Insonia
7 Capítulo 7
O dia não começara bem para Daniel; primeiro, aqueles pesadelos medonhos que o atormentara a noite toda; segundo, a briga com Lucas no café da manhã; e terceiro, os cortes no braço. Realmente o dia começou com ele “ pisando com os dois pés esquerdos!”.
Vestira a camisa e o paletó apressadamente, e se enfiou no carro para ir pro trabalho. Quase esquecera de deixar o dinheiro para Carla, a empregada da casa, fazer a feira da semana( se ele esquecesse de deixar o dinheiro, Cíntia com certeza iria esquartejá-lo quando chegasse em casa). Saiu da garagem, e quase provocou um acidente com outro carro que passava na rua. Chegou no trabalho com cinco minutos de atraso, e nem reparou na fila de carros que estavam na frente do prédio da empresa. Eram os empresários que chegaram para ver a quantas ia os projetos que eles haviam solicitado para Daniel e sua equipe.
Chegou no andar dos projetos, o qual ele chefiava, e lá estava um tumulto como a ante-sala do inferno, com projetistas carregando portfólios pra lá e pra cá, secretárias correndo com pastas e anotações para suas mesas; até o pessoal da limpeza estavam apressados, higienizando tudo tão rapidamente que deixou Daniel surpreso. Quando viram ele entrar, os projetistas correram na direção dele como fiéis correm atrás de seus guias espirituais, procurando solução para seus problemas.
- Daniel, finalizamos os três projetos que a empresa de higiene pessoal havia pedido, disse afoito Roberto, um grande projetista gráfico que trabalhava na empresa há cinco anos. Um homem alto, branco, com olhos pretos com algumas remelas no canto( de certo pelo pouco tempo que dormia), calça jeans desbotada pelo tempo e por várias lavadas, camisa azul-clara, e mãos tão grandes que pareciam luvas de pegadores de beisebol.
- Excelente Roberto- disse pegando a pasta das mãos dele, e enquanto dava uma última olhadela nos projetos perguntou: — E quanto ao projeto sobre as televisões 3D? Olhou para Roberto com preocupação. Eles tinham ficado até mais tarde na noite anterior dando os últimos retoques nas imagens. Tudo tinha que sair perfeito, pois os donos da empresa estavam ansiosos para verem o que eles, os magos da visão dos outdoors e comerciais poderiam fazer para alavancar a venda do produto. Viu que Roberto estava inquieto, e o chamou para ir à sua sala.
No fundo do andar de projetos, uma sala de porte médio servia como escritório para Daniel, que passava a maior parte do tempo dentro dela, desenhando novas criações, e avaliando as que os funcionários levavam para ele dar seu veredicto. Dentro, apenas uma mesa ampla, sua cadeira, mais duas para os clientes e funcionários se sentarem, um computador sobre a mesma; do lado direito um vazo com uma triste Bromélia que há dois dias não via água, e uma ampla janela semi-aberta. Do lado esquerdo, sua velha prancheta de desenhos apoiada em um tripé.
- Bem vamos direto ao assunto Roberto.- seus olhos analisavam as expressões no rosto do homem sentado a sua frente. Percebeu que um fio de suor descia discreto do lado direito no rosto do homem.- O projeto das televisões está pronto?
A mente de Roberto foi arremessada há alguns anos atrás, quando ele entrara no seleto grupo dos projetistas da Visual Graphics Ltda. Era um recém formado, sem experiência alguma na área de Design Gráfico( não comprovada, pois desde que se conhecia por viciado em computadores, criava projetos pequenos e sem interesse público) e seu maior desejo era trabalhar para Daniel. Ele acompanhava os trabalhos dele desde o começo da faculdade, e foi a todas as palestras que ele ministrava sobre Design Gráfico. Admirava o grande Designer, até que mudou um pouco sua concepção da “ pessoa” Daniel. Autoritário, frio, analista, as vezes jogava baixo com seus concorrentes, descobrindo informações confidenciais sobre projetos que seriam lançados, tomando a dianteira e levando orçamentos para os clientes a preços mais baixos. Achava aquilo um absurdo no começo, mas com o tempo viu que, para sobreviver no mercado era preciso ser esperto. Nunca mais esqueceria aquela lição.
- Bom Daniel, finalizei pessoalmente as três imagens que vamos apresentar para a pessoal, disse arrumando nervosamente os óculos no rosto branco.
- Muito bom, mas acho que você tem mais alguma coisa para me dizer Roberto.- Novamente a impressão de ter a mente aviltada. Como ele sabia o que acontecia com as pessoas?
- Bom Daniel- tinha intimidade pra falar assim com ele, desde que se tornara o braço direito do chefe há seis meses- assim que finalizei as imagens, me veio à mente uma imagem que poderia ser usada no projeto. Daí eu anexei ela ao projeto final, que está guardada na pasta de finalizados no seu computador. Se lhe interessar, ficarei feliz em vê-la no projeto, disse dando um sorriso no canto da boca.
Imediatamente, Daniel desviou sua atenção para o computador na sua frente, e abrindo a pasta, ele disse sem mudar sua expressão ou olhar para Roberto: — Tudo bem Roberto,eu vou dar uma olhada. Pode se retirar agora.- E vendo o rapaz chegar à porta cabisbaixo, deu mais uma ordem.- Quero você aqui as onze horas, para a reunião com os clientes na sala de apresentações ok! Agora pode ir.
“ Cara filho da puta” disse em pensamento saindo da sala. Como após seis meses sendo o braço direito dele, não tinha o respeito merecido de todo colega de trabalho? Já provara várias vezes a sua eficiência na área( era um dos melhores,e também uma promessa para a sucessão de Daniel na chefia), e mesmo assim Daniel o tratava com indiferença, como tratava um funcionário da limpeza! – Esse desgraçado ainda vai ser dar mal algum dia desses- pensou enquanto se desviava das pessoas no corredor indo para sua mesa de projetos- e no dia que isso acontecer, tomara que eu esteja vivo pra ver ele se ajoelhar nos meus pés e implorar pra que eu o salve, e sem se preocupar com quem estava ao seu lado, ele deu uma gargalhada sinistra.
Em sua sala morbidamente branca e de piso sintético cinza, Daniel olhava admirado as imagens finalizadas do comercial das TVs de 3D. Nem ele mesmo acreditava que fora ele e Roberto que criaram tais cenas para compor os folders e outdoors que iriam encantar as pessoas e induzi-las a comprar tais objetos de desejo. – Perfeito como sempre, disse orgulhoso enquanto passava as imagens uma a uma, e parou quando viu mais três imagens. Não se lembrava delas. – Devem ser as imagens que Roberto criou e deixou salvas para que eu desse uma olhada, disse consigo. As imagens eram impactantes, fortes.
- Posso usar uma delas para o comercial e guardar essas aqui, falou enquanto anexava a que ele mais gostara. As outras duas, bem: uma ele descartou porque mesmo sendo boa, ele não poderia dar ao luxo de colocar mais da metade do trabalho aos louros para Roberto. – Ele é jovem e se os clientes aprovarem as imagens dele, não demora, e ele vai se sentir “O cara”, pensou dando uma risadinha baixa. A outra, ele guardou em seu email, pois algo o intrigou ao vê-la. Não sabia dizer ao certo o que chamava a atenção, mas era melhor guardá-la, pelo menos por enquanto.
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