Insensível.
2 Capítulo 02.
— Eu ainda não entendi de que maneira essa garota ajudará o time. — Miyaji olhava para ela dos pés à cabeça.
— Eu também não sei. — Takao mostrava-se no mínimo interessado. — Mas, se o Midorima concordou com isso, eu não tenho nenhuma objeção.
— Huryome, espero que saiba o que está fazendo. — O arremessador habilidoso exclamou quando a viu pegar uma prancheta da mochila.
— Em primeiro lugar, poderia parar de se referir a mim como “Huryome”? Compreendo que não nos víamos há muito tempo, mas não é como se você não me conhecesse, Shintaro!
— Sabe que não farei isso. — Ele rebateu prontamente. — E também não fique chamando o meu nome com tamanha intimidade. Você parece o Takao.
— Obrigado pela lembrança, Shintaro! — Disse o moreno, alegre.
— Isso não foi dito como se fosse algo bom, Takao. — Midorima concluiu, por fim.
A garota suspirou complacente e prosseguiu.
— É um prazer conhecer o time de basquete da escola Shutoku. Agradeço por terem me recebido com tamanha cortesia.
— Na verdade, ela entrou aqui através de uma chantagem, não é? — O número 10 da equipe sussurrou para os colegas.
— Pode se dizer que sim… Fiquei surpreso quando Midorima quase a arremessou para fora da sala. — Otsubo respondeu, enquanto lembrou o momento.
[ Minutos atrás ]
— Sim. Estou aqui para ajudar vocês. Shintaro, eu quero que você ganhe do Akashi.
Midorima refletiu as palavras que acabara de escutar.
— Shintaro? Você ouviu o que eu disse? — Aproximou-se do maior, passando pelo técnico que ainda estava ao lado deles.
— Escutei.
— Que ótimo! Então, por que não começamos com…
A azulada mal deu dois passos: foi impedida de adentrar a sala já que teve a alça da mochila segurada.
— Aonde pensa que vai? — Indagou Midorima, o responsável pelo impedimento.
— Vou ajudar vocês!
— E em que momento eu disse precisar da sua ajuda? — Ele a colocou para fora. — Vencerei o Akashi sozinho.
— Ele disse sozinho? — Miyaji realmente queria matá-lo.
Hikari tentou entrar outra vez, todavia o alto rapaz de cabelos esverdeados ficou no caminho, impossibilitando qualquer movimento que ela fizesse para tal ação.
— Deixe-me auxiliar, por favor!
— Eu não tenho nada a ver com as pendências que você possui com o Akashi. Eu já tenho problemas demais, não quero mais um.
Ela engoliu em seco, fitando-o.
De certa maneira, assimilava as motivações de Midorima. No entanto, ela não queria atrapalhá-lo e sim, unir-se a ele.
— Mido-
— Admiro o seu empenho em vir até aqui, mas não conte comigo nos seus planos. Adeus. — Ele fechou a porta pós-despedida.
Todos olhavam para o camisa 6, alvoroçados com o que acabara de acontecer. Contudo, preferiram ficar quietos e deixar para lá. Todos, menos ela.
— SHINTARO! — Bateu à porta continuamente quando percebeu estar trancada.
— Não acha que deveríamos abrir? — Otsubo perguntou para Kimura.
— Eu mal sei o que está acontecendo, quem dirá me meter nisso… — Respondeu-lhe.
— SHINTARO! — Persistia.
— Ela não desistirá tão cedo… —Takao observou, olhando para o homem de óculos que enrolava as pontas dos dedos com ataduras.
— Ela logo sairá. Pode ser persistente, porém não é burra. — Suspirou. Tentaria se concentrar apenas em seus pensamentos e, para ajudar, procurou seu amuleto da sorte no bolso do uniforme. Entretanto, ele não estava lá.
— O que houve agora? — Miyaji perguntou, notando a busca desesperada por entre os vãos dos armários.
— O meu amuleto não está aqui!
Demorou, mas logo Midorima pôde captar.
O momento em que a menina de longos cabelos azuis aproveitara a distração e pegava o seu amuleto do bolso. Com certeza, não era burra.
