Insanidade
6 Família em luto
Notas iniciais
O ar no ambiente é pesado. Continuam parados sem dizer nada. Ashley engole em seco e tenta falar:
— A…amor... — seus lábios tremidos pronunciam.
— Cala a boca!
— Me ouve, Leroy — tentou novamente, foi quando o homem explodiu.
— CALA A BOCA!! — o som circula alto pela sala, incomodando os ouvidos de Daniel e Ashley — Cala a boca sua vagabunda, piranha! Eu não quero ouvir sua voz! Com você eu falo depois. Agora eu quero falar com ele — apontou Daniel.
— Co..comigo? — pergunta olhando assustado.
— Seu filho da puta desgraçado — inicia o homem indo em direção ao genro que pensa rápido e usa a mesa como proteção e escudo entre ele e o sogro — Desde que você apareceu na minha casa dizendo que a minha filha estava grávida, eu soube que você não prestava. — O homem soca furiosamente a mesa de metal — Um pai sabe! Sabe quando alguém não vai ser bom para um filho. Ela te defendeu, sempre, e olha só — estica o braço indicando a cena. — Esse é o pagamento que ela recebe. Um belo par de chifres. Me diga, rapaz…essa é a primeira vez? Porque se for eu até penso se eu não te mato agora com as minhas próprias mãos! — Bate novamente na mesa com as veias de seu pescoço sobressaltando
Daniel permanece calado após a pergunta. Na sua mente soou engraçado um homem da idade de Leroy achando que conseguiria fazer alguma coisa com ele. Daniel deixa um sorriso de canto de boca escapar.
— Acha isso engraçado? Me responda! — Exige, mas fica surpreso ao ver Daniel gargalhar progressivamente — Doente filho da puta! Você não passa de um lixo! Um desempregado de merda! Eu quero que você saia da minha casa hoje mesmo e nunca mais se aproxime da minha filha.
— Você é um imbecil — Daniel para de rir. — Um velho estúpido e solitário. — Leroy muda sua expressão de raiva para confusão, pois não esperava ouvir tais palavras — Você acha mesmo que é a primeira vez? — Gargalha — Ou melhor, você acha mesmo que a Ashley ia ficar com um velho carente e caindo aos pedaços como você? Se você não tivesse a porra do dinheiro que você tem? — Daniel não soube de onde veio a coragem para dizer essas coisas, mas foi como se algo tomasse conta de seu corpo e expressasse sem medo tudo o que pensa.
Ashley se assusta com a fala, virando a cabeça com rapidez e o encarando.
— Daniel, para com isso, por favor — diz a garota temerosa — ,não piora as coisas.
— Você acha mesmo que ela gosta de você, não é? — Solta outra gargalhada — Ela te iludiu direitinho.
Leroy encara Ashley enquanto ouve as palavras.
— Não… isso não é verdade... — falou com a voz meio enfraquecida. Leroy começa a suar frio. — Eu sei que ela gosta de mim, um pouco que seja. Ashley, por favor… — O homem enxuga a testa com a mão, começando a dar os primeiros sinais de que não estava bem. Mantinha a mão na testa de olhos fechados, mas sem parar de falar — diz que isso é mentira. Diz que tudo não foi só por dinheiro.
Ela começou a negar com a cabeça e quando parecia que ia falar algo, Daniel a interrompeu.
— É claro que foi só por dinheiro seu velho estúpido! — grita e ri — E sabe a melhor parte? Ela disse que o meu pau é bem maior e mais duro do que o seu! — Soltou a última já sabendo o impacto que teria.
— DANIEL! — Gritou a menina o repreendendo.
— Seu desgraçado…AGORA EU TE MATO! — Leroy abre os olhos e, ofegante, puxa a mesa violentamente o mais longe de Daniel que conseguiu. Ao vê-lo sem a proteção, ele parte para atacá-lo. Daniel se prepara erguendo os punhos, mas antes que Leroy chegue no homem, algo impensável acontece. Leroy começa a fazer uma careta de dor, cessando seu andar. O homem curva as costas e coloca a mão no braço esquerdo, gemendo de dor.
