Inside Your Eyes
1 Human.
Notas iniciais
Human.
Toc toc toc.
— Só está batendo na porta porque sabe que não vou te deixar entrar. — A voz de Wanda soou de dentro do quarto.
Visão abaixou o rosto, mas não respondeu. Compreendia o fator da chateação e da revolta dela. É apenas humana. Não havia como Wanda compreender com exatidão o que estava acontecendo, ao menos não trancada em seu quarto há tantas horas. A porta fechada era um sinal, um pedido para ficar sozinha, e não seria correto com programações dele ir além do limite que a sokoviana havia imposto. Seria, porém, de acordo com seu querer quase humano: insistir em bater.
Toc toc toc.
Lentamente, a maçaneta moveu-se, e a porta abriu como se fosse levada pelo vento. Wanda estava sentada na cama com a mão acesa na eletricidade vermelha de sua magia. Olhava para Visão séria, abraçada aos joelhos como um animal acuado.
— Wanda, você precisa comer — disse o androide, flutuando para dentro. — Parece estar com fome.
— Também pareço estar presa. — Ela não sorriu, não piscou e nem tremeu com a afirmação. Encarava-o enquanto se erguia da própria cama com os braços cruzados abaixo do seio. — Como estão os Acordos?
— É uma… Questão de tempo. — Sua voz de eco metálico saiu condescendente sem querer, como quando conversava com os outros companheiros de equipe. — Eu pedi comida chinesa para nós. Friday recomendou opções rápidas e de ótimas avaliações entre internautas.
Por um momento, Wanda amoleceu a expressão
— Você parece um velho quando fala assim. — Ela fez aspas no ar, sorrindo sem mostrar os dentes. — “Ótimas avaliações entre internautas”.
Visão deixou a cabeça pender para o lado. Conseguiu um sorriso dela, isso era bom.
— Devo prestar mais atenção nisso em próximas afirmações — afirmou em menor sobriedade, parecia que havia ganho um ponto com aquele simples gesto. — Volto aqui para avisar quando a comida chegar.
Ele chegou a se virar, mas rapidamente fora interrompido.
— Vis, espera. — A voz de Wanda soou, fazendo-o girar novamente. A moça umedecia os lábios, como se procurasse por palavras. — Não precisa ir. Você pode ficar por aqui...
— Mas você fechou a porta.
Ela suspirou, dando de ombros.
— E me senti solitária. Esse lugar é realmente grande... Você não acha?
— Solidão não é algo que estou familiarizado — falou, pousando e caminhando na direção da feiticeira. — Entretanto, sinto felicidade em estar na sua companhia, Wanda.
Ela o olhou um tanto indagativa. A forma como os dois se encararam era meio característica das tantas conversas tiveram no último ano, entre o desastre de Sokovia e a atual crise dos Vingadores com a criação dos Acordos. Por mais que o Sr. Stark o houvesse alertado, a aproximação com Wanda havia se tornado mais que uma missão. Esse “mais" apenas não possuía um nome.
— Eu não sabia que você não sentia solidão. — Ela desfez os braços cruzados, olhando para a joia na testa de Visão. — Mas ainda assim, não está só. — Tal frase o fez manear a cabeça. Os dois ali sabiam e sentiam a joia com sua influência ficando mais forte. — Você gostaria de ser humano para sentir essas coisas, Vis?
Ele ponderou a resposta em silêncio. Não tinha o costume de responder às perguntas de Wanda impensadamente, ainda mais se ele sequer possuía uma resposta para tais.
— Eu gostaria de ser… Mais humano. — Ergueu ambas as mãos de vibranium sintético para ilustrar o ponto. — Não renego aquilo que sou, mas não sou capaz de me fazer de cego para meus pequenos desejos também. Nem completamente humano, nem completamente máquina, nem completamente joia. — Encarou-a e quase sorriu. — Apesar de que sinto que meu lado humano se sobrepõe em alguns momentos.
Wanda o encarou com as sobrancelhas juntas.
— Como quais?
— Como este — disse rápido. — Como quando estou com você.
Tocou a mão dela e a sentiu hesitar. Os olhos chocaram-se inevitavelmente uns com os outros, e a curiosidade ascendeu a mente de Visão. O que ela poderia estar observando ao encará-lo? A verdade era que Wanda possuía muito mais que olhos claros estampando como sóis o seu rosto. Havia fogo e destruição por trás deles, coisas sucumbidas prestes a explodir em gritos loucos que ela provavelmente jamais daria. Mas ele? Ele era apenas um androide. Um homem sintético e observador. Seria seu protetor se pudesse apenas ter a chance de senti-la um pouco mais.
Então, a mão subiu a pele de Wanda devagar. Parou de fitá-la para seguir o caminho que fazia com seus dedos no braço da garota. Antebraço. Cotovelo. Pelos eriçados. Ombro. Clavícula. Alça da camisa. Pele novamente. Pescoço.
— Vis. — Sua voz o interrompeu. Quando Visão percebeu, Wanda ofegava, e o leitor dos olhos dele notou os batimentos cardíacos dela mais acelerados.
— Está assustada?
Um sorriso nervoso escapou de seus lábios, e ela retirou a mão dele de onde estava.
— Você realmente precisa trabalhar na leitura das expressões humanas — respondeu devagar.
Visão não compreendeu. Aproximou-se mais dela, a ponto de Wanda não conseguir dar um passo para frente. E quando novamente os olhos se encontraram, ele teve a confirmação de que sua mente cibernética estava ultrapassada demais para compreender o humano que aquela mulher lhe tornava na sua presença.
— Meus conhecimentos — murmurou ele, confuso com as próprias palavras — tornam-se limitados quando estou com você, Wanda.
Desta vez, seu sorriso não foi nervoso. Foi um sorriso agradável, aquecedor.
— Pode perguntar de novo, então.
— Está assustada? — repetiu ele.
Wanda mirou o peito de Visão e ergueu sua mão até tocá-lo.
— Apavorada — admitiu com um erguer de ombros. — Quando Strucker nos prendeu, Pietro não me deixava sentir que estava sozinha nunca, não importava o que pediam que nós fizéssemos. Steve Rogers também tentou. Mas agora que eles não estão aqui, sinto que nem mesmo eu tenho fé em mim.
O androide possuía tecido humano sintético, por isso o toque de Wanda em seu peito se tornava instigante.
— Não se apavore, Wanda — sibilou Visão. Então, sorriu com ela. — Fé e medo não são apenas sentimentos que surgem, você poderá controlá-los um dia. Quando conseguir tomar posse deles, jamais vai se sentir solitária.
— Nesse momento, você deveria dizer que eu não estou sozinha porque você estará comigo. — Ela riu e ameaçou retirar a mão. Visão, porém, pôs a sua própria sobre a dela.
— Eu sou apenas um androide. Não posso lhe fazer promessas — disse suave, menos metálico. — Mas você, por outro lado, está em mim. Mais que a todos, eu sinto você.
E apenas você. Completou mentalmente.
— Você é realmente como um velho, Vis.
Com isso, ele deu-lhe um beijo na testa e um passo para trás.
— Quando os Acordos estiverem assinados e a poeira baixar, deveríamos viajar. — Ele deu alguns passos para trás e pegou na maçaneta como quem perguntava se deveria fechá-la.
— É um bom plano — murmurou ela. — Pode... Deixar a porta aberta. Você precisa voltar quando a comida chegar, certo? — Visão assentiu com um movimento de cabeça. — Vou esperar você voltar.
O jantar não ocorreu naquela noite, mas o beijo latejou nos lábios do androide por um bom tempo.
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