Xie Lian chorou por muito tempo, mas um dia as lágrimas secaram e deram lugar à raiva. Ele estava cheio de energia destrutiva. O mundo não era um lugar seguro para ninguém. Como poderiam gerar filhos pra viver em tal antro de sofrimento e desgraça? Olhou seu reflexo no espelho d'água. Sua máscara trágica combinava com as ruínas destroçadas de Xian Le. Para que tantos planos e sonhos, se a morte era o único destino certo, e a carnificina uma nódoa permanente?

Ele chutou e esmurrou tudo em volta. Sua fúria não tinha limites. Os restos de sua cidade natal eram feios e tristes. Somente reduzindo tudo a pó poderia alcançar algum senso estético de pureza. Então, por que não destruir tudo o que restou? Toda sua cidade, seus amigos, seus templos, seu palácio, seus pais ... Sim, até seus pais foram destruídos. Ele não tinha mais nada. Não havia mais nada que o ligasse à terra, à família, a um senso de dever, honra, ao que era correto e justo.

Ele deu uma gargalhada gutural. Ela não tinha mais fim e se prolongava indefinidamente, com soluços e suspiros, como se seu corpo se contorcesse em espasmos incontroláveis. Ficou sem forças e caiu ao chão de qualquer jeito. O pó das pedras e a poeira acumulada naquele lugar destroçado impregnou-o. Seus cabelos, suas roupas e suas mãos ficaram tisnados de amarelo. Somente seu rosto estava limpo sob a máscara trágica. Ele parou de rir e tentou levantar-se.

— Sua Alteza! — uma voz soou a seu lado.

— Quem é sua alteza? Eu não sou seu monarca. Não sou realeza. Não sou nada seu. Não se dirija a mim. — Xie Lian respondeu rispidamente.

Sob a máscara seus olhos tinham um travo de veneno e um instinto assassino penetrou em sua alma. Ele teve vontade de matar esse imbecil estúpido que ousou lhe dar um título de realeza. Quem? Ele? Xie Lian? O réprobo, canalha, pusilânime e inútil filho do rei de Xian Le? Ele afundou seu país em uma guerra injusta e inútil. Apanhou de oficiais celestes. Ladrão e mentiroso. Incapaz de se defender de pessoas comuns. Apunhalado até a morte, por ser burro como uma porta. E levou os próprios genitores à morte.

— Eu vou matar a próxima pessoa que me chamar de Sua Alteza. — Xie Lian gritou.

O rapaz que o chamou ficou calado e baixou a cabeça. Seus cabelos ruivos estavam desalinhados, mas seu porte era o de um guerreiro, com peitoral e ombreiras de metal. E havia a máscara. A mesma máscara trágica que Xie Lian usava.

— Então, Senhor, como devo tratá-lo? — o guerreiro perguntou.

Xie Lian o olhou friamente. Apesar do tom solícito e humilde, Xie Lian o odiava. Ele odiava a todos que o cercavam e tentavam bajula-lo, tratando-o como algo precioso e imaculado. Ele não merecia isso e ele não queria isso.

— Trate-me como aquele que o matará. Eu sou o seu algoz. Eu sou a morte. — Xie Lian disse friamente.

Então se virou e pegou uma barra de ferro do chão. Avançou contra o rapaz e ergueu a barra de ferro em posição de ataque. O guerreiro viu aquilo e se ajoelhou diante dele, baixando a cabeça, se entregando resignadamente à própria morte.

Xie Lian ficou paralisado. Ele não conseguiu desferir o golpe mortal. Ele ainda não conseguia matar a sangue frio. Por mais que ele abominasse aquela servidão do outro, o guerreiro não tinha culpa de ter sido condicionado a sempre obedecer ao mestre. Esse pensamento enfureceu Xie Lian. Ele jogou fora a barra de ferro e deu um chute no peito do rapaz derrubando-o no chão.

— Seu idiota! Eu não sou nada para você. Não sirva a mim. Eu não sou ninguém. Eu, eu, eu sou o Armagedom. Eu sou a desgraça e a derrota, eu sou o azar e a carnificina. Tudo o que toco morre. Tudo o que prezo é destruído. Todos os que me amavam se foram. — Xie Lian caiu de joelhos diante do rapaz. — Você deveria me matar. Por uma questão de justiça. — Xie Lian recomeçou a chorar, mas logo deu lugar a um riso soluçante.

Ele perdeu a noção do tempo e espaço. Quando recobrou a sanidade estava deitado sob uma árvore. O perfume de flores impregnava o ambiente, e passarinhos cantavam à distância.

— Eu trouxe comida. — uma voz soou.

Xie Lian virou-se e se deparou com o guerreiro mascarado.

O rapaz entregou-lhe frutas e uma garrafa de refresco. Xie Lian comeu e bebeu um pouco. Seu corpo estava enfraquecido pelos dias de desvario sem se alimentar. Ele se deu conta que estava sem máscara e que provavelmente o guerreiro a havia tirado.

— Minha máscara ...

— Aqui está. — o guerreiro a entregou.

Xie Lian a observou em suas mãos: de um lado um sorriso, do outro um choro. A imagem da loucura e contradição. Ele estava perdendo sua sanidade pouco a pouco. Não havia futuro para ele. Olhou para o guerreiro intrigado.

— Por que você me serve? Quero dizer, é óbvio que estou louco e que posso cometer crimes e fazer coisas inomináveis. Você deveria me evitar. Eu vou estragar sua vida, rapaz.

O outro sentou-se ao seu lado.

— Eu escolhi servir ao Senhor. Na riqueza e na pobreza. Na saúde e na doença. No bem e no mal. Na alegria e na tristeza. Não me importo de ter minha vida estragada. Eu o aceito de boa vontade.

— Não estou me casando com você. — Xie Lian virou o rosto e olhou a paisagem à distância. — Eu não mereço a sua devoção. Em breve estarei morto e ninguém se lembrará que um dia existi.

O guerreiro o observou por um tempo, e então pegou um fiapo vermelho de sua camisa interna e amarrou um laço em seu dedo esquerdo, enquanto murmurava "eu nunca vou me esquecer de você, sua alteza".
...

Oito séculos depois, esse mesmo jovem guerreiro era agora um demônio, e ainda acariciava o fiapo vermelho amarrado em seu dedo. Seu olhar fixo em Xie Lian ressonando suavemente, deitado ao seu lado, na esteira de palha, no templo Puji. Ele mais uma vez velava pelo sono do homem que uma vez fora o príncipe herdeiro de um reino há muito extinto, e que era a inteira razão da sua existência.

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