Inside

6 Champagne Supernova


Notas iniciais
Espero que gostem!

– Isso não é pra mim — reclamo, de braços cruzados.

– Pelo menos você não é o White Rabbit – Enzo reclama.

– Ser uma Caterpillar é ainda pior — Harvey sussurra, pois a professora está passando ali perto.

Maeve Kingsley. Sra. Mae, como ela gosta de ser chamada. Ela tem a altura perfeita, está na faixa dos quarenta, olhos azuis brilhantes, o cabelo comprido e loiro mais bem cuidado que eu já vi na vida e um sorriso maravilhoso. Ela é tipo meu objetivo de vida quando eu chegar nos quarenta. Eu a odeio muito, pois eu sei que jamais serei como ela.

De qualquer jeito, a Sra. Mae é nossa professora de teatro. Eu, Enzo, Harvey e Charlotte estamos na turma de teatro. O tema da primeira apresentação seria Alice in Wonderland, algo que achamos ridículos, pois na nossa idade teríamos que estar encenando algo do Shakespeare.

– Pelo menos você pode ficar com o narguilé — uma voz conhecida entra pelos meus ouvidos. Fecho os olhos, irritada.

Travis.

– Schieffler, onde você estava? — a Sra. Mae questiona. Sempre rápida e certeira.

– Foi mal pelo atraso.

– Você precisa de uma autorização do diretor para entrar na minha sala.

Sra. Mae 1 x Travis 0.

Comemorei por dentro até o momento em que Travis mexeu na mochila e tirou um papel de lá, entregando a ela.

– Precisamos de um Cheshire Cat.

Sra. Mae 1 x Travis 1.

– Sou perfeito para o papel — Travis fala, abrindo um sorriso. As pessoas riem no auditório. Bufo, irritada.

– Court — ele fala com o propósito de me irritar.

– É um cachimbo — falo.

– Quê?

– Caterpillar usa um cachimbo, não um narguilé.

Travis dá de ombros.

– Por que você é sempre tão estraga-prazeres?

Sorrio falsamente.

– Então, quem você é?

Aponto para mim mesma e reviro os olhos.

– Sério mesmo?

– Queen of Hearts — ele sorri. — Você também combina com seu papel.

Reviro os olhos de novo.

– Você adora fazer isso, né?

– O quê?

– Revirar os olhos.

– Só faço isso quando você está por perto.

Travis dá risada.

– Conviver com você é mais difícil do que eu pensava.

– Uau! Você pensa.

Ele me empurra de leve e eu dou risada.

– Uau! Você ri.

Não consigo deixar de rir novamente.

–--

A maioria das pessoas costuma lanchar no refeitório ou ficar jogada na área verde do colégio. Nosso grupo (finalmente me sinto inclusa em algo) faz as duas coisas: lanchamos na área verde. Como nunca deixamos lixo espalhado, ninguém reclama.

Travis está observando o céu deitado na grama com os pés no tronco de uma árvore, Harvey dorme apoiado em uma grande pedra enquanto eu, Tom e Charlotte, sentados, conversamos sobre bandas. Ed e Enzo tinham ido comprar lanche para todos nós.

– Oasis — digo.

Era um jogo simples: um de nós falávamos o nome de uma banda e os outros tinham que adivinhar a nossa música preferida dessa banda. Sempre me considerei uma pessoa com um bom gosto musical, algo que eu aprendi a ter com o meu pai, e esperava que meus amigos fossem pelo mesmo caminho.

– Wonderwall — Charlotte fala.

– Essa é minha segunda favorita — digo.

– Don't Look Back in Anger — Tom chuta.

– Está entre minhas favoritas também, mas...

– Champagne Supernova.

Me viro para trás. Travis está sentado nos observando.

– Quê? — sussurro.

– Champagne Supernova — ele repete.

O encaro. Seus olhos verdes estão tão claros que parecem cinzas. O cabelo preto está bagunçado porque há pouco estava deitado e há grama nele.

– Como você soube?

Há grama em todo o lugar.

– Chutei — ele dá de ombros.

Ed e Enzo chegam com os lanches e todos nós nos sentamos perto da pedra de Harvey para comer. O acordamos antes, claro. Porém mal consigo comer. Oasis está na minha cabeça.

–--

Depois da aula, fomos para a casa de Enzo. Terça e quinta tínhamos aula de educação física e elas só aconteciam de tarde. Como a casa de Enzo é a mais perto do colégio, fomos todos a pé para lá.

– Enzo, hoje o... nossa.

Lizbeth Horvat, mãe de Enzo, fica surpresa ao ver toda aquela gente ali. Ela é baixinha, tem cabelos loiros e olhos pequenos e azuis como ele. Enzo é muito igual a ela, o que me faz desconfiar que Will puxou o pai.

