Insensível.

13 Capítulo 13.


No momento, o apartamento de Taiga Kagami era espaçoso o suficiente para abrigar toda a equipe da Seirin e Hikari. Após o encontro onde a garota pediu ajuda, decidiram reunir-se para ouvir não apenas a história dela, mas também a de Tetsuya, que aproveitou a oportunidade para falar sobre a dupla personalidade de Akashi, algo que a garota de cabelos azuis confirmou.

Ao descobrirem o passado de ambos na Teiko, Kagami simplesmente comentou:

— Então quer dizer que você é a garota malvada da história.

Ela o encarou, assim como os outros.

— Para ser honesto, não estou tão preocupado com o próximo jogo após saber de tudo isso. O que me surpreende é apenas o fato de Akashi ter uma dupla personalidade.

— Você não entende? Tive parte da culpa na mudança deles, inclusive na de Akashi!

— Eles escolheram seguir esse caminho. Você os obrigou de alguma forma? — Respondeu Taiga. — Você unicamente foi uma ponte para poderem atravessar, mas isso não significa que foi responsabilidade da ponte eles terem ido mais além do que deveriam.

— Como assim? — Tentou compreender a metáfora do maior. — Uma… Ponte?

— Uma ponte? — Izuki repetiu. — Achei interessante a comparação!

— Acho que o Kagami está passando tempo demais com o Izuki. — Observou Koganei.

— Óbvio que não! — Taiga exclamou rapidamente. — O que eu quis dizer é que não tinha como ela prever que o auxílio dela encheria o ego deles. — Ele olhou para a garota de cabelo azul-escuro. — De qualquer forma, eles tiveram a liberdade de decidir por si o que fazer com suas habilidades, e ainda assim escolheram o egoísmo e a arrogância.

Huryome refletiu sobre aquelas palavras.

— Além disso, acredito que a culpa principal disso tudo foi de Akashi. Pelo que entendi, foi ele quem “construiu a ponte” para eles passarem. Você apenas cumpriu seu papel, mesmo que para um objetivo tão infeliz.

— Mas afinal, a ponte não era ela? — Perguntou Furihata, agora confuso. — Então, ele realmente construiu uma ponte?

— Pelo amor de Deus, melhore suas comparações, Kagami! — Repreendeu Hyuga.

— Eu ficaria feliz em ajudá-lo. — Ofereceu Izuki. — Que tal construirmos uma ponte para o conhecimento, Kagami? Você entendeu? Uma ponte para o conhecimento! Você aprendendo alguns…

— Eu não preciso disso! — Protestou o ruivo, debatendo com os amigos.

Mesmo que tenha sido de forma metafórica, ela captou a mensagem dele. Gradualmente, aquelas palavras aliviariam a carga que pesava em sua consciência; ela seria muito grata por elas mais tarde.

— E quanto a você, Kuroko… — Começou o craque da Seirin, dando um bom “sermão” para o garoto de cabelos azul-claros.

Observar um time tão unido a revigorou.

Perceber o acolhimento a Kuroko era reconfortante. Depois das decepções no passado, era gratificante vê-lo cercado por amigos tão leais e queridos. Agora, ele fazia parte de um time que jamais deixaria de apoiá-lo, independentemente do resultado de qualquer disputa.

O lema daquele time não se resumia apenas em ganhar. Priorizavam o trabalho em equipe e o crescimento conjunto. Ao observar todos em volta do garoto sorridente, ela se sentiu feliz.

— Você merece isso, Tetsuya. Fico feliz por você. — Refletiu, distraída.

— Hikari. — Chamou o de cabelos azul-claros, tirando-a dos devaneios. Ela o encarou e notou que ele estava acompanhado de todo o time da Seirin. — Iremos ajudá-la. Sei que também está em busca de algo, então junte-se a nós, pois tudo dará certo no final. Deixe o passado para trás e dê o seu melhor agora. — Disse, sorrindo. — Por favor, compartilhe suas habilidades conosco, tenho certeza de que também poderá nos ajudar.

— Sim! — O restante dos colegas respondeu em perfeita harmonia.

Seus olhos começaram a arder.

Fazia muito tempo que não experimentava essa sensação. Ela fez uma viagem mental de volta aos tempos de escola em Teiko, mas logo decidiu afastar essas lembranças.

Afinal, o passado pode ser doloroso, no entanto, o presente é verdadeiramente um presente.

Hikari se sentiu parte de algo especial mais uma vez, dentro daquele apartamento.

