Inquisição
1 Inquisição - Capítulo único
Notas iniciais
Jadd foi o último a aparecer. Mesmo que tivesse sido dele a ideia de se reunirem, um bar lotado de escória e música ruim não era o tipo de ambiente que ele escolheria nem em um milhão de anos. Fora seu amigo Thobi quem havia dito que eles precisavam de um pouco de diversão. As circunstâncias não eram muito agradáveis para os Jedi, mesmo nos cantos mais remotos da Orla Exterior.
Depois da Ordem 66, o Imperador ordenou que todos os Cavaleiros Jedi sobreviventes fossem caçados e exterminados. E não eram apenas os Stormtroopers; o Império dispunha de caçadores de elite, servos do Lado Negro da Força, chamados de Inquisidores, que eram diretamente responsáveis pela caça aos membros da antiga Ordem. Além disso, o Império Galáctico, por meio de propagandas, havia doutrinado toda a galáxia a respeito da periculosidade dos Jedi para o estabelecimento da lei e da ordem, de o quanto era imprescindível que eles fossem entregues às autoridades imperiais e que todo aquele que cooperasse com um Jedi fosse penalizado. Severamente penalizado.
Se por um lado a população se via oprimida pelo governo, por outro ela não hesitaria em entregar aos imperiais qualquer um que fizesse uso de um sabre de luz. No fim das contas, todos, em qualquer lugar, eram inimigos em potencial.
E lá estavam quatro procurados da Justiça Imperial, prestes a se reunirem em uma mesa de bar, devidamente cercados por caçadores de recompensa e contrabandistas da pior espécie que não pensariam duas vezes em denunciá-los por algumas centenas de créditos.
E ainda tinha, é claro, o problema da música ruim,
Foi Thobi quem o viu primeiro.
— Ei, senhor descompromissado, estamos aqui! — berrou mais alto que a música, acenando.
Jadd suspirou. Thobi era mesmo um idiota.
Chegou à mesa e encontrou seus companheiros, ou pelo menos passara a ser assim depois da Ordem 66. Zren Agiri, Cavaleira Jedi humana, era sua amiga de longa data. Já Thobi Arbra-El, um Padawan Zabrak, e Von Oldara, um Mestre Jedi também humano, havia conhecido ali, no Sistema Belderone. Era incrível como uma catástrofe tinha o poder de unir pessoas até então completamente estranhas entre si.
Quando os conheceu, Thobi contou que havia fugido com Von para lá dois meses antes de Jadd, quando viver na Região Núcleo tinha se tornado perigoso ao extremo para qualquer Jedi. Escolhera Belderone por se tratar de um sistema da Orla Exterior ainda não mapeado nos arquivos da Biblioteca Jedi. E, como ouvira da mestra Jocasta Nu certa vez, “se um sistema não aparece nos arquivos, ele não existe”. Por isso, Belderone era uma boa escolha para fugitivos Jedi.
Zren indicou uma cadeira para Jadd, que se sentou. Ele olhava para o grupo, pessoa por pessoa, com clara desaprovação. Parou o olhar sobre Thobi.
— Que droga de escolha foi essa? — ralhou. — Este lugar é cheio demais.
Thobi dedilhou os pequenos chifres, meio confuso, meio despreocupado.
— Por que está brigando comigo? Se me lembro bem, você foi o último a chegar. E olha que a ideia de nos reunirmos foi toda sua.
— Isso não interessa, Thobi. Há, no mínimo, duzentos seres aqui.
Thobi franziu a testa, como se perguntasse “e daí?”. Jadd deu um suspiro.
Thobi era realmente um idiota.
— Procure se acalmar, Jadd Shaalom. — Mestre Von serviu-se de outra dose de Reservado Corelliano. — E tome um drink.
Eles só podiam estar de brincadeira.
Zren olhava para o amigo com o olhar analítico que ela sempre tinha. Dentre todos ali, era ela quem o conhecia melhor.
E foi exatamente ela quem fez a pergunta que Jadd queria tanto ouvir.
— O que quer contar para a gente, Jadd? — Entrelaçou os dedos sobre a mesa. — Deve ser algo muito importante para querer todos nós aqui.
Jadd sorriu. Sua amiga tinha um timing perfeito.
— É claro — começou ele. — Bom, vocês viram a propaganda do Império de ontem, não viram?
— Todo mundo assistiu, Jadd. — Zren assentiu. — O Tarkin transmitiu a execução da mestra Ginevra. Propaganda Imperial obrigatória, você sabe.
Thobi bateu o copo na mesa, repentinamente irritado.
— Um tiro nas costas de uma Mestra Jedi algemada e dopada, tsc. Se mestra Ginevra estivesse livre, o resultado teria sido bem diferente.
— Acalme sua mente, Thobi — Von repreendeu o jovem zabrak. — Mestra Ginevra é uma só com a Força agora. E você sabe bem que a raiva é um caminho para o Lado Negro.
— Isso não é justo, mestre. — disse Thobi. — Não é justo.
Jadd observou aquele pequeno diálogo com certa satisfação. Era daquele sentimento de revolta com as circunstâncias que ele precisava para contar o que tinha em mente. Thobi poderia ser um idiota, mas ainda era um Jedi. E o mais importante de tudo: não suportava o jugo imperial.
— E se pudéssemos dar um fim a isso de uma vez só? — sugeriu Jadd. — Acabar com as execuções.
Todos os olhares da mesa se voltaram para ele instantaneamente.
— Olha, Jadd — Zren pôs a mão sobre a do amigo —, assassinar o governador da Orla Exterior não é exatamente uma...
