Insistente
1 Feições
Aquilo estava se tornando cada dia mais uma piada de péssimo gosto. Não era engraçada ainda, no entanto. Apenas de péssimo gosto. A insistência no que não dava frutos era ridícula, mas Leorio era um homem teimoso. Era um homem teimoso com um telefone na mão que só sabia, pobre, ligar para um único número. Estavam fazendo uns dias indecisos na cidade em que ele estava estudando. Cinzas de dia, e gélidos à noite. Um apartamento pequeno o impedia de se sentir só, era verdade, ele sempre apreciara a própria companhia. E tinha muito trabalho a ser feito, muitos livros esperando sua atenção.
Mas sempre havia uma fenda no tempo para a ligação que ele insistia em fazer e para a mensagem que insistia em mandar. E depois desligar o celular, porque ele preferia aquilo a esperar o que não viria.
Como você está?
Está vivo, não é? É bom que esteja. Não fazendo coisas como aquilo em York Shin. Aquilo me assustou.
Toda essa chuva aqui me irrita muito. Chove demais aí onde você está também?
Kurapika, deixa de ser um idiota e atenda o telefone. Ou me avise se não quiser mais falar comigo.
Um suspiro seco seguia toda vez que tocava em "Enviar".
Um dia em, que estava muito frio, Leorio não conseguiu continuar estudando, e foi dormir com um bolo enorme na garganta. Podia muito bem ser algo que nunca viria mesmo. Kurapika deve ter trocado seu número. Ido para outro país. Sido capturado. Pisado em falso.
Ao pensamento disso e de que talvez, ele nunca ficasse sabendo do paradeiro do loiro, ele tomou uma dose de uísque e dormiu de cara feia, o celular enterrado no meio de cadernos, em modo silencioso. Anos haviam se passado.
Anos haviam se passado e ele não tirava as feições melancólicas e femininas de Kurapika de sua mente, embora elas insistissem em borrar de vez em quando e criar dúvida. Mas alguns detalhes eram importantes e permaneciam: o castanho indeciso, acinzentado dos olhos dele; o jeito que seus lábios sempre ficavam um pouco abertos; como ficava atraente quando por qualquer motivo seu cabelo loiro se despenteava. Ás vezes Leorio fazia de propósito. Ele de vez em quando queria que Kurapika aparecesse naquele apartamento pequeno, só pra despentear suas mechas, saber que ele está vivo e se possível fazê-lo sorrir — sinceramente. Ouvir um pouco a voz acastanhada dele e irritá-lo só pra ouvir falando, "Leorio!", repreensivo.
E ainda se possível, abraçá-lo, porque parando para pensar, Leorio nunca havia feito isso. Era uma vontade constante. Muitas vezes tinha acordado exaurido, suado e com os pensamentos em branco, por ver o loiro em seus sonhos e por ter imaginado, nesses sonhos, como devia ser tê-lo perto que nem ele queria. Leorio não percebeu em que momento passou a se sentir dessa maneira por Kurapika, mas era inegável que havia acontecido, um fato. Contra si mesmo ele não costumava argumentar.
Contra o sono que o álcool proporcionava ele não lutou, e foi dormir esperando o Kuruta aparecer em seus sonhos, com uma expressão leve.
Leorio avançava a passos largos pelo corredor da universidade, vendo o pátio esbranquiçado de neve por entre os arcos. A paisagem dormindo sob o frio e ele a passos largos, bufando por debaixo do cachecol, os livros pesados pulando na bolsa e as anotações já amassadas na mão. Faltava menos de um minuto para se iniciar a aula prática e ele dormira demais. Não sonhou com Kurapika. Só teve dor de cabeça.
Quando estava entrando no prédio onde aconteceria a aula, o celular, esquecido no bolso mais fundo da pasta, parecia vibrar. Poderia ser um colega, então não atendeu por enquanto. Não era necessário.
O celular insistiu — já era a terceira ligação. Ele já estava quase na sala; para quê ligar tanto?
Até que um raio de ansiedade o atingiu em cheio, fazendo-o parar no meio do corredor e escavar a pasta, entortando cadernos, enfiando anotações de volta, tirando todas as coisas como se só aquilo importasse.
Quando atendeu não olhou nem quem estava ligando de verdade; ele só precisava atender. E nada mais.
Leorio,
estou na cidade de Atenboro, silêncio cheio do barulho de rua.
você estuda em algum lugar aqui, certo? Eu não queria... incomodar. Mas se quiser conversar, estarei aqui por um breve período.
— K-Kurapika!— ele berrou, cheio de uma felicidade que tinha gosto estranho, afinal, ele se irritou.
E perguntou imperativamente, fechando os olhos. Mordendo o lábio porque estava com a garganta entalada de novo, como um bobo. No meio do corredor. Com a bolsa aberta. Atrasado.
— Por que você não... ligou antes? — soprou, bem mais calmamente do que achou que fosse capaz.
— Eu não tinha certeza se viria mesmo — ele murmurou do outro lado, calmo.
Leorio precisou de longos segundos para se recompor. A voz de Kurapika estava tão grave.
— Eu acho que tenho um tempo pra você — confirmou. — Daqui a umas duas horas, venha na porta da universidade e liga de novo. É a única da cidade. Você vai encontrar facilmente.
Uma risada irônica, suave, pontuou a resposta do outro.
— É claro. Farei isso — e ele mesmo encerrou aquela chamada estranha.
A conversa sem jeito que Leorio tinha esperado quase um ano para poder ter.
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