Insanity
2 Probably Insane
Notas iniciais
Annabeth avalia o seu reflexo no espelho embaçado, devido a umidade. Passa a mão em um espaço pequeno, para que o reflexo ficasse um pouco mais legível, mas o suficiente para que ela possa passar a máscara para cílios sem borrar. Os cabelos que eram apenas ondulados, desta vez caiam em perfeitos cachos que ela havia acabado de modelar. Os olhos cinzas estavam mais destacados, devido ao rímel e lápis de olho que usara. Os lábios ainda estavam naturais, mas o batom vermelho estava no bolso da calça de couro.
Não podia correr o risco de dar de cara com os pais na saída, e muito menos de os fazer questionarem o por que de suas vestimentas e do batom forte. Para eles, ela ainda era a sua eterna princesa, não enxergavam que a garotinha de sete anos atrás havia crescido, e muito menos em que ela havia se tornado.
Calça as sapatilhas com um enorme laço no topo, e coloca as botas de salto agulha na bolsa que carregava. O sobretudo cobria o espartilho também de couro que usava — este que, para a sua alegria, realçava os seios não tão fartos assim da garota. Ali, as vestimentas escondidas pelo grande casaco bege com estampa de guardas chuvas, parecia apenas a Annabeth Mary Chase de dezessete anos, a rainha do baile e estrela de musicais.
Encosta a porta do enorme quarto de móveis vintage da forma mais silenciosa possível, e com a bolsa com os acessórios sob o ombro, vai descendo as escadas sem fazer barulho algum. Quase tem um ataque cardíaco quando a voz grave e carinhosa do pai se dirige a ela:
– Querida?
Coloca a mão sobre o peito em uma tentativa inútil de fazer o coração se acalmar, e leva alguns segundos para se recompor.
– Papai. — diz, tentando sorrir da forma mais dócil e meiga possível — O senhor quer me matar de susto?!
– Por que está vestida assim, meu bem? — sua mãe pergunta, ignorando a pergunta dirigida ao marido
Os pais de Annabeth formavam um casal muito bonito, não podia negar. A mãe, uma mulher por volta dos quarenta e poucos anos, tinha os olhos tão cinzas quanto os da herdeira única, os cabelos eram volumosos e castanhos, e a pele perfeita e bem cuidada contrastava muito bem com o corpo esguio. Era visível que era uma mulher de muita classe e elegância. Do seu pai, havia puxado os fios loiros; ele era um homem de palavra, e através dos olhos azuis e penetrantes era possível enxergar muita honestidade, ternura e inteligência.
Annabeth sorri tão falsamente que suas bochechas começam a doer, ela se dirige ao grande sofá branco onde os dois se encontravam, e finge fazer uma expressão de desgosto ao ver as taças de vinhos, e a garrafa pela metade.
– Bebendo, de novo? — diz, com a voz acusatória e a pose mais ainda
– Querida, é sexta-feira! — o pai diz, sorrindo, e realçando as poucas rugas — de preocupação e de tanto sorrir — que possuía
– Isso não significa que é correto, papai. — fala suavemente, as mãos no quadril e a expressão falsamente dura
– Tudo bem, Annabeth, prometemos que não vamos nem sequer acabar com essa garrafa. — sua mãe revira as grandes órbitas cinzas como as da filha — E você?
– Eu o que? — Annabeth diz, a expressão demonstrando uma confusão inexistente
– Para onde vai a essa hora? Já são quase onze da noite! — seu pai acaricia os seus cabelos, a fazendo perder a compostura por meio segundo
– Ah, isso. — ela quase pode escutar as engrenagens do seu cérebro trabalhando e pensando em alguma desculpa ao menos plausível para a saída — Bom, vai haver um encontro na casa da Amanda. Vamos estudar Shakespeare. — ela diz, fingindo sorrir orgulhosa
– Mas a essa hora da noite? — sua mãe questiona
– Sim, nunca é tarde o suficiente para Shakespeare, mamãe. — fala, a língua enrolando e prolongando a última palavra — Além de que, não serei só eu. Quase todo o clube de teatro vai estar lá, se quiser, pode ligar para a senhora Lincoln para confirmar...
A expressão de mágoa que a loira faz, faria até o presidente dos Estados Unidos pedir desculpa por algo que não fez.