— Não estou falando de Wilhuff Tarkin! — Jadd cortou a amiga. Olhou ao redor e continuou a falar, agora quase sussurrando. — Tarkin pode posar como o braço direito do imperador, mas todos nós sabemos que isso tudo, o Império, é só fachada. Por trás desse governo, nossos verdadeiros inimigos são os Sith. Tarkin só existe porque os Sith precisam manter a aparência política de tudo.
Thobi, um pouco mais controlado, perguntou:
— O que você está sugerindo?
— Destruir o verdadeiro braço direito do imperador — revelou Jadd, sombrio.
Lorde Darth Vader.
Zren deu um suspiro, pesarosa.
— Jadd, Vader, além de ser um monstro da Força, é praticamente intocável. Ele tem uma legião de soldados só para protegê-lo, é o comandante do Superdestróier Executor e ainda tem os Inquisidores à disposição. Nem todas as células rebeldes juntas teriam contingente para chegar até ele.
— E nós nem fazemos parte de nenhuma rebelião — disse Thobi.
— Não se trata de nos juntarmos a nenhuma rebelião — contou Jadd, ansioso. — Estou falando de uma ação surpresa. Poderíamos nos infiltrar no castelo de Vader e localizar o alvo.
Von Oldara, que apenas ouvia a conversa, falou:
— Isso é assassinato. Vai contra nosso Código e nossa honra.
Jadd estreitou os olhos para o velho Mestre Jedi, quase fuzilando-o.
— Isso é sério, mestre Oldara?
— Além do mais — continuou o mestre, ignorando a pergunta —, ninguém sabe a localização do castelo de Vader. Isso é uma informação...
— Sistema Mustafar. — Agora Jadd olhava diretamente para Von. — Fica aqui, na Orla Exterior.
Thobi assobiou, impressionado.
— Isso é bem convidativo. — O Padawan se recompôs sob o olhar de reprovação do Mestre Jedi. — Mas Jadd, mesmo assim seria impossível atacá-lo. Vader tem os Inquisidores e, bem, é o Vader.
— Nenhum de nós pode vencê-lo, Jadd. — Zren voltou a olhá-lo analiticamente. — Vader é poderoso demais. Não se esqueça de que foi ele, pessoalmente, quem capturou a mestra Ginevra e a entregou para o Tarkin.
— Os Inquisidores não serão um problema — Jadd falou, convicto. — Estão espalhados pela galáxia caçando Jedi. E, pelo que descobri, Vader tem um corpo debilitado debaixo da armadura, o que faz com que ele precise de sessões em um Tanque Bacta.
Von tomou outra dose do Reservado Corelliano.
— O que você pretende? Assassiná-lo enquanto ele estiver mergulhado? Sem dar a ele o direito de se defender?
Jadd quase gargalhou. A pura ideia de dar a Darth Vader alguma cortesia soava ridícula demais.
— Ele é um Lorde Sith, mestre Oldara! — Desta vez foi Zren quem olhou ao redor. Temia que Jadd chamasse a atenção por estar quase gritando sem se tocar. Por sorte, a música alta e as conversas paralelas serviam como uma boa camuflagem sonora. — Uma abominação que assassinou muitos de nossos irmãos e irmãs! Até quando vai manter a velha filosofia? A República, a Ordem Jedi... eles não existem mais.
Von meneou a cabeça negativa e pacientemente. Ele sentia uma raiva profunda exalando de Jadd. Não conhecia toda a história do jovem Cavaleiro Jedi, mas compartilhava com ele a calamidade que tinha sido o purgo no fim das Guerras Clônicas. Assim como Jadd Shaalom, Von Oldara perdera amigos durante a guerra contra os Separatistas, depois pela traição dos clones e, por último, pela inquisição imperial — propagada em todos os sistemas do Império. Mas Von sabia que, apesar de tudo, não deveriam se render ao desespero.
— Um Jedi ainda é um Jedi mesmo que a Ordem tenha caído, Jadd — disse o mestre, resoluto.
— Pare de pensar assim, velho!
Thobi socou o centro da mesa, enquanto sibilava. Os olhos do Zabrak, novamente irritados, agora estavam fixos em Jadd Shaalom.
— Tenha mais respeito por meu mestre.
— Ele não é mais seu mestre, Thobi — Jadd comentou, irônico. — Já que a Ordem Jedi caiu, mas um Jedi ainda é um Jedi, somos todos Jedi aleatórios agora.
— Você não deveria zombar da sabedoria de um mestre, Jadd — Thobi advertiu, enquanto procurava se acalmar. — Se continuar assim, não vai durar muito lá fora.
E Jadd riu.
— Não vou durar muito lá fora? — dizia, meio sarcástico e irritado. — Você não faz a menor ideia do que eu passei com aqueles malditos imperiais antes de conseguir escapar e chegar aqui, seu imbecil. E além disso, eu sou um Cavaleiro Jedi; você é um mero Padawan que não conseguiu passar nos testes.
— Ora, seu...
— Chega! — Zren interveio, levantando-se e apoiando as mãos sobre a mesa. — Vocês dois estão parecendo crianças. Se querem brigar igual dois idiotas, que seja. Só não façam isso na minha frente.
Jadd fez uma careta para Zren, sentindo-se injustiçado. Thobi fez o mesmo para ela. Como se não acreditasse na infantilidade dos dois, Zren se sentou novamente.
— Não cabe a nós destruir os Sith — disse Von, por fim. — Isso é dever do Escolhido.
E, para Jadd, aquilo tinha sido o cúmulo.
— Não se tem notícia do mestre Skywalker nem de qualquer Jedi. É capaz de ele ter sido morto durante a Ordem 66 também. A profecia era uma mentira.
