Insensível.

19 Capítulo Final.


— Alô? — Respondeu a voz exausta do outro lado da linha.

— Hika? Olá!

— Sat... Satsu? Olá! Que surpresa boa!

Huryome estava escondida atrás de uma montanha de livros e papéis quando atendeu Momoi.

Era costume estudar métodos modernos para treinar as meninas do time de líderes de torcida da escola Asaki e, como capitã, o trabalho parecia interminável. Além disso, naquele ano, havia a possibilidade de novos testes para recrutar novas integrantes.

A última vez que viu Satsuki Momoi, ela estava no banco de reservas da Seirin e, desde então, não conseguiu se despedir.
Seu último encontro com os amigos havia sido naquela festa no Maji Burguer. No outro dia, ela retornou à sua cidade, enfrentando algumas horas de metrô.

— Como é maravilhoso poder falar com você novamente. — Exclamou Momoi, alegre. — Consegui seu número com um dos garotos da Seirin. Precisava falar com você sobre algo...

— Realmente é ótimo. Assim que a Copa de Inverno acabou, precisei voltar para casa no dia seguinte. Não consegui nem mesmo lhe dar um oi pessoalmente, peço desculpas por isso.

— Sem problemas! Bom, entrei em contato porque queria te perguntar uma coisa: você estará disponível no dia 31?

* * * * * *

O dia estava formidável. As nuvens mal conseguiam encobrir o sol, mesmo que tentassem. Apesar do vento gelado, os calorosos raios solares aqueciam os corações, especialmente daqueles velhos amigos que se reuniriam mais uma vez.

Ryota já estava na quadra perto do parque, o local escolhido para o encontro. Ele se alongava, afastando a sensação fria do inverno.

Quando a garota de cabelos rosados chegou com Daiki, ela ficou surpresa com a pontualidade do loiro.

Alguns minutos depois, Tetsuya apareceu, como sempre, sem chamar a atenção de ninguém: o apelido de fantasma lhe caía perfeitamente. O aniversariante estava radiante: a alegria de rever o time dos tempos da Teiko era indescritível.

— Ei, Kurokocchi! — O loiro disse, entusiasmado. — Acredito que esteja contente com o dia de hoje. Aominecchi, peço desculpas, mas hoje você não é a luz.

— Tanto faz. — Falou Aomine. — Um dia ou outro não me matará, certo, Tetsu?

— Sim. — O menor sorriu.

Takao pedalava com destreza. Já se habituara a levar o amigo para todos os lugares, o que fortaleceu muito suas pernas. Midorima estava sentado atrás da bicicleta, em um reboque improvisado. O moreno o enganara, pois o amigo não desejava estar ali: seu signo, câncer, não estava favorável no ranking da sorte.

Pelo menos, Kazunari havia adquirido o item necessário para evitar possíveis desventuras durante o dia. Após se despedirem, deixou Shintaro aos cuidados dos colegas.

Akashi caminhava serenamente quando os avistou. Ele irradiava entusiasmo e um sorriso amigável, que agora era uma de suas características principais. O outro indivíduo, sem dúvida, desapareceu.

— Aí está o velho capitão. — Disse Aomine, sem demora.

— Aceito o título de capitão, mas velho talvez não me agrade tanto.

— É uma brincadeira, Akashicchi! Hoje estão todos animados.

— Tirando o Midorima que não está nos melhores dias. — Respondeu Daiki.

— Estou aqui apenas porque Takao me trouxe. No entanto, não farei nada que possa me trazer azar.

Por fim, Murasakibara surgiu. Mesmo relutante, Seijuro o persuadiu: organizou um jogo treino entre Yosen e Rakuzan, o que deu ao de cabelos roxos uma razão para chegar antecipadamente.

Uma união assim só aconteceu no ensino fundamental, antes de seguirem rumos distintos. No entanto, a ausência de alguém ainda era sentida. Momoi, por um momento, deixou transparecer sua tristeza.

— O que aconteceu, Momocchi? — Indagou Kise. — Não está feliz? Comemoraremos o aniversário do Kurokocchi juntos.

— Desculpe, estou sim! É que... — A garota suspirou, pesarosa.

— Está faltando uma pessoa. — Disse Daiki, por fim.

— Sim. A Hikari infelizmente não pôde comparecer.

