Insane Beauty

3 Capítulo III: Um frasco, um revólver e uma faca


Notas iniciais
Vamos lá, galero, último capítulo da fic. Talvez eu tenha demorado um pouco, mas como eu já havia dito a algumas pessoas nos reviews e nas notas iniciais desse último capítulo de HL, essa fanfic dá um pouco de trabalho para escrever. Além de todos os detalhes, eu preciso fazer algumas pesquisas também.
Espero que esse cap. te agrade e por favor, leia a as notas finais :)

A água percorria o corpo de Rachel Berry. Estava bem quente, do jeito que gostava. O odor de framboesa de seu shampoo e o de menta de seus sais de banho e sabonete se entrelaçavam e vagavam pelo banheiro coberto de vapor. Aquele era um ambiente reconfortante, quente e úmido, e Rachel se viu desejando nunca mais sair dali, da calmaria do som da água caindo sobre o chão de mármore, da sensação de paz, dos cheiros tão doces, do sentimento confortável de estar em um lugar aquecido e sem barulhos perturbadores. Só ficaria mais perfeito se Quinn Fabray estivesse ali com ela, deleitando do banho relaxante, com beijos e prazer.

Dois dias haviam se passado depois do acontecimento da máscara. Quinn não estava a usando, mas sempre a tinha por perto. Ela também não reclamava mais de seus machucados, pouco falava na verdade. Recusava-se a olhar-se no espelho e quando estava de frente para ele, fechava os olhos e respirava fundo, tentando controlar aos seus demônios que rugiam furiosos em busca de libertação. Rachel havia a flagrado fitando os hematomas de seus braços, roxos e esverdeados, às vezes azuis ou até mesmo pretos. Suas costelas também adquiriram uma coloração escura e estavam doloridas, mesmo que ela alegasse com veemência que não sentia nada. Ela observava aqueles machucados que não estavam em seu rosto e Rachel podia ver seus olhos ardendo em ódio; Quinn provavelmente fantasiava inúmeras formas de matar o homem que havia feito aquilo com ela.

Rachel sabia que, quando Quinn olhava para seus braços e para suas costelas, ficava imaginando como estaria seu rosto. E como ela bem a conhecia, também sabia que Quinn pensava na pior das hipóteses, que sua face estava desfigurada e que até o mais bravo dos homens sentiria um arrepio na espinha ao olhar para ela. A verdade é que não era bem assim. Os ferimentos de Quinn estavam se curando rapidamente para alguém que não havia ido ao médico, recebendo apenas o tratamento amador que Rachel lhe dava, mas sua boa cicatrização ajudava a espantar as marcas. Logicamente, estava longe de estar completamente sarado, mas a melhora era notória a cada dia.

O ar estava um pouco mais leve, mas ainda possuía algo denso voando sobre aquele apartamento. Quinn era uma mulher de poucas palavras depois do que havia acontecido e mantinha-se assim mesmo com as diversas tentativas de Rachel de fazê-la falar. Ela sempre lhe respondia com respostas curtas e objetivas, mas nunca desprovidas de gentileza. Aquilo não satisfazia muito à Rachel, mas ela era capaz de compreender. Sabia que depois de crises Quinn levava certo tempo para estar com seu comportamento normal novamente.

Ameno era a palavra que Rachel usaria para descrever o comportamento de Quinn naqueles dois dias. Não havia lamentações ou murmúrios, quase não havia palavras, se fosse pensar bem, mas concluiu que aquilo era melhor do que todo aquele modo de agir doentio que ela havia presenciado. Havia sentido medo quando viu Quinn com a máscara de Veneza no rosto. Não temeu por ela ou por sua vida, sabia que a loira jamais lhe faria algum mau, mas receou por Quinn; ela não lhe faria alguma maldade, mas isso não significava que não faria a si mesma.