– Não, não será necessário. — seu pai se apressa em dizer — Confiamos em você.
Annabeth solta um sorriso mínimo, e se inclina para dar dois beijos estralados na bochecha de cada um, juntamente com um meio abraço.
– Bom, Shakespeare me espera! — fala, acenando antes de correr até a porta — Não se preocupem comigo, provavelmente vou acabar dormindo por lá mesmo...
Assim que a enorme porta de madeira maciça impede que os pais a vejam, o largo sorriso que ocupava metade do seu rosto é substituído por um pequeno e charmoso curvar de lábios. Ela corre até o carro, um Land Rover preto que havia ganho no aniversário do ano anterior.
Dirige por cerca de duas quadras, e para o carro no meio fio. Não precisava se preocupar com assaltos, já que, enquanto estivesse nos domínios do condomínio de luxo, estaria segura. Troca as delicadas sapatilhas pelas botas que iam até o joelho e cobriam grande parte das pernas. Joga o casaco grosso e meigo no banco de trás do carro e, se olhando no retrovisor do carro, aplica duas, três camadas, do batom vermelho fogo.
Mesmo protegida pelas portas blindadas do automóvel, e com o aquecedor deste ligado, o frio atingia diretamente os seus braços expostos, o que faz com que ela dirija mais rápido. Trinta minutos depois, estava estacionando em uma rua mais iluminada e movimentada do que a qual se dirigia. Depois de ligar o alarme do carro, ela caminha rápida e apressadamente, mesmo com os saltos finos e enormes, devido ao frio e a pressa. Três quarteirões depois, havia chegado a uma rua com iluminação mais fraca, e logo, ao prédio com faixada de sorveteria.
Uma grande placa com os dizeres "Shoping crème glacée Douce" ocupava a maior parte da faixada do local, e as luzes que a iluminavam faziam os olhos de Annabeth semicerrarem. A garota entra por uma porta lateral, que facilmente se passava por porta dos fundos, ou depósito de lixo da sorveteria. Um pequeno corredor levava o estabelecimento que funcionava aos fundos da loja, que era na verdade, a principal atração do local.
Ela tem de engolir a expressão de nojo e repugnância que a dominam quando chega ao escuro e movimentado salão. A maioria dos clientes do estabelecimento não eram o tipo de pessoa que ela gostaria de conversar, mas ela era exatamente o tipo de garota que os faziam frequentar o local.
Desvia de alguns velhos e homens que tentam passar a mão na sua bunda, enquanto os olhos vagam pelo lugar, atrás do motivo da sua ida ao local. Era meio óbvio que não estava na casa da Amanda estudando Shakespeare, a essa altura. Joga os longos cachos dourados sobre o ombro esquerdo quando finalmente encontra o homem de cabeça raspada e corpo tatuado, e se coloca a caminhar até o local em que se encontrava.
Finge um pigarro, antes de arrastar uma das cadeiras de cobre e se sentar.
– Peço perdão pelo atraso. — diz, soando tão formal quanto gostaria: não queria demonstrar segundas intenções diante do homem com o qual se encontrava — Tive alguns imprevistos.
– Claro, disponha. — o estômago da garota embrulha quando o repugnante ser tatuado umedece os lábios com a língua, os olhos levemente vermelhos — Me pergunto o que a fez marcar este... Encontro.
Annabeth tem de se conter para não revirar os olhos diante do sorriso malicioso que ele a dirige. Essa era a parte do trabalho que menos a agradava.
– Creio que já tem ao menos uma noção de meus motivos. — fala, indo diretamente ao ponto — Preciso de um preço.
– Desculpe, acho que não entendi. — ele se finge desentendido, e Annabeth tem de colocar as mãos sobre as pernas para desviar das mãos grandes e nojentas do homem, que tentavam segurar as suas
– Ares. — diz, a palavra sai arranhando a sua garganta — Você sabe exatamente do que estou falando. Quanto quer para manter o bico fechado, e fingir que nunca viu que há um bordel por detrás da fachada de uma sorveteria?
A risada que escapa da garganta do homem era rouca, de uma forma repugnante.
– Acho que agora entendi porque eles mandaram você. — ele diz
Annabeth arqueia uma sobrancelha como resposta.
– Essa sua facilidade de manipular os outros, e essa frieza... Chega a ser extremamente sensual.