Depois de dizer essas palavras, Jadd se levantou da mesa e foi embora. Zren tentou convencê-lo a ficar, mas ele não a escutou. Von, por sua vez, inclinou a cabeça e suspirou triste. Dentre todos que estavam ali, tinha sido o único presente no Templo Jedi quando os clones atacaram. Ele sabia muito bem que Anakin Skywalker não tinha sido morto lá, pois quando escapou sentira a presença dele. Von Oldara sabia que o Escolhido ainda vivia e, por isso, cria que, apesar de tudo, ele voltaria para trazer o equilíbrio à Força.
Sem graça, Zren pediu licença aos companheiros. Thobi ainda estava zangado por causa de Jadd e murmurou algumas palavras. Já Von deu um sorriso solidário para a jovem Cavaleira Jedi.
— Diga a seu amigo para não perder a fé. — Tornou a encher o copo de Reservado. — A desesperança leva ao Lado Negro.
Belderone era um sistema estelar engraçado, de um jeito que Jadd achava meio mórbido. As noites eram sem estrelas por causa do céu, que sempre era nublado depois que o sol se punha.
Apesar de ser um lugar desolado, como quase todos os sistemas na Orla Exterior, ele gostava da vista noturna que tinha da sacada de seu apartamento. Conseguia passar umas duas horas só contemplando o pouco que havia de urbano e, principalmente, as nuvens escuras.
— É bem diferente de Coruscant, não é? — Não se virou quando ouviu a voz de Zren atrás de si. Tinham o costume de visitarem um ao outro, quase sempre à noite, quando o movimento nas ruas diminuía e as chances de serem descobertos caía consideravelmente.
Jadd não respondeu; olhava as nuvens. Zren ficou ao lado dele na sacada.
— Como descobriu... — ela arriscou puxar assunto. — Você sabe, a localização do castelo de Vader?
Jadd virou-se para ela. Zren não o analisava naquele momento; os olhos dela pareciam encorajá-lo a falar.
Ela tinha mesmo um timing perfeito.
— Quando os imperiais me emboscaram em Sullust. — E ali começava um assunto que Zren sabia ser difícil para Jadd. — Quando tudo acabou e eu dei um jeito de escapar, eu... eu arranquei isso de um oficial com a Força, Zren. Eu precisava me vingar pelo que fizeram comigo. Eu... precisava de alguma informação para destruí-los. Qualquer coisa, entende?
Ela assentiu, compreensiva, e não pôde deixar de olhar para a parte exposta dos ombros de Jadd. Na pele do Cavaleiro Jedi ainda havia as marcas dos dróides de tortura do Império. Sullust era um dos sistemas da Orla Exterior, e quando Jadd conseguiu escapar, estava perto de Belderone. A nave com a qual ele fugira tinha ficado sem combustível e estava vagando no espaço. Jadd estava prestes a morrer de frio, quando, por sorte, Zren — que já tinha se mudado para Belderone, um pouco antes de Thobi Arbra-El e Von Oldara — havia sentido sua presença e ido até ele.
Pôs a mão sobre a de Jadd, apertando-a com ternura.
— Achei que tivesse te perdido para sempre. Para o Império. Fiquei muito feliz quando te encontrei de novo.
Jadd sorriu para a amiga.
— Você sempre dá um jeito de me encontrar. Mesmo quando eu mesmo não consigo fazê-lo.
E sempre fora assim, um suportando o outro. A amizade de Jadd Shaalom e Zren Agiri vinha desde a infância. Ambos haviam ingressado na Ordem Jedi quase no mesmo ano. Frequentaram a mesma classe de crianças de mestre Yoda, formaram-se juntos e se tornaram Padawans. Zren tornou-se aluna da Mestra Jedi Luminara Unduli; Jadd, do Mestre Ki-Adi-Mundi.
Tanto Jadd quanto Zren viajaram ao passado naquele breve momento de silêncio, às boas lembranças que tinham da Ordem Jedi e do tempo que passaram juntos. Foi quando uma inquietação tomou Jadd. E Zren sentia isso.
— O que foi? — perguntou ela.
Ele desviou o olhar de volta para as nuvens escuras.
— Ela estava certa no fim das contas, não é? — ele falou, admirando o céu nebuloso. — A República estava caindo e foi só uma questão de tempo.
Zren não respondeu. Jadd estava se referindo à Barriss Offee, a Padawan que Luminara Unduli havia adotado após Zren Agiri se tornar uma Cavaleira Jedi. Barriss planejara e executara um atentado contra o Templo por acreditar que a Ordem havia perdido seu caminho. No ataque, Jedi e civis foram mortos.
— Eu acho que, como Jedi, não devemos recorrer à brutalidade para resolvermos os problemas — disse Zren, por fim. — Senão estaríamos perdendo a nós mesmos.
Jadd conteve o ar irritado.
— Você está parecendo o mestre Oldara.
— E você está parecendo Thobi — Zren rebateu com um sorriso amigável. — Um completo idiota precipitado.
Jadd piscou, desconcertado, e Zren pôs o dedo sobre os lábios dele.
— Sei o que está pensando — continuou ela. — Você acha que Barriss agiu certo não por assassinar pessoas, mas por tentar destruir o que ela via ser o mal. E você quer fazer a mesma coisa: tomar uma atitude. Você olha para os ensinamentos Jedi e não vê mais base nenhuma, não com o Império por aí, nos caçando como animais. Você acha que estamos sentados, esperando para sermos encontrados e mortos.
Ela não havia usado qualquer truque Jedi nele. Zren via o que os olhos de Jadd transmitiam: a insatisfação e o medo.
— Eu não sou como Thobi, mestre Oldara ou você, Zren — disse ele. — Vocês conseguem se misturar e podem viver como cidadãos comuns. Thobi tem até um emprego numa lanchonete! Já mestre Oldara e você são pacientes demais, passivos demais. Eu não consigo, Zren. Não consigo ser assim.
