Insonia
13 Capítulo 13
Notas iniciais
" Não fomos colocados nessa terra para sofrer e chorar,
Fomos feitos para ser felizes, então seja feliz,
Por você
Por mim
Por favor."
Letra da música, Letter from de Lost Days, tema de Silent Hill 3.
- O que você está fazendo aqui Lucas? Sua voz saiu longe, sem forças.
- Eu é que pergunto Daniel, o que você está fazendo segurando o Jhon desse jeito? Disse rispidamente.
Daniel voltou seus olhos para Jhon e percebe que o segurava pelos ombros fortemente. Não tinha notado a força que estava empregando, muito menos a posição à qual segurava o filho. Pensou em tê-lo envolto com o corpo, para protegê-lo do monstro anteriormente. Largou o filho na cama, e ele se encontrava inconsciente, colocando calmamente no leito. Virou-se novamente para Lucas, e viu preocupação nos olhos do filho.
- Ele estava acordado agora a pouco, e pediu pelo meu colo. – mentiu.
- Certo. Bom espero que ele melhore. – Deu a volta pelo outro lado da cama,e passou a mão pela testa do irmãozinho. De todos que conviviam com ele em casa, Jhon era o que ele mais gostava em segundo plano, depois de sua mãe claro. Era um garoto que tinha lá suas manhas, mas era inocente e afável, diferentemente dele. – Gosto demais desse garoto, disse dando um leve sorriso.
- E eu gosto demais de vocês dois meu filho. – E nesse momento, Daniel deixou aflorar seus sentimentos. Não se importou com o que aconteceu logo de manhã com os dois no café; nem se importava com a ligação da diretora da escola dele; ali, naquele momento, o que Daniel mais desejava, era ter os dois filhos presentes, e principalmente, ter Lucas ao seu lado.
- Será mesmo Daniel? De verdade, do fundo do seu coração, você realmente nos ama? Você me ama, pai? E por mais que ele usasse de seu cinismo ácido, suas indagações eram sinceras.
Daniel se levantou, e a passos lentos, foi dando a volta na cama de Jhon. Tentou manter uma certa distancia, afim de não espantar Lucas. Sabia que o filho era arredio, e não gostava de ser pressionado ao canto da parede. Igual a ele.
- Escute Lucas, e sua voz era firme agora – o que venho propor a você é algo verdadeiro. Eu sempre amei você e seu irmão. Claro que é à minha maneira, meio turrão as vezes.
- Compreendo, disse sem tirar os olhos do irmão.
- Quero pedir a você, que acabemos de vez com essa guerra entre ambos os lados. Veja o quanto sua mãe sofre com isso! Olhou para ele, e viu que ele se virou pra encará-lo. A expressão de Lucas era de leve surpresa.
Ele se levantou do lado de Jhon,e frente a frente com Daniel lhe perguntou:
- Você me aceita como eu sou Daniel? Com eu realmente sou? Apontava o polegar direito para o próprio peito.
- Ora filho mas é claro! Teve vontade de erguer os braços, na esperança de dar um abraço nele. Queria desesperadamente ser compreendido pelo filho, ainda mais na condição em que se encontrava. Talvez suas visões se amenizassem com o perdão do filho. Afinal, não fora isso que o monstro tinha falado para ele? Que teria que limpar de sua mente, todo e qualquer assunto mal resolvido em sua vida? – Você é meu filho Lucas, e me sinto no dever de pai de tentar compreendê-lo.
- Então porquê você me deixa de lado? Sempre criticou sobre o meu modo de vestir, de me comportar! Até mesmo fazia piadas sobre a cor do meu cabelo. – Seu tom estava elevando, tornando-se fúria.
- Meu filho, eu nunca te deixei de lado. Você é que se afasta de mim. Quantas vezes eu já te chamei para sairmos juntos, em família e você sempre se esquivou, inventando algo pra fazer! E claro, eu acho estranho mesmo você com aqueles cabelos multicoloridos, mas não vai me matar de vê-lo assim. – Tentou se aproximar do filho, mas este deu um passo para trás. – Melhor manter uma certa distância, pelo menos por enquanto, pensou.
- Tudo bem Daniel, eu posso até compreender em certo ponto o que você está propondo, disse dando a volta pelo pai, indo em direção à porta do quarto.
- Então filho, — e sua voz era um apelo agora – você me perdoa por ter te deixado de lado? Por ter sido ausente com você? Levantou novamente os braços em direção ao filho, forçando uma nova aproximação e possível abraço paternal.