— Daniel, eu acho que ele tá passando mal! — Ashley viu Leroy ir ao chão num só baque — Meu Deus! Faz alguma coisa! Eu acho que ele está tendo um infarto!
Corre até o homem para conferir se ele estava bem e se agacha, o virando para cima. Ele está com os olhos entreabertos e seu peito mais fraco que o normal. Pela sua expressão, ele parece inconsciente.
— Ele tá morrendo! Daniel pelo amor de Deus! Ele tá morrendo! Chama ajuda! — Ashley começa a chorar histérica, mas vê que Daniel não faz nada além de observar. — Ela levanta, vai até sua calça e apanha o celular no bolso e, com suas mãos trêmulas, começa a digitar o número do socorro, pedindo uma ambulância.
Após a ligação ser encerrada, ela volta para próximo do corpo não aguentando as lágrimas. Ao longe, Daniel veste-se com pressa. Em seguida, ele se aproxima e entrega as roupas da loira num bolo só.
— Eles já estão vindo? Se veste rápido. Ninguém pode saber o que a gente estava fazendo aqui. — Ela apenas o encara sem reação, ele aumenta o tom. — VESTE LOGO, ANDA! — Ela dá um tremelique, assustada com o grito, então obedece.
— Eu não acredito que isso tá acontecendo, eu não acredito que isso tá acontecendo… — enquanto coloca sua roupa, sussurrava repetidas vezes tentando se convencer que aquela situação não é real. Sua maquiagem naquela altura borrou todo seu rosto. Limpa as lágrimas negras com as mãos.
— Olha, você não pode comentar com ninguém o que aconteceu aqui, está me ouvindo? A gente inventa uma história, mas a verdade ninguém pode saber. — Ashley ignora suas palavras, retornando para o lado do homem caído, mas antes de completar seu trajeto, Daniel a puxa com brutalidade pelo braço. — Você está me ouvindo?! Ninguém pode saber, se não a minha vida e a sua acabam!
Ashley, assustada e desnorteada, o olha. A única coisa que consegue fazer é consentir com a cabeça.
Ashley não é a única a se assustar com Daniel. Na casa da Sra. Clark, Ângela olha no monitor, Daniel abrindo a barriga de bob com as próprias mãos e comendo suas vísceras enquanto o cachorro tremia terminando de morrer no chão. A mais velha não olhava para a tela, desviando o rosto por motivos óbvios. A imagem não era das melhores, mas Ângela consegue reconhecer seu marido mesmo assim. No entanto, sua mente não aceita o que vê. Ângela parada tem a mão sobre a boca em choque.
— E então? Eu precisava te mostrar. É ele? É o seu marido? — Pergunta a Sra. Clark tirando o vídeo.
Ângela a olha, passando as mãos pelo cabelo e pelo rosto, respirando fundo. Antes de dizer qualquer coisa, seu celular toca. Ela se afasta pedindo um minuto à mulher e atende. Para sua infelicidade era Daniel avisando que o pai dela havia sido encaminhado ao hospital em estado grave, a deixando desesperada.
— Eu tenho que ir. — disse após desligar o celular. — Parece que meu pai foi parar no hospital, eu não sei direito o que aconteceu.
A Sra. Clark fica assustada e a leva até a porta. Ela se oferece para cuidar das meninas enquanto Ângela vai ao hospital, mas a mulher disse não ser mais necessário e sai apressada com as duas. A Sra. Clark grita da porta para ela mandar notícias.
***
As nuvens carregadas preenchem o céu, no momento cinzento e escuro, e impedem qualquer fuga que a luz do sol quisesse trazer àquele dia. No entanto, era condizente com o que havia acontecido.
