Insonte
1 Capítulo Único - Insonte
Notas iniciais
1. Foi muito difícil terminar esse desafio. Não por conta do tema mas sim por tentar atribuir a ele um conceito; uma proposta. Tentei ao máximo conciliar ambos os propósitos e espero que consigam identificar isso.
2. Quem me conhece já sabe que tento ser um escritor que foge do óbvio. Acredito que na maioria das vezes acabo por falhar em relação a isso, mas persisto. Quando formulei o enredo dessa história eu procurei fugir do clichê "monstro-assustar" e acabei por investir em uma grande metáfora, tentei criar uma narrativa que sirva como uma analogia.
3. Boa leitura.
Nas tardes que se seguiam às manhãs em que Dorian contemplava o tímido alvorecer entre nuvens rasas e esparsas, moldadas pelo soprar álgido resultante das gargantas frígidas a oeste – contrastando assim com a então até ausente calidez ao cardeal oposto – obrigando-o a procurar por suas luvas surradas tricoteadas com lã e algodão, naqueles entardeceres, munia-se do desamparo e da aventura ao descer da serra a caminho do leito onde jazia o súpero descanso. A não ser pela presença daquela que despejava em sua presença o aroma do campo e a doçura do ser, nada fugira a normalidade e ao costume.
Moldava-lhe as curvas singelas, pousada sobre a baixa relva sob o que lhe era refletido no cândido olhar, cambraia em caqui já opaco, coberto somente na altura dos ombros por uma fina e delicada camada de renda em cordovan. Descia-lhe até abaixo dos
joelhos, agora expostos devido a postura que tomara ao sentar-se junto a ele: com as pernas dobradas lateralmente. Os pés descalços evidenciavam confiança meio ao terreno nada íngreme, tão pouco ameaçador. Em suas mãos sustentava uma modesta sombrinha para munir-se contra o escaldante sol vespertino – nada condizente com aquele de outrora.
Durante o esplendor de sua naturalidade, enquanto encantava sem a nada recorrer, no instante em que sua pele em porcelana destacava-se meio a luminosidade oportuna, aquela à qual lhe rosavam os lábios, Dorian sussurrava, sem ao menos si próprio discernir as palavras que lhe fugiam da boca, quem salpicara canela sobre o arrebitado nariz o qual apontava tamanha beleza.
Escapavam-lhe suspiros em preces a quem adorava.
No exercício de sua admiração, quando em seu rosto impresso estavam seus mais íntimos sentimentos, no momento em que suas mãos já não mais se incomodavam com a grama e que seus dedos, pressionados sobre a terra além da mesma, deixavam vestígios de sua presença, de ímpeto desatentou-se a moça, esta que perdia-se com o olhar entre o horizonte e o celeste do céu.
Em sua palma o ardor o despertara de um sonho bom. Esboçou em seu rosto um breve sinal de incômodo; guiou-se pela dor branda e, com a mão voltada a si mesmo, distraiu-se sem checar tal mal. Interrompeu-se ao ver-se sobre seu colo: em letras minúsculas e serifadas seu nome estampava, junto a um quadro em óleo sobre tela não terminado onde se era permitido ver somente os lábios e o olho esquerdo do que parecia ser um homem muito belo, a capa do livro o qual marcada estava uma das páginas por uma fita em cetim rosado.
Reconheceu-se em tal obra, não somente por tamanha coincidência como por também querer ver-se naquele a quem imaginara ser admirado por aquela que o esnobava em sua estonteante presença. A leda* expressão impressa na pele morena daquele cujo a feição não lhe era permitido ver por completa, a altura estava do ídolo em porcelana que deveras folheava-o aos anoiteceres, imaginando-o como seu amante; o almejado trovador.
Enganou-se ao imaginar-se como motivo de tamanhos devaneios.
Meio a brisa que os tocavam por breves momentos, periódicos abraçares do refrescar, mantinham-se em seus respectivos papéis. Na cantiga de amor posta em prática, onde em silêncio o cavaleiro tecia a mulher idealizada o amar de suas qualidades, subentendidas eram as paixões.
Acima dos mesmos pairou a sombra da macieira antes ausente.
Surpreso pelo súbito e brando escurecer, fitou o céu a procura de densas nuvens ou o chegar da noite. Por entre as folhas da árvore a qual a sombra o surpreendera se era possível ver maçãs robustas em cores fortes, iluminadas por raios que rompiam as barreiras da sombra em busca de onde pousar.
Refletida em suas íris grandes e escuras, tais como sabará* nas safras de agosto, a maior e mais bela maçã, sobre um fino galho logo além deles. Junto a ambição e ao desejo de tê-la em mãos e oferecê-la como agrado de boa vontade, estava a indagação em como poderia apanha-la tendo-a tão distante. Guiou-se sorrateiramente junto ao tronco retorcido, este que em outros tempos flertava com as ventanias e temporais, procurando não alertar aquela a quem surpreender esperava. Tateou em busca de apoio por onde subir, deparando-se com a ausência de qualquer facilidade. Tentou alcança-la na ignorância sobre suas possibilidades, vendo-a inalcançável por entre os dedos.
Persistente, em sua impaciência deu continuidade ao almejo. Inconsciente sobre suas limitações – não a alcançaria – protagonizava uma clara analogia sobre a inocência e a paixão. Interrompeu-se sob a fruta e encarou-a com audácia. Flexionou as pernas e impulsionou-se em um pulo descoordenado.