Por mais que Quinn estivesse calma, Rachel tinha convicção de que boa parte daquilo era atuação. Quinn Fabray poderia ser tão boa atriz quanto Rachel Berry e, em certos momentos, até mais. Sabia que a ideia de supostamente perder sua beleza ainda enleava o juízo de Quinn e que ela só se esforçava a manter-se controlada por sua causa, porque não queria que se sentisse triste ou com medo. E por mais que ela temesse que aquela boa pose acabasse explodindo em algo pior, precisava arriscar. Mesmo que Quinn voltasse a perder o controle, ela estaria ali ao seu lado, lhe dando todo o apoio que precisasse. Mas também não podia tentar adivinhar qual seria a próxima atitude de Quinn. Havia descoberto muito cedo que a loira era uma caixinha de surpresas e quando ela tentava prever o que acontecia, a surpresa não se mostrava muito agradável. Porém, quando se deixava levar, a surpresa sempre lhe trazia grande satisfação.

Os músculos de Rachel, antes tensos, agora estavam relaxados e seus nervos descansavam felizes por não estarem mais duros como pedra. Normalmente ela não demoraria quase uma hora em um banho, mas sentiu-se necessitada por fazer aquilo. Estava contente por tê-lo feito; sentia-se tão bem que poderia esquecer-se dos problemas dos últimos dias e sair cantando pela casa.

O ar gelado atingiu o corpo de Rachel quando ela saiu do banheiro. Tremeu com o choque de temperaturas, mas ainda sentia-se maravilhosamente bem. Vestiu-se e penteou seus cabelos sem pressa. Passou seus hidratantes corporais tranquilamente, às vezes até murmurando uma das músicas que ela cantaria em seu musical que não demoraria a estrear. Não estava preocupada com Quinn naquele momento. Quando havia entrado no banho, a loira estava dormindo e provavelmente ainda permanecia adormecida.

Saiu do quarto em direção à cozinha a fim de pegar qualquer besteira para comer. As barras de sua calça de moletom arrastavam-se pelo chão, fazendo-a tropeçar um par de vezes. Quando passou na frente do quarto de Quinn, não resistiu em olhá-la. Rachel sempre achou que ela conseguia ficar ainda mais linda quando estava dormindo, completamente alheia ao caos que acontecia no mundo real, serena e frágil e tão adorável. No meio de algumas noites, quando Rachel não conseguia dormir e quando Quinn finalmente vencia a insônia, a morena entrava sorrateiramente no quarto da loira e ficava ali, só observando e zelando por seu sono. Ela acariciava seus cabelos e distribuía beijinhos suaves em seus lábios. Na maioria das vezes que ela havia feito aquilo, Quinn havia se remexido e resmungado seu nome. Rachel sempre se sentia feliz e abençoada quando aquilo acontecia.

Abriu a porta lentamente, com a intenção de não acordá-la. Mas quando enfiou a cabeça no vão aberto da porta, Quinn não estava ali. Sua cama estava com um amontoado branco e bagunçado de cobertores e travesseiros, mas ela não estava ali. Rachel entrou no quarto e a procurou no banheiro de sua suíte, mas Quinn também não estava ali. Saiu do banheiro e analisou o quarto de Quinn. A gaveta de seu criado mudo estava aberta, onde ela guardava todos os medicamentos que precisava tomar, mas que nunca tomava. Rachel foi até lá e revirou a gaveta. Todos os remédios que a loira realmente necessitava tomar estavam lá, então ela não via razão para aquela gaveta estar escancarada.

Enquanto saia do quarto, pediu aos céus a segurança de Quinn.

Colocou os ouvidos para trabalhar, buscando algum sinal de Quinn na casa aparentemente silenciosa. Ouviu alguns estalos e concluiu que aquilo era lenha sendo consumida pelo fogo. Caminhou até a sala da lareira cuidadosamente. Quando chegou lá, seu sangue virou cubos de gelo dentro de suas veias.

Aquela era uma cena familiar, porém, mais assustadora. Quinn estava sentada no tapete bege, em frente à lareira. A máscara veneziana estava novamente cobrindo seu rosto e também usava lingerie, vermelha desta vez, combinando com as rendas do adorno que carregava na face. Suas costas estavam perfeitamente eretas e as chamas da lareira refletiam no material branco de sua máscara, criando uma luz errática e distorcida, tornando-a mais aterrorizante do que já era. As unhas estavam meio compridas, então feriam mais quando ela tentava cortar suas próprias coxas.

