Inominável

11 Lutar Contra


– Eu... Eu não sei... Eu acho que pediria que rezassem. Pedissem a Deus que olhassem por nós. Se a doença é o pecado a cura só poderá ser Deus...

– Como se Deus ouvisse alguém... – sussurrou um Dean mal humorado. Elle o olhou curiosa e de maneira séria. Tão séria que Dean pode jurar por alguns segundos que não era ela quem o olhava, mesmo ele só a conhecendo há alguma horas quase tinha certeza que aquele olhar não pertencia a Elle.

– Acho que Deus vai ouvir onde quer que ele esteja – continuou Elle – E Ele sempre está em todos nós. – seu timbre ainda era o que tinha tomado a atenção do padre. Mesmo o som de sua voz era diferente. Dean podia jurar que o ritmo e o jeito de dizer as palavras tinham mudado agora.

– Então temos que fazer a cidade inteira rezar. – concluiu ele tentando sair da conversa bizarra onde Elle estava se metendo. A cada segundo uma esquisitice nova vinha dela.

– Podíamos fazer rezá-los juntos – concluiu o Padre – a missa ainda me parece o último lugar onde eles ainda respeitam. Posso pensar em algo para a missa de domingo. Podemos juntá-los na praça ou algo especial assim.

– Só eu estou vendo isso se tornar a maior cadeia de assassinato do país? – os outros três olharam para Sam estranhando o exagero em seu julgamento – Essas pessoas estão doentes de ira. Juntar todas elas no mesmo lugar vai ser apenas o que aconteceu na praça mais cedo só que dessa vez muito, muito maior. Todo mundo se conhece nessa cidade. Todos os casos estão interligados. Vingança atrás de vingança. Decepção, desconfiança. Só de falar nessa merda já vejo esse povo estouro as cabeças uns dos outros.

– É a melhor chance que temos – Elle tentou dizer como se não fosse uma ideia tão ruim. Olhou para Sam, mas a esperança em seus olhos não foi correspondida.

– Já pensou em tentar não falar e evitar essas opiniões de merda? Isso não faz sentido algum! – ele começou a virar o rosto como se não fosse capaz de focar um único lugar e parecia fazer o mesmo esforço para controlar a respiração a esse ponto estava se tornando descompassada.

– Vocês não entendem! – berrou vendo sua voz ganhar altura praticamente de uma hora para outra – Você não entende! – seus olhos acusaram os de Elle.

– Sammy... – Dean chamou a atenção com um controlado olhar de prontidão.

– Eu ainda nem entendi o que está fazendo aqui. – raivoso ele continuava encarando Elle, que apesar dos olhos arregalados não os desviava dos dele – Surge do nada cheia de ideias, achismos e no fim das contas nada faz sentido. Não faz a mínima ideia do que fazer e diz que é uma caçadora? Ainda acha que tem o direito estar aqui tentando fazer algo? Você só atrapalha com essa bipolaridade e palavras decoradas de um programa de pastor.

A maneira como ele falava com a garota deixava claro que era um ataque de um animal. Do tipo que espera um contra ataque para que comece a guerra. Com as mãos fechadas perto do corpo Elle se mantinha contraída, não parecia feliz, mas também, para surpresa de quem tinha presenciado seu mal humor e sarcasmo de horas atrás, agora ela estava visivelmente determinada a negar uma resposta para ele.

E Sam percebeu isso.

Virou o rosto para Dean com um sorriso doentio.

– Não, não, não. Não me olhe assim, cara. – Dean respirou fundo, tentando deixar escapar o nervosismo quando, sem perceber, soltava o ar pelo nariz.

– Assim como? Como você é? Ou como as pessoas acham que você é? – mesmo que tivesse abaixado o volume de suas frases, Sam conseguia se tornar mais ameaçador a cada sentença.

– É exatamente o que você fez com essa garota. – sorriu pervertido, mirando por alguns segundos o corpo de Elle de um jeito nojento – Você viu uma garota gostosa, vestida como uma puta heavy metal e foi atrás sem pensar duas vezes, sem se preocupar em levar seu trabalho em conta, sem preocupar com as merdas que podiam acontecer com as pessoas dessa cidade quando você a seguiu aquela noite, sem se preocupar com as merdas que podiam acontecer comigo.

– Você não quer dizer isso de verdade, Sam. – Dean sabia que precisava ter paciência com o irmão, que precisava ser forte como Elle estava sendo e simplesmente deixar que a crise passasse, não alimentar aquilo. O único problema é que ele estava literalmente entendendo a motivação.