– Talvez seja porque eu sou a que faz os melhores negócios. — ela rebate, contendo a repugnância e veneno que provavelmente sairiam cuspidos junto com as palavras
– Eu tenho certeza que não. — o homem diz, a mão áspera tocando o rosto fino, de traços marcantes e pele macia da garota — Já tenho o meu preço.
Insanity ☠
Por mais que Thalia quisesse, não conseguia ficar brava com Perseu. Sabia que que podia confiar nele, assim como em Nico. Mas Annabeth era a menos confiável no ponto de vista da Grace. Com todo seu charme angelical consegue enganar e conquistar qualquer um, inclusive o próprio Percy, que já estava caindo nas graças da loira. E o fato dela ser uma grande atriz manipuladora aguçava o sentido defensivo da morena.
Percy encarava a garota, que vestia um imenso casaco, cobrindo o pequeno uniforme azul e vermelho das líderes de torcida.
– Por que se arrisca tanto tentando contrariar Nico? Sabe o que ele pode fazer com você. — Thalia tentou alertar o garoto novamente, e como nas outras vezes ele deu de ombros.
– O que ele vai fazer ? Me apagar ? Sabe que sou eu que mais me arrisco, o que leva as drogas para Travis, e que pega as garotas para todos aqui. Sem mim quem faria isso? Você ou Annabeth ? Nico sacrificaria sem pensar duas vezes qualquer um para se safar. — ele para um segundo, olhando para os lados, como se fosse contar um grande segredo. — Até mesmo você, a favorita dele. — sorri sacana.
Os olhos azuis eletrizantes da morena ferveram de ódio.
– Ele não faria isso... sabe que se qualquer um aqui se ferrar todos se ferram junto. Ele não apagaria você. Faria algo pior que a morte.
– O que por exemplo? — Perseu falou com uma dúvida divertida.
– Cortar seu brinquedinho fora, quem sabe. — soltou uma longa revirada de olhos antes de sair de debaixo da arquibancada. Deixando o garoto sozinho no espaço mínimo.
Percy, por sua vez, apenas se encolheu um pouco mais devido ao frio, observando a forma como os cabelos repicados de Thalia balançavam conforme ela se afastava. Ele não era muito de fumar, mas sempre que precisava pensar — coisa que não ocorria com muita frequência -, acendia um cigarro. Não sabia se era a sensação que a nicotina o causava, ou apenas a forma como ela o fazia se sentir, simplesmente livre e sem nenhuma preocupação.
E ali, em meio a nuvem de fumaça que subia, ele assiste a garota sumir, e se perde em meio aos próprios pensamentos.
☠
Hera batia pela quinta vez na porta do quarto de Thalia.
A garota soltou um suspiro pesado, aquela mulher era insuportável.
– Já estou indo! — gritou, passando as mãos calmamente pelo vestido cor-de-rosa com pequenos brilhantes (este que não era de todo mal, até realçava seus seios médios) que Hera a obrigara vestir. Sentou na cama e pegou seu salto alto também rosa. Caminhou lentamente até o imenso espelho, não estava tão ruim. Seus cabelos negros repicados com as pontas azuis escuras estavam presos em um elegante coque, com algumas mechas soltas, sua maquiagem era leve, os olhos eletrizantes estavam cobertos com uma camada soave de branco e seus lábios carnudos com um brilho labial com gosto de uvas, bem diferente da qual costumava usar para ir às reuniões de trabalho.
Olhando-se assim no espelho tinha uma grande vontade de rir da garota completamente estranha no reflexo. Ela já tinha sido assim, anos atrás. Mas agora era completamente o oposto, no jeito de pensar, de viver, e de agir. A garotinha indefesa e feliz de anos atrás já tinha partido há algum tempo.
– Garota, ande logo, seu pai está impaciente. — reclamava sua madrasta.
Pai. Uma palavra que não se encontrava mais no vocabulário da morena.Três anos atrás descobriu que o homem que convivia todos os dias e chamava de pai era um completo farsante. Não nutria nenhum tipo amor paternal pelo homem.
Com força abriu a porta, recebendo a madrasta com um sorriso sarcástico.
– Estou bonita, mamãe? — provocou a jovem.