Descansando à sua frente, perfeitamente enfileirados, três objetos: Um frasco, um revólver e uma faca.

Os céus não haviam atendido ao pedido de Rachel.

Rachel se sentia sufocada. Era como se alguém estivesse apertando sua garganta, bloqueando suas vias respiratórias e a impedindo de tomar uma lufada de ar. Algumas lágrimas brotaram em seus olhos e ela sentiu uma terrível vontade de gritar.

—Quinn… – Rachel chamou, sua voz tão quebrada que chegava a dar pena.

O pescoço de Quinn se virou na direção da morena lentamente, os olhos verdes a observando através da máscara que nunca a assustara tanto quanto agora. Pela primeira vez em sua vida, Rachel sentiu medo de Quinn.

O silencio durou apenas alguns segundos, mas parecia eterno. Por mais curto que fosse era torturante e impiedoso e o único som que realmente podia ser ouvido era o da lareira, queimando a lenha de carvalho com suas línguas de fogo preguiçosas. Os olhos de Rachel estampavam medo e incredulidade e todo o desespero e a tristeza que sentia naquele momento. Já os olhos de Quinn eram enigmáticos e quase impossíveis de ler. O verde se misturava num rico tom de dourado que se tornava indecifrável a cada instante. Mas se Rachel prestasse atenção e olhasse no fundo daqueles olhos, encontraria ali um pedido de socorro dolorido e choroso.

—Eu não quero viver assim, Rae – O uso do apelido naquela voz rouca fez um arrepio eriçar todos os pelos do corpo de Rachel – Você sabe o quanto é importante para mim. A beleza – A voz quase tão tinha sentimento, mas se quebrava ao final de cada palavra – Eu lutei muito para me parecer do jeito que pareço. Não sou nada sem minha beleza. Sem ela, eu sou apenas uma garotinha perdida e assustada que tenta ser superior, mas que não passa de alguém com problemas mentais. Alguém louco.

—Q-Quinn…

—Não me diga que eu não sou louca, Rachel – A loira a interrompeu, sua voz subiu consideravelmente, meio embargada por um choro contido – Eu sei que eu sou. Você sabe. Todo mundo sabe – A última palavra veio num sussurro baixo e amargo.

—O q-que você pretende fazer com i-isso? – Foi quase impossível não gaguejar ou tropeçar nas palavras. Havia sido um milagre Rachel ter conseguido dizê-las.

Quinn virou-se novamente para frente, olhando para baixo desta vez, para os objetos. Ela acariciou o frasco de tom marrom e começou:

—Isso é Haldol. Tem trinta mililitros aqui. Se eu tomar tudo de uma vez, além de convulsões e outros diversos sintomas, meus batimentos cardíacos vão se acelerar tanto que meu coração vai parar e eu vou estar morta em poucas horas – Dedilhou a lâmina da faca e depois o metal prateado do revólver – O resto eu acho que você já sabe, mas eu não consigo me decidir qual vou usar.

—Você quer se matar?

—Eu não presto sem minha beleza. Estando feia, eu estou morta.

—Esses machucados vão sarar, Quinn! – Rachel gritou, achando absurdas as palavras que saiam da boca da loira – Vão sarar, vão cicatrizar, só seja paciente! Já estão sarando, em pouco tempo seu rosto vai voltar a ser como antes. Só espere!

—Eu não tenho tempo para esperar, Rachel – Sua voz mantinha-se baixa – Não tenho estrutura para esperar. Você tem ideia do que é saber que seu rosto está destruído? Tem ideia do que é não sair na rua por vergonha? Tem ideia do que é não poder tocar na pessoa que você ama porque você está simplesmente repugnante demais para isso?

—Quem é a pessoa que você ama? – A voz de Rachel havia se tornado incrivelmente calma, mas não menos triste.

—É claro que é você – Respondeu sem pestanejar.

—Não é. Você não me ama.

—O que? – Quinn desviou os olhos da lareira e olhou para Rachel, espantada com o que havia acabado de ouvir – Como pode dizer que eu não te amo?

—E como poderia? Se você realmente me amasse não estaria fazendo isso.

—Isso é… Absurdo.