– Eu não quero? Como se o que eu estivesse dizendo fosse uma grande mentira. Não é isso que você sempre faz, Dean? Não cumprir o que você mesmo escolheu bancar? Você não protege ninguém, você não aceita o negócio da família. Você nem protege a sua família. – Sam continuava com o sorriso no canto da boca, os olhos apertados em um olhar aniquilador.

– Sabe quem você protege? Esse personagem de bad boy que você criou e não saberia o que ser sem.

– Filho. – Padre Ledger deu um passo para frente, apesar de assustado tocou o ombro de Sam com delicadeza. O toque não foi correspondido com a mesma intensidade.

Sam sentiu uma mão invadir seu corpo, uma outra pessoa tomar seu espaço e ameaçar sua integridade. Parte dele sabia que não era nada daquilo, parte dele tinha sentido apenas um toque leve em seu ombro. A outra parte insistia que uma violação como aquela precisava ser corrigida para não se repetir.

Como a segunda parte não gostava muito de pensar e preferia agir foi o que ele fez. No segundo posterior ao toque seu cotovelo acertou a barriga do padre.

Elle e Dean agiram ao mesmo tempo. Com um passo a frente Dean apoiou o clérigo momentos antes que atingisse o chão pelo impacto e dor. Elle agarrou os braços de Sam os prendendo para trás.

Obviamente seu adversário revidou, girou o corpo e conseguiu soltar dela. A garota escorregou habilmente para trás e se colocou em posição de defesa. Ele não foi tão paciente. Regido por um urro animalesco disparou com o corpo contra o dela, que por sua vez conseguiu evitar três socos defendendo com os antebraços.

A batalha entre os dois não durou muito. Porém, apenas alguns segundos foram o suficiente para Sam acertar um soco certeiro no rosto da garota que agora exibia um nariz quebrado totalmente torto para o lado esquerdo que escorria sangue sobre a boca. Dean foi quem fez não durar muito.

Agarrou o irmão pelas costas, prendendo os braços do outro para trás do corpo. Sam reagiu tentando se mover, mas Dean era capaz de mantê-lo preso, mesmo que para isso precisassem cair no chão. A nova posição apenas lhe dava mais vantagem. Cruzou as pernas sobre a barriga dele e estendendo o próprio tronco para trás imobilizou Sam de uma vez por todas. O irmão ainda sim não parava de se debater.

Dean percebia a vontade de torcer o braço de Sam para um lado impossível crescer dentro dele. Uma vontade tão forte quanto a que tinha sobre largar os braços apenas para ter como enformar o irmão. Não desejava apenas que Sam parasse, desejava que Sam sofresse para pagar por toda aquela cena ridícula.

Ele estava pronto para se permitir sentir aquilo, pronto para pelo menos quebrar um braço ou qualquer coisa que fizesse aquela vibração vazar de suas veias para os ossos de Sam. Mas um toque em seu ombro chamou pela sua atenção. Sentiu-se transgredido e por um micro momento entendeu que o certo seria soltar Sam e se vingar primeiro daquele maldito toque.

Mas palavras simples surgiram para fazer com que ele voltasse a si.

– Só aguenta firme e quando passar para você, vai passar para ele também. Ele precisa de você, Dean. Eu preciso de você.

Era estranho ouvir aquilo de alguém que tinha surgido há apenas um dia atrás. E foi justamente essa estranheza que o forçou a pensar sobre. Por outro lado, era fácil entender que valia a pena tentar por quem tinha estado ali pela vida inteira.

Aquela foi uma madrugada difícil.

Demorou quase duas horas para que Dean e Sam conseguissem sair do chão. Dean se esforçava em se manter calmo, mas a maneira como Sam se debatia resultava em um aperto ainda mais forte. Ele se esforçava contra a vontade de quebra-lo, mas não era capaz de deixar de segurar firme. A esse ponto Elle tinha conseguido amarrar as pernas de Sam com uma corda, não sem antes levar um chute na boca.

Padre Ledger estava sentado em uma distância segura, orando alto o suficiente para que qualquer um ouvisse caso prestasse atenção. Dean ainda mantinha os braços de Sam para trás, Elle estava sentada perto, de cabeça baixa, levantando o olhar para Dean vez ou outra.

Ele não percebeu que o nariz dela tinha voltado ao lugar sozinho.