Notas iniciais
Essa história foi originalmente escrita por mim em 2013 e decidi trazê-la de volta. Espero que gostem. Boa leitura.

Dead Inside

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Estralou os dedos das mãos em um ruído oco, tinha as juntas a doer. Impaciente balançava uma perna freneticamente, enquanto esperava sentado em uma cadeira desconfortável. As pessoas olhavam a esmo o garoto ali sozinho, sem sequer saber – ou fazer questão de saber – o que acontecia. Todavia, nem ele sabia ao certo o que acontecia, ou o que já tivesse acontecido.

“Estúpido, estúpido, estúpido”

Abaixou a cabeça, escondendo-a entre os braços, quando uma velha o observou por mais que alguns segundos. Sentia-se incomodado, as pessoas o deixavam assim, não queria ser visto, era tão frequentemente ignorado que se adaptou.

“Feio, desengonçado, estranho, ridículo”

Na verdade, não sabia ao certo o porquê de ter saído de casa. Não tinha mais o costume de sair para qualquer lugar que fosse, mas agora estava ali por… Um café! Nem ao menos gostava de café, fora levado por ele, sempre ele. Suas vontades inconscientemente conscientes, ou seja lá como pudesse chamá-las. O outro. O ele.

“Vamos, faça!”

Enquanto via as pessoas entrarem e saírem da cafeteria, levou os dedos à boca. Em movimentos involuntários de maxilar e mandíbula, começou a roer as unhas. Fora um mau hábito adquirido com o passar dos anos, um mordiscar de dentes tortos a triturar com raiva dedos castigados. E nesse roçar sentiu o ardor, um pedaço de pele havia sido arrancado do dedo médio, um minúsculo pedaço que se avermelhava mais do que o restante do tom moreno da pele. Tirou os dedos da boca e fitou seriamente o pedaço faltante de pele, nem ao menos chegara a sangrar, mas... Cada um dos dedos surgiu em borrões sem unhas, sanguinolentos a pingar no chão branco, as pontas de ossos sobressalentes recobertas por músculos rígidos. Dor.

Com um pestanejar de longos cílios em olhos castanhos, tudo sumiu. Aturdido, olhou para os lados e viu uma dúzia de pessoas desconhecidas caminhando com copos fumegantes em mãos. Receoso, observou suas próprias mãos, nada havia de diferente a não ser a lasca de pele faltando.

“Você não faz nada direito, não é mesmo? Imbecil!”

O coração batia descompassadamente, acelerado, ainda assustado, tremia. Encheu o peito em uma respiração profunda, as costelas doíam e os pulmões pareciam carregados de algo ruim. Na boca, o forte gosto de bile, um enjoo. Queria ir embora, mas não conseguia e nem podia, seu pedido ainda não havia chegado.

Ao inclinar desajeitadamente a cabeça para um lado, com intuição de saber qual bebida a balconista estava servindo, viu uma garota se aproximar. Com um sorriso tímido ela pediu para se sentar na cadeira vaga ao seu lado, sem obter resposta alguma dos lábios contraídos do garoto, acomodou-se.

“Vamos, olhe, olhe. Queira, deseje, pegue. Rasgue!”

Mesmo sendo ignorada a garota sorriu, bebericando o conteúdo do enorme copo que trazia consigo. Parecia encabulada. Tinha enormes olhos castanhos e cabelos negros graciosos que caiam sobre os ombros. Mas não era isso que ele espreitava pelo canto dos olhos. As pontas dos delicados cabelos roçavam-lhe os seios, seios fartos apertados em um enorme decote. A garota não parecia notar o olhar faminto sobre si, apenas parecia feliz com sua bebida quente.

“Pegue, pegue, pegue. Aperte, rasgue, sugue”

— Você está há muito tempo aqui, não é? Está esperando alguém?

A voz suave da garota encobriu a voz que lhe perturbava a todo instante. Ao notar que ela olhava-o fixamente, esperando por outra resposta, mordeu fortemente o lábio inferior, tenso.

— Não precisa ficar sem jeito, eu apenas...

— Por que você não sai daqui, sua puta? – bradou, os lábios nervosos a tremer.

O grito atraira atenção das pessoas que passavam, algumas chegando a parar para observar, curiosas. A garota xingada, por um momento, ficou sem reação, humilhada pela violência das repentinas palavras. Sem dizer nada se levantou apressada, saindo do estabelecimento antes que fosse mais uma vez ofendida.

“Bom garoto”

Mesmo após a saída da menina, algumas pessoas ainda observavam-no.

— Por que ficam olhando para mim? –sussurrou cabisbaixo, mas ninguém ouviu.

Irrequieto, levou uma das mãos à nuca e deslizou as mastigadas unhas por ela. Uma vez, duas vezes, três... Em movimentos curtos e contínuos, a cada volta usando mais força, deixando três longas, sobressalentes e vermelhas marcas no pescoço fino. Estavam quase a ponto de sangrar quando se dera conta do que fazia, recolhendo a mão e limpando os dedos na calça. Levantou e fechou o grosso casaco que usava, seu pedido estava pronto.

“Sangrar, sangrar, ferir, machucar. Inútil!”

No balcão, uma enfurecida funcionária gorda de pele oleosa entregava os pedidos. Parou diante dela com um sorriso gentil, como se nada antes houvesse acontecido, como se passara a manhã toda assim e agora viesse a uma cafeteria comer algo para voltar revigorado ao trabalho.

— São $12,50 – disse ríspida a vultosa atendente.

