Insanidade
1 Insanidade
*Insanidade*
Insanidade – pensei com sarcasmo. Insanas são as palavras que escuto agora, ecoando em minha mente, como se tivessem sido ouvidas em uma vida passada; lutando para chegar a mim e me acordar com o peso da consciência.
Insano é o sentimento de culpa por não poder culpar ninguém a não ser a mim mesma.
É a vontade de ficar aqui, quando já me fui faz tempo.
Insanas são as provocações que não param de me vir à memória. Provocações essas de uma outra época; as mesmas que me fazem estar aqui agora, nesse lugar sem futuro, esperando apenas o passado.
Mas seria mais insano ainda esperar pelo meu passado; passado há tempo; passado com ferro de angústia; passado que, de tão passado, agora se amarrotava dentro da gaveta escura que era a minha mente, encontrada em um armário velho sem rumo, que vivia de esperas.
Esperava tantas coisas que já havia perdido a esperança de esperar. Esperava enquanto lutava para poder continuar esperando e esperava que essa luta acabasse logo, enquanto eu a esperava passar.
Mas como tudo insano na minha vida, acabaria de forma breve e dolorosa. Como tudo insano na minha vida, inclusive ela mesma: a vida.
Como tudo insano na minha vida, acabaria parecendo tolice, crendice de criança. Talvez fosse mesmo e essa, sem dúvida, era a melhor parte.
Insanas são essas palavras que me escuto dizendo agora, acreditando que não é a primeira vez que as repito, acreditando que fazem parte do meu discurso insano.
Que discurso insano seria esse? Talvez parte da minha vida de confusão, onde eu não soube distinguir o insano do que os outros acreditavam ser o certo a se dizer. Eram as pessoas sãs, essas que sabiam as coisas que eram insanas e nunca as faziam; as palavras que eram insanas e nunca as emitiam.
Mas seria isso o bastante para descrever uma pessoa sã?
Acredito que as sãs fossem as que colocavam os insanos no hospício. Mas e se essas que fossem as insanas, então quem está no hospício poderiam ser, na verdade, pessoas sãs?
É insano quando nossa mente viaja dessa maneira, mudando o foco da argumentação.
Provavelmente estaria eu agora me perguntando se eu sou uma pessoa sã, mas será que é esse o caso?
Na verdade, há muito não me importa se sou eu a certa, se sou eu a sã. Isso provavelmente é o meu primeiro sinal de insanidade.
Mas e se não for? E se significar que eu estou lúcida o suficiente para não me iludir pensando que a felicidade poderia estar fora disso tudo, quando claramente não poderia existir dentro de mim, não depois de tudo o que aconteceu.
Será que as pessoas tem mesmo essas condenações, essas limitações? Poderia eu afirmar com o resto da certeza que ainda possuo que já é tarde demais?
Talvez não seja.
Insana é a liberdade: quem pensa que a possui corre sempre o risco de ter uma desilusão. Então será que vale a pena desistir da liberdade para não correr o risco de ter que ser preso alguma vez? E se a prisão estiver em sua própria mente: como fugir disso?
É aí que entramos na cabeça de um insano, a minha, melhor dizendo. Eu sempre imaginei que não quisesse a liberdade pelo simples fato de estar condenada a ficar presa dentro de mim mesma.
E como eu descobrirei se estou certa? Não conheço uma única pessoa sã para me dizer o que é certo.
Por isso eu espero o passado. Espero alguém voltar; alguém que não voltará; alguém que fez parte apenas do meu passado e que não faz parte do futuro de ninguém.
Mas isso é ainda mais insano.
Como tudo na minha vida, que acabou de forma breve e dolorosa, sendo insana a própria vida.
Insanidade – repeti, com o mesmo sarcasmo conhecido por mim e apenas por mim, pois não conheci alguém tempo o suficiente para usar meu sarcasmo e tornar certa a afirmação de que meu sarcasmo era conhecido por mais alguém além de mim mesma.
Continuei pensando na insanidade, enquanto eu resolvo se minha história é presente ou passado.
Dois tempos entrelaçados apenas pela insanidade que sempre existiu no passado e não parou de existir no presente.
E era a minha insanidade, e eu tinha orgulho em afirmar que essa, propriamente dita, era a minha e só minha, pois com certeza não pertencia a mais ninguém, uma vez que não existia mais ninguém para ela poder pertencer.
Mesmo existindo uma pessoa, eu não dividiria minha insanidade, pois era ela – a minha insanidade – que ainda me permitia ter certeza de que eu não havia perdido a lucidez. Mas isso não faz sentido – você diria. Claro, pois, se fizesse sentido, não seria uma história insana e, uma vez que esse é o único tema que eu tenho direito de falar – por causa do meu grande entendimento sobre ele – não abriria mão de usá-lo, já que é necessário um tema para se ter uma história.
E de novo teríamos uma pergunta do nosso estimável leitor: para que é necessário que você – sendo uma pessoa insana assumida – tenha uma história? Pra que você precisa de um tema?
Excelente pergunta. A única coisa mais excelente no momento – ganhando com a maioria de um voto, já que só eu poderia votar – seria ter uma resposta. Mas para que eu precisaria de uma resposta para uma pergunta tão insana quanto essa?
Eu não sabia – ou não sei, pois ainda não decidi o tempo de minha história – qual era o motivo para minha história, mas era como se fosse uma coisa inevitável, sem a qual eu não poderia viver e, ao mesmo tempo, mais inútil impossível.
E era essa a questão mais insana de todas. Eu não sabia o porquê da história e não via forma de sobreviver sem ela.
Mas por que eu preciso de uma história quando não existe ninguém para lê-la? Não é o tipo de história que você lê procurando uma informação importante no final ou ao menos um motivo para lê-la.
O grande problema era que realmente não existia motivo para que alguém lesse tal história, sendo ela sobre o que todos temem.
Não, você não pode negar. As pessoas parecem estar sempre ocupadas, mas quando você as olha de perto, na verdade sua única ocupação é parecer ocupada o suficiente para ninguém suspeitar de sua sanidade.
É, eu sei que não tenho sanidade suficiente para falar de coisas como essa, mas como eu sou a melhor escolha para se falar do tema – a insanidade – sei que posso afirmar com toda a certeza que o maior medo das pessoas lúcidas é a falta de lucidez – a insanidade, novamente.
Insanas essas pessoas que perdem seu tempo querendo evitar a insanidade, quando todos sabemos que mais cedo ou mais tarde ela virá.
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