Jadd a encarou e a viu menear a cabeça em negação. Mas até quando o reprovava, Zren era gentil.
— Ser paciente e ser passivo são duas coisas diferentes, Jadd. Nos conhecemos há anos e mesmo assim você dá essas mancadas?! Inacreditável — brincou, por fim.
Mas Jadd estava sério.
— Eu não vou voltar atrás — falou. — Esta é minha trilha, Zren. E vou segui-la até o fim.
— Então você vai atrás dele, não vai? — O ar de Zren mudou. — Atrás de Vader.
Jadd fez que sim.
— Eu preciso destruí-lo. Não suporto saber que ele e os Inquisidores caçam e matam nossos irmãos e irmãs. Eu preciso detê-lo. Eu preciso... eu preciso proteger você.
Zren deu ao amigo um sorriso doce. Depois beijou-o na bochecha.
— Fofo, mas estúpido — disse ela. — E eu não posso deixar você se matar.
Jadd olhou-a nos olhos, desacreditado.
— Você não vai me impedir?
Zren deu de ombros, como que para descontrair.
— Eu jamais conseguiria. Você é teimoso demais; sempre foi. É por isso que vou com você.
Algo dentro dele previa isso, e Jadd sentia o conflito dentro de si. Estava satisfeito por Zren querer ir com ele até Mustafar e também, por alguma razão, um pouco triste.
— Vai ser perigoso — ele disse, já imaginando a resposta que receberia.
— Eu seria consagrada à Mestra Jedi, não fosse a porcaria da Ordem 66 — falou, meio brincalhona, meio orgulhosa. — Além disso, você é um desastre com o sabre de luz. Não duraria cinco minutos sem a minha ajuda.
Jadd riu.
— Você e eu contra a galáxia — disse ele, citando o lema que os dois haviam criado quando crianças.
— Você e eu contra a galáxia — Zren repetiu, rindo também.
E, juntos, ficaram em silêncio observando a noite nublada.
Jadd não se lembrava de ter ido dormir no chão, mas sempre acordava nele todas as vezes que Zren ia dormir em sua casa. Pelo que se recordava, cada um arranjava seu próprio espaço na cama dele para dormir. Depois de algumas noites despertando no piso, Jadd havia considerado que a amiga, durante as madrugadas, usava a Força para expulsá-lo, cuidadosamente, da cama. Deixou esse pensamento de lado por achar incompatível com o jeito de Zren agir. Embora as suspeitas ainda permaneciam.
Levantou-se devagar e logo sentiu o corpo dolorido de dormir no chão puro. Praguejou e olhou para a própria cama, tão convidativa e confortável.
Zren ainda estava dormindo e Jadd a observou por alguns segundos. Ela era uma mulher bonita, de fato. Às vezes, Jadd se perguntava como teria sido o relacionamento dos dois se ambos tivessem se conhecido em outro lugar diferente da Ordem Jedi.
Depois da higiene matinal, Jadd foi até a cozinha preparar o café da manhã. Não havia muitas opções no refrigerador de alimentos e ele não tinha dinheiro para ter em casa um dróide cozinheiro. Além disso, diferentemente de Thobi, Jadd era uma catástrofe cozinhando. Mas Zren gostava de sua comida, o que o fazia concluir que sua amiga tinha um péssimo gosto alimentício.
Enquanto fritava draks, ouviu batidas impacientes vindas da porta.
— Só um instante — disse ele, alto o bastante para quem estivesse chamando escutá-lo e baixo o suficiente para não acordar Zren.
As batidas se tornavam cada vez mais insistentes, e Jadd já estava se irritando, principalmente com as ordens de “abra!”. Odiava quando o apressavam de manhã.
Tomou um susto quando abriu a porta.
— Senhor Isaac Kwatto? — o Stormtrooper que liderava o esquadrão à porta chamou-o pelo pseudônimo que Jadd passara a usar em Belderone. — Sou o sargento TC-827.
Jadd não sabia o que responder. Belderone não era um sistema no qual o Império havia iniciado ocupação e era improvável que uma tivesse sido feita em apenas algumas horas da madrugada. A presença de tropas imperiais ali, bem na porta de Jadd Shaalom, significava claramente algo muito pior que uma ocupação planetária.
— Fomos notificados que há dois Jedi escondidos em sua residência — continuou o sargento. — Viemos inspecionar.
Estavam em cinco. O Stormtrooper à direita do sargento suspendeu levemente o Blaster, em um gesto que sugeria a Jadd que os imperiais não pediriam permissão para entrar.
E Zren ainda estava dormindo, podendo acordar a qualquer momento, o que complicava e muito as coisas. Se os imperiais a pegassem dormindo com roupas que não se pareciam nem um pouco com pijamas, iriam, no mínimo, querer saber por quê. E se Zren, por algum descuido, falasse algo que era comum a um Jedi dizer...
Em sua melhor imitação de cooperação, Jadd forçou um sorriso e disse:
— Tudo bem. O senhor só poderia aguardar uns segundos? Minha esposa ainda está dormindo e...
O chute do sargento o fez se dobrar sobre o estômago. Jadd caiu para trás, dentro de casa.
— Vasculhem tudo! — ordenou TC-827. — Se os Jedi estiverem aqui, encontrem. Lembrem-se de usarem os Blaster em modo de atordoamento; o governador Tarkin quer os Jedi vivos.
Enquanto recuperava o fôlego, Jadd escutou cada palavra do sargento. Uma onda de raiva o possuiu. Levantou-se, trôpego, estendeu o braço e fixou a mente nos pescoços dos Stormtroopers, imaginando apertá-los com as mãos, todos ao mesmo tempo.