—Absurdo? Absurdo é isso daqui, o que eu estou vendo. Absurdo é tudo o que você vem dizendo e fazendo.

—Rachel, eu já te disse. Sem a minha beleza, eu não vou conseguir ir para lugar nenhum. Sem minha beleza eu vou ficar presa. Você se lembra da Lucy. Eu não tinha beleza nenhuma naquele tempo. E eu tenho certeza que você também se lembra do que acontecia comigo. Do jeito que as pessoas me tratavam. De como me olhavam – Rachel sentiu seu coração doer com aquilo, mas permaneceu calada – Já é difícil o suficiente ter todas essas… Essas doenças – A voz adquiriu um tom choroso – A beleza é a única coisa que me permite continuar em pé.

Um suspiro exausto saiu dos lábios de Rachel.

—Quando é que você vai entender que não importa sua beleza? Que você é a pessoa mais preciosa desse mundo? – A morena perguntou parecendo cansada.

—Rachel…

—Não! – A cortou – Agora você vai me ouvir – Rachel sentou na frente da loira, que a obedeceu e nada disse – Eu conheci você quando nós tínhamos sete anos. Você era Lucy naquela época. Nós nos tornamos melhores amigas quase no mesmo segundo. Você não era a poderosa Quinn Fabray. Não era a capitã das líderes de torcidas. Não era loira e não era popular. Mas eu estava ali do seu lado, muito antes mesmo de você sonhar em ser Quinn. Eu não me aproximei de você por causa da sua beleza, não que você não fosse bonita, eu particularmente sempre te achei linda – Quinn sentiu vontade de responder, mas manteve sua boca fechada – Mas eu me aproximei porque você era a garota mais doce e inteligente que eu já havia conhecido. Você era gentil e tinha uma perspectiva tão diferente do restante do mundo. Você tinha tanta personalidade para uma criança de sete anos. E mesmo que eu também fosse uma criança de sete anos muito mais infantil do que você, eu sempre fui capaz de ver o que você tem por dentro. Eu me aproximei porque vi beleza em todas as suas atitudes, não porque só achei que você era atraente. Você sabe qual é o seu problema, Quinn? O seu problema é que você quer ser bonita para as pessoas erradas.

“Você quer ser bonita para as pessoas que não se importam com você. Que só estão aí do seu lado porque precisam. Mas você pode ter certeza que se essas pessoas te vissem agora, frágil e machucada, ninguém vai te estenderia a mão. Ninguém vai se preocupar, tentar te ajudar ou pelo menos te dizer uma palavra gentil. Vão olhar pra você e vão virar a cara porque dessa vez é você quem precisa de ajuda e não eles. É por gente desse tipo que você quer morrer, Quinn? Gente que não dá a mínima pra você e que estão pouco se fodendo pro seu estado? Me responde uma coisa: Nesse tempo que você não foi trabalhar alguém veio até aqui ou te ligou para saber como você estava? Alguém veio até você e quis saber a razão pelo qual você não foi pra galeria? Não! Ninguém fez isso porque ninguém se importa! É por gente desse tipo que você quer sacrificar a sua própria vida? É por gente como aqueles filhos da puta do colégio que zombaram de você um dia e que no outro, quando você era popular e poderosa, estavam ali dizendo que sempre te admiraram? Sua vida vale a existência nojenta deles?”

“Há dois dias, você havia me dito que eu sou a coisa mais importante da sua vida; como você quer que eu acredite nisso se você não age como se eu realmente fosse? Porra, Quinn! Você não consegue enxergar o quanto é difícil ver você machucada? Não vê o quanto me dói saber que você está com dor? É tão complicado assim de perceber o quanto me machuca ver você tão triste? Você tem noção de como eu estou me sentindo agora vendo você escolhercom o que vai se matar? Se eu realmente fosse a coisa mais importante da sua vida você não faria isso, você nem ao menos cogitaria fazer isso porque se você realmente me amasse, saberia o quão destruída eu ficaria se você estiver morta. Saberia que eu nunca soube ser feliz sem você, nem mesmo quando eu tinha sete anos. Saberia que, por mais que as pessoas digam que sou eu quem te mantenho de pé, é você quem me faz levantar da cama todos os dias e correr atrás do que eu quero.”


