-se incomodado de estar tanto tempo sentado naquela cadeira e mesmo o vinho não mais descia agradável pela garganta. O Rei parara de sorrir e aplaudir todos os homens, agora apenas assistia e bebia. A Rainha recolheu-se após a primeira justa de seu filho. Princesa Annelise cumpria seu papel de auxiliadora e torcia com dedicação aos seus favoritos. Quando os cavaleiros se cumprimentaram, ela ergueu o punho e gritou “Warren!” assim como os inúmeros camponeses nas partes baixas da platéia.
O pobre Sor Ronnel via-se em desvantagem tanto no porte físico, quanto na torcida. Ninguém estava visivelmente contra o príncipe e, a não ser Lanna, ninguém tinha motivos para estar. O Príncipe era o herdeiro do reino e esperava-se que fosse forte como tal.
— Comecem! — incentivou Sua Majestade e eles começaram.
Lorde Tarbeck afastou-se da justa, sua barriga começava a azedar todo o vinho e pedaços de porco que havia petiscado durante a tarde. Era uma infelicidade que o tempo lhe trouxe, após ser pai e manter sua Casa, os deuses recompensavam o homem com a própria velhice. Não queria transparecer as náuseas, caminhou até as escadas e começou a descê-las.
— Estava a sua procura, milorde — ergueu os cansados olhos para a figura que aparecia dentre os estandartes com os brasões dos cavaleiros que participavam do torneio. Era um homem alto e com os cabelos dourados brilhando debaixo do sol. Ele parecia desproporcional para o rosto gentil, ou pelo menos foi isso que Lann pensou ao vê-lo de perto. Não pensava em um Reyne desde que o anterior havia morrido.
— Lorde Reyne, a que devo a honra?
— Lisonjeiro de vossa parte, mas sabes que és honra para mim. — o garoto se curvou humildemente e abriu um sorriso pouco inocente. Não se parecia com um senhor mesquinho ou tolo, da forma que Lann Tarbeck esperava que fossem os filhos de Gamore Reyne. — Seria um grande prazer ter uma palavra com milorde. Creio que seja de interesse mútuo.
O Tarbeck olhou para a arquibancada, onde o rei gritava feito louco por seu filho e todos os guardas pareciam entretidos com a luta. Talvez pudesse escapar com o garoto por alguns minutos, apenas para arrotar em paz longe de olhares constrangedores. Acompanhou Gaemon Reyne até uma mesa montada próxima das rixas, mas ainda assim afastada o suficiente para escapar dos gritos. Havia uma toalha vermelha e preta forrando a madeira e um jarro de vinho cheio, aparentemente intocado. Sentou-se de um lado, enquanto o menino se sentava do outro, bem a sua frente. Era um lugares humilde, tão parecido com um acampamento de caçada que sentia-se um pouco mais leve. Quase como se respirasse o ar das montanhas. Lorde Reyne cruzou as mãos sobre a mesa, ele carregava um olhar ainda amigável, mas pouco ingênuo.
— Pedi aos meus criados que montassem essa mesa para mim. Não sou fã de torneios, mas seria uma desfeita grande não comparecer às justas do príncipe. — explicou — Imagino que o senhor entenda o que quero dizer.
— Barbare gosta das festas, eu apenas tenho o dinheiro. — concordou, como se um elo imediatamente se formasse entre eles. Havia achado um tesouro valioso ao casar-se com Barbare. A mulher sustentava a fama de Salão Tarbeck enquanto ele se contorcia ao imaginar mais pessoas entrando em sua casa. Seus antepassados estavam orgulhosos dela.
— Encontrar uma esposa que combine com suas pré-disposições é realmente algo raro no mundo que vivemos. Principalmente quando se trata de nossos filhos.
— Não sabia que milorde tinha filhos — o garoto não deveria ter mais de vinte e cinco anos, nenhuma esposa ou amante, tudo o que havia trazido para Salão Tarbeck fora um par de criados, amigos cavaleiros e um escudeiro aparentemente inútil. Alguns passarinhos sussurravam que Gaemon Reyne na verdade não se atraía por donzelas. Bastardos? Duvidava.