Hikari cruzou os braços e esperou. Quando a porta finalmente abriu, descobriu o semblante nada contente dele, furioso com imensa audácia.
— Esqueceu alguma coisa? — Ela questionou, deixando um irônico sorriso escapar de seus lábios franzinos.
— Devolva agora. — Estendeu a mão.
— Do que está falando? Ah! Disso aqui? — A peça de Shogi surrupiada rolava entre os dedos dela. — Meu signo também teria um dia de sorte hoje e acredito que era sobre isso que o horóscopo estava falando: o seu item da sorte ser minúsculo o suficiente para que eu conseguisse pegá-lo. Oha Asa certeiro como sempre, não é mesmo?
— Chega de tanto gracejo. — Respondeu, irritado. — Por que quer tanto me ajudar a ganhar do Akashi?
— Acredite, Shintaro, eu não quero resolver as minhas pendências por meio de você ou do seu time. Sei que também quer esclarecer as coisas com ele e que quer fazer isso por si. Mas você sabe o quão forte o Akashi pode ser, e sabe que posso ajudar com isso.
— Há algo a mais por detrás de tudo isso, não é? Ou estou enganado? — O esverdeado tinha conhecimento de muitos acontecimentos do passado.
A menina ficou quieta, olhando para o chão na tentativa de distanciar certas lembranças.
— Por favor… Deixe-me participar. Apenas um pouco. — Sussurrou, em uma última tentativa.
De certo modo, ele sabia que não adiantaria dizer não.
Primeiro, que ela tinha posse do seu amuleto, um item de grande importância. Em segundo lugar, ela estava determinada a tentar mais uma vez, apesar das decepções passadas. Midorima raramente se abria para colaborações externas, pois confiava em sua própria capacidade para resolver as situações por conta própria. No entanto, ele reconhecia algo especial na pessoa diante dele e respeitava sua determinação em retornar após experiências do passado.
A azulada tinha um propósito; e ele, também.
— Está bem, Huryome. — Ela o olhou maravilhada quando o ouviu. — Com uma condição: não coloque os seus estímulos acima dos nossos.
— Obrigada, Shintaro. Não colocarei! — Concluiu, animada.
— E mais uma coisa. Devolva-me a peça de Shogi. Agora.
[ Tempo atual ]
As folhas presas à prancheta encontravam-se repletas de dados.
— O meu nome é Huryome Hikari, entretanto, podem me chamar apenas de Hikari. Quero ajudar vocês com algumas táticas que podem ser usadas no jogo que acontecerá daqui a alguns minutos.
— Táticas? — Takao perguntou, confuso. — Estratégias?
— Isso, você aprende muito rápido, Takao! — Respondeu ela, alegremente, anotando ainda mais em seu material.
— Eu? Sim, é verdade, talvez eu seja o cérebro por detrás dessa equipe mesmo… — Colocou a mão no queixo, pensativo.
— Talvez em seus sonhos mais profundos! — Retrucou Miyaji.
— Midorima, de onde você conhece ela? — Otsubo aproximou-se do companheiro de equipe.
— Do ensino fundamental. Ela estudou na Teiko.
— Então é uma amizade antiga.
— Talvez. — Ele a examinava, enquanto ela explicava algumas jogadas para os seus companheiros. Acabou relembrando o período em que ambos conviveram juntos. — Ela está realmente motivada, mas… Será que está preparada o bastante para encará-lo novamente? — Pensou, por último.
* * * * * *
Tanto Midorima Shintaro quanto seus colegas compreendiam que aquela disputa seria árdua. Eles entraram na quadra sabendo que o potencial de cada jogador deveria ser explorado caso quisessem ter êxito. E eles estavam preparados. Renunciar agora era algo inimaginável.
— Entraram! São os veteranos de onze jogos consecutivos! — Exclamou alguém da plateia, admirado com o porte do time. — A escola Shutoku é espantosa!
— E eles estão aqui também! — Outra pessoa percebera que o time adversário marcava presença. — O time mais forte… Escola Rakuzan! Eles são admiráveis!