Conjurou a Força.
Os soldados se contorciam no ar, à medida que Jadd os sufocava. O sargento, em meio à falta de ar, sussurrou um “pare” para o Jedi, que retribuiu o apelo com um olhar de ódio.
Jadd cerrou o punho e todos os Stormtroopers caíram mortos.
Instantes depois, Zren estava diante dele. O olhar dela era de choque.
— O que houve aqui? — ela perguntou, assustada. — O que você fez, Jadd?
Antes que pudesse responder, Jadd ouviu um ruído semelhante a uma frequência. Buscou atentamente a origem do som e encontrou, pasmo, um comlink ativo num dos bolsos do sargento.
— TC-827, responda. TC-827, qual a situação? TC-827...
Com certeza o Império sabia aonde os Stormtroopers tinham ido e não demorariam muito para enviar mais soldados.
— Precisamos sair daqui — foi tudo o que Jadd conseguiu dizer.
Thobi não sabia se corria ou defletia os tiros de Blasters que pareciam zumbir em seus ouvidos. Seu corpo de Zabrak lhe proporcionava maior velocidade e agilidade que os de muitas espécies conhecidas. Por isso, quando Zren deu por si, viu Thobi quase três metros à frente. A situação fazia dela, oficialmente, a azarada responsável por defender a retaguarda.
Zren rebateu três disparos de volta para os soldados imperiais, enquanto corria desesperadamente atrás de Thobi. O Padawan, com o sabre de luz à mão, golpeava qualquer inimigo que cruzasse seu caminho. Não eram muitos, em comparação ao sufoco que Zren estava passando, mas mesmo assim a lâmina esverdeada estava alerta.
— Quer aproveitar e me dizer onde está o Jadd? — gritou ele, enquanto corria pela rua apertada.
Zren parou, virou-se para os Stormtroopers que vinham em seu encalço e, por meio da Força, empurrou-os para longe. Depois virou-se novamente, na direção de Thobi, e continuou a correr.
— Nos separamos — disse, assim que dobraram uma esquina. — Eu vim atrás de você e ele do mestre Oldara. Vamos para a nave do Jadd no espaçoporto e dar o fora daqui.
Continuaram correndo por mais dois quarteirões. Assim que dobraram a rua seguinte, ouviram alguém gritar “ali! Peguem eles!”. Em seguida foram recebidos por uma saraivada de tiros.
— O que os imperiais estão fazendo aqui? — Thobi gritou, defletindo alguns raios com o sabre de luz.
Zren fez o mesmo. E depois de usar a Força para obstruir o curto espaço que os separava dos Stormtroopers com qualquer objeto à vista, pôs-se a correr de volta. Havia muitos soldados ali e se continuassem apenas defendendo tiros, não iriam durar por muito tempo. Tinham de achar outro caminho até o espaçoporto.
— Eu não sei — gritou, correndo. — Jadd acha que alguém nos dedurou.
Deram uma volta acentuada, e chegaram ao outro lado do espaçoporto. Por hora não havia qualquer Stormtrooper. Viram Jadd correndo e olhando para os lados.
— Jadd! Aqui! — Thobi gritou. Quando o amigo os alcançou, prosseguiu. — Onde está o mestre Von?
A expressão de Jadd foi desanimadora.
— Ele não estava em casa — respondeu. — E não pude verificar direito porque os imperiais chegaram logo em seguida.
— Não podemos ir embora sem ele! — disse Thobi. — Não posso deixar meu mestre aqui.
— Eu sei disso, Thobi, mas...
— LÁ ESTÃO ELES!
Foi como se todos os soldados do Império estivessem os perseguindo. A última vez que Jadd Shaalom tinha visto tantos rifles atirando contra ele fora durante as Guerras Clônicas. Dezenas de armaduras brancas disparavam o que parecia ser uma chuva de laser. Os Jedi sabiam que mesmo a defesa com o sabre, ali, seria algo totalmente inútil.
— Para a plataforma! — gritou Jadd em meio ao silvo de lasers. — Agora!
Chegaram à plataforma na qual a nave de Jadd estava estacionada — um velho cargueiro YT-2400. O som dos lasers estalava em seus ouvidos. Jadd pressionou o controle de pulso para fazer descer a rampa de embarque.
Foi quando o fogo dos Stormtroopers se intensificou. Porém, o alvo havia mudado. Passavam a atirar na traseira da nave.
— Droga! Eles querem danificar minha nave.
Thobi se virou de relance e viu que estavam cercados. Os soldados imperiais poderiam acertá-los se tentassem, mas todo o fogo era direcionado para o cargueiro. E, em um instante de inércia, Thobi viu um lança-foguetes sair de trás da multidão de Stormtroopers.
Aquela era uma situação com a qual ele não sabia como lidar. Sem seu mestre e com os amigos ocupados tentando defender a nave, sem ninguém para lhe dizer o que fazer, Thobi Arbra-El se viu perdido.
O Stormtrooper com o lança-foguetes disparou. Thobi, trêmulo, viu o projétil voar em direção ao propulsor do cargueiro, fazer uma curva acentuada e voltar direto para os soldados imperiais, onde explodiu.
— O quê...?
Uma figura saltou do meio da explosão. Era alta e ágil. Thobi sorriu quando reconheceu seu mestre devolvendo disparos para os Stormtroopers com o sabre de luz. A lâmina verde silvava e parecia desenhar arcos no ar. Mestre Von Oldara, sozinho, derrubou mais inimigos que Jadd e Zren haviam conseguido até aquele momento. E, com a Força, lançou uma onda contra os Stormtroopers, jogando-os para longe.
Quando os tiros cessaram, Von disse com o sorriso mais solidário do mundo:
— Desculpem a demora, jovens. Fui ver se tinham outra garrafa de Reservado.