Era como se houvesse pó de chumbo voando pelo ar. O ambiente estava mais pesado e triste. Parecia que as chamas da lareira estavam mais furiosas, queimando com mais intensidade. O cheiro do carvalho sendo consumido pelo fogo estava mais forte. A figura andrógena de O Grito,que estava logo acima da lareira, aparentava estar ainda em mais desespero e agonia. Aquela era uma imagem muito certa para descrever o modo como Quinn Fabray se sentia naquele momento.


Quinn nunca se odiara tanto como naquele instante, e isso poderia ser muito se fosse levado em conta o quão perturbada com a própria existência ela era. Sentia-se como a criatura mais desprezível do universo por fazer Rachel, sua Rachel, a garota que ela amou desde seus sete anos, sentir-se daquele jeito. Queria xingar a si mesma e fazer com que seus machucados doessem ainda mais por ter feito Rachel chorar.Deus, vê-la chorar doía mais do que todos os seus ferimentos juntos.

As lágrimas caíam dos olhos de Rachel, algumas ela nem percebia que haviam escapado. Seu coração doía e seu corpo tremia; tremia de tristeza, de medo, de dor. Apenas pensar na possibilidade de perder Quinn fazia do ar mais denso e tóxico de se respirar. Ela odiava que a loira se sentisse daquela maneira e odiava por ter usado palavras tão duras, mas não viu outra saída a não ser um choque de realidade. Não sabia o que aconteceria a seguir. Não sabia se Quinn iria parar com a ideia de querer se matar ou se depois daquilo ela iria acabar com sua própria vida ou ter outra crise. A atitude de Rachel fora arriscada, mas, acima de tudo, desesperada.

E se Rachel tivesse demorado mais alguns minutos no banho? E se ela não tivesse saído do quarto? Ela encontraria Quinn tendo convulsões e se contorcendo no chão enquanto seu coração batia tão forte a ponto de explodir? Encontraria Quinn com uma bala alojada na cabeça? Encontraria Quinn com a lâmina de uma faca cravada na garganta? Pensar naquilo fez um arrepio gelado e desagradável percorrer sua espinha e uma pontada atingir seu coração.

Até o momento, Quinn parecia estar paralisada, mas agora seus ombros tremiam e seu corpo se curvava para o chão, sua face sob a máscara a centímetros do tapete macio embaixo dela. Era possível ouvir seu choro, um choro livre e intenso, um choro que ela simplesmente havia libertado, um choro que estava preso dentro de si desde aquela noite onde tudo começara. Mas agora a dor era maior e ela sentia-se a pessoa mais suja do mundo.

Rachel se desesperou. Ela correu até Quinn e levantou seu tronco. Arrancou a máscara de sua face e jogou longe, o que fez a máscara cair dentro da lareira. As chamas aumentaram quando o objeto foi ali jogado, e, lentamente, o adorno se derretia e se desfazia, pingando no carvalho queimado gotas de substancias branca, vermelha e dourada. O rosto de Quinn estava corado e tinha um pouco de suor brilhando em sua testa, mas as lágrimas caíam e soluços saíam de seus lábios. Rachel se ajoelhou na frente da loira e tirou alguns fios loiros que estavam em sua face. Ela beijou entre os olhos de Quinn e acariciou seus cabelos, trazendo-a para mais perto de si, assim deitando sua cabeça em seu peito.

As lágrimas de Rachel molhavam os cabelos de Quinn e durante um bom tempo as duas ficaram ali, no meio da sala da lareira, iluminadas pela luz do fogo, chorando nos braços uma da outra, se despedaçando, mas ao mesmo tempo se fortalecendo. Quinn percebia o quão prejudicial ela estava sendo. Se ela fosse honesta, não se importava muito em fazer mal a si mesma, mas só a ideia de magoar Rachel a fazia doente.