Caiu sobre o próprio peso em desequilíbrio com as mãos ainda vazias.
Perpendicular ao desastre daquele que agora buscava o equilíbrio, a atenção daquela que permanecia a parte de qualquer ação até então fora tomada pela presença do antes não notado. Olhou-o espantada e exclamou por entre os molhados lábios o sobressalto que sentira. O livro que antes mantinha sobre as pernas lhe escapou do colo e caiu meio a grama, sujando poucas páginas amareladas, perdendo sua demarcação — o cetim que indicava por onde antes interrompera a leitura escapou das páginas as quais pousado estava. A sombrinha fugiu de suas mãos forradas por delicadas luvas de renda branca – as quais abafaram seu vociferar*. Jogada ao acaso, o objeto terminou por prender-se no galho o qual sustentava o fruto; o impacto acabou por chacoalha-lo e, por consequência, se deu a queda da maçã sobre a moleira daquele a quem lhe buscava.
Inerte, com os olhos arregalados a bela dama pôde ver o descer do fruto pelo desnível e o parar do mesmo próximo as águas do rio abaixo. Também notou o imediato despertar daquele que fora atingido e o levantar do mesmo à procura do entendimento sobre o que acabara de acontecer. Apoiou-se sobre os joelhos e levantou-se com a ajuda das mãos. Olhou-a por um breve instante, tendo visto em seu rosto impressa a comoção por ter perdido tão bela maçã – imaginou. Íntegro sobre suas pernas, encarou o horizonte e fitou o leito abaixo de si.
Correu em direção ao curso d’água e acabou por rolar sobre a grama ao tropeçar em sua trajetória.
Terminou por mergulhar nas límpidas águas doces da rasa margem.
Apalpou o solo alagado e logo encontrou o fruto que lhe preencheu por completo as mãos. Admirou-o já fora d’água e pouco se importou sobre estar encharcado. Inflou o peito em sinal de vitória e contentamento. Esboçou um sorriso orgulhoso antes de não a ver próxima a macieira – tão pouco em qualquer outro lugar até onde poderia sua vista alcançar.
Junto aos frutos abandonou sua sombrinha, que figurava como um pássaro intruso fora de época.
De suas mãos escorregou a maçã já sem qualquer propósito.
Pouco tardou até que a calmaria das águas retornasse ao redor de quem agora estático permanecia.
Inclinou a cabeça em desalento. Com os olhos fechados degustou a frustração e o desamparo.
Abriu-os e, antes de poder sentir os pés profundarem no solo submerso ou se incomodar com o soprar frio em seu rosto molhado, espantou-se com o que vira refletido um pouco acima do pomo deixado sob a superfície.
Em nada lembrava a arte a qual se reconheceu.
Antagonizava a beleza que julgou ter junto ao nome em comum. Contrastava com aquela a quem admirou por longo tempo, esta que o abandonara ao notar sua terrível presença. Desfigurado era em relação a qualquer parâmetro. De orelhas grandes e fino nariz, tinha os lábios rasgados. Os olhos grandes e pavorosos olhavam surpresos a si mesmo, alarmados. Toda a sua pele – grossa e clara nas palmas das mãos – era coberta por compridos fios escuros e malcheirosos, como julgava ser. De rosto flácido e abdômen protuberante, encarnava uma figura horrenda e nada admirável.
Ao ver-se frente aquilo que nunca se atentou ser, entendeu não ser a maçã o motivo de tamanha surpresa daquela a quem admirava. Enfraqueceram-se suas pernas e, para não perder o equilíbrio, dois passos deu para trás. Fugiu ao encare de seu reflexo e de sua aparência.
Seguiu até onde o chão já era seco, no lugar em que a grama começava a crescer como as demais. Aonde não mais poderia se decepcionar com tamanha surpresa.
Escalou por onde antes escorregara e sentou-se no lugar em que outrora nada perturbava a tranquilidade de tão linda senhorita ou a estima do horrendo ser.
Próximo a ele figurava ainda aberto o livro abandonado por sua leitora em desespero. Pegou-o com cuidado para não lhe amassar as páginas, fechando-o para admirar sua capa. Virou-o e pôde ver ao ser verso uma breve descrição do romance – o belo homem representado no quadro tivera suas emoções e sentimentos preso à obra, perdendo assim a sua humanidade. Era como uma grande crítica aos valores e importâncias atribuídos a bela aparência.
Virou-o novamente e o abriu em sua primeira página. Com dificuldade começou a ler as primeiras palavras e logo passou a compreender breves frases. Em poucos momentos perdera-se na imaginação e, como boa criança a que tudo esquece, não tardou para que as ondas do entretenimento obliterassem as areias de suas memórias.
Enquanto o sol enfraquecia-se no decorrer de sua trajetória, quando completava seu ciclo e em breve cedesse lugar para que a lua pudesse trazer consigo o descanso e o fechar dos olhos, no momento em que os pássaros começassem a deixar seus cantos e a procurar seus ninhos para se esconder por entre as assas, Dorian não mais queria se ver naquele amado por Basil e aprisionado na eterna beleza de sua pintura. Pelo contrário, queria manter-se sob as emoções e sentimentos os quais lhe atribuíam vivacidade.
E por ali ficou durante a noite, regido sob a luz das estrelas, a espera daquela que em breve buscaria o que esquecera.
Imaginava insonte.
Fale com o autor