Insonia

6 Capítulo 6


- Mas porque você não vai com a gente Lucas? A expressão no rosto de Daniel era de consternação. O filho adorava fazer isso com ele, jogar um balde d’água fria nas suas costas. – Tenho certeza de que você vai gostar de lá. É um hotel maravilhoso que estou reservando, com piscina, quadra de esportes, área verde. Tem até instrutores de esportes radicais, daí você poderia praticar algum lá. O que você acha?

Daniel se esforçava ao máximo na esperança de que Lucas cedesse, pelo menos dessa vez, em um bem comum que era estreitar os laços afetivos. Há alguns anos que eles não tem uma conversa franca, desde que brigaram certa noite na casa. Lucas questionou do porque Daniel sempre colocava o trabalho em primeiro lugar, até mesmo na frente de sua família. O que recebera de resposta do pai fora: — Faço isso para que vocês não precisem passar falta de nada. – disse secamente, sem nem mesmo levantar os olhos da prancheta onde ele criava seus projetos.- Se você soubesse o que eu passo no meu trabalho para trazer a vocês, todo esse conforto, você me agradeceria de joelhos Lucas, e também daria valor no que eu dou pra você. Os olhos de Lucas se incendiaram de ódio pelas palavras do pai, e um suco ácido veio até a boca, queimando seu esôfago. Mas ele lutou bravamente contra o seu ódio, e o líquido voltou forçadamente para o estômago. Ele dei um sorriso sarcástico para o pai, e disse retrucando: — Se for por causa de mim, ou da mamãe e o Jhon, que você se mata tanto no trabalho senhor Daniel, — sua voz agora era puro cinismo- é melhor você não se desgastar tanto. Só queremos o velho Daniel de antes, aquele que ficava sentado até tarde da noite vendo televisão com a gente no sofá; o que brincava na piscina, nos jogando pra cima; que andava de bicicleta na rua. Era esse Daniel que queríamos de volta, não esse tão autoritário e ditador, que pensa que somos funcionários de escritório lutando por seus empregos.

Ele deu as costas, deixando o pai falar seus impropérios sozinho, queixando com as paredes. Foi para o quarto e trancou a porta, e desse dia em diante nunca mais falara com o pai intimamente. Aliás, falava com ele somente o necessário. Olhou para o filho que terminava de tomar o suco, colocando o copo sobre a mesa, e limpando a boca com o guardanapo, respondeu com indiferença:

- Eu tenho uma apresentação com a banda no fim de semana, e como sou o baixista, sou indispensável para eles, -disse levantando-se da mesa- Portanto, desejo-lhes um bom fim de semana! Disse por fim.

Ele não iria aceitar aquilo como desculpa. Uma veia começava a aparecer do lado direito da testa de Daniel, provando que a raiva o consumia por dentro. Um a zero para Lucas. Deu um tapa na mesa com a mão direita aberta, ecoando por toda a cozinha.

- Você vai conosco para o hotel no fim de semana Lucas, e não admito que você não vá! Seus olhos tremiam nas órbitas descontroladamente agora, as mão suavam profusas e o coração batia descontrolado querendo sair pra fora do peito.- Arrume suas coisas porque você vai, ou por bem, ou por mal.

Lucas, que estava quase passando pela porta da cozinha indo para o quarto pegar sua mochila, respondeu para o pai, enquanto girava para encará-lo: — Se o senhor acha que eu vou dizer “ Amém” a tudo o que ditar...- ele parou abruptamente quando olhou para o braço do pai. – Seu braço está sangrando Daniel, olhou atentamente para o machucado. Eram dois cortes perfeitos, seguindo paralelos abaixo do cotovelo até quase chegar no punho. Sangrava em grande quantidade.

- É melhor colocar algum curativo, antes que desmaie aqui na cozinha, disse com a expressão fria e dura, olhos cinzentos, sem vida.E mãe – voltou-se para ela- estou te esperando lá fora, no carro. E se retirou da cozinha, não se preocupando com o estado do pai.

- Ah meu Deus Daniel, onde foi que você se machucou querido? E Cíntia deu um pulo de sua cadeira indo em direção ao marido, que apertava o braço machucado. Pegou um pano que estava sobre a bancada de granito e levou ao braço, estancando o sangue.

- Eu não me lembro Cíntia, mentiu para ela.- Ele sabia de onde machucara. Foi o gato morto-vivo que fizera aquilo na noite passada. Mas isso não vinha ao caso agora, precisava tranqüilizar Cíntia, que apertava seu braço furiosamente.

- Acalme-se querida está tudo bem. Eu devo ter me machucado com o barbeador, disse tirando a mão da mulher do pano meio vermelho com o sangue.- Está tudo bem, eu vou passar um anti-séptico que tem lá no banheiro. E você vai levar os meninos agora para a escola está bem! Disse dando um sorriso tranqüilizador para ela.

- Tá bom querido, eu vou levá-los agora. Afinal eles já estão atrasados. – disse levantando do lado dele. – Você vai ficar bem né querido? Perguntou, querendo ouvir de resposta dele um, “ não querida, eu não vou conseguir lavar esse enorme machucado e passar um anti-séptico no meu braço.”

- Eu já estou bem querida. Agora vai lá levar os meninos. A noite nos falamos ok!

Ela saiu da cozinha, e ele quase imediatamente foi atrás dela. Ele subiu as escadas e foi lavar o machucado e passar o anti-séptico, e aproveitou para colocar uns band-aids também. Ela, foi para o carro, preocupada com o marido, com aqueles cortes imensos nos braços. Achou estranho aquilo. Daniel raramente se machucava barbeando, ainda mais com cortes daquele tamanho! Soava como um absurdo.

- Vamos garotos, vocês já estão atrasados, disse enquanto abria a porta do carro. – E quanto a você Lucas, teremos uma conversa em casa na volta da aula, disse severa.