Depois de muitas lágrimas derramadas, Rachel se afastou de Quinn, não muito, apenas o suficiente para poder olhar em seu rosto machucado. Ela acariciou sua bochecha manchada por um hematoma roxo claro e olhou nos olhos banhados de lágrimas; ela podia ver estampado naqueles olhos arrependimento, dor, raiva e amor. Beijou docemente seus lábios, sentindo o choro ir embora num um estalo. As mãos de Quinn se enrolaram nos cabelos castanhos da outra, no intuito de aproximar seus corpos. Uma das mãos de Rachel descansava na bochecha de Quinn, nunca parando suas carícias e a outra estava em sua cintura, seus dedos nos seus quadris, brincando com o elástico da calcinha vermelha.

O beijo já não era tão doce, mas ainda assim continha amor e carinho. Quinn e Rachel estavam envolvidas num jogo de lábios e dentes, línguas e saliva, gemidos e suspiros. As mãos de Rachel passeavam por suas costas, a ponta de seus dedos arrepiando a pele pálida, incitando e excitando. Os lábios de Rachel se deslocaram para o pescoço ainda com marcas de Quinn. A morena fez questão de beijar cada marca com toda a doçura que tinha dentro de si. Ela beijou e lambeu os hematomas, sentindo Quinn derreter em seus braços. Quando encontrou um pouco livre de qualquer machucado, ela deu ali uma mordida, fraca o suficiente para não machucar, forte o suficiente para fazer um gemido mais alto sair da boca da loira.

A sala havia ficado quente de repente e ambas sabiam que não era por causa da lareira queimando lenha e a máscara. Toda a angústia e tristeza haviam sido esquecidas, se dissipando para dar espaço ao desejo e ternura. Fazia algum tempo que as duas não se tocavam, então podiam sentir o corpo pulsar e latejar, a mente rodar e se focar apenas uma na outra.

Seus joelhos começavam a doer, então Rachel deitou Quinn no chão, sobre aquele tapete felpudo. O frasco, a arma e a faca permaneciam ali, esperando por seus destinos. Rachel jogou o frasco de Haldol dentro da lareira, ouvindo o barulho do vidro esquentando e rachando até se quebrar em pedaços e do líquido fazendo as chamas aumentarem e o ar adquirir um cheiro estranho. A faca seguiu o mesmo caminho do medicamento e o revólver foi tacado para o final da sala, em um canto da parede.

A regata branca que usava saiu facilmente por sua cabeça. Tirou o sutiã preto simples e deitou por cima do corpo de Quinn, quente e convidativo. Sua boca foi de encontro com a da loira novamente, devorando seus desejos. Rachel agradecia mentalmente pelo corte no lábio de Quinn já estar sarado, caso contrário não poderia beijá-la daquele jeito e ela não tinha certeza se conseguiria se controlar. As unhas de Quinn corriam pelas costas de Rachel lentamente, a agressividade que ela usava para arranhar a si mesma não existia ali. A morena desceu seus lábios para o pescoço e o colo de Quinn, distribuindo beijos e saboreando a pele de gosto agridoce que ela tanto gostava. O tronco da loira foi levantado apenas para que seu sutiã fosse arrancado e jogado longe, mas rapidamente ela já estava no chão mais uma vez, com os lábios maliciosos de Rachel explorando seus seios.

Uma mão agarrou um dos seios de Quinn massageando e apertando, não muito forte, não muito fraco, do jeito que Rachel sabia que Quinn gostava. Sua boca e língua tomavam conta do outro seio, beijando e acariciando, deixando sua pele úmida e aquecida. Os mamilos rosados estavam entumecidos e implorando por contado, e Rachel não se fazia de rogada ao coloca-los na boca e lhes dar o tratamento que ela sabia fazer com perfeição. Os gemidos que Quinn emitia eram um estimulo para que Rachel continuasse, cada vez se esforçando mais para agradar a loira que estava sob si. A morena ali se lembrou do quanto ela gostava de ouvir seu nome sair da boca de Quinn de maneira tão doce e erótica e do quanto ela gostava de proporcionar prazer à outra.

Uma das mãos de Rachel se arrastou pela barriga de Quinn, mas sua boca nunca deixou seus seios. Essa mão adentrou a calcinha de Quinn enquanto sentia os puxões que a loira dava em seu cabelo. Ela acariciou o clitóris impaciente e recebeu um gemido em resposta. Mergulho dois dedos naquela doce umidade, procurando ir o mais fundo que podia. Os quadris de Quinn se levantaram e suas costas se arquearam, um som rouco e enlouquecedor deixando sua garganta.