* * * * * *

Dois dias de folga era tudo o que a equipe Seirin tinha antes do jogo contra Rakuzan. Durante esse intervalo, cada minuto era precioso: todos se reuniam no ginásio da escola para treinar e analisar o time adversário.

— Com licença… — Ela pediu ao abrir a porta. — Este é o ginásio da escola Seirin?

— Sim, Hikari! — Kuroko respondeu, segurando a bola de basquete que Kagami esperava. Ele estava aprimorando seus passes para torná-los mais eficazes.

— Entre, e seja muito bem-vinda. — Riko sorriu, cumprimentando-a.

— Obrigada! — Ela disse com um sorriso carinhoso. — Por um instante pensei que estar perdida, pois o mapa que Kagami me deu está bastante confuso…

— Confuso? — Exclamou o cabelo avermelhado. — Está bem claro!

— Claro para quem? — A garota mostrou o pedaço de papel cheio de desenhos, onde, no meio, havia um ponto escrito "ginásio aqui".

— Como desenhista, você é um ótimo jogador, Kagami. — Brincou Kiyoshi.

— O quê!? Uma pessoa inteligente entenderia facilmente o que eu quis dizer ali. — Respondeu ofendido.

— O que você está insinuando? — A azulada encarou-o.

— Que talvez falte um pouco de inteligência aqui? — Retrucou o mais alto, cutucando a testa dela.

— Hein!? Por que não aprender a desenhar antes de abrir a boca?

— Eu não precisaria se você soubesse ler mapas!

— E eu não precisaria ficar perguntando para o bairro todo se você soubesse pelo menos fazer um!

— Por que será que esses dois não se dão bem? — Observou Koganei, vendo Hikari e Taiga discutindo.

— É só impressão sua… — Tsuchida comentou.

— Ok, chega, parem com isso agora, tá bom? — Riko interveio, apitando alto.

— Hikari, você continua envolvida com as líderes de torcida? — Perguntou Tetsuya.

Ela ainda se sentia ofendida, mas respondeu à pergunta do amigo em seguida:

— Foi um desafio tentar entrar para um novo time, admito, mas continuo envolvida nisso, sim. — Disse enquanto sorria.

— Líderes de torcida? — Os rapazes se manifestaram animados, imaginando meninas vestindo uniformes e segurando pompons.

— Juro que… — A técnica se aproximou, ameaçando-os.

— Por favor, treinadora, não! — Imploraram os rapazes para evitar serem vítimas dos tapas da garota enfurecida.

— Então você pode ajudar o Kagami com os saltos dele. — Tetsuya sorriu, mirando o jogador talentoso.

— Me ajudar com… O quê? Qual é o problema com os meus saltos?

— Nenhum. — Respondeu calmamente. — Mas ela pode ajudar a aprimorá-los.

— Ah, parece que o Kagamizinho tem problemas com saltos em altura, não é mesmo? — Provocou a jovem de cabelos azul-marinho.

— Não é como se eu não soubesse saltar! — Retrucou.

— Tudo bem, tudo bem. Já vi o quão alto você pode saltar. — Lembrou ela da última partida que assistiu, observando os saltos do mais alto. — Mas posso te ajudar sim. Se você se concentrar, talvez até consiga aprender alguns rodopios…

Alguns colegas não resistiram e riram. Outros tentaram conter, mas foi difícil ao imaginarem Kagami vestido com o uniforme de torcida da Seirin, segurando pompons e rodopiando pelos ares.

— Não tem graça nenhuma nisso! — Gritou o ás.

— Está bem… — Começou Teppei. — Se isso pode ajudar o time, acredito que o Kagami não terá problemas em aprender.

— No entanto… — Hikari ficou com a cabeça baixa, atraindo olhares da Seirin.

Ela estava apreensiva. O receio de ensinar ou de tentar aprimorar os movimentos estava presente.

Achava que tal situação poderia alterar completamente a identidade de alguém, se atingisse um nível mais profundo. Já havia experimentado isso antes e não desejava vivenciar de novo, mesmo que não tivesse muito a perder naquele momento.

— Ei. — Taiga prendeu a atenção dela. — Estou pronto para aprender o que quiser me ensinar. Já escolhi o meu caminho: seguirei a Seirin até o fim. Basta dizer o que devo fazer e darei o meu melhor.

Seus olhos vermelhos exibiam uma determinação intensa, um desejo de se aprimorar. Entretanto, ele não queria fazer isso apenas para si. Ele desejava fazer pelos amigos.

Ela sorriu, pensativa por alguns instantes. Colocou a bolsa no banco e voltou-se para o talentoso jogador.