– Cale sua boca! Tenho idade para ser sua irmã. — reprovou Hera, a mulher tinha por volta de seus vinte e dois anos, mas tinha tanta maquiagem no rosto que parecia ter trinta. — E você está simplesmente mag-ni-fi-ca ! Só faltou aquela jaquetinha rosa e ficaria perfeita.
– Por acaso você não teve bonecas quando criança? — resmungou, batendo propositalmente no ombro da madrasta.
– Eu tive muitas e elas eram...
– Não estou afim de saber! Não era você que queria ir logo? — as duas garotas desciam as escadas devagar, por causa dos imensos saltos.
– Você não tem o direito de falar assim comigo! Sou a esposa de seu pai! Se me tratar assim naquele jantar seu papai não irá gostar nadinha... — a mulher de cabelos castanhos para no meio da escada, sendo acompanhada por Thalia.
– Será que ele também iria gostar de saber que você compra 3 kg de maconha por mês? — Thalia se arrependeu mentalmente do que falou, como iria explicar que sabia disso? Qualquer ser humano normal poderia suspeitar, mas a madrasta era burra demais para cogitar isso.
– Como você sabe disso? Aliás, por que acha que sabe disso? — Hera tentou converter imediatamente o que confessou.
– Vi você recebendo a mercadoria esses dias, acho que esqueceu que eu estava em casa, mas fique tranquila, se fizer alguns favores para mim não conto a ninguém. — tenta enrolar, agora andando apressadamente até a sala de estar, onde Zeus a esperava. Foi sorrindo até seu pai, fazendo uma atuação quase tão boa quanto de Annabeth.
O caminho até o restaurante mais famoso e caro da cidade era longo, por volta de meia hora até chegarem a imensa construção, cheia de brilho e glamour.
– Querida, não seremos apenas nós nesse jantar. — Zeus falou cauteloso. — Não fique chatiada, sei que queria jantar somente comigo e Hera hoje, mas podemos marcar outro dia. — ele era tão ingênuo, Thalia não ficara chateada — e nem se importava — pelo jantar.
Mesmo assim tratou de colocar seu olhar mais tristonho.
–Ah, e com quem mais vamos jantar?
– Com alguns parceiros de negócios. — resmungou, revirando os olhos azuis.
Thalia suspirou, segurando a vontade de inventar uma desculpa qualquer para ficar em casa. Tudo que ela realmente queria era ir a um jantar de negócios, com toda certeza. Iupi!!
Insanity ☠
Annabeth demora pouco mais de um milésimo de segundo para compreender a que o repugnante homem a sua frente se referia. O tempo poderia ser considerado longo, levando em conta que este tinha uma das mãos no saco, e a outra se aproximava do braço da garota.
Não sabia se a careta que se apossava do seu rosto era de nojo; repugnância ou raiva, odiava ter de lidar com este tipo de situação.
– Nem pense. — fala, a voz soando dura; clara e autoritária, extremamente diferente daquela que havia usado mais cedo com os pais — Não encoste um dedo em mim.
O sorriso que se formava nos lábios do senhor era grande e amarelo, a maioria dos dentes tinha alguma imperfeição, e era difícil achar algum que não estivesse torto. Os olhos de uma cor indecifrável que chegavam a parecer vermelhos tinham um brilho que ela ousava comparar com as chamas de uma fogueira que queimava alto.
– Ou o que, Barbie?– ele fala, os dedos ásperos arranhando a pele macia da garota a medida que ele acariciava o seu pulso — Vai me bater com a sua bolsa e acessórios? Ou vai ligar para os seus amiguinhos? Aposto que eles também não vão ficar nada felizes de saber que você não conseguiu manter o meu bico fechado.
Ela gostaria de dizer que podia o matar com a chave do carro que estava do bolso de trás de sua calça, — coisa que realmente faria, em outras circunstâncias — mas não era o tipo de pessoa que fugia de suas responsabilidades. Se o matasse naquele momento, não teriam de se preocupar com a informação, pois esta seria enterrada a sete palmos do chão junto com ele; mas era simplesmente calculista e preocupada demais para agir sem antes saber se mais alguém tinha acesso aquela informação. Não dava laço sem nó.
– Não seja tolo, Ares. — fala, recolhendo o braço que ele acariciava sem conter a expressão de nojo — Sabe que eu poderia lhe matar agora mesmo.
