Insane
1 Medo
Notas iniciais
Como primeiro capítulo, resolvi deixar mais leve do que deveria... Mesmo assim, espero que gostem.
Boa leitura
A chuva começou a me tocar quando estava no final do meu trajeto. Não era uma chuva forte, mas ainda não foi bem recebida por mim. Andava pela rua vazia, em uma noite de outono, agora, com chuva, em busca de um certo sanatório. Não me parecia um cenário bom para uma garota ficar.
Avistei os muros de concreto grosseiros; haviam cercas elétricas de alta potência, não para proteger o lado de dentro do lado de fora; era ao contrário. No portão de ferro, guardas fortes e mal-encarados protegiam a – única – saída.
Fui até o abrigo deles; um cubículo pequeno, com cadeiras e um computador, com câmeras de segurança em todo o exterior do local. Coloquei meu rosto perto da janela, observando-os de fora, molhada.
— Olá, podem abrir? – Perguntei.
O guarda, Al, que já era conhecido, sorriu e acenou. Não sabia se devia acenar de volta.
Ele colocou seu rosto perto da janela também.
— Olá, Dawn. Como vai? – Ele cumprimentou. – Sabe, pensei que só viesse aqui aos domingos.
— Eles me pediram para ajudar, já que a maioria do pessoal desistiu. – Eu disse, me referindo ao meu voluntarismo em um sanatório.
— Eles tiveram motivos. De qualquer forma, tome cuidado. – Ele apertou o botão que abria o portão.
Motivos? Todos têm; ninguém quer viver no meio de loucos. Mas eu, continuo não me importando.
Apressei os passos, não queria me molhar mais.
A paisagem, apesar de ser um local onde era para ser destruído, não condizia com o esperado; jardins ocupavam a maior parte do exterior, incentivando a jardinagem. Não chegava a ser bem cuidado, mas havia algumas flores realmente bonitas.
Finalmente, cheguei na porta principal do grande prédio. Abri elas naturalmente, e segui pelo corredor que levava à recepção, às salas dos médicos e de terapias, e aos quartos dos pacientes.
Andando pelos corredores daquele lugar, percebi que nada ali me parece confortável, ou até mesmo, normal. Mas, incrivelmente, eu tinha aprendido a gostar.
Tudo; paredes, chão e teto, eram revestidos por pisos brancos, costumeiros de hospitais, porém, já haviam perdido a cor original. A luz fraca e amarelada criava sombras estranhas com as macas e cadeiras de espera, enquanto gritos e murmúrios ecoavam de todas as salas.
Juntando tudo, e mais a noite fria de hoje, virava um cenário perfeito para um filme de terror. Mas eu não tive medo. Medo não é uma virtude que possuo.
E, mesmo se possuísse, eu tenho princípios.
Cheguei até o balcão da recepção, e observei a atendente falar no telefone com uma calma desconcertante. Atrás do local de trabalho dela, havia uma grade forte e resistente, que levava a um corredor, onde os quartos dos pacientes ficavam. Geralmente, era uma porta de ferro, com uma pequena abertura com grades. Os quartos, eu nunca vi. Nunca deixariam uma inexperiente voluntária entrar ali.
Ao lado, um elevador dava acesso aos outros andares, onde ficavam principalmente, os psiquiatras.
— Dawn, obrigada por vir. – A recepcionista, uma velha chamada de Sra. Cast, agradeceu, saindo do telefone. – Tem sido difícil achar novos funcionários. Eles todos acabam aqui, enlouquecendo. Me surpreende que ainda esteja sã, ganhando nenhum centavo.
— Gosto de ajudar.
Ela me observou curiosamente por trás de seus óculos de gatinho. A maioria pensa que ela já passou da idade de usar este tipo de coisa, mas... Eu acho que ela é feliz assim.
— Isso tudo é por causa do seu pai...? – Ela se atreve a fazer a pergunta, mas logo se arrepende.
Meu pai, vivia aqui desde meus dez anos. Ele enlouquecera, matou minha irmã mais velha e minha mãe, enquanto eu o assistia.
Apesar disso, nunca deixei de visitar e amar ele. Sabia que não era o que queria. Ele já estava insano. Via seu estado mental grave todos os domingos, durante sete anos, até que ele faleceu, com um sorriso psicopata em seu rosto. Desde então, decidi ajudar o local, visto sua má-fama, e maldições de funcionários que ficavam loucos ali.
Besteira.
Um arrepio me percorreu ao lembrar da cena.
— Acho que sim. Eles condenam os loucos. Mas sabe o que eu realmente acho? São as melhores pessoas.
Ela ergueu as sobrancelhas, provavelmente me condenando.
— No terceiro andar. O Dr. Gilbert irá te orientar melhor sobre sua tarefa hoje. Ele está no quarto 31. Boa sorte.
Assenti, um pouco nervosa, ouvindo mais alguns gritos e risadas.
Entrei no elevador, cheguei até o terceiro andar e procurei pela sala orientada.
Dizia “Sala de psiquiatria”.
Entrei sem bater, me condenando pelos maus modos dois segundos depois, após ver que o doutor atendia um paciente.