Seijuro se questionou por um instante: seria ele a causa para essa decisão?

— Está lidando com os estudos. — Concluiu a menina.

— Até mesmo no feriado? — Perguntou Midorima.

— Vocês a conhecem. — Disse a garota de cabelos rosa, lembrando do estilo da amiga na Teiko, sempre dedicada e estudiosa. — Mesmo sendo feriado, ela quer deixar tudo organizado. Mas disse que ligaria para Tetsu depois, combinado? — Ela se dirigiu ao de cabelos azul-claros.

— Entendo. — Emitiu Kuroko. — Esperarei a ligação dela.

— De qualquer forma, vamos aproveitar o dia. — Declarou, animando-se outra vez. — Esse encontro será muito especial!

— Sim! — Afirmaram os garotos.

Aquela tarde permaneceria eternamente na memória deles. A amizade que reconstruíam era algo reconfortante de se presenciar.

* * * * * *

— Alô? — Ao fundo, ouviam-se murmúrios de outras garotas, como se estivessem praticando regularmente naquele horário.

— Hikari?

— Kagami? Olá!

— Oi... Enviei uma foto mostrando a localização. Você virá?

— Antes de mais nada, devo te fazer uma pergunta: como pretende que encontre seu apartamento se mal consegui entender a foto que me enviou!?

Taiga, naquela manhã, havia enviado uma foto da localização do apartamento onde morava. No entanto, foi ele quem desenhou o mapa.

— Ora, está bem melhor do que antes! — Retrucou o ruivo.

— Melhor para quem, afinal? Fiquei horas tentando adivinhar onde é o seu apartamento e, mesmo assim, continuo cheia de dúvidas.

— Você esteve aqui uma vez, não vai dizer que não se lembra?

— Você realmente acha que uma vez é o bastante para eu lembrar?

— Ah, sim. Esqueci de que estou lidando com uma garota cabeça de vento.

— Como disse!? — Huryome aumentou o tom de voz, fazendo com que as outras garotas a olhassem, assustadas.

— Eu envio a localização pelo aplicativo mais tarde. De qualquer forma, você virá? Será hoje à noite.

— Ainda não tenho certeza. — Suspirou, ligeiramente ofendida. — Estou bem ocupada no momento... Além disso, não tenho certeza se os horários do metrô ajudariam. Ligarei para o Tetsuya para me desculpar e desejar feliz aniversário.

Ficaram em silêncio por alguns instantes.

— Kagami? — Perguntou a azulada.

— Tudo bem. A gente se fala. Até, Hikari.

— Até.

Ela queria estar presente, com os amigos: sentia falta de todos. Queria dar os parabéns pessoalmente para Kuroko. Entretanto, tinha compromissos que precisava resolver antes de pensar em qualquer outra coisa.

* * * * * *

O pôr do sol finalmente pôde ser apreciado. Após aquele céu claro, o sol fazia sua última aparição em um belo espetáculo dourado e alaranjado.

Os corpos fatigados descansavam no banco da quadra. Já fazia tempo desde a última vez que jogaram juntos, e a experiência foi extremamente benéfica. Sem dúvida, aquela reunião foi um dos melhores presentes que Kuroko poderia receber: A Geração Milagrosa reunida como velhos amigos.

— Boa noite! — Cumprimentou Furihata, encarregado de receber os convidados, embora não esperasse ver o capitão da Rakuzan do outro lado da porta.

— Oi! — Seijuro disse, cortês. — Furihata, certo?

— A-Akashi?

— Trouxe os meus amigos! — Anunciou Kuroko, animado. — Desculpem a demora, podemos entrar?

Apesar do amplo espaço, a reunião da equipe da Seirin com a Geração Milagrosa enchia o apartamento. A situação era realmente inusitada. Cada um com suas peculiaridades, mas todos unidos por um único motivo: desejar felicidades a um amigo tão especial como Tetsuya Kuroko.

— Alô? — Atendeu em meio às conversas.

— Oi, Tetsuya! — Saudou a garota.

— Hikari?

— Isso mesmo. Eu queria te desejar um feliz aniversário. Sinto muito por não poder estar aí.

— Não tem problema, eu entendo. Obrigado por lembrar de mim mesmo assim.

Do outro lado da linha, ela ouviu risadas.

— Não precisa agradecer. Parece que a festa aí está animada.

— Todos estão se divertindo bastante...