— Prepare-se, Taiga Kagami. Teremos muito trabalho nos próximos dois dias.

* * * * * *

Os dias voaram para aqueles que aguardaram ansiosamente por um confronto iminente. Em um instante, a tão esperada disputa teria início. Se estavam realmente preparados, era incerto; contudo, permaneciam unidos. Uma multidão torcia por eles: familiares, amigos e até mesmo rivais que se transformaram em admiradores. Todos a favor da Seirin.

Aquele time se tornara notavelmente forte e garantira seu lugar entre os melhores.

Enquanto isso, o embate pelo terceiro lugar estava em curso: a partida entre a Kaijo e a Shutoku. Mesmo com todo o esforço da Kaijo, a ausência de Ryota devido a uma lesão tornava as coisas complicadas.

O segundo quarto chegou ao fim. O placar apontava 28 para a Kaijo e 49 para a Shutoku.

"— Teremos um intervalo de dez minutos. Rakuzan e Seirin, por favor, preparem-se para o aquecimento", anunciou o locutor.

A rivalidade pairava de forma palpável pelo ginásio. Kuroko, Kagami e Akashi se encaravam com determinação.

Após marcar algumas cestas, a bola que era da equipe Seirin percorreu a quadra e parou diante do garoto de cabelos cor-de-rosa.

— Chegou finalmente o dia. — Exclamou Akashi, aproximando-se com a bola de basquete em mãos. — Estou sinceramente surpreso. Achava improvável que chegasse tão longe. Já tem a resposta?

— Sim. — Afirmou Kuroko, pegando a bola que Seijuro lançou naquele momento.

— Então, mostre-me o seu basquete.

— Não vou te mostrar o meu basquete. — Respondeu. — É o nosso basquete. — Declarou por fim, juntando-se à Seirin.

Akashi sorriu e voltou para o seu time.

— Entendi. Desafio aceito — Concluiu.

* * * * * *

Ela estava atrasada e tinha consciência disso, mas não se arrependia do motivo. Ela estava fazendo um cartaz à mão e aguardava a tinta secar. A frase “Vai, Seirin!” podia ser facilmente lida no fundo branco.

Nunca imaginou que fosse torcer por um time de basquete novamente, no entanto, a Seirin a acolheu, então queria mostrar o quão grata estava por isso. Não era apenas o anseio dela, mas sim um sentimento verdadeiro de felicidade ao estar na companhia deles.

Ao adentrar o recinto, ela inspirou profundamente, recuperando o fôlego perdido durante a corrida para chegar até ali. E teve sorte, pois ao se dirigir para um assento nas arquibancadas, avistou a equipe Seirin retornando do aquecimento e se encaminhando para a sala de descanso.

— Seirin! — Ela gritou, indo em direção a eles.

— Olhem, é a Huryo. — Apontou Kiyoshi.

— Parece que está atrasada. — Kagami observou a garota com os cabelos levemente bagunçados pelo vento. — Vai me dizer que se perdeu de novo?

— Bem, se você tivesse desenhado um mapa, talvez eu dissesse que sim. — Brincou ela, rindo da situação.

— Isso não tem graça! — Replicou o maior.

— Está tudo bem? — Perguntou, Kuroko.

— Sim! Acabei me atrasando por causa disso… — Ela mostrou a placa que fez. — Tive que esperar a tinta secar. Queria ter feito algo melhor, desculpem.

A equipe sorriu.

— Algo melhor? Duvido muito. — Disse Hyuga, confiante. — Isso está excelente!

— E também agradecemos pelo apoio. — Finalizou Teppei. — Estamos nessa juntos!

— Torça para nós e a força da Seirin aparecerá! Captaram a mensagem? A palavra torça rima com força… — Izuki estava bastante empolgado com seus trocadilhos.

— Ninguém pegou a referência, Izuki. — Comentou Riko, com acordo geral dos outros.

A garota com cabelo azul-marinho riu. Eles eram realmente únicos.

— Bom, vou buscar um lugar na arquibancada, já que o jogo está prestes a começar! — Ela se virou e seguiu em direção ao corredor que levava à plateia. — Força, Seirin!

— Hikari, espere! Não quer ficar no ban-

Huryome continuou andando, distraída, pois estava tentando ouvir o que falavam com ela.

Não percebeu quando outra pessoa desceu a escada: a pancada foi instantânea. Ela simplesmente levou a mão ao rosto, sentindo o formigamento se espalhar pelo nariz. Certamente ficaria vermelho por um tempo após o susto.