— Não tenho, embora não lamente por isso. — Gaemon empurrou uma taça em direção a Lan, mas ele recusou a bebida. Ainda não se sentia bem o suficiente para isso. — Mas preciso cuidar de meus irmãos, agora que sou responsável por eles.
— Ah, sim, tens razão. — assentiu. Havia esquecido que o jovem lorde tinha mais dois irmãos solteiros. A responsabilidade da escolha era dele. Como se esquecera disso, se havia pensado alguns minutos antes sobre o assunto? Ah, a idade estava lhe roubando a cabeça.
— Milorde — Gaemon interrompeu-se — Posso chamá-lo de senhor?
— Claro.
— Senhor Tarbeck, há alguns meses venho observando vossa família. Tens filhos admiráveis, até mesmo os pequenos. Confesso que cheguei a invejá-lo, mas percebi que a vida doméstica não é para mim. — Lann escutava-o atentamente, soava como se fosse um assunto importante que deixava Gaemon inseguro. Um homem daquele tamanho cheio de medo era algo de se admirar. — Após muitas orações e noites em claro, entendi que é vontade dos deuses que meu irmão me suceda quando partir deste mundo.
— É uma decisão importante, de fato. Imagino que tenhas a aprovação de Sua Majestade.
— Antes — Gaemon apressou-se -, pretendo assegurar a estabilidade de meu irmão antes de fazê-lo meu herdeiro. Com filhos, Ronnel não teria opiniões contrárias, desde que pudesse dar continuidade a Casa.
— Sábio.
— O Senhor é inteligente para entender aonde quero chegar — Gaemon o encarava com expectativa. — Vossa filha mais velha é donzela e está prestes a completar vinte dias de seu nome. Ron é apenas alguns anos mais novo e precisa se afastar da Corte, antes que seja absorvido por ela. Vou trazê-lo para Castamere e lá cuidarei que sua educação seja completada para exercer a função de Lorde e não apenas de segundo filho. O Príncipe Warren tem grande carinho por Ron… ele dificilmente abriria mão de seu escudeiro, a menos que ele se casasse e se mudasse com a esposa para o castelo que herdará.
— Planejas tudo isso, sem consultar a opinião de Sua Alteza ou de vosso irmão? É um plano arriscado.
— Eu não serei capaz de me casar, milorde. Não posso deixar a Casa Reyne cair em desgraça, se posso salvá-la antes.
— Que limitações o impedem de se casar? Se pedisses a mão de minha filha em casamento, alegremente lhe daria.
— E eu alegremente a aceitaria — Gaemon olhou para os lados, suas bochechas pareciam enrubescer levemente. Ele ainda era um garoto. Grande e barbado, mas um garoto. Lann sentia falta desse tempo em que pensar em Barbare de noite lhe dava voltas na barriga. — Mas, infelizmente, seria um casamento infeliz para ela. Senhor Tarbeck… — ele vacilou, seus olhos marejados. — Sou impotente.
Lann recuou, encarando-o com surpresa. Então compreendeu e assentiu, sentindo-se de repente muito aliviado. O problema fora resolvido pelo menino antes que viesse a ser público, para isso deveria elogiá-lo. Alguns homens eram mesmo desafortunados, agora compreendia a tristeza de Gaemon ao observar seus filhos. Mas não podia dividir sua dor, pois de repente a ideia de um casamento entre Lanna e Ronnel parecia muito agradável. Se o grande amigo do príncipe fosse herdeiro de Castamere e esposo de Lanna, então sua filha estaria dentro das graças de Vossa Alteza e também da Corte.
— Lamento pelo senhor, Lorde Reyne. Mas agora compreendo vosso ponto. Se for do agrado de seu irmão, tenho certeza que Lanna ficará feliz em noivar Ronnel. Eles sempre foram próximos.
Na verdade, Lanna e Ronnel eram próximos da princesa, mas provavelmente já haviam conversado. Era como se os deuses estivessem ouvindo suas preocupações. Ouviu o som de trombetas e a multidão parecia urrar de surpresa. De onde estavam, era possível ver o brasão do vitorioso ondulado no céu.
Era um leão negro.
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