Insana

1 Capítulo único - Unus, duo, três, quattuor


Unus, duo, três, quattuor.

A voz contou. Minha cabeça girou. Eu encarei tudo a minha volta. Medo. Era isso que eu sentia. Somente o medo, que invadia devagar todo o meu corpo. Nervosismo, talvez, mas esse também era proveniente do medo. Então, tratei de ficar quieta, parada, só olhando.

Não, pare. Pare. Eu queria parar. As pessoas olhavam para mim. Elas sabiam o que acontecia? Talvez só na minha cabeça. Talvez. Os números só ecoavam lá, como se viessem de todo e de nenhum lugar ao mesmo tempo. Arrumei o cabelo de um jeito desajeitado.

Há quanto tempo eu sabia? Eu sabia que um dia aconteceria. Há muito tempo ela já havia me avisando, sempre ali dentro, perguntando se eu estava pronta. E eu nunca estive. Não estava. Nem agora, nem antes.

Tive que me sentar, tentando não cair no chão. Tudo a minha volta girava. Fora de foco. As vozes estavam em segundo plano. Nada pode me impedir. Murmurei aquilo para mim mesma. Nada. Não. Quieta.

Unus, duo, três, quattuor.

Morta. Quem falava e quem ouvia. Eu estava morta. Eu podia ouví-la cantar devagar aquilo, no ritmo constante. Louca? Não, não. Loucura. Eu nunca estaria louca. Eu sabia. Estava lá. A voz morta, cantando a língua morta, para a pessoa morta.

Eu queria fazê-la parar. Pare. Nada pode me impedir. Nada pode a impedir. Eu estava prestes a morrer, e devia encarar os fatos. Vamos lá, vamos lá, vamos lá... Não, pare. A voz ecoou devagar pela minha mente durante cada segundo.

Porque comigo? Sim, por que não com a mulher que passava todo dia perto de casa? Por que não o menino que já tentou se matar? Por que não os outros? Por que eu? Acho que eu sempre me senti vítima. Mas eu sei o porquê.

Nenhum deles merece.

Unus, duo, três, quattuor.

A voz ia falando aquilo em um ritmo cada vez mais devagar. Como uma canção de ninar. Realmente, ela me poria para dormir. Despertador. Onde ele estava? Revirei meus bolsos. Algo saiu de lá. Foi parar nas minhas pernas, mas eu não olhei.

Eu mereço, certo? Lá estava eu, dando voltas no passado. Futuro. Não posso vê-lo. Eu o quero de volta, mas sei que acaba em pouco tempo. Eu mereço ter minha vida tirada. Não porque eu tirei de outras pessoas, claro.

Mas eu já tentei proteger alguém que merecia. O cúmplice é condenado como o próprio malfeitor. O amigo. Talvez eu seja a vítima. Ou talvez não. Mas eu vi, eu ajudei, eu o salvei da morte. E não recebi muito em troca.

Acho que isso que acontecei comigo, sempre. Amor, amor, amor... Me dá essa chance de provar meu valor, e depois, só me resta a sua dor. Amor, amor, amor... Continuei cantarolando, tentando não escutar a voz na minha cabeça.

Unus, duo, três, quattuor.

Era como o tique taque de um relógio, só que muito mais devagar. Ela falava cada número vagarosamente, aproveitando e saboreando a chegada da morte. Por que, por que? A cúmplice, vítima, culpada.

A ajudante que nunca soube toda a história, que nunca recebeu nada em troca. Vítima. Mas eu o ajudei. Eu o ajudei em sua vingança, e depois na minha própria. Culpada. Cúmplice. Sozinha. Morta. Louca.

Não. Não era louca. Não era a insanidade que tomava conta de mim, e sim a punidora, ceifadora de almas, ajudante da morte. Tortura, prepara, aproxima. Eu sei. Eles sabem? Não. Só eu. Nada pode a impedir.

Nada vai a impedir de fazer seu trabalho. Ninguém pode me salvar. Ninguém quer me salvar. Ninguém sabe.

Unus, duo, três, quattuor.

Quieta. Quieta. Quieta. Ela falava um número e respirava. Falava um número e respirava. Cada vogal demorava para sair, como se ela estivesse mostrando para mim que eu não podia fazer nada. Só sentar. Esperar.

Lágrimas, lágrimas. Levei a mão ao rosto. Sangue se misturou a minha visão. Olhei para baixo, e a vi. Por um pequeno instante, seu rosto, assustador e sorridente, pálido e coberto de preto, estava lá. Uma faca. Uma faca deixada sobre a minha perna.

Fui eu. Eu que me fiz aquilo. Minhas mãos ardiam, sangravam, e eu ainda podia sentir aquela faca entre meus dedos quando eu fiz os cortes. Por quê? Por quê? Por nada. Eu não quero. Não quero morrer. Aqui, agora, nunca. Não. Quero ficar viva. Quero meu futuro.

Eu podia ver as coisas se esvaindo. Peguei a faca. Ela não me mataria. Não. Morte digna. Morte digna. Eu derramaria meu próprio sangue antes que ela pudesse. Eu. Não ela. Nada pode me impedir. Meu futuro.

Unus, duo, três, quattuor.

Ela falou aquilo de um jeito calmo, mas com um toque de escárnio. Eu quase podia vê-la sorrindo ao lado da faca de novo. Não. Não sou a vítima. Não deixaria. Nunca. Escolheria como seria minha morte. Ninguém poderia me impedir.

Pequenas coisas não escapavam da minha atenção conforme eu me preparava. Olhares. Preocupação. Medo. Rápido. Passos. Segurei a faca com força. Olhares. Passos. Correndo. Gritos. Meu grito. Sorriso. Sangue.

Morte. Minha morte.

Unus, duo, três, quattuor.

A voz. A voz vinha novamente. Nada a declarar, parecia dizer ela, numa velocidade alarmada. Lágrimas se misturando ao sangue. Minhas, eu acho. Mais gritos. Susto. Eu estava quase lá. Quase lá.

Meu corpo inerte, meus olhos entreabertos, dor. Muita dor. E sangue. E gritos. Sim, gritos abafados pela minha própria morte. Minha mão pálida no chão. A faca. Botas pretas. Mãos pálidas, mas não as minhas.

Já não ouvia mais meu coração. Só o que acontecia em volta. Só pequenas lembranças, vultos embaçados, sonhos esquecidos. Memórias. Desejos. Esperança. Perdição. Tudo, tudo que eu conhecia, se esvaindo.

Eu estava perdendo, como água que eu tentava manter nas minhas mãos, mas escorria devagar. E ia embora. Como lágrimas. E a água ficava vermelha. Como meu sangue. Meu sangue, que saia. Eu estava morta, agora.

Mas eu pude ver. Pude ver as mãos pegando a faca. A pessoa se abaixando, quase ficando de joelhos, e me encarando devagar. Suas mãos foram até mim. Fuga. Eu queria, mas não podia. Fuga. Ela estava fechando meus olhos. Mas eu pude ver, por baixo de seu capuz preto.

Sorriso.

Quinque... Sex... septem.

Notas finais
Gostaram? Review não mata, eu sempre elejo um melhor depois de uma semana, por favor, deixem sua opinião :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!