— Não temos tempo para isso, mestre Oldara — advertiu Zren. — Temos que partir agora.
— Rápido! — E Jadd correu para a cabine do piloto.
O cargueiro começou a flutuar, ainda com a rampa de embargue aberta. Zren já estava no interior da nave, Thobi ia atrás dela e Von ainda estava na rampa com o sabre de luz empunhado, verificando se algum Stormtrooper iria disparar contra o interior do cargueiro.
Já um pouco acima de cinco metros do chão, a rampa começou a se fechar e quando Von deu as costas para entrar, sentiu um calafrio mórbido envolvê-lo. Ergueu a cabeça e viu Thobi espantado. No segundo seguinte, Von Oldara foi puxado para fora da nave. Ele ouvia a voz de seu Aprendiz Padawan gritando-o se tornar, gradativamente, mais distante e mesclada com o som das turbinas, e, enquanto despencava, viu a rampa se fechar e o cargueiro alçar voo, inalcançável.
No instante seguinte, Von Oldara estatelou-se no chão.
A visão estava turva e a dor de haver despencado percorria cada parte de seu corpo. A queda não tinha sido fatal e Von sabia por quê. Alguém usara a Força para puxá-lo para fora da nave. Von ainda sentia uma mistura de frio e morte.
Tossia sangue. O corpo velho já não queria levantar e, pelo que parecia, havia quebrado uma perna.
Von percebia os Stormtroopers o cercando por todos os lados e ouviu os Blasters apontando para ele e mantendo posição.
O que estavam esperando?
O calafrio se intensificava, acima da dor de seu corpo. Com dificuldade, conseguiu erguer um pouco o pescoço e encontrou dois olhos amarelos o observando, como se saboreassem o momento.
— O Mestre Jedi Von Oldara... — disse o atacante. — Fico feliz por encontrá-lo. É sempre bom ver um Mestre Jedi de perto.
Von tossiu mais sangue. O corpo já não lhe respondia mais. E ele sabia o que estava por vir.
— E-eu sei... — falava com dificuldade. — Sei quem... você é...
O Grande Inquisidor sorriu, ligando o sabre de luz.
— É claro que sabe.
A última visão de Von Oldara foi da lâmina vermelha brandindo em sua direção.
* * *
Finalmente haviam chegado à escuridão e segurança do espaço.
— Escapamos! — Jadd subiu radiante para o pátio da nave. Zren e Thobi estavam sentados, um de frente para o outro, com feições nem um pouco contentes. Estava prestes a perguntar o que tinha acontecido quando se deu conta de que faltava alguém a bordo.
Abriu a boca para perguntar o paradeiro do mestre Von Oldara quando seus olhos encontraram os de Zren, que acenou ligeira e negativamente com a cabeça para o amigo. Jadd prontamente atendeu e não disse nada.
— Eu o deixei morrer — Thobi, por fim, quebrou o silêncio. — Eu deveria tê-lo deixado entrar primeiro. Eu deveria tê-lo protegido, mas fui covarde e quis embarcar logo. Eu...
— Não foi sua culpa. — Sob o olhar reprovador de Zren, Jadd interrompeu o lamento de Thobi. — Não foi sua culpa, Thobi.
O jovem Zabrak arfou, desacreditado. Thobi poderia ser o maior e, fisicamente, mais forte dos três. Porém era o mais jovem e, dentre eles, o único que ainda não era um Cavaleiro Jedi. Mesmo durante as Guerras Clônicas, foram poucas as vezes que ele saíra em missão. Thobi não conhecia de perto, até aquele momento, a dor de perder alguém; não estava preparado para aquilo.
No fim das contas, ninguém estava, de fato.
Zren foi até o Zabrak para abraçá-lo, mas ele se levantou primeiro e, depois de limpar as lágrimas com o antebraço, encarou Jadd.
— Eu irei com você a Mustafar — falou. — O Império vai pagar por isso. Eu quero e vou destruir Darth Vader.
O ódio encobria aquelas palavras. E tanto Jadd quanto Zren sentiam a raiva e a dor entrelaçando-se ao coração de Thobi Arbra-El. Zren se compadecia do Padawan.
Jadd pousou a mão sobre o ombro de Thobi, assentindo.
— Vou procurar um lugar seguro para abastecermos — falou. — Depois vamos para o castelo de Vader.
* * *
O azul absoluto do hiperespaço deu lugar ao brilho pontilhado das estrelas na janela quando a nave saiu da velocidade da luz.
Dois dias se passaram desde que haviam partido de Belderone. E agora lá estavam diante do planeta vulcânico Mustafar.
Zren estava de pé ao lado de Jadd, que pilotava. O rosto dela revelava sua inquietação: Thobi. Desde que o Zabrak havia dito que iria com eles, Zren fora contrária àquela decisão. Ela temia por ele, pois sabia que se entregar a um sentimento negativo poderia levá-lo a um caminho sem volta.
— Este lugar é um inferno, não? — Jadd comentou. A nave já estava na atmosfera do planeta. — Lava por toda parte.
Zren suspirou. A mão buscou o sabre de luz no cinto.
— Eu sinto frio — disse ela. — Esse lugar... o Lado Negro é poderoso aqui.
Jadd virou-se para Zren, sorrindo confiante.
— Vai ficar tudo bem.
Mas os sentimentos dela diziam justamente o contrário. Zren preferiu não comentar nada.
A nave pousou em um rochedo elevado. A fumaça do rio de lava servia como uma cortina gigante para o cargueiro. Dali para frente começava a parte difícil.
