Inside The Blue Box
2 Capítulo 1
A alguns milhares de anos luz dali, Thomas batucava impacientemente os dedos sobre o tampo de mármore da mesa de jantar de Marty. Marty não era realmente seu verdadeiro nome, mas era assim que o rapaz era conhecido: Marty. O motivo da impaciência de Thomas era a falta de comida na casa do gordo. Sim, Marty além de nerd, era gordo. Eu sei o que todos pensariam sobre isso: Clichê. Marty realmente era um clichê ambulante.
— Só me explica como — Thomas começou a dizer, segurando-se pra não rolar os olhos diante de tal situação — como um cara gordo pode não ter comida em casa?
A resposta que recebeu foi um simples dar de ombros vindos de Marty.
O resto dos rapazes já estavam na sala, olhando fixamente para o cavalete que estava estrategicamente posicionado no meio da sala, coberto com um pano azul.
Aquela era mais uma típica reunião de alguns caras que adoravam coisas sem sentido e consideradas "nerd" aos olhos do restante das pessoas.
Thomas realmente não sabia o que estava fazendo ali. Não se achava nerd, nem tão feio se comparado aos outros rapazes que se encontravam ali. Fora seu conhecimento razoavelmente avançado de Química, Física, Metafísica e todos os "isica" que existiam, ele não tinha motivos pra estar ali. Exceto talvez o fato de ter todos os motivos para estar ali, já que há alguns meses vira a misteriosa cabine azul parada em frente à sua casa.
Fazia calor naquela noite. Muito calor. E Thomas não conseguia dormir. Depois de — milagrosamente — tomar um banho gelado, ele preparou uma limonada, encheu o copo de gelo e sentou-se próximo a janela do quarto, passando a observar o céu e as poucas estrelas que se espalhavam por ele. Foi aí (bem, ele não sabia exatamente em que momento isso aconteceu, mas...) um barulho estranho e um leve tremular no ar em frente à sua casa, fez com que o rapaz deixasse de contemplar o céu e passasse a prestar atenção no que acontecia a poucos metros dali. Sua primeira reação foi espanto. Seguido por descrença, medo e novamente espanto. Uma antiga cabine policial — azul — havia se materializado bem ali, pertinho da cerca que algum dia tinha sido branca. De dentro dessa cabine, um homem estranhamente estranho saiu apressado, carregando consigo uma lanterna em uma das mãos e na outra um estranho objeto com a ponta azul. Fez com que Thomas se lembrasse, infelizmente, de um vibrador.
Balançou a cabeça tentando livrar-se da imagem do vibrador que insistia em rondar sua mente e voltou sua atenção para o estranho e sua caixa azul. Ele tagarelava qualquer coisa sem sentido e quase inaudível para os ouvidos insensíveis de Tom. Uma das poucas palavras que conseguiu ouvir foi um breve "... mas EU sou o Doutor" e depois disso e estranho voltou para dentro da cabine e da mesma forma que havia surgido, ela desapareceu. Thomas coçou os olhos, como se pudesse limpá-los e ter a certeza do que acabara de ver. Naquela noite não dormiu. E muitas noites se passaram até que ele finalmente conseguisse dormir. Tinha resolvido esquecer aquele incidente maluco e não pensar mais no cara-estranho-fazendo-algo-mais-estranho–ainda-e-sua-cabine-azul. Mas, como todo bom ser humano, Thomas era extremamente curioso, e antes que pudesse pensar realmente no que estava fazendo, ele procurou as palavras "doutor" e "caixa azul" na internet e esperou pelos resultados. Infelizmente sua conexão era horrível, e ele teve tempo de preparar uma omelete e uma xícara de café antes que os resultados pela busca inundassem a tela de seu computador. Um dos títulos dos sites chamou sua atenção: Marty e a caixa azul. E foi aí que Thomas conheceu Marty, o gordo nerd que não possuía comida alguma em casa.
De volta ao presente, Thomas juntou-se aos outros rapazes na sala, desculpando-se pela falta de comida e de bebidas.
— Se eu soubesse disso, teria trago umas cervejas. — Mas ai percebeu o que estava falando e com quem estava falando, e deixou a ideia morrer em sua cabeça.
Marty juntou-se à eles fazendo barulho, falando rápido demais e fazendo gestos espalhafatosos em direção ao cavalete no centro da sala.
— E então? Você vai nos falar o que tem escondido aí ou vai continuar nos enrolando? — perguntou um dos rapazes, que tentava miseravelmente deixar uma barba crescer.
— Bem, sem mais delongas. Como vocês podem perceber, são notícias sobre o doutor, ou melhor... Acho que não o chamaremos mais assim. — E antes que os outros pudessem interrompê-lo, ele levantou as mãos, num daqueles gestos que diziam "calem a boca e deixem o mestre falar". — Eu tirei essa foto ontem. Devo dizer que fiquei surpreso ao encontrar o Doutor num dia tão normal e quente como o de ontem. Infelizmente eu não estava preparado para a ocasião, e tirei a foto com meu celular, mas creio que isso não muda a enormidade da coisa...
— CARA, FALA LOGO! — gritou Thomas, novamente impaciente com todo o discurso de Marty.
Antes que seu rosto pudesse ficar mais vermelho do que já estava, Marty retirou o pano azul que cobria a fotografia sobre o cavalete. Todos na sala prenderam a respiração. Principalmente Thomas. O Doutor tinha mudado. Mudado muito. O Doutor era uma mulher, e para o espanto de Thomas, ela era gostosinha.
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