Com um enorme sorriso no rosto enfiou a mão no bolso do casaco e retirou duas notas de dez e entregou à mulher.

— Obrigado. Pode ficar com o troco – pegou o suporte de papelão com um grande copo de café e uma sacola de papel com muffins.

A mulher não agradeceu, apenas enfiou o dinheiro no bolso da frente da camisa e continuou seu trabalho de mau humor, enquanto o sorridente rapaz saia do estabelecimento lotado.

“Você não merece, não merece, nunca mereceu”

Ao atravessar as portas do estabelecimento, o sorriso morreu. A cara torceu-se em um semblante de ira. Sem nem ao menos tocar no que pedira saiu caminhando apressado, concentrado em cada passo que dava de volta ao lugar de onde não deveria ter saído.

“Você não vai conseguir”

A cada passada sentia uma pressão nos ouvidos, a cabeça latejava. A rua estava quieta, mas os barulhos que ouvia dentro de sua cabeça eram como trovões dentro de uma lata. Mantinha toda sua concentração no seu caminhar, um pé de cada vez para não cair.

“Não pode. Não consegue. Vai cair. Vão rir. Inútil. Desista, pare e chore. Fuja”

Os pés pareciam frouxos dentro dos tênis, o andar desengonçado de pernas longas. “Um pé de cada vez.” E um dos pés foi e o outro também, um pé atrás do calcanhar e caiu de encontro ao chão. O papelão espatifou-se à sua frente, espalhando café quente pela rua. A queda violenta do longo corpo esguio foi amparada pelas mãos estendidas, caindo de quatro em um baque alto dos joelhos ossudos chocando-se contra o asfalto.

“Eu avisei”

Permaneceu na mesma posição por alguns incontáveis instantes, receoso de se levantar e cair de novo, que ele o empurrasse. Queria ficar ali, naquela mesma posição por horas, para distraí-lo, porém, não pode. Sentiu uma mão grande tocar seu ombro. Um homem de rosto preocupado tentou erguê-lo, enquanto uma mulher recolhia os itens espalhados.

— Você está bem, rapaz? – perguntou o homem, tentando puxar seu braço para cima.

“Corra. Eles não gostam de você. Querem lhe fazer mal, machucá-lo. Só eu posso machucá-lo. Fuja”

O toque alheio foi como um choque, seu coração disparou novamente e a respiração tornou-se asmática. Levantou-se em um salto, ignorando todos que observavam a cena e fugiu. Correndo desengonçado de volta para seu esconderijo, onde apenas ele podia fazer-lhe mal.

Parou na frente do apartamento dos pais, ofegante. Aquele era seu refúgio, sua toca, nos últimos 5 anos. Desde que entrara para o colegial tudo mudara e os remédios que lhe obrigavam a tomar não ajudavam. Passava os dias sozinho, torturando-se, sendo torturado. Ficar ali, dentro de seu esconderijo de concreto, tornou-se o lugar mais seguro para fugir dos outros, mas não dele. Nenhum lugar seria seguro.

Destrancou a porta com dificuldade, as mãos não lhe obedeciam com a destreza esperada. Espasmos percorriam todo seu corpo, dificultando a caminhada ao quarto. O apartamento estava silencioso, indicando a falta de seus pais. Esbarrando nas paredes chegou no quarto. A cabeça latejou com mais força, os tímpanos pareciam ter sido esmagados e a visão falhou por um momento.

“Fraco, imprestável, inútil. Você não suportará”

Girou a maçaneta com dificuldade. O piso branco, da mesma cor das paredes, pareceu piorar seu estado. Cambaleante, apoiou-se na parede e estendeu a mão para a cômoda, onde sempre havia uma jarra d’água. Mas nada havia. Nem jarra, nem cômoda. O quarto, um vazio branco. Forçou a visão, apertando mais os olhos viu algo além do branco. Vermelho. Vermelho sangue, sangue, espalhado pelo chão e paredes. No meio do vermelho um corpo esguio, um tanto pálido, que ainda mantinha o tom moreno claro. Os cabelos negros tapavam os olhos, a boca era uma imensidão ainda mais negra, nada havia lá dentro a não ser sangue coagulado. O pescoço destroçado, de cada lado três longos e fundos rasgos que deixariam as vértebras amostra se não fosse pelo vivo vermelho que se destacava.

Arfou alto e esganiçado, levando suas próprias mãos ao pescoço. As outras mãos estavam viradas com as palmas para cima, sujas e arranhadas, nas pontas dos dedos não havia mais unhas, apenas tocos brancos e carnosos. Os joelhos, na mesma condição. Com as pernas estiradas, a cartilagem quase saltara pelo rombo que um dia foram joelhos. Nu, de peito atrofiado com costelas a rasgar a pele, o morto também arfou.

“Quando está dentro, não pode fugir. Quando está morto, não há nada que possa fazer.”

Desesperado arrastou-se pela parede em direção a porta, mas estava trancada, trancada por fora.

“Pode fugir dos outros, pode fugir do mundo, mas não do que está dentro de você.”

Notas finais
Confuso? Acho que sim. Mas é meu texto favorito, gosto muito dele e espero que tenham gostado também. As inspirações foram adversas. Podem encará-la como uma grande metáfora, as muitas faces de todos nós, ou apenas um texto confuso baseado em transtornos psiquiátricos. E se tu chegou até o final... me conte o que achou! Adoro ler o comentário de vocês. Os vejo em breve.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!