Desceram o rochedo e correram até a plataforma mais próxima. Diante deles, o castelo de Darth Vader erguia-se majestosamente no cume de um vulcão. Era colossal, parecendo uma ponta de lança. Tinha duas torres no topo. Uma cascata de lava corria pela parte frontal do castelo.
Escalaram o vulcão, chegando a uma das laterais do castelo. Não havia guardas ali perto e estavam em um ponto cego da torre de vigia mais próxima. Prosseguiram até, finalmente, encontrar hiperaço e não rochas. Jadd tomou a frente e abriu uma passagem com o sabre de luz.
Depois de terem se infiltrado no castelo, percorreram uma ala inteira. Não sabiam onde estavam exatamente, e não havia qualquer dróide ou terminal de computador por perto. Zren sondou a Força cautelosamente para não revelar sua presença ao Lorde Sith. A sensação de frio tornava-se, gradativamente, mais gritante. Não estavam muito longe.
Atravessaram um pátio e encontraram alguns Death Troopers de guarda. Antes que eles pudessem disparar, Thobi tomou a frente e brandiu o sabre de luz.
Depois de alguns golpes frios e rápidos, tudo estava acabado.
— Thobi, eu poderia fazê-los nos dizer onde fica a câmara de Vader — comentou Zren, o tom claramente repreensivo.
O Zabrak desligou o sabre de luz.
— Eu sinto que ele está perto — falou. — Aqueles imperiais não iriam servir para nada, e ficam melhor do jeito que eu os deixei.
Jadd concordou.
Seguiram em frente até encontrarem o hall dos turboelevadores. Jadd selecionou o último andar e, quando Zren o questionou, deu de ombros, dizendo que a escolha era óbvia.
O turboelevador parou e abriu as portas, dando acesso a um imenso pátio mal iluminado. As paredes alaranjadas lembravam a Jadd um pôr do sol. Era melancólico. O lugar era ladeado por duas fileiras com cinco enormes colunas em cada. À frente deles, uma porta de hiperaço.
E havia alguém entre eles e a porta.
Ele era alto, com quase dois metros de altura. O uniforme preto era inconfundível. Um sabre de luz duplo pendia preso em seu cinto. O Pau’an de pele cinzenta sorria para eles. Os braços estavam para trás, os olhos amarelos os observam satisfeitos.
O Grande Inquisidor fez uma leve mesura.
— Bem-vindos.
Thobi tomou a frente e ligou o sabre de luz. Zren, temendo uma ação estúpida do Padawan, fez o mesmo.
— Foi você! — Thobi vociferou. — Era você em Belderone. Você matou meu mestre!
O Inquisidor fez uma careta.
— Isso é questionável, rapaz. — Caminhava curta e despreocupadamente até eles. — É verdade que eu dei o golpe final no mestre Von Oldara, mas ele já estava morto antes mesmo de minha nave pousar em Belderone... Assim como vocês já estão mortos.
De trás das colunas, oito figuras de uniforme preto surgiram, cercando-os completamente. Todas armadas com sabres de luz duplos.
Eram os Inquisidores.
Zren olhou ao redor. Não havia escapatória e teriam que abrir espaço lutando. Uma batalha de três inquisidores para cada um deles; ela não gostava dos números. E ainda precisavam descobrir onde estava Vader.
O Grande Inquisidor riu.
— Eu sei o que está pensando, Cavaleira Jedi Zren Agiri — disse ele. — Realmente, Lorde Vader está em uma sessão regenerativa em um Tanque Bacta, bem atrás desta porta. Mas você não viverá para vê-lo. Vocês foram trazidos aqui para morrer.
O Inquisidor desviou os olhos de Zren e continuou:
— Bom trabalho em trazer os Jedi aqui, Nono Irmão.
— O quê...
Zren não conseguiu continuar a pergunta. A cena diante de seus olhos a embasbacava. Em um movimento veloz, Jadd Shaalom ativara o sabre de luz e a lâmina azul estava enterrada nas costas de Thobi Arbra-El, atravessando-lhe o peito.
Jadd Shaalom puxou o sabre para fora e Thobi caiu já morto.
Aquilo era um pesadelo ou alguma espécie de truque do Lado Negro, a mente de Zren dizia para si mesma. Não era real. Não poderia ser. Jadd a estava olhando nos olhos, mas não havia nada de seu melhor amigo ali; era outra pessoa. Tinha que ser outra pessoa.
Jadd deu um pequeno sorriso para a Jedi.
— Seu olhar analítico nunca mentiu para você, Zren — disse Jadd, casualmente. — Sou eu mesmo. Eu sou o inquisidor conhecido como Nono Irmão. Eu trouxe vocês aqui sob o pretexto de assassinar Lorde Vader, mas meu objetivo era trazê-los para a morte. Infelizmente, mestre Oldara faleceu antes de chegar aqui — olhou de relance para o Grande Inquisidor — porque os Stormtroopers em Belderone não estavam nos meus planos. Mas no fim das contas, isso é irrelevante.
Zren ainda estava em choque. Sua mente não queria digerir aquelas palavras. Em uma reação espontânea, disse a Jadd:
— Isso é mentira. Não pode ser.
Os inquisidores gargalharam de escárnio.
— Antes de o Imperador declarar a execução da Ordem 66, seu amigo Jadd Shaalom já tinha conhecido a verdadeira natureza da Força: o Lado Negro — o Grande Inquisidor falou, sorridente. — Como todos nós.
Zren ouvira certa vez que muitas das verdades a qual as pessoas se apegavam estavam bastante sujeitas aos pontos de vista delas, e que, dependendo de quais eles fossem, as verdades poderiam ser cruéis. O que ela vivia naquele momento não era algo ambíguo, não cabia qualquer outra interpretação, e era indubitavelmente cruel.