Will. Não havia pensado muito sobre ele e Enzo serem irmãos desde que descobri há uma semana. Eu e Will também não nos encontramos desde aquele dia, apenas trocamos algumas mensagens rápidas.

– Ahm, mãe. O pessoal vai almoçar aqui.

– Então. Eu dei folga para as empregadas hoje — ela sorri, ruborizando. Lizbeth mexe na bolsa e tira dinheiro de lá. — Peça comida para todos, sim? Estou de saída. Tenho uma reunião agora.

Enzo concorda. Lizbeth sorri para todos nós antes de sair pelos fundos até a garagem.

– Então: que tipo de comida vamos pedir?

Depois de muita discussão, ficou decidido que pediríamos comida italiana. Ficamos todos na sala conversando enquanto esperávamos a comida chegar. Enzo ouve um barulho na porta e levanta.

– Deve ser a comida.

– Eu te ajudo — levanto e caminho com ele até a cozinha. Bom. Não é a comida. É algo que me fez perder o apetite.

Will e Aisha se beijando.

– Will — Enzo fala, surpreso.

Ele vira-se para nós, ficando mais surpreso ainda por me ver ali.

– Courtney — Aisha sorri. Forço um sorriso também.

– Pensei que não tinha ninguém em casa — o mais velho murmura.

– Hoje é terça. Eu sempre venho para casa na terça.

– Não pensei que você estivesse acompanhado — ele olha diretamente para mim. — Courtney.

Balanço a cabeça e sustento o seu olhar por alguns segundos. Enzo fala alguma coisa sobre como há mais gente na sala, mas não consigo escutar. Só consigo ver Aisha pendurada no pescoço de Will.

Ele nunca ia deixar ela. Eu acho que nem queria isso, de verdade. Aisha foi muito legal comigo e ela merecia ser feliz, por mais que Will tenha provado que não é o homem certo pra ela. Ele mente. Mente para nós duas.

E eu estava cansada de mentiras.

–--

A aula de educação física foi das duas às três e meia da tarde. Eu odiava aquilo. Odiava esportes. Pelo menos era melhor do que de manhã. De manhã era basicamente os meninos treinando para futebol americano ou basquete e as meninas com aquelas roupas ridículas e curtas agitando um pom-pom em cada mão. Graças a Deus não entrei pra isso.

– Maior micão — disse para Aisha quando vi as meninas treinando pela primeira vez. Ela riu e concordou.

Charlotte, por outro lado, estava triste por não ter mais vagas para ser líder de torcida. Como havia torcido o pé no último ano, seu nome foi jogado lá para o final da fila. Ela adorava tudo aquilo e eu me senti mal por ela.

Paro de correr quando sinto pontadas nas costelas. Eu mal consigo respirar.

– Westerforth, está tudo bem?

Sinto a mão grande de Tristan Anders, o sonho de consumo de mais da metade do colégio, nas minhas costas. Ele é alto, forte, cabelos castanhos escuros e olhos azuis brilhantes. Tem uma pequena marca entre os olhos, deixando-o ainda mais lindo. Tem apenas um defeito: é meu professor de educação física.

– Estou com dor na costela — consigo falar. — Logo passa.

Tristan pega um copo da água para mim. Agradeço e fico sentada pelos próximos cinco minutos na arquibancada. Quando me sinto melhor, volto para o jogo de basquete. Porém logo sinto as pontadas novamente, dessa vez bem mais fortes. Envolvo os braços ao redor da minha barriga e eu me sinto ridícula, porque parece que eu estou me abraçando, mas a dor é grande demais.

– Westerforth! — o professor grita para mim. Ele vê que não estou bem e me tira do jogo. — O que está acontecendo?

– Cólica — minto. Nem está na época do meu período.

– Vá até a enfermaria, sim? — ele olha ao redor. Os meninos estão correndo por lá. A maioria das garotas já foi para o vestiário. — Schieffler, vá com Westerforth até a enfermaria.

Meio relutante, Travis sai do jogo. Atravessamos a quadra e o refeitório.

– Não precisa vir se não quiser — falo. — O treinador Anders exagera muitas vezes...

– Não tem problema.

Caminhamos até a enfermaria em silêncio. Travis espera enquanto uma mulher de meia-idade me examina. Conto a ela sobre as dores nas costelas durante o jogo. Ela me faz uma série de perguntas.

– Isso, mocinha — ela fala depois de um tempo — é resultado do sedentarismo.

Travis solta um risinho que não me passou despercebido.