— Imagino. Vou te deixar aproveitar também. Mas antes de desligar, você pode fazer um favor para mim?

Kagami saiu da agitação da sala com o celular do amigo em mãos. Descendo as escadas, finalmente conseguiu ouvir melhor.

— Hikari, pode falar agora. Não consegui ouvir direito com toda aquela bagunça.

— Ótimo. — Mesmo com a ligação encerrada, sua voz ainda ecoava. — Kagami, poderia abrir a porta para mim? Está um pouco frio aqui.

O mais alto virou-se para encarar os olhos azuis da jovem.

* * * * * *

— Kuroko, aqui está o seu celular. — Disse Taiga ao entrar, pendurando o casaco e entregando o aparelho ao dono.

— Obrigado. A Hikari está bem? Estava com algum problema?

— Por que não pergunta a ela? — Ele apontou para a porta, de onde ela surgiu com as bochechas e o nariz vermelhos devido ao frio.

— Boa noite, pesso- — Ela se surpreendeu com a quantidade de pessoas presentes reunidas.

— HIKA! — Exclamou Momoi animadamente ao ver sua amiga. — Não posso acreditar que você está aqui! Que surpresa incrível!

— S-Satsuki?

— Olha só se não é a Huryocchi! — Disse Kise, sorrindo. — Quanto tempo!

— Não vou compartilhar meus lanches com ela, não adianta choramingar. — Afirmou Murasakibara com firmeza.

— Ela ainda faz aquelas caretas engraçadas da tampinha de garrafa, impressionante. — Observou Aomine.

— O horóscopo disse que as surpresas não terminariam até o fim da noite. — Comentou Midorima.

— G-Geração dos... O q-que vocês... — Huryome estava claramente perplexa.

— Pensei que não apareceria! — Momoi se queixou. — O que a fez mudar de ideia?

— Bem... Eu queria parabenizar o Tetsuya pessoalmente. — Ela olhou para o de cabelos azul-claros. — Acho que não conseguiria fazer isso apenas por telefone, depois de tudo que ele fez por mim. Por sorte, consegui pegar o metrô até aqui. Ei, Midorima, meu signo está em segundo no rank de hoje.

— Foi por isso que veio. Oha Asa nunca falha. — Ele respondeu.

— É ótimo tê-la aqui, Hikari. — Agradeceu Kuroko, animado.

— Sou eu quem deve agradecer. — Exibiu gratidão no rosto ao olhar novamente para a amiga ao seu lado. — Desculpe por não chegar mais cedo para a outra reunião...

— Está tudo bem, Hika! Veja, todos estão reunidos aqui. Não é incrível o que o Tetsu pode fazer? — Momoi terminou, alegremente.

— Sim, com certeza. — Concordou a azulada, finalmente.

— Aqui, tampinha de garrafa, sirva-se à vontade. A casa é sua. — Daiki exclamou.

— Por que está se comportando como se fosse o dono da festa? — Gritou Kagami.

— Não me chame de tampinha de garrafa! — Gritou Hikari.

— Ali! Sente-se, há um lugar vago ao lado do Akashi. — Assegurou Satsuki.

A garota ouviu um estalo ecoando em sua mente, trazendo-a para o momento atual. Ela havia esquecido que a Geração dos Milagres tinha um líder: ao olhá-lo de relance, notou que ele também a observava.

Rapidamente, lembrou-se da disputa entre Rakuzan e Asaki e as consequências dela. Também recordou do que disse a Ren antes de eles retornarem. Suas bochechas coraram.

— Hika? Hika!? — Chamou a amiga.

— O quê...

— Não está cansada? Não quer se sentar?

— E-Eu...

— Vamos, não seja tímida! Você conhece todos que estão aqui. — Disse Momoi sorrindo, empurrando-a delicadamente até o sofá.

— S-Satsuki! — Replicou Huryome, envergonhada.

— Tetsu, veja o que preparei para você! — Momoi mudou de direção rapidamente e fez Kuroko comer todas as guloseimas que ela havia preparado. — Coma, não fique com fome, por favor!

Os dois permaneceram em silêncio. O clima estranho ainda pairava no ar. A interação no amistoso não foi das melhores, apesar de trocarem algumas palavras, olhares e sorrisos.

— Como está, Hikari? — Akashi puxou, bebendo o suco restante no copo.