Os Inquisidores, um a um, retiravam suas máscaras. Zren reconheceu a todos. Assim como Jadd, todos eles eram membros da Ordem Jedi.
— Os Inquisidores — o Pau’an continuou — são guerreiros de elite que, um dia, foram Jedi cegos pelo Lado Luminoso. O Imperador dissipou o véu de mentiras que estava sobre nós quando ainda era Chanceler da República. E nós crescemos à sombra da Ordem Jedi, apenas aguardando o momento de purgar a galáxia de vocês.
“A Ordem 66”, Zren concluiu em pensamentos.
Tomada por uma mistura de angústia e raiva, virou-se para Jadd. Ainda não conseguia acreditar que tinha sido, dentre todos na galáxia, justamente ele a entregá-la ao Império.
— Tudo o que você disse para mim... — falou, quase como um sussurro. — Você veio aqui porque não queria que mais de nós fossem assassinados. Você queria... me proteger. Jadd, você traiu seus irmãos, toda a Ordem... Você me traiu.
O Nono Irmão sorriu para Zren, e não havia nada de humano naquele sorriso. Nada que lembrasse o Jadd Shaalom que Zren conhecera um dia.
— Eu nunca fui emboscado em Sullust, minha amiga — contou. — E minhas marcas não são de tortura, mas de fortalecimento. Minha carne precisava sofrer para que meu espírito se tornasse mais forte.
Com satisfação, o Grande Inquisidor assentiu.
— O monstro cresceu bem debaixo de seus olhos, e você não o enxergou em seu amigo, Zren Agiri. — disse. — É nisso que dá o amor: ele apenas nos cega.
Zren não sabia o que dizer e negava repetidamente com a cabeça.
Jadd também contou que, na verdade, nunca fugira do Império. Os espiões imperiais haviam localizado uma Jedi em Belderone: Zren Agiri, e Jadd Shaalom, para provar a si mesmo e sua lealdade ao Lado Negro da Força, oferecera-se para assassiná-la. Levou uma nave com combustível insuficiente para pousar na superfície belderoniana, mas com o bastante para deixá-lo na órbita do planeta. Ele estava certo de que, pressentindo o amigo e o perigo de morte que ele corria, Zren jamais hesitaria em ir salvá-lo. Tinha razão.
— Você teve diversas chances de me destruir — disse Zren, apontando o sabre de luz na direção do Nono Irmão. — Por que não o fez?
Jadd deu de ombros.
— Eu, pessoalmente, matei diversos Jedi em nome do Imperador — disse. — Mas você ainda era um verdadeiro teste, Zren. Naquela época, ainda havia conflito em mim por sua causa. E por essa razão eu não pude matar você. Quando finalmente me senti pronto, Thobi e mestre Oldara haviam se refugiado em Belderone também, o que me impediu de agir.
— Eu não acredito em você.
O Nono Irmão fez uma careta debochada.
— Mantive o contato com o Grande Inquisidor e fui instruído a trazê-los aqui. Eu, sinceramente, não esperava que ele fosse a Belderone com tropas. — Suspirou. — Mas como eu disse, é irrelevante.
Depois destas palavras, ele se juntou ao Grande Inquisidor, deixando Zren sozinha e cercada pelos demais.
— Volte aqui, Jadd! — gritou ela.
O Nono Irmão se virou por alguns instantes e depois voltou-se outra vez para frente.
— Adeus, Zren. — Acenou de costas.
O Grande Inquisidor o cumprimentou e, juntos, foram até a porta que dava à câmara de Darth Vader. O Nono Irmão deveria prestar o relatório final de sua missão.
Antes que a porta se abrisse, o Grande Inquisidor deu a ordem:
— Matem-na.
E desapareceu com Jadd Shaalom pela porta de hiperaço.
Zren usou a Força para atrair o sabre de luz de Thobi para si. A lâmina verde se estendeu ao toque da Jedi, que encarava o cerco de lâminas vermelho-sangue. Oito sabres de luz duplos girando ferozes.
Por apenas aquele momento, Zren se permitiu limpar a mente de Jadd Shaalom e concentrou-se no Ali e no Agora. Sabia que jamais venceria um combate tão desequilibrado em números. Zren sabia que aquele seria seu último duelo.
E sem qualquer medo da morte, brandiu os sabres de luz.
— Venham, irmãos — disse aos Inquisidores. — Dancem comigo.
Depois de seis meses, o Império havia exterminado quase todos os Jedi que se refugiavam na Orla Exterior. Por longas semanas, os relatos de aparições dos Cavaleiros Jedi não passavam de histórias. E o Império preferia assim. Devagar, os Jedi se tornavam um mito; uma lembrança de um passado há muito morto e sepultado. Os antigos guardiões da paz agora, para o Império, eram o último resquício da velha República.
A bordo do Destróier Estelar Judicante, o Grande Inquisidor lia o relatório do posto avançado imperial situado no Espaço Selvagem, fora da Orla Exterior. Por ordens de Darth Vader, os Inquisidores seriam enviados para lá em busca de possíveis Jedi sobreviventes.
Uma mensagem foi recebida no holotransmissor do gabinete do Inquisidor. Um homem alto, de barba bem aparada e com uniforme do Departamento de Segurança Imperial surgia na imagem.
— Perdoe a intromissão, Inquisidor — dizia. — Mas, no curso do meu dever, eu encontrei uma célula rebelde. O líder dessa célula fez bom uso... de um sabre de luz.
As coordenadas da nave remetente surgiram no display acoplado ao holotransmissor. A localização era próxima de onde estava o Judicante. Ainda havia pelo menos um Jedi na Orla Exterior.
O Inquisidor sorriu, satisfeito.
— Agente Kallus — respondeu ao holograma —, fez muito bem em me procurar.
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