Lucas olhou para ele, e nunca tinha visto tanta fragilidade vinda de seu pai. A figura que criara dele, era do homem duro e cruel, tanto com sua família, quanto com seus funcionários no trabalho. Havia semelhança entre eles, muitas na verdade, mas essa que ele apresentava agora, era definitivamente nova. Cheirava a dissimulação. Levantou a mão direita, num gesto de cavalheiros e por fim disse:
- Temos uma trégua, pelo menos por enquanto. – Seu tom agora era de um homem formado, vigoroso – Vamos ver a partir de hoje, o que faremos em relação a nós dois, e como criaremos soluções para resolvermos nossas brigas. Eu dou minha palavra de homem.
Não vendo escolha, Daniel apertou a mão de Lucas, e sentiu que estava fechando um negócio com o próprio filho. Não queria que seu relacionamento chegasse a esse ponto com ele, mas era melhor do que continuar com as brigas dentro de casa.
- Tudo bem então filho, eu aceito sua trégua. – Sentiu que o aperto foi forte, de um homem que não brinca com o que diz – Mas tenho uma condição para lhe impor, e espero que você a aceite de bom grado.
- Faça-a.
- Gostaria que você não me chamasse mais de Daniel. Se puder, me chame de pai, como eu te chamo de filho.
Lucas deu um leve sorriso para ele, e abaixou a cabeça em seguida. – Eu vou pensar nisso Daniel...quer dizer, pai.
Nesse momento, entrava pela porta do quarto, Cíntia com o doutor Antônio. Estava bem mais tranqüila, pelo que pôde ver, e viu que ela estava surpresa em ver o Lucas ali no quarto.
- Lucas, você está bem? E abriu os braços, abraçando-o. Daniel olhou para os dois, e teve ciúmes ao ver o quanto Lucas se entregava para ela.
- Estou sim mãe. E o Jhon, como anda?
- Ah meu filho, ele entrou em choque na escola depois de ter visto um amiguinho dele se acidentar. – Ela relatava os fatos para ele com a voz embargada e fraca.
- Mas o doutor Antônio aqui, disse para mim e para o seu pai, que não é bom, pelo menos por algum tempo, que o Jhon sofra de estresse dentro de casa principalmente, pois ele acha que o que pode ter acontecido, foi acumulo de sentimentos e reações que ele não conseguiu dominar.
- Entendo. – Disse olhando seriamente para a mãe e o médico.
Jhon estava gemendo na cama, e logo despertou, queixando pelo pai.
- Fala meu filhão, como é que você está hein? Disse abrindo um largo sorriso.
- Minha cabeça tá doendo um pouco papai, reclamou ele. – Olhou em volta, e viu sua mãe vindo em sua direção, com Lucas e um senhor de cabelos brancos e roupa branca ao lado dele.
- Ah mas isso vai passar filho, disse Daniel. Daqui pouco vamos embora pra casa.
- o que aconteceu comigo? Cadê o Adriano?
- Bom filho – dessa vez foi Cíntia quem tomou a dianteira – o Adriano teve um acidente na escola, e agora ele está aqui no hospital, para ser tratado também, assim como você.
- E eu posso ver ele? Disse sentando-se na cama.
- Creio que por enquanto não Jhonatan, disse o médico se aproximando deles. – O Adriano, está em uma sala de cirurgia agora, e os médicos estão fechando o machucado dele. Acho que amanhã, ele poderá receber visitas, daí você vem com seus pais pra vê-lo, ok?
- Tudo bem então, balançou a cabeça positivamente.
- Cíntia e Daniel, eu gostaria que vocês pensassem sobre o assunto da terapia em família. Caso queiram, eu vou deixar o telefone de uns amigos meus para vocês entrarem em contato para marcar uma consulta. – Colocou o estetoscópio nos ouvidos, e sentando-se ao lado de Jhon, colocou este no peito do menino. – Hum, parece que o senhor está bem agora. Daqui meia hora já pode ir embora para casa, o que acha!
- Oba! E deu um sorriso, que somente ele era capaz de dar em qualquer adversidade.
Todos sorriram, e até Lucas deu um leve sorriso para o irmão, que retribuiu. Pediu para que Lucas se aconchegasse na cama junto com a mãe e o pai, e ele se sentou aos pés da cama. Daniel viu, pelo menos por segundos, que sua família poderia ser feliz. Não havia brigas, decepções, mágoas. Parecia que aquele quarto, encerrava um canto do paraíso, meio esquisito claro, mas a felicidade estava estampada em todos os que ele mais amava.
Logo Daniel fez ligações para sua secretária desmarcando seus compromissos, que eram poucos para aquele dia, por causa do estado de saúde do filho. Agradeceu aos céus, por ter fechado aquele contrato com a Ivision na parte da manhã. Passada a meia hora, Jhon, Cíntia e Daniel saiam do hospital em direção para casa. Lucas não podia ir, porque tinha um ensaio com a banda, e chegaria em casa somente à tarde. O resto da tarde passou tranqüilo, e a noite chegou, e Daniel, pela primeira vez em sua vida, teve medo dela.
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