— Bem... E você?

— Bem. — Concluiu.

Durante a celebração, apenas essas palavras foram trocadas. No entanto, mesmo distantes ou conversando com outros amigos, eles teimavam em se encarar, mesmo que por breves segundos.

Era o certo aquilo terminar com um fim?

* * * * * *

Quando o relógio marcou 23h40, alguns já estavam saindo. Ajudaram a organizar o apartamento e guardar as sobras de comida, mesmo Murasakibara carregando uma pilha nos braços.

— Obrigado por virem. — Agradeceu Kuroko.

— Até a próxima. — Despediu-se Himura, acompanhando Atsushi e a pilha de comida.

— Kuro-chin, nos vemos no próximo campeonato.

— Até a próxima competição, Murasakibara.

— Mura! — A garota da varanda chamou quando o viu deixar o prédio. — Você me deve um lanche! Não pense que esqueci!

— Ah? Não faço ideia do que está falando, Hi-chin. — Respondeu, fazendo sinal para Himura apressar o passo. — Vamos, Mura-chin, antes que ela desça aqui.

— Atsushi, me espere!

— Mura, volte aqui! — Ela o viu partir, veloz como um falcão caçando sua presa. — Ele não muda quando se trata de comida, não é? — Suspirou, virando o olhar para o céu.

A noite estava esplêndida.

Ao ouvir a porta da varanda se abrir, um ar gélido invadiu seu interior: ela pensou que fosse ele.

— Hikari. — Kagami chamou, surpreendendo um pouco a garota.

— Taiga. — Sorriu.

— Como você vai voltar para casa hoje? O metrô continua funcionando? Já está tarde.

— Não voltarei. A Satsu me ofereceu um quarto em sua casa. Ficarei lá até amanhã de manhã. Preocupado comigo, Kagamizinho? — Ela riu, deixando-o sem jeito.

— Claro que não! — Respondeu logo em seguida. — Apenas estava pensando se você não se perderia por aí. Com seu péssimo senso de direção...

— Eu não tenho péssimo senso de direção!

— Ainda tenho minhas dúvidas. Enfim, voltarei para a festa. Não vou deixar Aomine mexer nas minhas coisas. Você vem junto?

— Vou, sim, mas seria bom você acelerar.

— Como assim?

— KAGAMI! O que é essa caixa que achei dentro do seu armário? Há algo interessante aqui? Talvez algum segredo sujo? — Gritava Aomine.

— SOLTE ISSO! — Gritou o ruivo, correndo para salvar seu pertence das mãos de Daiki.

Huryome se divertiu com a cena. Mesmo que de suas próprias maneiras, aqueles dois se davam bem. Ao voltar para dentro, começou a conversar com Momoi.

— Estou contente que o Aomine tenha retornado à sua essência. Ele está voltando a participar dos treinos?

— Eu também, Hika. Bem, às vezes ele demora para aparecer, mas no final chega. É um bom progresso.

— Para alguém como ele, com certeza.

De repente, sentiu um toque suave em seu ombro. Ao olhar, deparou-se com Seijuro. Como havia gente conversando por perto, ele se inclinou um pouco e sussurrou próximo ao ouvido dela.

— Podemos conversar na varanda? — Ele perguntou.

Um arrepio percorreu o corpo dela. Huryome acabou concordando no final das contas.

* * * * * *

— A noite está bonita hoje, não é? — Ele começou ao fechar a porta, evitando qualquer interrupção.

— Sim, está. — Ela respondeu, reunindo coragem para falar com ele.

O silêncio tomou conta daquele espaço mais uma vez.

Apesar de terem se despedido, ambos sabiam que ainda se encontrariam devido aos amigos em comum.

Na perspectiva dela, tudo aconteceu muito rápido quando sua escola competiu contra a dele. Todavia, ela esperava que aquela fosse uma das últimas vezes que se veriam, desejando um longo intervalo até o próximo encontro, quando estaria mais preparada para lidar com a situação.

Mas o destino não costuma atender aos pedidos que não são intensos o suficiente. E lá estavam eles, mais uma vez, frente a frente.

Existiam muitas coisas para serem ditas, afinal, existia muita dor dentro deles. E ela, mesmo relutante, admitia: a dor de não poder conviver com ele, como convivia normalmente com os demais, latejava.