Um padre lê um versículo que fala sobre vida e morte e como todos nós estaríamos juntos um dia. Ângela não consegue parar de chorar. Encosta a cabeça no peito de Daniel que envolve seu braço sobre ela. As meninas do lado da mãe a olham entristecidas com seu sofrimento. Mady abraça a cintura dela. A mais velha por sua vez aperta sua mão.
Daniel se mantém quieto e comportado. Naquele momento, o enterro não lhe interessa em nada, sendo chato e monótono, o deixando com sono. No entanto, uma coisa ali chama sua atenção, o cheiro agradável que exala das pessoas. Não era perfume e sim algo apetitoso. Sua boca inunda de saliva facilmente sentindo o aroma. Está com fome.
Após o padre terminar de ler, Ângela se afasta do marido e enxuga as lágrimas com o lenço branco que carregava. Pega um buquê com flores brancas na cadeira atrás de si e coloca em cima do objeto grande de madeira. Através do vidro do caixão, é possível ver a face do homem, sem expressão.
— Vá em paz, papai. Cuide de nós lá de cima. — abaixa a cabeça sentindo o nó na garganta, sem conseguir conter as lágrimas.
Mais do que nunca, ela se culpava intensamente por ter ficado longe de Leroy, principalmente depois que sua mãe faleceu. Aceita de peito aberto qualquer coisa ruim que lhe acontecesse, pois ela merecia isso. Não se abandona um pai desse modo. Ela lembra que na própria bíblia dizia para honrar seu pai e sua mãe, algo que ela mesma não seguiu, preferindo viver longe com Daniel, contra a vontade da família, e demorando para retomar o contato, tanto que a mãe teve câncer de mama em estágio avançado. Quando percebeu, era tarde demais. Se ela não tivesse ido embora dali ou ao menos estivesse perto com mais frequência, talvez poderia ter notado isso cedo e salvado Martha.
Seu título de filha ruim não parava por aí, visto que após a morte desta, ela se afastou ainda mais do pai, sobrando apenas os escassos contatos que tinha com ele por ligações, pondo a culpa em afazeres de casa, no tempo que Daniel dedicava ao trabalho, não podendo ir com frequência ao lugar. No final de tudo, essas coisas não eram verdade, sendo que ela poderia sim ter dedicado um tempo maior a ele, mas achou que se mantendo longe e fingindo que nada aconteceu, poderia superar com mais facilidade o luto e conviver perante o descaso dado aos pais.
A mão de Daniel encosta o ombro da esposa, lhe confortando e a tirando dos pensamentos que a assombravam. Ao se aproximar do caixão, ele também deposita as flores que segurava.
— Sentiremos sua falta, meu sogro. Que Deus tenha você em um bom lugar.
Um vento forte de repente sopra em todos que estão ali. Várias folhas começam a voar e cair das árvores que chacoalham. A natureza por um instante perece furiosa. Provavelmente, era um sinal que em breve começaria a chover.
As pessoas presentes também deixavam flores em cima do caixão antes de se despedir.
A Sra. Clark se aproxima, abraçando Ângela com força, dizendo que era preciso ser forte nesse momento. As duas mulheres tinham os olhos vermelhos. Cessando o abraço, a mais velha se retira sem olhar Daniel, que estranha o comportamento.
Perto dali, na parte mais vazia do cemitério, Ashley observa tudo atrás de uma árvore. Usa um capuz e um chapéu para disfarçar sua presença. Não quer ser vista por ninguém. Segura uma rosa. Queria se aproximar e depositar ali, tal qual os outros, mas tem medo. Muito mais que isso, tem repulsa de si mesma. Não queria estar no local, ela não tinha esse direito, mesmo assim foi, mas aquele é o máximo que conseguiria.
Ashley se agacha, deixando a rosa no chão e indo embora a pé, sem se importar com a chuva que começa a cair, aumentando gradativamente sua intensidade.
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