A mão de Rachel voltou a subir, saindo de dentro da calcinha de Quinn, o que a fez choramingar com a perda de contato. Rachel beijou levemente seus lábios, como se estivesse pedindo que ela tivesse um pouco de paciência. Os dedos que estavam dentro de Quinn se encontravam molhados e quentes. A morena apertou um dos mamilos de Quinn com aqueles dedos, deixando-o úmido e ainda mais rijo. Levou sua boca até lá e chupou o mamilo, sentindo o sabor do desejo da loira. Quinn gemeu e se contorceu, agarrando as nádegas de Rachel com as duas mãos.

A impaciência de Quinn era perceptível, por isso, Rachel deixou seus seios e desceu sua boca para a barriga, beijando, lambendo e sugando. Com um carinho especial, aplicou suaves beijos e lambidas por cima das costelas doloridas, que possuíam uma coloração meio azulada, quase preta. Ela mordeu a pele sensível próxima ao umbigo, uma das mãos de Quinn perdidas em seus cabelos, fazendo uma leve pressão para baixo.

Quando a calcinha vermelha voou pelo cômodo e a boca de Rachel finalmente chegou onde Quinn tanto ansiava, ela soltou um gemido alto, um gemido de pura satisfação e prazer, o que serviu para que a morena colocasse sua língua e seus lábios para trabalhar. Lambeu a extensão, da entrada até o clitóris, colocando-o entre os lábios e o provocando para fora de seu capuz com a ponta da língua. Seus dedos testavam a resistência da entrada, que implorava para que fosse penetrada. A língua de Rachel acariciava tudo o que encontrava pela frente, fazendo amor com aquela carne quente e sensível. O gosto de Quinn enevoava os sentidos de Rachel, mas isso só a fazia querer mais e mais. O gemido que saiu dos lábios da loira correu pela sala, se misturando com os estalos da lareira quando os dedos de Rachel a invadiram novamente; ter a boca e os dedos de Rachel estimulando suas partes mais cheias de lascívia era como estar no paraíso.

O gosto de Quinn se intensificou na boca de Rachel e foi ali que a morena soube que a outra estava no máximo de seu prazer. Ela só parou os movimentos de seus dedos e língua quando o corpo de Quinn estava mole e sua respiração pesada, com seu peito subindo e descendo em busca de ar, sensível demais para lidar com qualquer outro estímulo. Mas antes de sair daquele pedaço do céu no meio das pernas de Quinn Fabray, Rachel lambeu toda a sua extensão cuidadosamente, buscando não desperdiçar uma gota daquele sabor. Quando retirou os dedos de dentro dela, levou-os a boca e provou ainda mais da loira sob seu corpo.

Rachel subiu até o rosto de Quinn novamente, beijando sua pele no caminho, tendo um cuidado especial com cada machucado que encontrava. Ela posou um beijo suave em seus lábios, depois em seu nariz, suas bochechas, cada um de seus olhos, sua testa e na boca de novo, aplicando ali um beijo um pouco mais intenso. Rachel deitou-se no chão e puxou Quinn para si, fazendo-a deitar a cabeça em seu peito nu. Ela estava excitada e o aperto entre suas coxas estava a incomodando um pouco, mas ela não exigiria nada de Quinn naquele momento. Ela passaria por cima de todas as suas vontades se isso significaria ter a loira feliz.

—Me desculpe – Quinn sussurrou contra o maxilar de Rachel.

—Está tudo bem – Rachel respondeu enquanto acariciava seus cabelos e tentava controlar a pulsação de seu centro – Só me prometa que nunca mais vai fazer isso.

—Eu prometo – A resposta veio sem pestanejar – Também prometo que vou voltar para a terapia e que vou tomar os remédios. Eu prometo.

—Por que isso agora? Você nunca gostou de fazer essas coisas – Usou um tom de voz sereno, beijando sua testa.

—E ainda não gosto, mas hoje eu vi o quanto eu posso machucar você e essa nunca foi minha intensão, eu juro – Garantiu – Eu prefiro passar o resto da minha vida com o rosto deformado do que sem você. Dói muito mais saber que estou te machucando do que qualquer surra.