Em algum momento, aquela conversa inevitável teria que acontecer. Ela confiava no tempo para cicatrizar as feridas, mas não parecia adiantar.

"— Seijuro." "— Hikari."

Os nomes foram pronunciados simultaneamente, surpreendendo-os pela sincronia. Trocaram olhares, impressionados com o momento.

— Pode falar, desculpe.

— Por favor, comece você. Desculpe por interrompê-la.

— Tudo bem. — Ela concordou, refletindo sobre suas próximas palavras. — Só queria perguntar algo, mas não sei se você se sentirá confortável em conversar sobre isso.

— É sobre o passado? — Akashi sabia interpretá-la com precisão.

— Sim.

— Pode prosseguir. Acredito que seria necessário abordar este assunto em algum momento.

Ela ponderou um pouco e então prosseguiu:

— Desde o início, seu propósito era me utilizar como peça para as vitórias da Teiko? — Hikari questionou, sem encarar Akashi, focada apenas nas estrelas.

— Não. — Ele respondeu sucintamente. A garota ao seu lado suspirou, mas antes que pudesse dizer algo, ele completou: — Chamo de propósito algo que é planejado. Conhecer você naquele dia e ajudá-la não estava nos meus planos.

— E quando isso mudou?

— Quando deixei de confiar em mim mesmo e permiti que outra personalidade tomasse conta.

— Entendi. — Após um instante de reflexão, indagou: — Então, o que você queria dizer antes? Pode falar.

— É uma pergunta também.

— Bem, pode fazê-la.

— Dentro de tantas coisas, por qual motivo você me pediu para te olhar e sorrir, antes de me dizer adeus naquele dia?

"[...] — Mas, já que voltou depois de tanto tempo, poderia fazer algo por mim? [...] Então, por favor, pela última vez... Pode me olhar e sorrir novamente?", Huryome recordou.

A pergunta a surpreendeu. Na época da Teiko, antes de se tornar um estranho para ela, Seijuro costumava sorrir com afeto e Hikari retribuía o gesto. A garota apreciava a sensação de ser a razão daquilo. Ela gostava da calmaria que aquele sentimento proporcionava e gradualmente foi desenvolvendo um afeto genuíno por ele.

Os simples sorrisos que tantas vezes lhe transmitiram segurança para seguir adiante quando enfrentava problemas em seus treinos ou estava perdida em seus estudos sem respostas. Aquilo se tornou seu ponto de conforto.

Porém, assim que ele mudou, a afeição acabou. Isso fez com que ela questionasse seus próprios sentimentos em certas ocasiões. Era difícil trazer isso à tona, especialmente na frente dele.

— Bem, eu... — Ela começou, sem saber ao certo por onde.

— Não precisa responder se não quiser. — Akashi a tranquilizou, olhando para ela. — Está tudo bem, Hikari.

— Desculpa...

— Não precisa se desculpar. — Ele sorriu levemente, olhando para o céu estrelado. — Você não era a única a sentir a agradável sensação que esses gestos proporcionavam. Ambos sentíamos.

Naquele momento, os olhos azuis surpresos o fitaram. Seu coração se agitou no peito.

— Eu disse que não poderia suplicar um perdão a você naquele dia, e isso é verdade. Só que ainda tenho um pedido de desculpas em aberto.

— Akashi...

— Espero que possa me desculpar por cortar de forma tão fria a afeição que desenvolveu, e também por tê-la utilizado quando me foi conveniente. Acredito que o que mais lhe fere não é eu ter mencionado que você era uma peça, mas sim eu ter feito isso com seus sentimentos.

Ela não pôde conter as lágrimas que escorreram por seu rosto. Essa era a parte que a machucava profundamente. Mesmo se considerando uma observadora perspicaz, Huryome não conseguia se analisar tão bem. O desejo de vencer Akashi não era o único motivo. O vazio que ela sentiu foi resultado de ele ter arrancado um sentimento dela sem nenhuma delicadeza e, em seguida, descartá-lo tão facilmente como quem joga um papel no lixo.

— Eu soube esconder meus sentimentos com maestria, Hikari. — Disse Seijuro. — Aprendi desde cedo a fazer isso, mas havia uma pessoa para quem não conseguia esconder tão bem. — Continuou. Seus olhos rosados encontraram os azuis, tão brilhantes quanto as estrelas naquele momento. — De certa forma, ainda não consigo.