Hikari observava a entrada dos dois em uma área situada acima das arquibancadas. Seu olhar, agora acompanhando o capitão da escola Rakuzan, brilhava com o ímpeto de buscar algo que ela havia perdido há muito, embora não pudesse conquistar sem antes “derrotá-lo”. No fim das contas, sabia que seria uma tarefa difícil, já que ele jamais havia fracassado até então. Além disso, não poderia colocar as suas inquietações acima dos desejos da escola Shutoku.
Contudo, tinha que reconhecer: era custoso se conter perante a presença dele.
— Eles parecem ser um time tão… Normal. — Disse Takao, analisando-os. Havia relaxado um pouco, de certa forma.
— Do que está falando? Assim, você se dará mal. — Miyaji o alertou. — Não há nada de normal neles. — Observou, enquanto encarava o time adversário. — Akashi, o número quatro, é o capitão. Você sabe que, por mais incrível que um calouro seja, isso raramente acontece. E o mais impressionante é que nenhum jogador do banco ou do resto do time parece ter algum problema com isso.
— Nem mesmo os Reis sem Coroa. — Complementou Kimura. — Todos têm suas peculiaridades e são orgulhosos, mas todos o aceitam como capitão. Eu os conheço, e isso não faz sentido. Não dá para chamar de normal alguém que lidera com tanta naturalidade.
O lançador mal ouviu. Sua concentração estava voltada para suas mãos e as jogadas que planejava executar para levar sua equipe à vitória, embora tivesse profundo respeito por Akashi e suas habilidades em quadra. Ele não poderia vacilar. Mesmo tendo perdido todas as partidas de Shogi para o garoto de cabelos cor de rosa durante os intervalos na escola primária, ele não permitiria que isso se repetisse no jogo de basquete. Sua determinação era inabalável.
O jogo está prestes a começar.
— Vou vencer, Akashi. — Exprimiu Midorima, já no meio da quadra.
— Isso é impossível, Shintaro. — Rebateu, com um sorriso seguro demais em seus lábios. — Alguma vez me forçou a desistir?
— Shogi e basquete são coisas diferentes.
— São o mesmo. Eu nunca me engano. — Os olhos heterocromáticos reluziram. — Como sempre venço, estou sempre certo.
Hikari estava agitada, porque colocara todas as expectativas nas mãos daquela escola que vestia o uniforme laranja. Por um momento, fechou os olhos e respirou profundamente, tentando manter a serenidade, porém, ao ouvir o sinal indicando que a partir de agora tudo valeria, firmou o olhar em Shintaro.
Ele iniciou com tudo. Quanto mais cesta de três pontos fizer, melhor.
Kazunari Takao ficou no encargo de marcar Akashi.
Com essa informação em mãos, Huryome tentou concentrar o maior número de dicas que podia transmitir a ele: “— Takao, preste atenção. Você precisará se concentrar nos movimentos dele, antes mesmo que ele os execute por completo. Ele é ágil, além de meticuloso em tudo o que faz. Use os seus olhos com prudência.”, dissera. Ela confiou no potencial dele e, por momentos, conseguiu impedir certas estratégias do rival. Contudo, nada seria capaz de deter Akashi por muito tempo.
O primeiro quarto terminou.
— Ele é bom. — Kazunari expressou, enxugando o suor da testa com a toalha que trouxera. — Mas sinto que há algo a mais. Ainda consigo acompanhá-lo com facilidade.
— Continue assim, Takao. — Apoiou o técnico. — Acredito que oferecerão mais habilidades durante o segundo quarto. Fiquem espertos.
O som, revelando que o segundo quarto estava prestes a começar, soou.
Todos entraram em quadra outra vez, no entanto, Shintaro está sendo marcado por dois adversários. Com certeza, a Rakuzan quer bloquear suas poderosas cestas de três.
Tendo consciência disso, uma jogada com Miyaji foi feita, que driblou facilmente o seu oponente e conseguiu marcar a cesta.
— Parece estar tudo nos conformes. — Ponderou a garota que assistia ao jogo. — Porém, o Akashi continua muito sossegado…
De súbito, tudo pareceu mudar. Kotaro, o número sete da Rakuzan, passou por Miyaji, pagando o drible anterior na mesma moeda.
