Insonia

3 Capítulo 3


Merda. Merda, agora vou ter que ir até o meu quarto nesse breu! E esbravejando sozinho, ele começou a andar no corredor, tateando a parede. Teria que confiar nos outros sentidos que não fosse a visão, e automaticamente, seu tato ficou um pouco mais aguçado. O tapete que forrava o chão( que anteriormente não passava de um simples adorno pra acumular pó) era de um tecido tão macio e volumoso que parecia que andava em uma grande espuma. A parede a qual ele tateava tinha micro pontos, falhas que o pintor esquecera de corrigir e que sentia-os agora, ao passo que uma brisa passava por ele vinda do seu quarto.

Você tá quase chegando lá Daniel! disse para si mesmo. Disse?

Escutou o ronco de Jhon vindo do quarto, mas ele não via nem a porta do quarto do garoto. E nem a janela do quarto irradiava uma luz sequer, porque a grossa cortina branca( eu acho que era branca), estava vedando a mesma. Só faltava mais uns cinco passos.

Cinco

Assim que eu chegar no quarto eu pulo na cama e tento dormir

Quatro

Espero que Cíntia não esteja atravessada na cama, senão vou ter que acordá-la e ela vai ficar uma fera

Três

Ai caralho, bati minha canela nesse maldito vaso de planta. Parou. Deu uma puxada forte de ar na esperança de que a dor passasse um pouco e continuou

Dois

Esse negócio vai amanhecer inchado, pode apostar! Ainda bem que eu tenho uma pomada pra aliviar esse tipo de contusão. Aonde que eu coloquei ela mesmo....

E então parou. Sentiu que algo passara por ele e dessa vez não fora uma brisa. Parecia alguém, pois deu pra sentir um certo calor irradiando.

— Quem está aí? Formulou em pensamento a pergunta, mas não houve resposta.

Virou-se para trás no corredor escuro, na tentativa de enxergar algo. Mas naquele breu, nada poderia ser visto. Apenas sentido.

Num movimento rápido, ele voltou para a porta de seu quarto e dando os dois últimos passos pra adentrar nele...KABUM!

Bateu a cara na porta que estava fechada , levando imediatamente a mão no rosto. Sentiu que um liquido descia quente do nariz, grosso e consistente. – Ah mas que droga Daniel! bradou consigo mesmo, na tentativa de afastar aquele sentimento ruim que havia passado por ele segundos atrás. Tateou a porta procurando pela maçaneta que estava ali do lado direito da porta, redonda e estática. Encontrou. Rogou aos céus que estivesse destrancada e...Clic! A porta estava trancada.

Forçou na ânsia de que ela abriria na força bruta e a maçaneta não rodou. Nem sequer um milímetro pra frente.

– O que foi Daniel, parece que a porta não quer abrir! E dessa vez ele escutou a voz. Não era de Cintia ou dos garotos. Era uma voz estranha, filtrada, como que distorcida por algum aparelho de áudio, que eles usavam em cinema pra disfarçar as vozes dos atores.

- Quem está aí? Sua mão forçava insistente a maçaneta, e a mesma protestava imóvel em seu lugar. Um fio de suor começou a descer por sua testa que estava repleta de pingos grossos pendurados nela. Não havia até agora. Não estava fazendo calor.

- Ora Daniel, não sabe quem sou eu? Uma risada ecoou pelo corredor. Macabra. Impiedosa. Cadê as luzes hein? Por que você está suando, seu porco!

E nesse momento ele sentiu uma onda de calor chegar na sua frente. Ficou a pouco centímetros do seu rosto, olhando pra ele, rindo. Dava para sentir o calor da risada.

- Saia de perto de mim, implorou ele, agachando rente a porta do quarto, pedindo desesperadamente em pensamento para que aquela maldita porta de madeira abrisse. Balançava os braços para todos os lados, com a intenção de afastar aquele ser (ou sabe-se lá o que era aquilo) de perto dele.

Seu corpo começou a bater na porta, tentando literalmente trespassá-la, fugir daquilo para um lugar protegido de tal presença. Ele sentiu que o tapete que até então estava sob seus pés, não se encontrava mais ali. Dera lugar ao chão de cimento grosso e frio. Mas a sua casa era quase toda de carpete de madeira!

— Está com medo de mim né seu porco! E novamente a risada tomou conta do corredor. Sua testa agora parecia um cascata de suor, descendo o liquido salgado constante, causando ardência nos seus olhos. Mas você não é o todo-poderoso? O chefe de família? O inabalável?

— Saia de perto de mim pelo amor de Deus! Foi uma súplica que saiu de sua boca, e as mãos foram em direção aos olhos, tirando o suor de todo o rosto. Saia. Saia...saiaaa!

Abriu os olhos, e o que viu o deixou pasmo. O corredor estava ali, intacto, forrado com o carpete de madeira e tapete de veludo no chão. As luzes dos quartos dos meninos estavam respectivamente em seus lugares e a porta de seu quarto fechada. Levantou-se do chão limpo, e girando a maçaneta, ouviu o ranger da porta abrindo para o quarto onde sua mulher estava deitada na cama, dormindo profundamente. Ele tinha delirado. Era isso, um delírio da minha cabeça.

Correu para o banheiro para lavar o rosto molhado de suor, e acendendo a luz, abriu instantaneamente a torneira da pia branca, fazendo uma concha com as duas mãos levando a água para lavar o rosto. Fechou os olhos e sentiu o liquido frio tocar e escorrer novamente para a pia. Manteve-os fechados por dez segundos, e com eles ainda fechados girou a torneira novamente para a posição inicial. Puxou a toalha de rosto que ficava logo a cima do lado direito da pia e secou o rosto. Tinha medo de tirá-la e ver tudo escuro novamente. Aquela voz filtrada, gutural, zombando dele novamente. Mas tinha que lutar, enfrentar o que estivesse ali.

Tirou lentamente a toalha do rosto e, levantando a cabeça da pia, deparou com sua própria imagem no espelho. E se espantou com o que viu.