Hikari corou de timidez e virou-se, tentando se esconder. Ele sorriu, conhecia-a bem e não a pressionaria.

— Quando me pediu para olhar e sorrir para você, não entendi no momento. Mas, após refletir, compreendi. Você queria ter certeza de que eu havia voltado e se aqueles sentimentos antigos ainda estavam presentes.

— Sim.... — Foi a única resposta que ela conseguiu dar.

— Entretanto, não consigo oferecer-lhe tal sensação novamente, pois não posso voltar ao passado e tentar restituir o que já se foi. Porém, posso tentar reparar as coisas, caso você permita que eu retorne à sua vida.

— O quê...

— Podemos recomeçar a partir deste ponto e, aos poucos, resgatar o que um dia foi sentido.

Preencher o vazio com algo novo.

Ela esperava que a solução para o problema fosse o fim, mas jamais havia considerado a possibilidade de que a resposta estivesse em sentimentos rejuvenescidos. Preocupava-se em se desprender dele, entretanto, sabia que não havia mais maneira.

— Compreendo que talvez esteja apreensiva ou com dúvidas, porém, eu nunca sugeriria algo que lhe causasse dor no futuro. Acredite, não desejo vê-la sofrer novamente. Esse foi um dos motivos que me fizeram não te procurar antes. Entendi que queria se afastar e respeitei sua decisão. Contudo, cheguei a um ponto em que não pude mais suportar. — Akashi suspirou e ponderou por um instante. Desta vez, ele tinha plena convicção do que estava sentindo, então, finalmente concluiu: — Sou incapaz de nutrir sentimentos por qualquer outra pessoa que não seja você, Hikari.

Ela reconheceu imediatamente essa frase de algum lugar. E então, recordou:

"— sou incapaz de nutrir sentimentos por qualquer outra pessoa que não seja ele."

Ela havia mencionado isso para Ren. Será que Seijuro ouviu a conversa? Se sim, então ele estava ciente dos sentimentos dela.

— Isso é tudo o que eu tinha para dizer. — Disse ele olhando para a garota. — Se estiver disposta a aceitar, ficarei feliz em corresponder a tudo que surgir quando recomeçarmos essa jornada.

Huryome levou alguns minutos para refletir. Mesmo que um adeus já tivesse sido dado, ela sabia que isso não resolveria nada.

Akashi Seijuro ainda estava muito presente em sua vida, mesmo depois de tudo o que aconteceu. O tempo mostrou isso todas às vezes que ela pensou nele, sentiu saudades e desejou interagir e conviver com ele novamente.

Se aquela situação continuasse, ele sabia que cederia em algum momento, afinal, ele era o ponto fraco dela. Talvez tenha sido por isso que, no ensino fundamental, tenha sido tão fácil manipulá-la, mesmo que ele não tivesse certeza dos sentimentos que ela nutria por ele.

O que mudava agora era que não apenas ela, mas ele também desejava se reaproximar, sem segundas intenções, apenas a vontade genuína de afeto.

— Akashi... — Ela sussurrou, chamando a atenção dele. — Você está escondendo algo desta vez?

— Não, desta vez não esconderei nada de você. E não vejo motivo para reprimir qualquer sentimento. Quero que volte a fazer parte da minha vida. Sinto sua falta.

A jovem de cabelos azul-marinho viu o sorriso que tanto desejava. Ela sorriu de volta, igualmente feliz.

— Eu... Eu adoraria recomeçar. Por favor, cuide dos meus sentimentos, Sei.

— Eu cuidarei, Hikari. Com todo o meu coração.

A tranquilidade reinava na varanda, mas seus olhares trocados diziam tudo o que precisavam dizer.

Ali, algo novo estava surgindo, sendo construído lentamente. Contudo, o sentimento que compartilhavam era antigo. Já tinha florescido uma vez, mas acabou murchando por falta de atenção. Mesmo assim, até mesmo uma pequena semente não é derrotada pelo mau tempo.

A partir daquele momento único, um pequeno broto começou a crescer novamente. Seria cuidado com carinho, um passo de cada vez, até se fortalecer completamente.

Anos depois, a mesma árvore floresceu.

E, dessa vez, frutificou.

Notas finais
Obrigada a todos que acompanharam a fic e apoiam AkaHika ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!