—Eu amo você, Quinn.

—Eu também te amo.

O silencio tomou conta, mas dessa vez era um silencio agradável e bem vindo. A luz ou os estalos da lareira não eram mais perturbadores, mas traziam algo reconfortante. Rachel nem se importava que os olhos cegos do andrógeno no quadro logo acima delas as observavam; naquele momento tudo o que lhe importava era Quinn e a paz que estava de volta, e talvez ela não fosse embora tão cedo. Se a loira realmente se tratasse como havia prometido – E iria, ela nunca quebraria uma promessa que fizera a Rachel – as coisas passariam a ser mais fáceis.

—Rachel? – A voz rouca e baixa de Quinn quebrou o silencio.

—Hum? – Respondeu de olhos fechados.

—Você ainda acha que eu sou bonita?

Os olhos de Rachel se abriram e ela procurou mudar de posição, buscando o olhar de Quinn. Fora uma pergunta claramente insegura e fragilizada, mas ela não deixaria que Quinn pensasse absurdos mais uma vez.

—Você é linda, meu amor. Você sempre foi. Não é por causa de alguns machucados que você vai deixar de ser.

—Tem certeza?

Rachel sorriu. Quinn parecia adorável agora, quase infantil e ela gostava daquela versão da loira. Era completamente louca pela Quinn poderosa, achava que era incrivelmente sexy, mas aquela Quinn era como um enigma, difícil até mesmo para que ela pudesse decifrar. Esta Quinn não, ela era doce e delicada e possuía um olhar ingênuo. Era como ver Lucy ali na sua frente, a Lucy pelo qual ela havia se apaixonado quando não tinha a menor noção de como a vida poderia ser cruel.

—Eu tenho certeza, Quinn. Você é a mulher mais linda desse mundo – A loira abriu um sorriso tímido, o que fez Rachel se apaixonar ainda mais. A morena posou um beijo em seus lábios – Mas isso vai sarar logo. Daqui a pouco você não vai ter nada e não vai sentir nenhuma dor.

—Você acha?

—É claro que sim.

—Mas e as cicatrizes?

—Eu duvido que você vá ficar com cicatrizes, mas caso isso aconteça, uma clínica de estética me parece uma boa solução.

—Acho que você está certa.

—É claro que estou certa. Eusempreestou certa – Disse em tom brincalhão.

—Hum… Berry arrogante… Eu não a via fazia um tempo… – Retrucou também brincando.

—Hey! Arrogante não. É só a verdade – O riso leve e compartilhado com Quinn mais um beijo despreocupado a deixou relaxada.

Rachel suspirou feliz, com Quinn encaixada na curva de seu pescoço. Ela achava irônico e até mesmo meio engraçado o fato de que toda aquela tensão havia começado na sala da lareira e que agora acabava no mesmo lugar.

Ela parou para analisar os fatos, e talvez toda essa situação tenha sido uma coisa boa. Não que ela estivesse feliz em ter visto Quinn quase perder o controle, mas se não fosse por aquilo, Quinn não teria prometido que voltaria para a terapia e para os medicamentos. Elas provavelmente ficariam estagnadas no mesmo, naquele clima pesado e nas emoções escondidas da loira. Uma vez ela havia visto um garotinho de um seriado de televisão dizer que para que o tão sonhado final feliz chegasse, as coisas ficariam tão complicadas a ponto do herói da história pensar que não haveria mais solução e desejasse desistir, mas que ele não poderia porque precisava lutar para que tudo desse certo.

Aquilo era algo que Rachel absolutamente concordava.



Notas finais
A série que eu me refiro no final do capítulo é Once Upon a Time e o garotinho é o Henry ^^
Eu quero agradecer a todos que acompanharam IB, àqueles que comentaram, que não comentaram, aos que favoritaram e tudo mais. Eu fiquei muito feliz com a recepção de todos :)
E uma perguntinha: Alguém gostaria que eu escrevesse uma continuação? Talvez uma outra short-fic ou uma one?
Obrigada mais uma vez e nos vemos numa próxima ♥
mizzdlovato.tumblr.com
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!