— Ai! — Lamentou. — Desc-

Era a primeira vez que ficava cara a cara com ele após muito tempo. Tudo ao seu redor desapareceu, fazendo-a engolir as próprias palavras. Ela achava que não teria que enfrentá-lo tão cedo, mas estava enganada. O destino realmente prega peças.

O mesmo medo que sentiu naquela última conversa deles veio à tona.

Recuou alguns passos até sentir as costas se chocarem contra a parede atrás dela; estava encurralada novamente, como da última vez em que estiveram frente a frente. Ficou sem reação, incapaz de agir ou dizer algo imediatamente.

— Huryome. — Chamou-a, com frieza.

Quando finalmente recobrou a consciência, percebeu que ele ainda a tratava como uma estranha, enquanto seus olhos heterocromáticos a examinavam atentamente.

— Desculpe, Akashi. — Respondeu por fim, rompendo o silêncio. — Não o vi.

O time da Rakuzan assistia à cena, sem compreender.

Será que Akashi conhecia aquela garota? Por que pareciam pesar meticulosamente cada palavra que trocariam?

— Imaginei que, após a derrota da Shutoku, você teria ido embora. — Ele começou. — Mas vejo que não. Você ainda mantém sua bravura, talvez ainda mais evidente do que antes.

— Sim, continuo assim.

— Ótimo. Percebi que tentou auxiliar o Shintaro me a vencer. Devo admitir sua coragem e, de fato, fiquei impressionado com o movimento que ele fez. No entanto, não foi o bastante. — Seijuro sorriu de forma irônica. — Me diga, você está tão sedenta por vingança assim? Pensei que gostasse de mim, considerando nossa história na Teiko.

Estava brincando com ela e era difícil suportar isso.

— Olhe para mim. — Ele continuou, antes que a garota pudesse responder. Ele sabia que isso a afetaria profundamente.

Ela lembrava-se bem daquela frase, então fechou os olhos, sentindo-se tão pressionada como naquela ocasião. No entanto, ela não estava sozinha. E quando sentiu a mão repousar em sua cabeça, tinha certeza de que não era a de Akashi.

― Hikari. ― Kagami expressou. Quando ela abriu os olhos para encará-lo, ele continuou. ― Vamos? Estamos aguardando por você.

O capitão do Rakuzan observou ambos: primeiro a garota, e depois o craque do time adversário. Como alguém ousara interromper aquele instante de poder revê-la novamente, mesmo sendo tão impiedoso?

— Uma vez que você entra para a equipe da Seirin, sempre fará parte dela. ― Exclamou Hyuga.

— E agora você faz parte do nosso grupo. ― Confirmou Teppei.

— Não é algo facilmente substituível. ― Riko assegurou.

— Eu queria fazer um trocadilho, mas estou sem ideias… ― Pela primeira vez, Izuki pareceu perdido. A treinadora acabou lhe dando um tapa na cabeça. ― Ai! ― Reclamou o moreno.

— Não estrague um momento desses! ― Ela repreendeu.

— De qualquer forma, não vamos deixar você para trás! ― Furihata fez um gesto positivo com a mão, enquanto o time concordava, imitando-o.

— Akashi. — Chamou, Kuroko, olhando para o de cabelos rosados. — Ela está conosco e vamos dar o nosso melhor, juntos.

— Compreendo. Vamos, Rakuzan. — Ordenou, ainda assim focando na azulada. — Sem dúvida, sentirei sua presença no basquete deles. Veremos se será o bastante, porém, já aviso: Rakuzan nunca perde. Eu nunca perderei.

O imperador seguiu em frente com sua equipe.

Não, desta vez não.

Não podia simplesmente aceitar aquilo. Ela estava com Seirin e fizeram sua determinação voltar, como nos velhos tempos na Teiko. Tomou coragem. Aquela audácia que havia desaparecido, renasceu naquele instante.

— SEI! — Gritou, surpreendendo a todos ao redor.

Akashi parou imediatamente. Relutava em admitir, mas aquele apelo o paralisou. Todavia, orgulhoso, não se virou para ela. Apenas esperou.

— Acredito firmemente que a Seirin sairá vitoriosa hoje. Tenho total confiança em todos os jogadores, no Taiga e no Tetsuya. Estejam preparados, pois estamos prontos para a batalha.

Seijuro ouviu cuidadosamente, embora o apelido ao qual ela havia o chamado continuasse a ecoar em sua mente, despertando suas emoções. Decidiu partir daquele local o mais rápido possível.

— Até o começo da partida, Seirin. — Concluiu no final.