– Claro que sei. — a forma como a tatuagem de leão que ele tinha na nuca se comprima e alargava conforme ele falava e sorria a deixavam desconfortável, como se este fosse um leão prestes a dar o bote — Mas não acho que levantaria este tipo de suspeita, matar um oficial de polícia que estava investigando justamente isso... Simplesmente na cara demais.
A loira se limita a comprimir os lábios, se recusando a demonstrar que ele havia seguido exatamente a mesma linha de raciocínio da própria. Poderia parecer um crocodilo, mas ao menos ainda era racional.
– Não tem escolha. — ele completa — Pode me matar e me jogar em um bueiro, como sua amiguinha dos olhos eletrizantes já fez, mas você — a pausa que o homem faz antes de completar é longa, e faz os comandos nervosos da garota simplesmente desacelerarem a ponto de sua espinha dorsal se arrepiar — é sem dúvida a mais inteligente, perigosa, sábia e psicopata dos quatro. Psicopatas pensam muito antes de agir.
A forma como ele a chama de psicopata, não é de toda forma ruim. Na verdade, ela já havia até considerado essa hipótese, e pesquisado sobre o transtorno. Acabou concluindo que não se enquadrava no perfil, e se descobrindo total e completamente sociopata. Era uma psicopata, mas de certa forma conseguia, e gostava, de se relacionar com a sociedade.
Ser chamada de psicopata parecia música aos seus ouvidos, considerando que no seu ramo, o distúrbio cerebral significava ser uma pessoa extremamente inteligente, calculista, carismática e, principalmente, dissimulada e misteriosa.
– Talvez eu realmente seja tudo isso, mas isto não me impede de simplesmente quebrar essa garrafa na sua cabeça e perfurar o seu crânio com uma lasca de vidro. Também posso ser bem impulsiva de vez em quando. — ainda se surpreendia com a frieza e calma que tinha ao se ver nesse tipo de situação, a antiga Annabeth já teria feito xixi nas calças de nervosismo
– Se realmente fosse fazer isto, já teria feito. Por hora, está apenas tentando ganhar tempo para pensar em o que fazer.
A forma como ele simplesmente deduzia tudo que ela pensava era como uma bofetada em sua cara. Com o tempo, ela também havia aprendido a esconder emoções, e fingir outras, como fazia agora.
– Você pensa me conhecer tão bem, saber tudo que se passa na minha mente. — fala, se inclinando e estralando a língua no céu da boca antes de completar — Mas aí vai uma novidade: eu sou uma incógnita. As vezes, nem eu mesma sei o que estou pensando.
Respira fundo, juntando toda a impassibilidade que havia adquirido com o tempo, e esperando que o troglodita a imitasse.
– Me espere no quarto 3. — fala, o olhar perdido na movimentação do estabelecimento, que parecia imune e inerte ao que acontecia na mesa dos dois — Vou tomar algum sedativo que me faça esquecer quem você é, e principalmente, ter amnésia desse acontecimento amanhã de manhã.
O odiável e torto sorriso amarelo que surge nos lábios ressecados e arroxeados do homem a deixava de estômago embrulhado, e este, mais que rapidamente se dirige ao pequeno corredor de paredes estofadas de vermelho que levava aos quartos.
Annabeth se dirige ao balcão, tomando uma grande dose de alguma bebida que ela não fazia ideia do que era; aquele estabelecimento era seu, afinal, não precisava ter vinte um anos pra tomar das próprias bebidas.
– Andie, escute. — fala, a voz soando tão normal quanto antes, já que tinha forte resistência a bebida — Preciso que mande Roxele ao quarto 3 daqui a mais ou menos quinze minutos, diga a ela que o seu cliente mais fiel a espera com o chicote, tudo bem?
O gerente apenas assente com a cabeça, confirmando todas as ordens da jovem e a observando desaparecer em meio a multidão de homens e prostitutas. Annabeth caminha elegantemente em direção ao corredor com baixa iluminação, escolhe alguns instrumentos de tortura sexual e calmamente os esconde sob a calça, ou no cano da bota. Apalpa a lateral do espartilho apenas para ter certeza de que o canivete estava em seu devido lugar. Odiava o fazer naquele local, — homens enjoados de suas mulheres pagavam para ter alguns momentos de prazer naquele lugar, não era justo que transassem no lugar sobre o qual um ser repugnante fora assassinado — mas já não tinha outra escolha.
