Inside The Blue Box

14 Capítulo Especial - Thomas e o gato


Notas iniciais
O último capítulo ficou tão triste, que eu vou postar um capítulo especial (tipo os especiais de natal de DW) pra não ficar tanta depressão pós-ITBB. Espero que gostem.

Thomas, ainda parado de pé no meio de sua sala de estar, ouvia em silêncio a partida da Doutor. Ele escutou o ruido de sua nave ao partir e deixou que seu corpo caísse sobre o sofá, ao lado de gato que, assustado pelo movimento repentino, pulou para o chão.

— Eu também teria medo de mim — Tom sussurrou para o gato, que se espreguiçava no chão.

O gato não dava a mínima para Thomas. Ele acomodou-se no chão e passou a lamber suas patas e ocasionalmente virava a cabeça em direção à Thomas e miava, como se tentasse lhe dizer alguma coisa. Provavelmente estava chamando Tom de idiota. Dizendo que ele tinha sido muito burro por deixar a menina ir embora daquele jeito. E também que ele era muito gay por ter chorado por causa daquilo. Mas na verdade o gato apenas queria alguma privacidade pra poder lamber suas partes íntimas em paz.

Mas como Thomas não entendia a língua dos gatos, ele continuou jogado sobre o sofá enquanto algumas poucas lágrimas insistiam em escapar por seus olhos. Não deveria mesmo estar chorando. Tudo bem, ele tinha perdido a oportunidade de fazer uma viagem incrível com uma pessoa mais incrível ainda, mas isso não era o fim do mundo. Mesmo que nunca tivesse outra oportunidade como aquela, ele sempre teria a lembrança dos poucos momentos que tivera com a Doutor.

O gato, ainda incomodado com a presença de Tom, pulou pro seu colo e começou a miar incansavelmente. Ele esfregava a cabeça contra as mãos e braços de Thomas, que relutantemente passou a acariciar o bichano. O gato ronronava, mas ainda miava e se esfregava em Thomas.

— Mas o que é que você quer? — O gato miou em resposta.

Ele se levantou e levou o gato consigo até a cozinha. Usou um prato fundo pra colocar leite, e deixou o prato e o gato sobre a mesa. O gato molhou as patas no leite, mas estava contente por finalmente ter feito o estúpido Thomas entender o que ele queria.

— Se eu vou ficar com você, nós temos que pensar em um nome pra ti. — Não poderia passar o resto da vida chamando o bicho de "gato" ou "bichano". O gato miou. Queria dizer que já tinha um nome, Imperador. Mas como Thomas não podia entender o que ele dizia, chamou o bicho de Motorzinho, uma homenagem ao barulho que ele fazia quando Tom o acariciava.

O Imperador miou de desgosto e pulou pra fora da mesa. Motorzinho? Mas que merda de nome era aquele? Passou o resto da noite miando pelos cantos enquanto Thomas se virava na cama, tentando dormir. Em forma de protesto, Motorzinho cagou por toda a sala de Thomas, inclusive em cima de seus manuscritos.

Era sábado. Quase três meses tinham se passado desde que a Doutor estivera na sala de estar de Thomas. Sala de estar que, naquele dia em especial, fedia a cigarro, pizza velha e merda de gato. Imperador, ou melhor, Motorzinho ainda estava com Thomas, que nunca tivera o trabalho de comprar uma caixa de areia para o bicho. Ele apenas acordava todos os dias, limpava a merda do bicho e agia como se o cheiro não existisse. Na verdade, depois de tanto tempo, ele já estava acostumado com o forte cheiro que o bicho deixava nas coisas depois de mijar.

Como era sábado, Thomas tomou um banho, enfiou-se numa calça jeans e numa antiga camiseta dos Smiths e saiu de casa. Motorzinho miou alto, com raiva por ser deixado pra trás. — Outro dia você sai comigo — Thomas prometeu e acariciou a barriga do bichinho antes de sair.