— Ás vezes eu me pego imaginando matando pessoas inocentes. – O paciente pendeu a cabeça para o lado. – Eu sou louco? – Ele correu os olhos até a porta e me viu. Não soube como agir, mas ele, por outro lado, pareceu saber exatamente que eu estaria ali. – Parece que tem mais uma precisando de ajuda. – Ele sorriu, de um jeito assustador.
O médico se virou em sua cadeira de couro preto, e me observou.
— Desculpe, eu não quis... – Eu ia fechando a porta.
— Não se acanhe. Junte-se a festa. – O paciente sorriu mais uma vez.
O observo com um pouco mais de atenção; ele tinha cabelos curtos loiros, olhos castanhos, e uma expressão estranhamente sarcástica.
— Vamos, entre. Gosto de ouvintes. – Ele disse. O médico continuou sem expressão. Continuei saindo da sala.
— Dawn, pode ficar. Este é Maxwell. Solitário. Acabo de diagnosticar que precisa de companhia. – Dr. Gilbert disse. – Como dizia, Maxwell, você precisa de amigos. Sua imaginação está refletindo solidão. – Ele olhou para mim, como se implorasse para que eu socializasse com o garoto. – E esta, é Dawn. Uma voluntária daqui.
— Uma voluntária? De um hospício? – Maxwell franziu o cenho. – Qual é seu problema?
Ignorei, e continuei ouvindo o médico. Não acreditava que aquele comportamento fosse frutos da solidão, acreditava que Gilbert queria acabar seu turno logo. Mas eu queria ajudar, pelo menos a descobrir a origem do problema, visto que o próprio médico não estava disposto a isso.
— Maxwell, a acompanhe e conversem. – Ele ordenou. Maxwell revirou os olhos, se levantou do sofá, também de couro, que estava sentado, e veio até mim.
Ao encostar a porta, depois de alguns segundos, ouvimos gemidos de Gilbert. Arregalei os olhos.
— O quê...? – Eu comecei.
— Ele está se tocando. – Maxwell disse, dando de ombros. – Faz isso depois de todas suas consultas, para manter sua sanidade. Ele acha que esse trabalho vai acabar com ele.
— Como sabe disso?
— Eu sei de tudo.
Resolvi ignorar.
— Então... Maxwell... O que está acontecendo com você? – Perguntei, enquanto o guiava para um local calmo, sem gritos.
— Se eu te contasse... você quem ia precisar de terapia.
Finalmente chegamos. Era uma sala destinada a crianças, com papeis para colorir, caixas de brinquedos e pisos coloridos.
— Está de brincadeira? – Ele perguntou, sem expressar emoção.
— É o local mais calmo. – E era verdade – Quando eu era criança, passava horas aqui, esperando que meu pai parasse com seus ataques.
— Seu pai é daqui, não?
Olhei no fundo de seus olhos, e me sentei no chão. Ele me acompanhou.
— Você é daqui? – Corto.
— Não. Eu venho por causa do psiquiatra, mas como pode ver, ele não é muito útil. Só continuam me trazendo aqui, porque a vadia da minha mãe tem uma queda por ele. – Ele revirou os olhos.
— Pelo menos você tem mãe.
— Aquilo não devia ser considerado mãe. Ela não se preocupa com nada, além da própria bunda gorda.
Observei ele novamente. Não possuí uma boa primeira impressão dele.
— Seus olhares denunciam todos seus pensamentos. – Ele falou, pausadamente, me encarando sem emoções.
— Então diga o que eu sinto.
— Insegurança. Nervosismo. Medo.
— Eu não sinto medo.
— Sente. Desde que viu o sangue da sua família, banhando suas mãos e te envolvendo em um abraço frio. Desde que viu sua mãe, desacordada, porém, com olhos abertos, ao seu último pedido de ajuda. Desde que viu o corpo da sua irmã, esfaqueado e ensanguentado caindo morto na cadeira onde estava presa. É isso, não é? Não tem medo dessa cena?
Tentei me manter impassível, mas um arrepio me percorreu por inteiro.
Ele me prendeu. Com cordas e nós fortes. Eu tentei me soltar e implorar, mas pareceu que ele não se interessou por mim com aquela faca.
Olhava com malícia para minha mãe e irmã, também presas. Matou-as sem piedade, e em meio as minhas lágrimas, ele sorriu para mim, com sangue no rosto.
— Por quê, pai? – Gritei, com toda voz que consegui.
Ele acariciou minha bochecha com a faca.
— Elas eram normais. — Ele respondeu.
Um tempo depois, os policiais chegaram, devido a gritaria denunciada por vizinhos.
O sorriso de Maxwell me tirou das memórias.
— Como sabe dessas coisas? Quem é você? – Perguntei, tentando controlar a emoção na voz, sem parecer querer chorar.
Ele se aproximou, e cochichou em meu ouvido;
— Eu sei de tudo, Dawn Kelavain.
Notas finais
Obrigada por ler, e se tiver sugestões, é só me mandar.
Até o próximo ~se houver~ :*
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