– O que você ainda está fazendo aqui? — questiono. Ele volta a rir e eu jogo uma almofada nele. Travis a pega no ar antes dela acertar seu rosto.

– Você precisa fazer alguma atividade física — ela volta a dizer. — Pelo que me contou, você não pratica nada.

– Não gosto de esportes.

– Então pode simplesmente caminhar. Comece com trinta minutos, três vezes por semana. Não é muito.

Bufo.

– É pela sua saúde, Courtney.

Fico em silêncio, mas concordo com a cabeça. Ela olha para Travis.

– Você está de prova — aponta para ele — e também será o fiscal dessa mocinha aqui.

– Pode deixar.

Ele ri, divertido, com a situação. Rolo os olhos. A enfermeira vai para a sala ao lado preparar o atestado para eu entregar ao treinador Anders. Travis tira sarro do meu diagnóstico e do fato dele ser meu novo fiscal esportivo.

No caminho de volta para a quadra, enquanto ele ainda zomba do meu sedentarismo, paro perto do bebedor.

– O que foi?

– O colégio está vazio — percebo.

– Porra — ele rosna.

– Eu deveria ir embora com Charlotte — suspiro. — Tem um negócio na casa dela hoje. Merda.

– Vamos. Eu te deixo lá.

Concordo. Vamos rápido para o estacionamento antes que fechem o colégio. O carro de Travis é o único lá. Um sorento branco.

Metido, penso.

Para quebrar o silêncio que são os oito minutos até a casa de Charlotte, ligo o rádio. O que estava tocando? Champagne Supernova.

– Não era um chute, certo? — pergunto.

How many special people change

How many lives are living strange

Where were you while we were getting high?

O carro para no semáforo na esquina da casa de Charlotte. Travis vira-se para me encarar. Seus olhos deixaram de ser o verde acinzentado que eram de manhã e possuem um tom vivo, lindo. É como uma esmeralda. Lindo.

Slowly walking down the hall

Faster than a cannon ball

Where were you while we were getting high?

– Não.

– Como você sabia?

O semáforo abre. Travis vira-se para o volante. Suspiro. Não percebi que estava prendendo a respiração até que ele parou de me olhar.

– Na verdade — ele diz -, foi uma espécie de chute, sim.

– Hum — tento não soar muito decepcionada.

– Por quê? Você estava esperando que eu tivesse a investigado ou algo do tipo?

Não consigo não rir.

– Vindo de você, eu não duvidaria.

O carro para em frente a enorme casa branca de Charlotte.

– Entregue.

Travis vira-se para me encarar novamente. Sua mão coloca uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.

Someday you will find me

Caught beneath the landslide

In a champagne supernova in the sky

– Champagne Supernova é a minha música preferida do Oasis — ele conta.

Sinto que estou prendendo a respiração novamente.

– É o que você chutaria?

– É o que eu esperava.

E foi assim que Travis Schieffler me beijou.

Foi um beijo calmo, algo que eu nunca esperaria dele. Mas foi bom. Sinceramente, foi muito bom. Aquele desgraçado beijava bem pra caralho.

– Courtney.

Charlotte estava parada do lado de fora da sua casa, a porta da frente aberta, as mãos na cintura. Parecia brava.

Me afasto de Travis. O encaro. Ele está sorrindo.

Não.

Ele não podia estar achando que eu seria mais uma na sua listinha. Não mesmo. Depois de tudo que ele havia feito, eu ainda havia deixado ele me beijar. Eu sou uma otária mesmo.

Acerto um tapa no seu rosto.

– Nunca mais faça isso de novo — rosno, saindo do carro, batendo a porta com força. Entro rápido na casa de Charlotte.

Pelo canto do olho, vejo Travis colocando um óculos escuro. Ele parecia aqueles cantores de banda indie. Ainda mais bonito do que o normal, se é que é possível. Deus, isso só pode ser atração sexual.

Charlotte mostra o dedo do meio para Travis antes de fechar a porta.

– Sinto muito — começo. — Juro que não fazia do que ele iria fazer e...

Charlotte me puxa pelas escadas até o seu quarto. Mal tenho tempo de analisá-lo, pois ela me joga de qualquer jeito na cama e sorri para mim.

– É perfeito.

– Quê?

– É você, Courtney. Você que vai ser a nossa vingança contra ele.

– Ahm, Char, ele não gosta de mim. Precisa ser uma menina que ele realmente se apaixone e...

– Courtney, você não viu o que eu vi. O jeito que ele te olhou. Eu já vi Travis olhando para muitas garotas, mas ele nunca olhou daquele jeito pra uma.

A loira sorri.

– Você é quem vai partir o coração de Travis.

Notas finais
E então?