Um cigarro apagado pendia de sua boca enquanto ele caminhava e procurava pelo isqueiro nos bolsos da calça. Só faltava ter esquecido do isqueiro. Voltou a guardar o cigarro, xingando em voz baixa por ser tão idiota e guardou o maço no bolso. A poucas quadras dali, Adèle esperava por ele. A menina mal podia acreditar que finalmente conseguira um encontro com Thomas. O Thomas! O menino mais inteligente e interessante de sua aula de História.

Thomas agora fazia faculdade de História e pretendia tornar-se professor. Não era uma carreira ruim e ele adorava suas aulas. Nunca tinha reparado muito em Adèle, a menina francesa com sotaque forte que sempre corava quando algum professor pedia que ela respondesse alguma pergunta. Saíram em grupo um dia. Thomas, Adèle, Marty (que resolvera ir atrás de Thomas pra faculdade, pensando que conseguiria finalmente transar com alguém) e outros amigos que Thomas fizera na faculdade. E foi aí que Adèle finalmente tomou coragem e chamou Tom para sair. No início ele pensou seriamente em recusar. Ainda estava triste e de coração partido por causa da Doutor, mas sabia que não poderia deixar de viver sua vida por alguém que ele nunca mais iria ver. Aceitou o convite e eles marcaram de ir ao cinema.

Adèle sorriu ao ver Thomas caminhando em sua direção. Ele parecia tão descolado com aquele cabelo bagunçado e sua camiseta de banda antiga. Era o tipo de garoto que ela costumava ver fotos na internet e ficar babando por eles. E agora ela tinha um só pra ela.

— Você está muito bonita — Tom disse, saudando-a.

Ela ficou vermelha, abaixou a cabeça e sorriu. Tom sempre a deixava sem jeito. Caminharam em silêncio até o cinema, o único barulho que se ouvia vinha dos carros que passavam por eles e dos saltos da menina, que faziam um som engraçado quando colidiam com o chão.

Thomas escolheu um filme de ação. Sabia que era maldade, mas a menina não recusaria seja lá que filme que ele escolhesse, e não se sentia confortável em ver um filme de romance com ela. Ele pagou pelas entradas, a menina dispensou a pipoca (tinha esperanças de conseguir segurar a mão dele durante o filme, e não queria que seus dedos estivessem gordurosos quando isso acontecesse) e logo ambos estavam acomodados em suas poltronas.

Eles não conversaram muito. A verdade era que Thomas e Adèle nada tinham em comum. Ela nunca tinha lido nenhum dos livros que ele gostava, ela não conhecia nenhuma das bandas que ele ouvia (fora os Beatles "Eu amo os Beatles!" ela dissera, fazendo Thomas rir internamente, já que odiava os Beatles). Ele não conseguia imaginar um futuro pros dois, mas pensou que não faria mal sair com ela e ver se conseguia, pelo menos, transar com ela.

O filme começou, todos ficaram em silêncio enquanto as luzes eram apagadas e os trailers começavam a rodar no telão. Adèle deixou sua mão virada para cima sobre o braço da poltrona, um convite visível para Thomas pegar sua mão. Mas o rapaz escondeu o rosto pra que pudesse sorrir e cruzou os braços. Não queria romantismo naquele momento.

Quando o filme finalmente começou, a menina já estava envergonhada e incomodada com a situação. Se soubesse, ela jamais teria chamado Thomas para sair. Pelo menos estava no cinema, aproveitaria o filme e não tinha gastado nem um centavo com aquilo. Na tela, dois carros corriam, um atrás do outro, enquanto tiros eram disparados pelo carro que estava atrás, e acertavam os pneus do carro da frente. Um dos personagens xingou em voz alta, e foi nesse momento que a caixa azul tão conhecida por Thomas apareceu em frente ao telão, e uma Doutor suja e com os cabelos arrepiados (como se tivesse levado um choque) cambaleou pra fora da nave e disse: — Acho que aqui não é a oficina do gordo.

Notas finais
Comentem!! E em breve eu começo a postar a segunda temporada.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!