Gira com certa lentidão a maçaneta dourada que dava ao pequeno cômodo de quatro paredes pintadas de vermelho. Ares se encontrava sentado no meio da cama redonda, os coturnos de plástico estavam jogados na lateral do quarto, juntamente com a camisa de estampa camuflada que ele usava. Ele tinha uma barriga grande e redonda, e Annabeth sentia náuseas ao pensar que a pobre Roxele tinha de transar com um ser como este. Ao menos, hoje o seu sofrimento acabaria.
– Já estava pensando que você havia fugido. — ele comenta
– Eu nunca fujo. — a loira responde, mostrando o chicote escuro que segurava — Eu vou fazer isto, mas vai ser do meu jeito.
Os olhos do homem ficaram ainda mais vermelhos, se possível. E o seu sorriso maior ainda. Com certo desgosto, Annabeth também se da conta no volume sob a calça jeans que ele usava. Ele se deita na cama, esperando por alguma ordem da garota.
Ela vai até o pequeno armário onde se encontrava o frigobar, encontra três pares de luvas — geralmente as mulheres da limpeza sempre deixavam uma caixa de luvas descartáveis por aí, apenas para não terem de voltar ao estoque e pegar mais ao encontrar um cômodo mais bagunçado para limpar — e veste um. Pega o lenço negro que havia a pouco amarrado na cintura e o estica, caminhando em direção a cama.
– Duas regras básicas: você não pode me beijar, e nem pense em segurar nas minhas mãos. — fala — E é por isso que eu estou usando luvas, e que suas mãos vão ficar amarradas.
Annabeth se surpreende ao ver o homem concordar com tudo que ela fala, pois esperava um pouco mais de resistência por parte dele. Felizmente, Ares estava entretido demais em olhar para o decote da garota para discordar de algo.
Ela tira a grossa calça jeans que cobria a cueca box, e depois a mesma, e tem de se segurar para não vomitar diante do pênis arroxeado e cheio de rugas que pula para fora. Gostaria de poder pular esta parte do trabalho, mas seria suspeito demais.
É sem nenhum pretexto que ela estica o chicote e da a primeira chicotada. O homem geme de dor, mas não reclama, e para o desgosto de Annabeth, a sua ereção só parece aumentar. Os cinco minutos seguintes parecem passar como um borrão: ela chicoteia e ele geme e se contorce, ela derrama vodca sobre as marcas vermelhas e então, mais chicotadas. Então, ele parece se cansar de sofrer.
– Certo, agora você já pode tirar a roupa e mostrar a que veio a serviço. — fala, a voz rouca e arrastada
Annabeth sorri maliciosamente, caminhando até estar ajoelhada ao lado dele na lateral da cama. Lentamente, ela vai desamarrando os fios que apertavam o espartilho. Quando boa parte de sua barriga branca e lisa está aparecendo, e Ares parece estar enlouquecendo, sua mão se fecha ao redor do instrumento gelado e duro. Tão rápido quanto um piscar de olhos, Annabeth já havia aberto o canivete e o apontado para a garganta do homem.
Seus olhos continuaram arregalados de surpresa, e o suspiro esganiçado continuou preso na garganta do homem até que toda a vida que restasse nele fosse sugada e derramada junto com o sangue que escorria do corte em seu pescoço. Aos poucos, o olhar ficou vidrado e os membros moles, e só então Annabeth se permitiu sorrir, orgulhosa e divertida, aquele havia sido um assassinato no mínimo peculiar, afinal.
Ainda tinha alguns minutos, então calmamente amarra novamente o espartilho, tomando cuidado para não tocar em nada — não podia deixar nenhum rastro ou fio de cabelo. Quando escuta os passos vindos na direção do quarto, se esconde ao lado da porta.
Seria realmente uma pena matar Roxele, mas precisava manter a discrição, e pra isso não podia deixar sequer uma incógnita. A mulher mal havia aberto a porta, e já tinha o canivete enfiado no estômago. Sangraria até morrer, e levaria consigo, toda a preocupação que aquele homem havia causado nós últimos dias.
Ao menos em uma coisa Ares estava certo: talvez Annabeth fosse realmente uma sociopata.
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