O problema não estava apenas no jogo do Akashi. A adversidade maior da escola Shutoku era o time completo. E Akashi nem mesmo havia usado sua carta na manga.
— Shintaro. — Seijuro o chamou, quando teve a oportunidade de ficar próximo a ele. — Que fique claro que não estou subestimando você. É preciso ser muito cuidadoso ao usar a carta na manga. Entretanto, se as coisas continuarem nesse ritmo, o jogo pode acabar sem nem precisar usá-la. Afinal… Eu não preciso fazer nada sozinho.
* * * * * *
O andamento do jogo mudou drasticamente após aquele golpe. Kiyoshi Miyaji manifestou apreensão, além de decepção consigo mesmo por não conseguir interceptar ou bloquear qualquer jogada que Kotaro estava fazendo. O número sete da Rakuzan está em seu ápice.
— Não se preocupe, Miyaji. — Otsubo foi ao encontro do amigo. — Vamos acelerar e recuperar os pontos perdidos.
— É… — Respondeu, frustrado. Não estava conseguindo tirar da cabeça o sussurro de Kotaro: “três devem bastar”, antes de driblá-lo. — Eu mal vi, mas será que é possível? Ele mal toca a bola. “Três” é o número de dedos que ele usa para transmitir toda a força do corpo à bola. Então… Esse drible possui dois níveis mais altos? — Pensou.
— Droga. — Avaliou a azulada, angustiada. — Foi um erro acreditar que o Akashi seria o máximo dos problemas. É lógico que os Reis sem Coroa mostrariam competência.
Em poucos minutos, a vantagem ampliou para a Rakuzan.
Além disso, com Akashi realizando seus passes eficazmente, Nebuya defendendo de maneira hábil, Mibuchi arremessando sem nenhum erro e Mayuzumi fazendo seu papel excepcionalmente, colaboravam com a debilidade da Shutoku.
Porém, Midorima não cederia.
Ele chegou até ali por mérito próprio.
Não, estava equivocado. Chegou até ali junto a sua equipe e lutaria por todos eles. E, em um célere movimento, bloqueou a jogada de Kotaro, que se surpreendeu por não ter o visto.
— Beleza! — Kazunari exclamou, de pronto. Com a bola de basquete em mãos outra vez, trabalhou o contra-ataque com o próprio ás do time.
O arremessador estava disposto a tudo, e ele conseguiu. Fintou um, dois, três.
— Não há ninguém lutando só nesse time. Não há ninguém que esteja me afundando. — Deu o passe para Miyaji, que por sua vez, fez a cesta. Shintaro não aceitou de bom grado as provocações de Reo, o qual, mais cedo, havia sussurrado-lhe: “seu time está afundando-o”. — Todos estão lutando pelos mesmos objetivos.
— Ei! — Kiyoshi passa por Midorima. — Foi um ótimo passe. Obrigado por isso.
— Shintaro… — Hikari refletiu. — Você possui ótimos companheiros de equipe.
O segundo quarto acabou. 39 vs 39? Nada mal.
Enquanto o intervalo permanecera, as escolas Kaijo e Seirin entraram em quadra para aquecimento. Haveria outro jogo disputado depois daquele.
— Tetsuya? Então ele é membro da escola Seirin. — Concluiu Huryome quando o viu entrar e, em seguida, fixou o olhar em Kagami. — Ora, ora. Os tênis serviram, afinal. — Sorriu
Seu pequeno ápice de satisfação fora cortado quando viu Kuroko e Kagami encontrarem Akashi. Observando melhor, ele parecia mais interessado no menino de cabelos azul-claros do que no mais alto. Ainda assim, Kagami o confrontou.
A fisionomia da garota que os observava mudou por total quando viu o craque da Seirin no chão, de repente. O homem de cabelos rosados fez um jogador, centímetros mais alto e, talvez, mais forte, sentar no piso sem esforço algum.
O quão longe Seijuro pode ir?
Ela não ocultou a preocupação que começou a surgir a partir daquele instante.
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